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Durante séculos o Brasil foi um país agrário. “No começo, a cidade era bem mais uma emanação do poder longínquo, uma vontade de marcar presença num país distante” (SANTOS, 1993, p. 17).

Os primórdios da urbanização ou a “urbanização pretérita” (SANTOS, 1993, pág. 17) é identificado como o período que vai da instalação portuguesa em território brasileiro (1500) até os anos de 1930, com o fomento à industrialização e a mudança no cenário político e administrativo do país.

Segundo Milton Santos (1993), entre os anos de 1500 e 1720 o Brasil sofreu reduzida urbanização. Nesse período foram fundadas algumas vilas e outras elevadas a cidades. Foi o caso da fundação do Rio de Janeiro (1567) e da elevação de Olinda e São Paulo à categoria de cidade.

Tratava-se muito mais da geração de cidade que mesmo de um processo de urbanização. Subordinado a uma economia natural, as relações entre os lugares eram fracas, inconstantes, num país com tão grandes dimensões territoriais. (SANTOS, 1993, p. 21).

No entanto, foi a partir do século XVIII que a urbanização começou a se desenvolver com mais fôlego. Mas apenas no século XIX o Brasil conheceu uma urbanização em larga escala, que foi aprimorada no século XX tomando os contornos da atualidade.

No século XVIII, a expansão da agricultura comercial e da exploração mineral deu origem a pequenos assentamentos, posteriormente transformados em vilas, tanto no litoral como no interior do território brasileiro.

As cidades mais importantes deste período foram, inicialmente, Recife, Salvador, São Luís do Maranhão, São Paulo e Rio de Janeiro. Posteriormente juntaram-se Belém, Manaus, Porto Alegre, Fortaleza, Niterói e Curitiba. Essas cidades desenvolviam de forma isolada um papel importante para a colônia, algumas do ponto de vista econômico e outras do ponto de vista político- administrativo. Ao mesmo tempo, crescia o número de habitantes nessas cidades.

O Brasil foi, durante muitos séculos, um grande arquipélago, formado por subespaços que evoluíram segundo lógicas próprias, ditados em grande parte por suas relações com o mundo exterior. Havia, sem dúvida, para cada um desses subespaços, polos dinâmicos internos. Estes, porém, tinham entre si escassa relação, não sendo interdependentes. (SANTOS, 1993, p. 26).

Esse quadro foi paulatinamente mudando quando, a partir da produção de café, a cidade São Paulo tornou-se uma localidade central para produção e reprodução do capitalismo, ligando-se às cidades vizinhas através das estradas de ferro recém-construídas e influenciando toda aquela região.

A década de 1930 inaugurou novas condições políticas e organizacionais do Brasil. Como vimos, esse período marca a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. Entre 1930 e 1940 a industrialização conhece, pela primeira vez, um impulso vindo do poder público e a demanda de um mercado interno, tendo em vista que os países europeus, durante a Segunda Guerra Mundial, haviam voltado sua atividade industrial para a produção bélica.

(...) o termo industrialização não pode ser tomado, aqui, em seu sentido estrito, isto é, como criação de atividades industriais nos lugares, mas em sua mais ampla significação, como processo social complexo, que tanto inclui a formação de um mercado nacional quanto os esforços de equipamentos dos territórios para torná-lo integrado, como a expansão de consumo em formas diversas, o que impulsiona a vida de relações (leia-se terciarização) e ativa o próprio processo de urbanização. (SANTOS, 1993, p. 27).

Esse processo de industrialização foi determinante para a urbanização do país. A densidade demográfica das cidades aumentou consideravelmente. Serviços de infraestrutura começaram a ser ofertados, mesmo que em pequena quantidade e de forma concentrada. Além disso, a industrialização foi importante para a definição territorial do espaço urbano.

Margareth Rago (2010) demonstra como a instalação das fábricas foi seguida pela criação de vilas ao seu redor, pelo poder público ou pelos próprios industriais. Esses bairros funcionavam como local de residência dos operários. A proximidade entre as indústrias e as vilas operárias era utilizada como instrumentos de pressão sobre a classe trabalhadora e de controle de greves.

O baixo preço dos terrenos e a proximidade das estradas de ferro atraiam as indústrias e os operários para a periferia das cidades. Os bairros se formavam quase sempre em encosta de morros ou à beira de rios, com ruas estreitas e desprovidas de saneamento básico, sem qualquer planejamento que favorecesse o bem-estar da classe trabalhadora. Os operários viviam em cortiços com pequenos casebres e quase sem higiene.

As casas, em geral, construídas no estilo feio e forte da colônia, não têm mais do que um ou dois andares. Todo um conjunto destelhado pardo e tristonho, erguido numa feição desirmanada: prédios desrebocados, encardidos [...] verdadeiros frangalhos arquitetônicos. As ladeiras que trepam para o morro são maltratadas e sujas. Têm, porém, uma vida intensíssima, servindo, como servem a imensa colmeia humana, ativa e rumorosa que aí se instala e vive. (CARONE apud CARVALHO, 2010, p. 2).

Em torno desses bairros formavam-se também escolas, igrejas, creche, clubes. Na realidade, a vila operária era planejada para ser um prolongamento da indústria, possibilitando aos industriais o controle social dos operários. As “facilidades” oferecidas nas vilas operárias não passava da necessidade de aliar o capital ao trabalho de forma disciplinar.

É importante entender que a urbanização não ficou centralizada, restrita à cidade de São Paulo. Ela se espraiou no território brasileiro, sobretudo nas capitais dos Estados.

Essa nova base econômica ultrapassa o nível regional, para situar-se na escala do país; por isso, a partir daí uma urbanização cada vez mais envolvente e mais presente no território dá-se com o crescimento demográfico sustentado das cidades médias e maiores, incluídas, naturalmente, as capitais de Estado. (SANTOS, 1993, p. 27).

3.2.3. Urbanização e êxodo rural.

“Entre 1940 e 1980, dá-se verdadeira inversão quanto ao lugar de residência da população brasileira” (SANTOS, 1993, pág. 29). Como vimos, a industrialização brasileira tomou novo fôlego a partir da década de 30. Paralelo ao quadro traçado no tópico anterior deu-se o êxodo rural.

Êxodo rural significa a mudança da área de residência da população de um determinado território. As pessoas que moravam na área rural passam a morar na área urbana.

Os motivos que levaram a população a essa mudança foram diversos em diferentes épocas da história do Brasil. Na década de 1940 as pessoas procuravam a cidade em busca de empregos criados pelas fábricas.

Na realidade, grande parte da população que trabalhava nas indústrias e habitava os bairros operários dos quais tratamos, vinha do campo. Essa primeira fase de êxodo rural se caracteriza pelo papel da população vinda do campo na formação das cidades brasileiras.

A seca foi outro fator determinante para a expulsão das pessoas do campo, sobretudo nas cidades do nordeste do Brasil. Kênia Sousa Rios (2001) trata do êxodo rural no Ceará na década de 1930, devido à seca de 1932, quando a

população rural embarcava nas estradas de ferro para Fortaleza, mas o Poder Público não permitia a entrada dos retirantes na cidade. Assim, formaram-se aquilo que Rios (2001) chamou de campos de concentração do Ceará, pois a população permaneceu presa em campos à beira das estações.

Com o tempo, esses campos transformaram-se em assentamentos urbanos ao longo dos trilhos, fazendo crescer as fronteiras da cidade de Fortaleza, contribuindo para a urbanização à medida que eram criados ali serviços urbanos de infraestrutura. Dessa forma, inúmeras cidades do nordeste se formaram. A cada nova seca, uma imensa quantidade de retirantes vinha à cidade, à procura da salvação.

Na década de 1990, outro fator gerou o êxodo rural. A modernização da agricultura expulsou a população rural, visto que as máquinas tornaram desnecessário um contingente maior de mão de obra no campo (SACHS, 2001, pág.1).

Atualmente, existe outro fator que causa o êxodo rural: o trabalho técnico- científico. Muitas pessoas procuram as cidades para seguir carreira acadêmica, buscando universidades ou cursos técnicos.

Entre 1960 e 1980, a população vivendo nas cidades conheceu um aumento espetacular: cerca de novos 50 milhões de habitantes, isto é, um número quase igual à população total do país em 1950. Somente entre 1970 e 1980, incorpora-se ao contingente demográfico urbano uma massa de gente comparável ao que era a população total urbana em 1960. Já entre 1980 e 1990, enquanto a população total terá crescido 26%, a população urbana deve haver aumentado em mais de 40%, isto é, perto dos 30 milhões de pessoas. (SANTOS, 1993, p. 31).

É importante ressaltar que todos esses fatores ainda acontecem. As pessoas ainda migram para a cidade à procura de emprego, tendo em vista a mecanização do campo e as secas (embora em menor escala com o desenvolvimento de projetos de convivência com o semiárido). No entanto, diferente da década de 1940, em que as pessoas visavam às fábricas, atualmente elas visam, sobretudo, às atividades terciárias.

De toda forma, esse crescimento das cidades quase nunca é precedido pelo ideal planejamento, gerando inúmeros problemas de ordem econômica e social.

Benzer Belgeler