O primeiro aspecto das coleções de arquitetura da Politécnica a considerar é sua tipologia, notavelmente quanto à presença de periódicos, que se revelou de difícil quantificação. Diferentemente do observado nas estatísticas gerais da biblioteca discutidas anteriormente, periódicos não se revelaram parcela tão larga das coleções arquitetônicas. Representam apenas 3,5% dos títulos recuperados dos livros de tombo. É necessário ter em mente, contudo, que as coleções listadas nos relatórios da documentação administrativa são contadas a partir de seus volumes totais, enquanto o levantamento feito a partir dos livros de tombo conta títulos individuais. Pois mesmo que fosse desejável utilizar unidades similares no levantamento feito para esta pesquisa, o registro do número de volumes das diferentes obras encontrado nos livros de tombo revelou-se muito inconsistente, decerto devido às diversas substituições, relocações e transferências que as obras mais antigas sofreriam desde sua aquisição. Considerada esta diferença de contagem, a discrepância mostra-se menos surpreendente, afinal um periódico mensal poderia facilmente juntar 12 volumes ao final de apenas um ano de assinaturas. Isso é particularmente verdadeiro, por exemplo, para as coleções do Diário Oficial do Estado, que começariam a ser acumuladas
310 Foram consultados a Gallica: bibliothèque numerique, diponível no endereço:
http://gallica.bnf.fr/?lang=PT; O Istitut Natio al d’Histoi e de l’A t: i lioth ue u e i ue no end.: http://bibliotheque-numerique.inha.fr/collection/; O Internet Archive no end.: https://archive.org/index.php; A Hathy Trust Digital Library no end.: http://www.hathitrust.org/; Também o diretório de bibliotecas OCLC WorldCat no end.: http://www.worldcat.org/
185
na escola (e provavelmente na sua biblioteca) desde os seus primeiros dias de funcionamento.
De qualquer maneira, é importante apontar que diferentemente de outras tipologias, os registros de periódicos nos livros de tombo são, como um todo, muito descontínuos, especialmente antes de 1918. Esta data está relacionada à entrada de Alexandre Albuquerque como novo bibliotecário da escola e com significativas mudanças em seus regimes de registro de estatísticas e tombamento, como já comentado. Seria só com Albuquerque que a aquisição de periódicos começaria a ser registrada com alguma frequência, mesmo que de maneira ainda falha. De fato, no ano de 1918 são tombadas nos livros algumas grandes coleções de periódicos, marcados como guardados no porão. Fruto, provavelmente, de um esforço de inventariar essas coleções não registradas.
Não surpreende, portanto, que ao comparar as informações disponíveis nas diferentes documentações examinadas haja divergências. Os registros de periódicos recuperados nos livros de tombo não dão conta de todas as assinaturas mencionadas na documentação administrativa da biblioteca transcrita para esta pesquisa. Deste modo, a estes 3,5% do acervo, ou 79 títulos, foram adicionados outros 24 títulos cujas assinaturas são confirmadas pelos demais papeis administrativos. Devido a essa fragmentação dos registros não foi possível, de modo geral, determinar com precisão o período coberto pelas suas coleções ou assinaturas, sendo viável apenas examiná-los do ponto de vista de seus assuntos.311 O Grafico em Pizza a seguir resume o perfil temático destes periódicos:
311 Uma lista abreviada dessas publicações, indicando quando são mencionadas na documentação e que
186 33% 30% 11% 9% 6% 7% 4% 1%
Gráfico 6: Perfil temático dos periódicos levantados
Orgãos Estaduais e Instituições Culturais Ciência e Engenharia em Geral Arquitetura em Geral Estradas e Estradas de Ferro Instituições Politécnicas Saneamento e Higiene Engenharia Civil Artes em Geral
Deste universo final312 de 103 títulos, 36, ou um terço, são publicações de órgãos estaduais e instituições de ensino e pesquisa com os quais a escola mantinha correspondência, em geral, frequente, além das publicações da própria politécnica. Periódicos recebidos, como já apontado, predominantemente como doações dessas instituições, como o Museu Paulista, Faculdade de Direito de São Paulo ou Jardim Botânico do Rio de Janeiro, entre outros. Vale a pena apontar para a relevância indireta destes periódicos (e dos laços institucionais que revelam) para os cursos de arquitetura. Primeiramente pela sua contribuição para a estruturação e operacionalização da instituição, como um todo. Estas instituições ofereceriam modelos administrativos e abrigariam uma comunidade de administradores em constante contato com a escola politécnica, pelo que sugere a documentação administrativa levantada. O caso mais notável para a biblioteca é a correspondência e literatura da Bibliotheca Nacional, mobilizadas para o estabelecimento dos sistemas de classificação dos acervos politécnicos, por exemplo.313
312 Alguns destes registros estão duplicados nos livros de tombo. O número individual desses periódicos é um
pouco menor.
313 Em 1915 o diretor da Bibliotheca Nacional escreveria à politécnica: Sr. Director, Acabo de verificar que não
teve resposta o officio em que solicitastes esclarecimentos quanto á applicação do systema bibliographico decimal, que desejaes adoptar na bibliotheca dessa Escola. Só a accumulação de serviço pode explicar a falta em que incorri e espero deculpareis. Relativamente ao systema bibliographico, cujas vantagens reconheço e cuja adopção recommendo, não vos poderia prestar melhores informações, que precisariam ser minuciosas, do ue as ue se o t o Ma uel de Repe toi e i liog aphi ue u ive sel pu li ado e pelo
187
Mas também, e mais crucialmente, estes impressos permitiam o estabelecimento de pontes entre temas caros à arquitetura e suas discussões locais, como no caso da higiene e saneamento, por meio das Memorias do Instituto Oswaldo Cruz, ou a história nacional (tema de monumentos e eventual fonte de formas e motivos arquitetônicos), por meio das revistas do Archivo Historico e Geografico (estadual e nacional). A construção da história e memória nacionais, afinal, é também uma construção de espaços e estruturas demarcadoras.
Quanto às publicações de interesse para a arquitetura e engenharia civil, especificamente, o maior grupo temático identificado, com 33 títulos, ou cerca de outro terço do total, compõe-se de jornais e revistas de ciência e engenharia em geral. Dentre esses, nos títulos de língua francesa (15, ao todo) predominam as revistas científicas e de tecnologia, como a Revue Generale des Sciences, Technos: revue analytique des publications
techniques, ou a Bibliographie Scientifique Française. Há algumas revistas especializadas em
iluminação e eletricidade, como a Eclairage Electrique, ou a Revue Ge e ale de l’Ele t i ite, e apenas uma revista propriamente de engenharia, a L’I ge ieu . No caso dos títulos em língua inglesa (11 no total), pelo contrário, são quase todos periódicos especificamente de engenharia – e muito similarmente nomeados. São títulos como o já citado Engineering
Index de Nova Iorque, ou o Engineering londrino e o Engineering News de Chicago. Há até
mesmo dois Engineering Reviews, um inglês e outro norte-americano. As publicações em português incluem, entre outras, os Annaes da Escola de Minas de Ouro Preto, a Revista do
Club de Engenharia e a paulista, e breve, Revista de Engenharia, da década de 1910. O
germânico Zeitschrift Vereins Deutscher Ingenieure, por fim, merece ser citado. É um dos mais antigos jornais de engenharia alemães, ligado à Associação de Engenheiros da Alemanha, que seria importante atora no processo de elevação do status do ensino e das escolas de engenharia alemãs ocorrido ao final do século XIX. De cursos técnicos, passariam
Instituto Internacional de Bibliographia de Bruxellas. Nessa publicação se encontram uma exposição completa do systema, as regras para a sua applicação, as taboas de classificação decimal e o indice alphabetico de assumptos. Si, empregando o systema de accordo com este Manual, tiverdes a necessidade de alguma informação, terei muito prazer em vos prestar meu fraco concurso. Reitero-vos os protestos de perfeita estima e distincta consideração. Saude e fraternidae, Ao Sr. Dr. Antonio Francisco de Paula Souza, M. D. Director da Escola Polythecnica de São Paulo, O Director Geral, D . Ma oel Ci e o P. da Silva. EPUSP/AP/FI/Cx59, s/n.
188
a integrar universidades. É à esteira deste processo que Paula Souza evocaria modelos germânicos de ensino para defender seu projeto de politécnica em São Paulo.
Dentre os periódicos propriamente de arquitetura (12 títulos), predominam as edições norte-americanas e francesas. No primeiro caso, trata-se do American Architect, de Nova Iorque, o National Builder, de Chicago, o Architectural Forum (também Brickbuilder), de Boston, o Pacific Coast Architect, e o Bungalow Magazine, de Washington, todos assinados, ao que tudo indica, após 1909, e a maioria após 1914. Dentre as publicações francesas, deve ser destacada a Revue Ge e ale de l’A hite tu e, de Cesar Daly. Longevo periódico de arquitetura de grande influência em seu tempo, a aquisição de suas coleções completas, desde 1840, seria pedida pela escola a seus fornecedores franceses e levada a cabo já no ano de 1895.314 E sua assinatura seria mantida, ao que tudo indica, até o fim do período estudado. Outra publicação antiga, os Annales de La Societe Centrale des
Architectes, de curtíssima publicação na década de 1870, seriam também adquiridos pela
politécnica. As demais obras francesas encontradas são mais recentes, e incluem fascículos da L’A hite tu e Usuelle, de Rivoalen, Le cottage e L’A hite tu e, da Societe Centrale des
Architectes (da década de 1910). E além desses há, notavelmente, uma publicação
argentina: a Revista Tecnica y Arquitectura, de Buenos Aires.
As demais publicações periódicas incluem uma série de obras dedicadas a estradas e, estradas de ferro (com 11 títulos). São em sua maioria publicações em língua inglesa e francesa sobre ferrovias. Mas cabe destacar a fluminense Brazil Ferrocarril, e a italiana Le
Strade. É também notável uma série de publicações de instituições politécnicas (7 no total),
como a Revista do Instituto Polythecnico Brazileiro, cujas primeiras edições datam da década de 1860, o Annuario da Academia Polythecnica do Porto, a Revista da Escola
Polythecnica do Rio de Janeiro e a Revista do Gremio Polythecnico da própria escola. A
politécnica de Paris se faz presente com o A uai e de L’École Polythecnique. Cabe também
314
Em 20 de abril de 1895 os fornecedores franceses confirmam ao diretor o envio de uma carga e que procurarão pela Revue Generale: Va os p epa al-as com a maxima repidez possivel, e procurar a Revue Ge e ale d`A hite tu e o fo e as suas i st u ç es. E j e de ju ho da o otí ia de t -la e o t ado: I lui os `esta u a ota de espostas a dive sos liv os esgitados e a tigos ue o encontramos no mercado e outros a que pedimos resposta. O Daly – Architecture. Estava vendido mas tivemos uma excellente occasião aqui mesmo – 45 volumes em lugar de 42 annunciados – A mais, faremos o des o to de % a ue o o se tiu o liv ei o alle o. A as: EPUSP/AP/FI/C , s/ .
189
chamar a atenção para uma pequena coleção de edições (provavelmente da década de 1860) do Polytechnisches Journal, de Stuttgart. Apesar de não estar filiado diretamente a nenhuma instituição politécnica, é um dos mais antigos periódico de engenharia alemão, tendo sido, também, uma de suas mais importantes publicações técnicas durante o século XIX.
Relacionadas ao tema do saneamento e obras públicas em geral, foram encontradas 6 publicações, entre elas o Journal of the Royal Sanitary Society, a Technique Sanitaire (também Technique Sanitaire et Municipale) e a Rivista di Ingegneria Sanitaria e di Edilizia
Moderna.315 A lusa Revista de Obras Publicas e Minas e os Annales des Travaux Publics em
Belgique, ambos de temáticas bastante abrangentes, e bastante próximas da engenharia
civil em geral, merecem também ser citados pela sua ligação com associações profissionais desses países (em particular a Bélgica, onde se formou Ramos de Azevedo). A engenharia civil reúne apenas 4 publicações a ela específicas, mas significativas. Estão entre elas, primeiramente, os Annales des Ponts et Chaussées, ligados à eminente escola parisiense, seguidos pelo Der Civil Ingenieur, que se liga, por sua vez, à Politécnica de Zurique em que Paula Souza estudou. Deve-se citar também, o Le Genie Civil, influente periódico francês, cujas coleções foram acumuladas ao menos entre 1894 e 1918. O único título ligados às artes em geral, o nova-iorquino The Art World, merece ser também apontado. Coleção de artigos sobre arte em geral, decoração e o mercado da arte norte-americano, teve breve circulação, entre 1916 e 1918 (seria posteriormente incorporado a outros periódicos de arte).
Este conjunto de periódicos, mesmo que menor que o originalmente esperado (consideradas as estatísticas administrativas gerais), indica a existência de uma coleção relativamente ampla e diversa na escola no período estudado. Seu conjunto cobre considerável número de instituições públicas do estado e reúne publicações de importância de diversas instituições de ensino modelares, como a Polythecnique de Paris, a École des
Ponts et Chaussées, as Politécnicas do Porto e do Rio de Janeiro, a Escola de Minas de Ouro
315
Nos registros da bi liote a, de , apa e e o o L’Edilizia Mode a. A evista dedi ada a uitetu a moderna com exatamente este nome, contudo, é da década de 1930. Esta foi a única edilizia moderna em circulação durante a década de 1910 sobre a qual se pode localizar alguma referência.
190
Preto, além da Politécnica de Zurique. Possui também publicações de associações profissionais de engenheiros tanto brasileiras, como o Club de Engenharia ou o Instituto Polythecnico Brazileiro, quanto estrangeiras, como a Société Centrale des Architectes, a Vereins Deutscher Ingenieure ou a So i t Royale Belge des I g ieu s et des Industriels. Esta coleção inclui também publicações francesas tradicionais de importância, como a
Revue ou o Genie Civil e diversas publicações norte americanas de arquitetura tomadas
principalmente no pós-guerra. Abrange, portanto, tanto publicações e espaços tradicionais de efervescência da disciplina quanto novos ambientes.
Neste sentido, vale observar que se descontadas as diversas publicações de instituições nacionais indiretamente ligadas à arquitetura e à engenharia civil, predominam entre essas coleções as publicações de língua francesa e inglesa, como se pode ver no gráfico a seguir: 15% 41% 36% 4% 3% 1%
Gráfico 7: Perfil linguístico dos periódicos de arquitetura e engeharia civil
Português Francês Inglês Alemão Italiano Espanhol
Se é certo que a língua francesa dominava os hábitos de leitura tanto de professores quanto de alunos no período, também é verdade que ao menos a seleção de periódicos disponível (e ativamente obtida) era consideravelmente mais equilibrada, ao menos com relação à produção britânica e norte-americana.
191