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Retomando nossa cronologia, seguimos rumo ao texto de Garcia-Roza (2002), quando este trabalha uma carta de Freud a Fliess datada de agosto de 1899, após Freud ter escrito o primeiro capítulo de a Interpretação do sonho. Esta carta, em que Freud procede em seu trabalho sobre a natureza do sonho e a estrutura do aparelho psíquico, possui o seguinte tom: ―A coisa está planejada segundo o modelo de um passeio imaginário‖ (FREUD, 1899, p. 366).

Mais uma vez, a vida imaginativa se apresenta ativamente no psiquismo, e Freud conclui que o sonho é uma realização de desejo, e que esse desejo é um desejo inconsciente; como afirma Garcia-Roza (2002, p. 81), ―[...] um desejo consciente somente se torna excitador de um sonho se ele se ligar a um desejo inconsciente que o reforça‖. E o autor complementa tal idéia afirmando que, no sonho, haveria dois registros distintos:

Um registro consciente, que é o do sonho tal como dele temos conhecimento, aquilo que do sonho é imediatamente acessível ao sonhador; e um outro

registro, completamente inacessível à consciência do sonhador, que responde ao desejo inconsciente.

Ainda sobre a natureza do sonho, Toledo (2003, p. 18) pontua que

Em 1900, Freud sustenta como premissa que o sonho, na verdade, é uma mensagem cifrada (chegando a compará-lo à escrita hieroglífica), preconizando então ser possível atingir seu sentido através da interpretação. A interpretação ou decifração através da psicanálise acaba por revelar os pensamentos oníricos, que são idênticos aos pensamentos da vida em vigília, mas que se tornaram inconscientes por que foram atraídos por um desejo inconsciente.

A leitura freudiana do sonho guarda convergência com a própria leitura da fantasia. Em primeiro lugar, podemos apontar a incidência dos dois registros psíquicos presentes nessas formações que, em sua natureza inconsciente, nos remetem à realização de desejo.

Coutinho Jorge (2010, p. 206) aponta para essa relação íntima entre o sonho e a fantasia no que concerne, especialmente, à realização de desejos

Se todo sonho é a realização de um desejo, a fantasia é o suporte do desejo. A mesma ação da fantasia inconsciente, em torno da qual o sonho e o devaneio (fantasia consciente) se constroem, irá constituir para o sujeito, na vida de vigília, sua relação com a realidade, ou, melhor dizendo, sua própria realidade, uma vez que a realidade é, essencialmente, realidade psíquica.

Garcia-Roza (2002, p. 106) comenta que, para a produção do sonho, concorrem tanto o material originário dos pensamentos oníricos quanto ―[...] uma função psíquica cujas características não se distinguem do nosso pensamento da vigília‖: trata-se da instância censuradora

[...] que, além dos cortes e restrições que impõe ao conteúdo onírico, é apontada por Freud como responsável também pelos acréscimos, sobretudo no sentido de produzir enlaces nos fragmentos dispersos do sonho [...] cuja função principal é articular partes dispersas do sonho.

Para tentar concluir nossa questão sobre a relação entre fantasia e sonho, recorremos aos assinalamentos de Laplanche e de Pontalis (1985, p. 67) acerca da leitura freudiana da metapsicologia do sonho. Os autores propõem a existência de um

[...] parentesco entre as fantasias inconscientes mais profundas e o devaneio diurno: no trabalho do sonho, a fantasia está presente nas duas extremidades do processo.

[...]

A primeira parte (desse percurso) vai, de um modo progressivo, das cenas ou fantasias inconscientes até o pré-consciente, onde recrutará os ‗restos diurnos‘ ou ‗pensamentos de transferência‘. Mas a fantasia também está presente na outra extremidade do sonho, na elaboração secundária que Freud sublinha não fazer parte do trabalho inconsciente do sonho, mas dever ser identificada com o trabalho do nosso pensamento vígil.

Tais autores marcam, então, que as duas extremidades do sonho e também as duas modalidades de fantasia que no sonho se encontram ―[...] parecem senão conjugar-se, pelo menos comunicar-se entre si‖ (LAPLANCHE; PONTALIS, 1985, p. 69).

É assim, portanto, que chegamos a uma questão fundamental ao trabalharmos as modalidades da fantasia, e que se refere, como sugerido por Laplanche e por Pontalis (1985), à problemática da dependência tópica da fantasia no quadro da distinção dos sistemas inconsciente, pré-consciente e consciente.

Em nossa pesquisa, a importância da problemática da dependência tópica da fantasia freudiana se justifica por supormos que o brincar também possui uma localização, sendo que, no próprio pensamento freudiano, parece haver a contribuição tanto de conteúdos inconscientes, como pré-conscientes e também conscientes para que o brincar aconteça.

A questão tópica da fantasia implica em se fazer uma pergunta: haveria comunicação e também intercâmbio entre os vários sistemas psíquicos? A resposta perece-nos positiva, porém, é importante salientar que os conteúdos provindos do sistema Ics chegam deformados aos sistemas Pcs/Cs, por ação da censura.

Em citação anterior, referimos a existência de um percurso de fantasias entre as extremidades do sonho. Laplanche e Pontalis (1985, p. 71) nomeiam essa extremidade de pólo, sendo que

No pólo do devaneio diurno, o roteiro é essencialmente na primeira pessoa, o lugar do sujeito é marcado e invariável. A organização é estabilizada pelo processo secundário, lastreada pelo ―eu‘: diz-se que o sujeito vive os seus devaneios. O pólo da fantasia originária, pelo contrário, se caracterizaria por uma ausência de subjetivação.

Ou seja, os autores pontuam que, diferente do que comumente se pensa, a marca do processo primário não seria a de ausência de organização, sua marca por excelência se constitui como ―[...] um roteiro de múltiplas entradas, no qual nada diz que o sujeito encontrará de imediato o seu lugar...‖ (LAPLANCHE; PONTALIS, 1985, p. 72).

É interessante pensar nessa possibilidade de ―várias entradas‖, pois nos remete à variabilidade de significações que um sujeito pode construir sobre si. O processo de subjetivação, portanto, estaria sempre referenciado às fantasias sobre si, sobre seu lugar na família e no mundo e, como ressalta Coutinho Jorge (2010) a partir de uma afirmação de Spitz (1945), às fantasias dos progenitores em relação ao bebê.

A fantasia dos progenitores em relação ao bebê pode ser decisiva, na medida em que, investindo narcisicamente o corpo do bebê, protege-o da tendência à autodestruição que parece espreitá-lo desde sempre. É preciso supor que a fantasia amorosa dos pais é, assim, o primeiro escudo protetor em relação à pulsão de morte originária do bebê; ela constitui a primeira forma de erotismo da qual este participa, no caso, na condição de objeto do amor e do desejo do Outro. Posteriormente, será a sua fantasia de sujeito que irá preservá-lo dos ataques destrutivos da pulsão de morte, mas então ele já estará na condição de sujeito do desejo... (COUTINHO JORGE, 2010, p. 164).

Essa variabilidade de significações que um sujeito pode construir sobre si seria, como reivindica Rodulfo (1990), a compreensão de sujeito do desejo para a psicanálise, e é com esse material polissêmico que a criança brinca, construindo, assim, uma ficção sobre si que tem um valor de verdade.

Sempre faz falta esforçar-se para afastar da psicanálise todo esquema causal linear. Na multiplicidade de caminhos do inconsciente, jamais existe um só itinerário possível, e a experiência nos obriga a defender o princípio da multiplicidade de respostas (RODULFO, 1990, p. 23).

Benzer Belgeler