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Ao formular sua concepção teórica, Fairclough balizou-a em referências amplas. A análise crítica do discurso foi buscar em Bakhtin (1997) algumas de suas noções essenciais. Este autor foi o primeiro a defender uma teoria semiótica de ideologia (RESENDE e

RAMALHO, 2011). Ele apresentou “(...) o meio social como o centro organizador da atividade

linguística, refutando a identidade do signo como mero sinal desvencilhado do contexto

histórico” (RESENDE e RAMALHO, 2011, p. 15). Com isto, ele abriu caminho para a reflexão

Um segundo ponto importante trazido pelo autor foi o conceito de gêneros discursivos, definidos como “(...) tipos de enunciados relativamente estáveis do ponto de vista temático, composicional e estilístico, que refletem a esfera social em que são gerados” (BAKHTIN, 1997, p. 284). A indicação da existência de gêneros lançou luz para o fato de que formatos textuais específicos imbricam-se no ordenamento da significação – aspecto ao qual ainda voltaremos.

Uma terceira noção de grande importância refere-se ao dialogismo presente na linguagem. Bakhtin considera que mesmo em textos escritos o dialogismo se apresenta, pois um texto responde necessariamente a discursos anteriores e antecipa outros discursos que o seguirão. Para Nascimento (2010) o discurso é orientado tanto em relação a um interlocutor, real ou potencial, quanto em relação a todos os enunciados e discursos que o precedem. A presença destes diálogos faz com que os textos possam ostentar polêmicas (explícitas ou veladas). Desta forma, Bakhtin preconiza uma visão dialógica e polifônica para a linguagem. Esta noção da presença de múltiplas vozes terá um grande peso na análise crítica do discurso, pois ela subsidia a compreensão da linguagem como espaço de luta hegemônica.

E, a propósito, o princípio de que a linguagem constitui-se como espaço de luta

hegemônica – uma concepção muito presente na análise crítica do discurso - foi especialmente

desenvolvido por Foucault. Este autor deu destaque à face constitutiva do discurso. Para ele, a linguagem é uma prática e, como tal, constitui o social, os objetos e os sujeitos sociais. A noção de prática discursiva, muito cara ao autor, recebe dele a seguinte delimitação:

Não podemos confundir [a prática discursiva] com a operação expressiva pela qual um indivíduo racional formula uma idéia, um desejo, uma imagem; nem com uma atividade racional num sistema de inferência; nem com a „competência‟ de um sujeito falante quando constrói frases gramaticais; é um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, numa dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou linguística, as condições de exercício da sua enunciativa (FOUCAULT apud PEREIRA, 2006, p. 21).14

De acordo com Resende e Ramalho (2011, p. 19), “(...) para o filósofo, analisar discursos corresponde a especificar sócio-historicamente as formações discursivas interdependentes, os sistemas de regras que possibilitam a ocorrência de certos enunciados em

determinados tempos, lugares e instituições.” A partir desta perspectiva, aponta Pereira (2006, p. 22), a “(...) relação da língua com esta „outra coisa‟ que não é de natureza linguística e que se dá

no uso da linguagem, essa relação é o discurso.” 15.

14 Grifo do autor. 15

Segundo Resende e Ramalho (2011), outras três noções foucaultianas interessam à análise crítica do discurso: 1) a natureza discursiva do poder, 2) a natureza política do discurso, e 3) a natureza discursiva da mudança social. As autoras indicam que em Vigiar e Punir, Foucault elenca práticas discursivas utilizadas nas prisões, escolas e hospitais, as quais têm efeito disciplinador. Com elas, prescinde-se do uso da força para a constituição de indivíduos ajustados aos interesses do poder. Desta forma,

Foucault contribui, por um lado, para o estabelecimento do vínculo entre discurso e poder e, por outro, para a noção de que mudanças em práticas discursivas, a exemplo do aprimoramento das técnicas de vigilância, são um indicativo de mudança social (RESENDE & RAMALHO, 2011, p. 19-20).

Todavia, embora Fairclough se apóie em Foucault, este considera que a perspectiva do filósofo francês é relativista e não toma adequadamente posição na luta política – o que, para Fairclough constituiria uma ação necessária à ciência crítica.

Já o valor atribuído ao tema do poder fez com que a análise crítica do discurso se aproximasse da noção de hegemonia proposta por Gramsci. Para este autor, conquistar a

hegemonia significa estabelecer, mesmo que temporariamente, “liderança moral, política e

intelectual na vida social, difundindo sua própria visão de mundo pelo tecido da sociedade como um todo, igualando, assim, o próprio interesse com o da sociedade em geral (Ramalho e

Resende, 2011, p. 167).” Fairclough realça que o poder exercido por um grupo sobre os demais

baseia-se majoritariamente na constituição de consensos, e não na força. Para Fairclough (1997,

p. 80): “O conceito de hegemonia implica o desenvolvimento – em vários domínios da sociedade

civil (como o trabalho, a educação, as atividades de lazer) – de práticas que naturalizam relações

e ideologias específicas e que são, na sua maioria, práticas discursivas.”

De acordo com Resende e Ramalho (2011, p. 43): “Na concepção de Gramsci (1988,

1995), o poder de uma das classes em aliança com outras forças sociais sobre a sociedade como

um todo nunca é atingido senão parcial e temporariamente na luta hegemônica.” O equilíbrio

sempre instável instaura também nos discursos a luta hegemônica.

Magalhães (2001, p. 17) indica que a hegemonia “(...) constitui um foco de luta constante sobre pontos de instabilidade entre as classes e os blocos dominantes, com o objetivo de construir, sustentar ou, ainda, quebrar alianças e relações de dominação e subordinação, tomando formas econômicas, políticas e ideológicas.”

Para a análise crítica do discurso, o poder é sempre temporário, o que faz com que a mudança seja possível. E, embora existam diferentes formas de se efetivar a luta hegemônica, a análise crítica do discurso aponta que esta é travada também no e pelo discurso.

A vinculação entre luta hegemônica e discurso é alinhavada pela noção de ideologia. Como indicam Ramalho e Resende:

É por isso que o conceito de poder como hegemonia, conquistado mais pelo consenso que pelo uso da força, reforça a relevância das ideologias, veiculadas pelo discurso. Parte das lutas hegemônicas é a luta pela instauração, sustentação, universalização de discursos particulares. É nesse sentido que temos “ordens do discurso hegemônicas”, como a ordem do discurso da política neoliberal, da biomedicina ocidental, e assim por diante (RAMALHO e RESENDE, 2011, p. 25).16

Este olhar sobre o poder fez com que a análise crítica do discurso se aproximasse, inicialmente, da noção de aparelho ideológico do Estado proposta por Althusser – conquanto Fairclough (2001) indique ressalvas a ela pois considera que a mesma:

(...) contém uma contradição não resolvida entre uma visão de dominação que é a imposição unilateral e reprodução de uma ideologia dominante, em que a ideologia figura como cimento social e universal, e sua insistência nos aparelhos como local e marco delimitador de uma constante luta de classe cujo resultado está sempre em equilíbrio (FAIRCLOUGH, 2001, p 117).

Muito embora considerasse o filósofo francês por demais determinista em seu esforço por demonstrar a importância dos processos estruturais mais amplos, Fairclough incorpora em suas proposições parte das acepções trazidas por Althusser . Notadamente, interessaram-lhe as asserções que a ideologia tem existência material nas práticas das instituições e que ela interpela os sujeitos.

A noção de ideologia é complexa, multifacetada e comporta inúmeras definições. A análise crítica do discurso preconiza a ideologia a partir de um sentido predominantemente negativo e crítico e também como uma prática, isto é, como o uso de formas simbólicas para criar ou manter relações de dominação. Fairclough considera que as ideologias:

(...) são significações/construções da realidade (o mundo físico, as relações sociais, as identidades sociais) que são construídas em várias dimensões das formas/sentidos das práticas discursivas e que contribuem para a produção, a reprodução ou a transformação das relações de dominação (FAIRCLOUGH, 2001, p. 117)

Pereira (2006) indica que, para Fairclough, nem todo discurso é irremediavelmente ideológico – os seres humanos seriam capazes de transcender determinadas relações de dominação em contextos específicos. Além disso, os discursos não são investidos ideologicamente no mesmo grau.

Esta acepção é convergente à proposta de Thompson (2002). Seguindo a perspectiva deste autor, os sentidos ideológicos:

16

(...) servem necessariamente, em circunstâncias particulares, para „estabelecer e sustentar relações de dominação‟ (Thompson, 2002, p.77). Assim, o primeiro passo para a superação de relações assimétricas de poder, e para a (auto) emancipação daqueles/as que se encontram em desvantagem, pode estar no desvelamento de ideologias (RAMALHO e RESENDE, 2011, p. 25).

Thompson (2002) toma a ideologia como sempre mais efetiva quanto mais opaca for. Na medida em que os sujeitos e os grupos sociais tornam-se conscientes dos mecanismos que sustentam relações de poder, o nível de controle decai. Por esta acepção, ao voltar-se para o desvelamento das relações ideológicas a análise crítica do discurso assume uma posição de não neutralidade frente aos processos de reprodução do poder.

Thompson (2002) indica cinco modos gerais de atuação da ideologia. Eles envolvem: 1) processos de legitimação (relações de dominação são apresentadas como legítimas), 2) dissimulação (relações de dominação são ocultadas, negadas ou obscurecidas), 3) unificação (busca pela construção de uma unidade simbólica coletiva), 4) fragmentação (segmentação de grupos que possam representar ameaça ao grupo dominante), e 5) reificação (apresentação de uma situação transitória como permanente ou natural). Cada um desses modos desdobra-se em estratégias de atuação.

Este modelo proposto por Thompson (2002) constitui-se como um norte importante para a operacionalização da análise aqui desenvolvida. O quadro abaixo sumariza aquelas estratégias que, de forma mais direta, relacionam-se com o tema de pesquisa que nos norteou:

QUADRO 02 – Modos de operação da ideologia

Modos de operação da ideologia Estratégias

Legitimação – relações de dominação são apresentadas como legítimas

Racionalização – busca-se justificar um conjunto de relações

Universalização – interesses particulares são apresentados como gerais

Narrativização – histórias do passado são usadas para legitimar o presente

Dissimulação – relações de dominação são ocultadas, negadas ou obscurecidas

Deslocamento – deslocamento contextual de termos e expressões

Eufemização – valoração positiva de instituições, ações ou relações

Tropo – sinédoque, metonímia, metáfora

Unificação – busca pela construção de uma unidade simbólica coletiva

Padronização – proposição de um referencial padrão a ser compartilhado

Simbolização da unidade – construção de símbolos de unidade e identificação coletiva

Benzer Belgeler