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Em Uma Teoria da Justiça, Rawls afirma que, em termos ideais, a justiça deve conferir aos indivíduos de uma sociedade fechada um “espaço de inviolabilidade que estabelece que a igualdade de liberdades e direitos entre os cidadãos não seja dependente da negociação política ou do cálculo dos interesses sociais”80. Em termos kantianos, isso significa que a justiça deve assegurar que todos os seres humanos sejam sempre tratados como fins em si mesmos.

A necessidade moral de se estabelecer idealmente um espaço de inviolabilidade individual que assegure igualdade de liberdades e direitos deriva da idéia de igualdade moral entre os indivíduos cidadãos. Esta igualdade moral faz com que não exista hierarquia entre concepções individuais razoáveis81 de felicidade e boa vida, o que lhes dá a liberdade de praticarem aquela que for de sua preferência, independentemente do que motiva esta preferência (que depende de inserções em grupos culturais).

79Scanlon, 2003, p. 197. 80 Rawls, 1993, p. 27.

E para elaborar seu sistema teórico sobre a justiça, Rawls constrói uma definição de sociedade que não é social ou antropológica. Nela, a sociedade é caracterizada como uma associação mais ou menos auto-suficiente de pessoas que agem e se relacionam de acordo com certas regras que reconhecem como vinculativas e que especificam um sistema de cooperação que visa vantagens mútuas82.

Nas sociedades assim definidas, há identidade de interesses porque a cooperação social possibilita benefícios que não se alcançam individualmente. Há também conflito de interesses uma vez que a realidade é de escassez moderada e todos (ou a maioria) preferem receber o maior quinhão possível dos benefícios que são acrescidos pela cooperação social. Rawls denomina esta situação de “circunstâncias da justiça”83. Dentro delas, o papel dos princípios da justiça é fornecer “um critério para a atribuição de direitos e deveres nas instituições básicas da sociedade e definir a distribuição adequada dos encargos e benefícios da cooperação social”84.

Além disso, nas sociedades complexas, as pessoas estão divididas numa multiplicidade de particularismos quanto às crenças sobre o que seja o bem ou a felicidade e, devido à sua já mencionada igualdade moral, devem poder exercê-las livremente. Rawls chama essa diversidade de “pluralismo moral” e considera que o seu limite deve estar na razoabilidade das concepções “abrangentes” de bem que os grupos particulares cultivam85.

82 Rawls, 1993, p. 28. 83 Rawls, 1993, p. 115. 84 Rawls, 1993, p. 28.

85 Rawls (seguindo uma sugestão de J. Cohen) só introduziu essa idéia de doutrinas abrangentes

"razoáveis" e de "pluralismo moral razoável" em O Liberalismo Político. Em Uma Teoria da Justiça, não há menção à essa idéia; neste livro os princípios de justiça impõem limites às concepções do bem que podem ser praticadas e à forma de praticá-las, mas nada se diz sobre as doutrinas, elas próprias, serem ou não "razoáveis". Pode-se dizer que a idéia de razoabilidade já estivesse presente na justificação

contratualista de princípios de justiça e que estivesse embutida nas duas faculdades morais básicas atribuídas aos cidadãos de uma sociedade democrática. Mas, neste último caso, são os cidadãos eles

“Doutrinas abrangentes” são aquelas que ditam os valores das várias dimensões da vida (política, religiosa, familiar etc), ligando-as entre si. Uma doutrina é “parcialmente abrangente” quando não engloba todas as dimensões normativas existentes e permite uma certa margem de tolerância à diferença86.

A “razoabilidade” é aquilo que caracteriza a motivação moral de uma perspectiva contratualista de modo independente das circunstâncias culturais. Enquanto qualidade das doutrinas abrangentes, a razoabilidade é uma característica cultural das sociedades democráticas liberais, em que os cidadãos são vistos como livres e iguais, a sociedade é entendida como um “sistema imparcial [quanto aos indivíduos e às concepções de bem] de cooperação ao longo do tempo”, as doutrinas são apenas “parcialmente abrangentes” e a “categoria do político” pode ser pensada separadamente das doutrinas abrangentes particulares. Este último aspecto significa que há valores morais exclusivamente políticos, independentes das doutrinas parcialmente abrangentes em que se inserem87. Uma doutrina abrangente é razoável quando não requer que o poder coercitivo estatal seja exercido a seu favor e conforme seus valores não-políticos (isto é, pertencentes a outras esferas da vida, como a religiosa, por exemplo). Assim, a razoabilidade implica tolerância o suficiente para que seja possível o convívio respeitoso com diferenças com as quais não se concorda; tolerância esta que é comum às várias doutrinas abrangentes que convivem numa sociedade democrática liberal88.

Como, numa sociedade liberal, há as circunstâncias da justiça e a pluralidade de concepções de bem razoáveis que não podem ser hierarquizadas pela razão, Rawls

próprios que deveriam revisar seu comprometimento com uma doutrina abrangente ou com determinados valores ou práticas culturais que entrassem em choque com as exigências da justiça. É em O Liberalismo Político, com o argumento do consenso de sobreposição, que entra em cena a idéia de que as doutrinas abrangentes elas próprias (e não seus adeptos) podem ser “razoáveis”.

86 Rawls, 2000, pp. 82-101.

87 Rawls, 2000, p. 20 e Rawls, 1997, pp. 143-147. 88 Rawls, 2000, pp. 82-101.

defende a “prioridade da justiça”, isto é, de uma esfera de igual liberdade e direito individuais que não podem ser negociados eleitoralmente.

Pois bem, vejamos a que objeto a justiça deve ser aplicada para que seja neutra em relação às concepções de bem e qual deve ser o seu conteúdo.

Para o autor de que estamos tratando agora “o objeto primário da justiça é a estrutura básica da sociedade”, que é a forma como as principais instituições políticas, econômicas e sociais distribuem os benefícios advindos da cooperação social. As liberdades jurídicas, a concorrência de mercado, a propriedade privada e a família monogâmica são exemplos dessas instituições. Elas definem os direitos, deveres e expectativas de vida de cada um. “A estrutura básica da sociedade é o objeto primário da justiça porque as suas conseqüências são profundas e estão presentes desde o início” nas várias situações sociais, favorecendo algumas “posições” em detrimento de outras, de maneira a produzir “desigualdades profundas’. É a essas desigualdades que “os princípios da justiça devem se aplicar em primeiro lugar, presidindo a escolha das instituições políticas, econômicas e sociais”. “A justiça de um modelo de sociedade depende essencialmente da forma como são atribuídos os direitos e deveres fundamentais, bem como das oportunidades econômicas e condições sociais nos diferentes setores da sociedade”89.

Deve haver uma concepção de justiça sobre a estrutura básica da sociedade porque ela é coercitiva numa associação fechada que não é voluntária e porque seus efeitos sobre as vidas das pessoas são sempre presentes e penetrantes. Como os indivíduos não escolhem estar ou não inseridos nessa estrutura, é importante que ela possa ser justificada por uma aceitação voluntária hipotética por parte de cada indivíduo

que nela se insere. É esta uma das justificações rawlsianas da necessidade de uma argumentação moral contratualista.

Como se percebe pelo fato da justiça se aplicar à estrutura básica da sociedade, a justiça concebida por Rawls se aplica às instituições e não ao comportamento individual e às associações voluntárias e/ou privadas90.

Comparando os objetos a que se aplicam a teoria moral de Kant e de Rawls, Vita diz que:

“Rawls interpreta o imperativo categórico kantiano, de não tratar seres humanos apenas como meios e sim sempre também como fins e si mesmos, como uma exigência moral que se aplica primeiramente não à vontade racional individual e sim às instituições básicas da sociedade. Somente em uma sociedade cujas instituições políticas, sociais e econômicas se organizam segundo uma concepção válida de justiça é possível esperar que em geral os indivíduos orientem sua conduta pelos princípios do direito”91.

Como todos os cidadãos devem ter igual liberdade para praticarem suas concepções de boa-vida, os princípios de justiça devem ser aceitáveis do ponto de vista de todos os cidadãos. Daí segue a necessidade moral de que a concepção de justiça seja pública.

Já em Uma Teoria da Justiça, Rawls conceituava uma sociedade “bem ordenada” como aquela que, além de aumentar o “bem” para seus membros, é regida por uma “concepção pública de justiça”, ou seja, uma concepção em que: (1) cada um de seus cidadãos aceita os princípios de justiça sabendo que os outros também os aceitam e (2) as instituições básicas da sociedade satisfazem esses princípios. Isso limita as pretensões individuais ditadas pelo interesse próprio e a realização destas, ao mesmo

90 Rawls, 1993, p. 30. 91 Vita, 1993, pp. 16-17.

tempo que “estabelece os laços de amizade cívica”92. E as instituições são justas quando não há discriminações moralmente arbitrárias na atribuição de direitos e deveres e se estabelece um equilíbrio adequado entre as diversas pretensões individuais conflitantes.

Dado o caráter público que exige que uma concepção de justiça seja passível de ser aceita de todos os pontos de vista razoáveis, faz-se necessária uma argumentação moral contratualista ou segundo critérios de publicidade a respeito dos princípios de justiça.

Benzer Belgeler