• Sonuç bulunamadı

Após reler, uma vez mais, as sínteses biográficas de Atenas, Afrodite e Artêmis, uma impressão emerge, muito forte, de suas histórias: o sentimento de agradecimento e de amor à vida, impresso no intenso envolvimento em tudo o que fazem.

São mulheres pertencentes a uma coorte nascida anteriormente à década de 1930 do século passado, oriundas do interior do estado, e que cresceram totalmente integradas aos valores do sistema patriarcal vigente na época, em que cabia ao homem o papel de provedor, dono e senhor dos destinos de suas mulheres e filhos. A frase de Afrodite ilustra bem essa realidade, quando diz, em tom de aceitação: “não tinha o que fazer, não tinha onde a gente trabalhar...”. Era a naturalização de uma vida de clausura, de subserviência e de renúncia a desejos e projetos secretos. As mulheres que eram jovens na primeira metade do século passado se acostumaram a não ter vida própria – apenas viviam as vidas e os sonhos dos outros.

Com Afrodite foi exatamente assim. Filha e esposa de ricos comerciantes do interior do estado, mantém, até hoje, um confortável padrão de vida. Conforme recomendava a moral da época, nunca trabalhou, tendo se dedicado apenas à família e ao lar. Com as outras duas entrevistadas, foi um pouco diferente. Atenas sempre almejou ter independência financeira. Tanto

que desde cedo começou a trabalhar, ajudando o pai na Prefeitura. Quando engravidou da primeira filha, entretanto, parou de trabalhar, também para se dedicar à criação dos filhos – conforme convinha à moral vigente. Artêmis, até enviuvar, aos 33 anos, também nunca trabalhara – veio a fazê-lo para garantir sua sobrevivência e a dos filhos: e para isso aprendeu a trabalhar, a vender, a negociar. A viuvez, paradoxalmente, lhe oportunizou descobrir-se perseverante e determinada, além de possuidora de grande talento para administrar negócios, pagar as contas e até mesmo prosperar.

Note-se que as duas entrevistadas que puderam trabalhar, Artêmis e Atenas, o fizeram na área de serviços ou no mercado informal – corroborando assim as estatísticas sobre o trabalho feminino. Subjacente a isso, encontra-se o baixo nível de escolaridade da maioria das mulheres idosas, fato que incide diretamente na qualificação profissional precária e, conseqüentemente, na qualidade de vida dessa população.

Nossas entrevistadas não fogem à regra: Atenas conseguiu completar apenas o ensino fundamental (correspondente ao antigo 1o grau) e possui conhecimentos de contabilidade - os

quais, inclusive, ainda hoje utiliza na condição de tesoureira da Igreja. No entanto, a pensão que recebe do falecido marido lhe garante viver com estabilidade e conforto. Artêmis não chegou a completar o ensino fundamental, tendo estudado somente até a antiga 4a série do 1o grau – abriu mão da educação em prol das filhas, em duas oportunidades: na primeira, quando teve que trabalhar diuturnamente para criá-las. E na segunda, quando, já na maturidade, resolveu voltar a estudar, teve que capitular aos reclamos das filhas, que condicionaram: “não dá pra estudar todo mundo, a gente chega e não acha nem a comida!”. Passividade aprendida, Artêmis hoje só racionaliza: “aí eu tive de me doar pra minha família, né... (...) não deu pra mim”.

Em decorrência, talvez, de possuir uma condição sócio-econômica diferenciada, Afrodite foi a que recebeu educação mais esmerada - até pouco convencional para as moças do

interior do Nordeste na década de 30 do século passado: ela estudou inglês, francês e piano (“tudo particular”), além de ter concluído o curso comercial, em Natal.

Mas os longos braços do patriarcado se estendiam e abarcavam também os costumes da época, fundamentados numa férrea moral conservadora: tanto que todas as entrevistadas casaram virgens, e com o primeiro namorado. Os namoros eram muito castos, só de “pegar na mão”; Afrodite lembra que só deu o primeiro beijo na boca depois de casada.

Esses valores de recato e castidade acompanharam essas mulheres ao longo dos anos e, mesmo posteriormente, na condição de viúvas – doloroso ritual que todas vivenciaram. Através desta fala de Artêmis, percebe-se que, para elas, é com tácita naturalidade que toda e qualquer possibilidade de um segundo casamento sempre esteve descartada – “era como se eu fosse casada ainda, não podia... (...) graças a Deus não conheci nenhum marido mais (...) e era um preceito, né, que eu não podia me casar... e botar padrasto pra minha família”.

Manter a família unida, criar os filhos com harmonia, sempre esteve no epicentro das atenções e no foco dos principais projetos de vida dessas mulheres. Sempre deram a vida por isso. Aliás, foi o que aprenderam com seus pais. Em suas narrativas, todas as entrevistadas declaram que viveram uma infância feliz, ao lado de pais amorosos e compreensivos, porém firmes, quando era preciso. Na família de Afrodite, os valores morais eram particularmente rígidos. Ela conta que, “em casa, não se podia nem falar a palavra ‘diabo’ – era ‘bicho preto’!”

As três contam que tiveram uma infância de muita liberdade, de muita brincadeira, com direito a fazer coisas que as crianças de hoje só vêem nos filmes, como tomar banho de rio, subir em árvores ou tirar leite no peito da vaca. Uma infância de liberdade e contato permanente com a natureza.

Conforme era costume na época, as famílias eram bem mais numerosas do que hoje: a mãe de Afrodite teve nove filhos, e a de Atenas, 12. A geração seguinte - à exceção de Atenas,

que teve quatro filhos - manteve um ritmo parecido com o de suas mães: Afrodite teve oito filhos e, Artêmis, 10, dos quais se criaram apenas quatro. Os outros seis filhos de Artêmis, mortos antes de completarem um ano de vida, retratam a cruel realidade das famílias pobres e desinformadas do interior do Brasil, incapazes de combater uma desidratação, uma febre alta ou uma diarréia mais forte: “nessa época era uma desidratação que dava nas crianças! A gente não tinha o soro caseiro, não sabia nada para cuidar das crianças. Era assim como moda! Nascia as crianças e as de todo mundo morria” – lamenta Artêmis.

No entanto, apesar de terem vivenciado tantos percalços e momentos difíceis, nossas entrevistadas têm uma forma simples e descomplicada de encarar as coisas. Produtos legítimos de um sistema que sempre amordaçou e oprimiu o feminino, chegam no entanto à velhice contando suas histórias e esbanjando vontade de viver. Envolvidas profundamente em tudo o que fazem. Expressando uma religiosidade de resultados, que, além de momentos de oração, inclui ações de encontro, de doação e de conforto para aqueles que precisam.Valorizando e agradecendo poderem estar enfrentando, com competência, as dificuldades e os desafios do envelhecimento. Nos dando, a cada momento, lições de sabedoria e de aceitação; e, por isso mesmo, nos ensinando que a velhice pode ser, sim, uma fase de auto-realização e de desenvolvimento continuado.

6.3. Compreendendo os processos de significação e geração de

Benzer Belgeler