Fonte: CONTERATO, 2012
A proposta inicial era construir de forma articulada entre esses dois territórios um processo de gestão social. No entanto, percebeu-se que havia muitas diferenças entre eles e que encontravam-se em estágio de desenvolvimento e de debates muito diferenciados. Dessa forma, as ações foram trabalhadas separadamente para cada território.
BOX 03
Gestão Social de Territórios Rurais Abrangência:
Território Zona Sul, no Rio Grande do Sul, Brasil e Território Cerro Largo, Uruguai.
Objetivo geral:
Desenvolver um modelo organizacional para a gestão social em territórios fronteiriços do Brasil e Uruguai
Objetivos específicos:
- aprofundar as bases conceituais de gestão social; - analisar o contexto nacional e regional dos territórios;
- analisar a matriz institucional das organizações que atuam nos dois territórios; - propor ações para gestão transfronteiriça dos territórios selecionados.
Estratégia metodológica:
- identificação do estado da arte sobre atores,conflitos, gestão e governança territorial; - caracterização dos aspectos econômicos, sociais,demográficos e ambientais, dentre outros;
- identificação dos dispositivos coletivos de governança existentes em cada território; - identificação do marco legal que sustenta as ações de base territorial;
- compreensão da lógica dos atores e as interfaces entre eles na consolidação de dispositivos de controle e gestão social em cada território;
- concepção de um modelo de gestão social para o território transfronteiriço. Fonte: CONTERATO, 2012
A proposta para o território uruguaio foi construída levando-se em conta a realidade local, que é bastante diversa da brasileira. Cerro Largo possui quatro Mesas de Desenvolvimento Rural. Assim, iniciou-se o processo por um Seminário sobre desenvolvimento territorial e nesse se estabeleceram as ações a serem realizadas (diagnóstico, mapeamento do território, definição de estratégias e projetos prioritários). Essas ações seriam tratadas em oficinas, seminários e eventos territoriais. Nesses eventos, participaram cinco ou seis representantes de cada mesa. A função deles seria construir um plano e trabalhar a gestão do território Cerro Largo. Todo o debate e resultados desses eventos eram levados por seus representantes para cada mesa. Dessa forma, poderia se estabelecer uma relação de complementaridade entre o Território (Departamento) Cerro Largo e suas Mesas6.
A análise que os técnicos do MGAP fazem é de que este projeto superou todas as expectativas, pois conseguiu uma efetiva participação, um debate mais amplo sobre desenvolvimento territorial e um grande interesse por parte dos participantes em relação à noção de gestão social. Essa é basicamente a única ação na qual o objetivo de um território é pensar no planejamento e na gestão social.
4.5. CONSIDERAÇÕES
A pretensão deste capítulo foi a de trazer elementos para responder à questão de por que o tema da abordagem territorial do desenvolvimento rural tem ganhado força nos últimos anos em vários países da América Latina.
O primeiro elemento refere-se à trajetória do desenvolvimento. Grande parte dos países da América Latina construiu e, ainda continua a construir sua trajetória, com uma visão fortemente capitalista buscando alcançar o padrão de desenvolvimento dos países de
6 “O Projeto terminou aqui e agora há muitas expectativas de continuidade no Uruguai. Estamos todos ansiosos
capitalismo avançado. Porém, sem criar as condições internas necessárias para alcançar tal padrão. O continente passou pelo paradigma desenvolvimentista, do welfare state e do Estado mínimo. Em suma, apesar de alguns países apresentarem índices positivos em relação ao crescimento econômico, não se resolveram dois problemas gritantes no continente: a pobreza e a desigualdade.
Outro elemento importante é a grande onda de processo de descentralização que vem passando os diversos países da Região, desde os anos 1990. Há uma nítida mirada para políticas descentralizadas e para a constituição de novas instituições e estruturas de governança. Esses processos estão intimamente relacionados com a abordagem territorial do desenvolvimento
Em relação às iniciativas de desenvolvimento territorial há diferenciadas visões de território. Pode-se constatar que as visões de território como identidade e associado à região se misturam enquanto conceito de território. Também, há pontos comuns em relação à necessidade de maior integração entre público e privado para implementação de políticas públicas e à importância da participação social. Esses parecem ser os pontos centrais da idéia da abordagem territorial
Nessa trajetória é possível notar que essa nova abordagem tem se justificado como um novo modelo para solucionar quatro questões fundamentais relacionadas ao desenvolvimento: pobreza, desigualdade, descentralização e sustentabilidade. Toda essa trajetória teve a influência das agências multilaterais (Banco Mundial, BIRD, AECID, FAO, FIDA) e de outros organismos internacionais (IICA, RIMISP, CEPAL, dentre outros). Mas, também, observa-se que havia um contexto de movimentação social e política que demandava maior participação nas políticas públicas.
O que estava em jogo era a expressão de um processo de transição social e política caracterizada por um duplo projeto: um expresso nos ideais neoliberais de ajuste e reforma do Estado, sendo os principais portadores dessa visão, as agências multilaterais; e outro, marcado pela redemocratização nacional, protagonizado pelos diversos atores sociais. É o paradoxo do desenvolvimento territorial.
Por fim, um elemento essencial diz respeito ao papel do Brasil na disseminação dessas iniciativas de desenvolvimento territorial. Muitas delas surgiram com apoio do IICA- Brasil e do próprio governo brasileiro, que vem aumentando sua ação no campo da cooperação técnica para a América Latina no que diz respeito ao tema do desenvolvimento territorial.