Uma vez definido o contexto de pesquisa, fez-se sondagem e observação do contexto e dos alunos, quando seria aplicada e monitorada a proposta pedagógica. É importante reiterar que boa parte do que é estabelecido como dados para a análise das necessidades foi realizada na forma de simples observação e inferidas sob o ponto de
vista do professor pesquisador. Esse procedimento metodológico se faz necessário uma vez que, como mencionado anteriormente, não existem testes para se saber com certeza quais as inteligências mais latentes e as menos desenvolvidas. Pode-se apenas observar as inteligências em funcionamento. Sendo assim, a partir dos resultados alcançados, foi
possível estabelecer caminhos e possibilidades para a aplicação da proposta pedagógica. Essa postura de observador foi assumida de forma constante e intermitente durante todo o período da pesquisa.
3.6.1 Observação do comportamento dos alunos
Devido à natureza subjetiva das inteligências, a observação se torna um
instrumento imprescindível para que se possa fazer uma análise de necessidades condizente com os preceitos da teoria. Esse instrumento consiste na observação do comportamento e hábitos dos alunos dentro de sala de aula, nos intervalos e em atividades extracurriculares, tais como teatro, dança, esportes e outros. Este é um dos melhores métodos de se identificar as inteligências mais latentes e as menos evidentes dos alunos. Certamente é pro meio da participação dos alunos em atividades que exigem
capacidades relativas às inteligências que se pode perceber as tendências dos alunos, e assim dar direcionamento às atividades que se quer desenvolver em sala de aula. A
observação da presença de muitos desenhos e fotos de carros no material dos alunos é um forte indício de inteligência espacial, além de sugerir algum tema que, de alguma maneira, trabalhe com carros .
São consideradas todas as possibilidades de observação possíveis, tais como o comportamento dos alunos no intervalo, na saída e na entrada das aulas; desempenho e comportamento em outras matérias; conversa informal com os alunos e atividades extra- curriculares. Foi a partir desta postura de observador que se constatou uma forte tendência musical na escola como um todo, como relatado no diário reflexivo.
“A princípio me impressionou a quantidade de alunos que gostam de Rock. Não esperava isso de uma cidade pequena. Durante conversas com alunos, descobri também que a veia musical era muito mais pulsante do que imaginava, uma vez que há na escola integrantes de grupos de pagode, compositores de música sertaneja e também integrantes de uma banda de baile profissional.” (18/10/04)
A partir desta constatação, foram então selecionadas atividades com música,
além, de outras planejadas a partir do comportamento dos alunos de forma geral, como
atividades de desenho. Esse tipo de atividade oferece uma gama de aplicações em
diferentes situações de aula, mas foi a observação dos cadernos dos alunos, das lousas
constantemente “rabiscad as” e dos trabalhos em outras matérias que levou ao uso desse recurso de forma mais sistemática. A observação fora da sala de aula também foi muito importante neste aspecto, pois, através desse tipo de procedimento é possível identificar inteligências, habilidades e atividades nas quais os alunos se identificam e se engajam
que normalmente não aparecem em sala de aula. Durante todo o processo de pesquisa,
as observações e conversas informais com os alunos continuaram, promovendo assim
um importante feedback de como as atividades estavam sendo desenvolvidas e de como
os alunos as aceitavam, promovendo também novas descobertas das capacidades dos alunos.
3.6.2 Aplicação do Inventário de IM para os alunos
A utilização do Inventário (anexo 2) nesta pesquisa teve as seguintes funções: a) Conscientizar os alunos quanto as suas próprias inteligências. Junto a
explicação de alguns pontos da teoria é também aplicado o inventário, dando uma idéia mais ampla das várias capacidades de cada inteligência. A conscientização é direcionada para um ponto chave da teoria, o de que todos somos inteligentes e de maneiras variadas e complexas. Espera-se com esse tipo de conscientização influenciar positivamente no desempenho acadêmico, no comportamento e na participação dos alunos em sala de aula.
b) Produzir uma visão panorâmica de como as inteligências múltiplas se
manifestam nesses alunos e como eles se vêm a si mesmos, a fim de servir como
insumo importante na preparação das aulas. Esse ponto será mais bem compreendido na análise do gráfico produzido a partir do inventário aplicado com os alunos.
O Inventário consiste de oitenta perguntas, dez para cada inteligência, direcionadas para diferentes capacidades nas inteligências. Para cada capacidade é atribuída uma nota: 1 (pouco); 2 (mais ou menos); 3 (muitos). Não é atribuída a nota zero por se considerar que todos alunos são capazes de desenvolver pelo menos um pouco de cada capacidade listada.
O inventário poder ser influenciado por um grande número de fatores; dentre
eles destaco como o mais importante a auto–estima. Por se tratar de uma auto avaliação, é comum que pessoas com baixa auto–estima atribuam notas menores em muitos dos itens, mas, mesmo assim é possível observar quais inteligências o aluno considerou como sendo mais desenvolvidas e quais considerou menos desenvolvidas, uma vez que é a soma dos pontos de cada inteligência e a comparação entre as oito que irá estabelecer esses parâmetros.
Tendo feita a caracterização do estudo, estabelecidos os instrumentos de coleta de dados e explicitado os procedimentos de análise de dados, analiso a seguir os dados
coletados durante a pesquisa.
3.6.3 O trabalho com temas
Dentro desta proposta pedagógica, o trabalho com os temas desempenhou uma função de grande importância. Foi exatamente por meio da escolha e da aplicação de
atividades e trabalhos de bimestre baseados nos temas escolhidos que se tornou possível
obter linguagem autêntica e significativa -, tão importante em uma proposta de ensino de línguas de forma comunicativa- além de abrir o leque de possibilidades de desenvolvimento de atividades que contemplassem as inteligências múltiplas.
Para cada bimestre foi escolhido um tema que seria desenvolvido em sala de
aula durante todo o período. Os temas são originalmente propostos, conforme sugerido pelos PCNs (MEC, 1998), para serem transversais e interdisciplinares. No entanto, para essa pesquisa não foi desenvolvido nenhum trabalho específico de forma coordenada com outras matérias. No entanto, mesmo não se tendo outras matérias trabalhando de forma coordenada, os temas são naturalmente transversais, pois, parte-se de uma realidade do contexto dos alunos, o qual naturalmente não é dividido em disciplinas ou campos de estudo.
a. Tema em evidência
A escolha destes temas se deu pela simples observação de temas em evidência no cotidiano dos alunos. No caso do tema Olimpíadas, a escolha se deu pela
coincidência cronológica com as Olimpíadas de Atenas. Dessa forma, foi aproveitado
um tema em evidência, e que no caso da matéria de LI, trata-se de uma grande fonte de
insumo autêntico e disponível de forma bastante democrática devido à sua ampla
cobertura pela mídia.). A principal razão em se escolher trabalhar com temas em
evidência é a possível abundância de material disponível em linguagem autêntica e de
fácil acesso aos alunos, além de ser um fator facilitador os alunos já conhecerem boa
parte das informações disponíveis para o tema, facilitando a transposição para a língua
b. Necessidades percebidas no contexto
Nesse caso, a partir de uma observação investigativa, percebem-se problemas ou
necessidades existentes na comunidade escolar. O tema Orientação Sexual, por exemplo, foi escolhido a partir da constatação da existência de um grande número de meninas em licença maternidade na escola, Apesar de existir um ciclo de palestras anuais na escola que trata desse assunto, viu-se uma necessidade de um trabalho mais
extenso e aprofundado.
Já o tema Trabalho surgiu a partir do fato de os alunos estarem prestes a entrar
ou já estarem no mercado de trabalho, seja pela escolha de um curso superior ou pelo
início de uma atividade remunerada. Sendo assim, faz-se necessário uma amostragem e
análise (por menor que seja) das inúmeras possibilidades que os alunos terão pela frente. No caso do tema Educação para o Trânsito, a escolha foi feita após ter sido percebido várias ocorrências do cotidiano dos alunos que indicavam para esse caminho,
tais como: revistas de automóveis e motos freqüentemente encontradas com os alunos; desenhos e fotos de automóveis “tunados” decorando o material dos alunos; a recorrente discussão a respeito de acidentes ocorridos nas estradas de acesso à cidade (trata-se de
uma cidade pequena, extremamente dependente de suas vias de acesso
c. Limitação ou facilidade de desenvolvimento dos temas
Cada tema pode apresentar limitações ou facilidades de trabalho específicas,
influindo em sua escolha para se trabalhar dentro do contexto, como, por exemplo, no
tema Trabalho, no qual as profissões são largamente trabalhadas em diversos livros
aulas. Temas como Ecologia e Agroindústria foram descartados por não haver recursos
disponíveis na época da coleta de dados para uma aula de campo, por exemplo. Já para o tema Orientação Sexual, não foi encontrado pelo professor nenhum material em língua autêntica que pudesse ser utilizado, no entanto, é grande a disponibilidade de panfletos, livros e outros materiais sobre o tema, tendo assim material disponível para o desenvolvimento de atividades. Mesmo que os materiais originais não estejam em LI,
um dos objetivos do trabalho com este tema é exatamente mostrar aos alunos onde encontrar informações a respeito deste tema.
Tendo apresentado o contexto de pesquisa, os instrumentos de coleta de dados e
a metodologia utilizada para aplicar a teoria das IM como ferramenta no ensino e
aprendizagem de LI na escola pública, trago, no capítulo seguinte os resultados obtidos e suas respectivas análises.