• Sonuç bulunamadı

Diversas experiências espalhadas pelo mundo são citadas como as origens do microcrédito. As primeiras práticas datam do século XVIII e XIX. Citamos aqui algumas experiências que se destacam na literatura sobre microfinanças e microcrédito.

Em 1845, na Alemanha, o pastor Raiffeinsen criou a Associação do Pão, com a finalidade de assistir os agricultores, que passavam por dificuldades financeiras por conta de um inverno intenso. Através do empréstimo de farinha de trigo, os agricultores voltaram a produzir e comercializar pão, obtendo assim, capital de giro. A associação acabou se transformando numa cooperativa de crédito. (SINGER, 2002 apud COSTA, B. L. S., 2006). Na cidade de Quebec, no Canadá, Alphonse Desjardins criou em 1900 uma caixa de poupança popular em que os participantes depositavam suas economias e utilizavam o microcrédito para fomentar os seus negócios, dando origem ao “Caisse Populaire de Lévis”. (BIJOS, 2004).

Em Chicago, nos EUA em 1953, Walter Krump, presidente de uma metalúrgica, criou os “fundos de ajuda” com o objetivo de auxiliar os associados da entidade, que representava os metalúrgicos. Contando com a contribuição mensal de US$ 1 de cada empregado, os fundos evoluíram e se transformaram em Ligas de Crédito que se tornaram, mais tarde a Federação das Ligas de Crédito, operando em diversos países do mundo. (MICK, 2003). Mas entre as inúmeras experiências de microcrédito que foram surgindo, o Grameen Bank, criado em 1976 em Bangladesh por Muhammad Yunus, foi a que mais contribuiu para consolidar e difundir mundialmente esse tipo de crédito.

[...] a iniciativa que difundiu o conceito de microcrédito pelo mundo foi a iniciada pelo professor economista Muhammad Yunus, no ano de 1976, em Bangladesh, quando ele resolveu emprestar pequenas quantias a microempreendedores das aldeias próximas à universidade onde lecionava, para que eles se livrassem dos agiotas que cobravam juros extorsivos. A experiência cresceu, recebendo aportes de bancos e instituições privadas e, em 1978, foi criado o Grameen Bank, estabelecendo as bases para o modelo atual de microcrédito. (COSTA, B. L. S., 2006, p. 123).

A partir da experiência do Grameen Bank, a filosofia do microcrédito se espalhou pelo mundo ampliando o acesso ao crédito pelos microempreendedores pobres. Inspiradas no modelo de Bangladesh, inúmeras experiências foram criadas em 60 países, dando origem ao

movimento de microfinanças, o qual culminou com a realização da Conferência Global de Microcrédito (Microcredit Summit) em 1997.

Outras experiências também foram importantes para a constituição do setor, como o Banco Rakyat da Indonésia (BRI) e o Banco Sol da Bolívia, que disputam o título de pioneirismo na oferta de microcrédito. (MICK, 2003).

O termo microcrédito vai surgir somente nos anos de 1970, e a partir dos anos de 1990, esse tipo de crédito vai se expandir como forma de empréstimo voltado diretamente para a população definida como de baixa renda e sem acesso ao crédito tradicional. Desde então, diversas práticas de microcrédito têm sido desenvolvidas em várias regiões do mundo, também como forma de combater a pobreza, como afirma Mick (2003, p. 28):

Até 1970, a palavra “microcrédito” sequer existia; trinta anos depois, as experiências que se autodesignavam pelo vocábulo eram tantas e tão diversificadas que seria impossível acreditar que se tratasse de um mesmo fenômeno. Durante os anos 1990, o apoio ao microcrédito e às microfinanças tornou-se uma política das mais populares, atraindo fundos de doadores privados e agências internacionais, como resposta às insuficiências do modelo de financiamento público (ou subsidiado) dos mais pobres para o desenvolvimento local. As microfinanças têm um importante apelo político e são incorporadas, com diferentes significados, a discursos de direita e de esquerda.

O microcrédito se tornou, na contemporaneidade, uma tendência em nível mundial, sendo percebido não apenas como uma forma de crédito mais acessível, mas também como uma forma possível de inclusão econômica e social através das finanças. Como argumenta Costa, B. L. S. (2006, p. 172):

O microcrédito constitui-se hoje em uma nova tendência mundial. [...] esse movimento é de tal magnitude que chega a configurar, na opinião de alguns teóricos, uma política de desenvolvimento, abrangendo questões de natureza social, econômica, legal, financeira e institucional, possibilitando o acesso ao crédito aos trabalhadores de baixa renda, sem as exigências e burocracias do sistema financeiro convencional, que terminam excluindo-os do processo. Apesar de ser um crédito pequeno, em virtude das características dos tomadores, a idéia do microcrédito é bem mais abrangente, e pode vir a ser uma ferramenta para a transformação da pessoa, das suas relações e de sua comunidade.

De forma geral, boa parte da população atendida pelo microcrédito não se encontra apenas sem uma alternativa de renda, mas excluída dos serviços do sistema bancário tradicional, uma vez que as grandes instituições financeiras não teriam necessariamente interesse em oferecer empréstimos para a população sem condições econômicas de comprovar garantia de pagamento, ou melhor, sem meios de arcar com os custos de um empréstimo. A OIT (2005, p. 16)reconhece esse fato como um tipo de exclusão:

Numerosos estudos mostram como as instituições financeiras tradicionais excluem os pobres. O setor financeiro formal considera muito arriscado trabalhar com os pobres e muito caro administrar os pequenos empréstimos que estes solicitam. Grande parte das pessoas de baixa renda fica excluída do crédito porque não pode oferecer as garantias exigidas pelos bancos tradicionais, cujos serviços estão orientados preferencialmente para as empresas grandes e médias, assim como para seus assalariados formais e para as famílias de renda média das zonas urbanas. Por outro lado, os pobres consideram muito complexos, difíceis e praticamente intermináveis os procedimentos para uma solicitação de crédito, o que os leva à auto-exclusão. Outro fator que também incide na marginalização desses grupos é a falta de informação adequada sobre os benefícios e requisitos dos serviços de crédito. Além disso, as transações são caras, e muitos dos serviços de crédito não são adequados à natureza nem às necessidades de capital das atividades microeconômicas.

Destarte, a ausência de serviços financeiros voltados para atender parte da população mundial, passou a ser considerada como um problema também de exclusão social. Seguindo nessa linha, o Banco Mundial e a OIT passaram a conceber o microcrédito como alternativa para favorecer a inclusão das pessoas pobres ou de baixa renda através da sua inserção no sistema financeiro.

Como aponta Kraychete (2006), o microcrédito adquiriu, dessa maneira uma centralidade na agenda internacional, no que diz respeito às iniciativas que tentam alcançar metas consideradas ambiciosas como a redução da pobreza.

Benzer Belgeler