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O recurso de revista tem origem praticamente concomitante com a instituição do Tribunal Superior do Trabalho, atualmente competente para o seu julgamento. O artigo 76 do Decreto Lei nº 1.237/1939 introduziu um recurso inominado no âmbito da Justiça Trabalhista, o qual, a partir da Consolidação das Leis Trabalhistas, editada no ano de 1943, passou a ser chamado recurso extraordinário, conforme a redação originária do artigo 896 da CLT.

Sob a vigência da Constituição de 1946 – quando pela primeira vez se integrou a Justiça do Trabalho à estrutura do Poder Judiciário181 –, o recurso ganhou a expressão de

recurso de revista, após alteração do artigo 896 da CLT pela Lei nº 861/1949, que passou à seguinte redação:

artigo 896. Cabe recurso de revista das decisões de última instância, quando: a) derem à mesma norma jurídica interpretação

180 Op. Cit., p. 496.

181 A origem do TST remonta ao Conselho Nacional do Trabalho, criado pelo Decreto nº 12.027/23, órgão

ligado ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio e que tinha como finalidade: “a) ser órgão consultivo do Ministério em matéria trabalhista; b) funcionar como instância recursal em matéria previdenciária; e c) atuar como órgão autorizador das demissões dos empregados que, no serviço público, gozavam de estabilidade” (Ives Gandra da Silva Martins Filho, Critério de transcendência no recurso de

revista, p. 913). Posteriormente, em 1º maio de 1941, a Justiça do Trabalho foi institucionalizada, permanecendo o Conselho Nacional do Trabalho como órgão superior, composto por 19 membros e dividido em duas câmaras: uma Câmara de Justiça do Trabalho e uma Câmara de Previdência Social. Nesta época, ao CNT foi atribuída a função de interpretação do ordenamento jurídico-trabalhista, por meio dos prejulgados, que tinham força vinculante sobre as instâncias inferiores. Pouco tempo depois, foi a Constituição de 1946 a primeira a instituir o Tribunal Superior do Trabalho como órgão de cúpula da Justiça do Trabalho, finalmente incluída dentre os órgãos do Poder Judiciário.

diversa da que tiver sido dada pelo mesmo Tribunal Regional ou pelo Tribunal Superior do Trabalho; b) proferida com violação da norma jurídica ou princípios gerais de direito.

Desde então, a doutrina costuma mencionar duas hipóteses de cabimento do recurso de revista, as quais, apesar das nítidas alterações ao longo do tempo até a atual redação182, em linhas gerais são: (i) interpretação divergente entre dois tribunais, constituindo o chamado “recurso de revista de divergência”; e (ii) violação à norma jurídica, correspondendo ao “recurso de revista de nulidade”.

Mas, como órgão de cúpula da Justiça do Trabalho, desde seus primórdios o TST enfrentou problemas com relação ao excesso de processos. Constituído em 1946,

já no ano de 1952 chegou a ter 4.000 processos aguardando pauta para julgamento, com mais de 700 processos só de um dos juízes esperando ser relatados, o que ocasionava o inconformismo das partes e de seus advogados contra a morosidade do sistema183. E a morosidade da Justiça do Trabalho ainda se agravava porque, além do longo período de julgamento perante o TST, muitas vezes também era necessário aguardar julgamento moroso pelo STF. Isso porque, contra as decisões do TST, cabia recurso extraordinário ao Supremo Tribunal Federal, com a finalidade de uniformização da interpretação da lei federal ou da Constituição.

Diante de tal contexto, em 1953 foi apresentada a Proposta de Emenda Constitucional nº 10, visando à extinção do TST, pois não havia motivos para essa dupla possibilidade de uniformização jurisprudencial. Todavia, a PEC foi rejeitada e, em 1965, foi aprovada a EC nº 16, prescrevendo a irrecorribilidade dos julgamentos realizados pelo TST com fundamento na violação à legislação federal, restando cabível a interposição de recurso extraordinário somente nas hipóteses de violação ao texto constitucional. A partir de então, o TST se tornava detentor da última palavra sobre a legislação trabalhista infraconstitucional, o que se mantem até os dias atuais.

182 Art. 896 - Cabe Recurso de Revista para Turma do Tribunal Superior do Trabalho das decisões proferidas

em grau de recurso ordinário, em dissídio individual, pelos Tribunais Regionais do Trabalho, quando: a) derem ao mesmo dispositivo de lei federal interpretação diversa da que lhe houver dado outro Tribunal Regional, no seu Pleno ou Turma, ou a Seção de Dissídios Individuais do Tribunal Superior do Trabalho, ou a Súmula de Jurisprudência Uniforme dessa Corte; b) derem ao mesmo dispositivo de lei estadual, Convenção Coletiva de Trabalho, Acordo Coletivo, sentença normativa ou regulamento empresarial de observância obrigatória em área territorial que exceda a jurisdição do Tribunal Regional prolator da decisão recorrida, interpretação divergente, na forma da alínea a; c) proferidas com violação literal de disposição de lei federal ou afronta direta e literal à Constituição Federal.

(...) § 6º Nas causas sujeitas ao procedimento sumaríssimo, somente será admitido recurso de revista por contrariedade a súmula de jurisprudência uniforme do Tribunal Superior do Trabalho e violação direta da Constituição da República.

Contudo, tal reforma não foi suficiente para contornar a crise vivida pelo TST, que desde a sua instalação recebe anualmente cada vez mais recursos, à semelhança da situação dos demais Tribunais Superiores. Em 1950, o TST julgou 2.403 processos; em 1960, 7.803; em 1980, 13.915; em 1990, 20.473, sendo que tal número alcançou a impressionante cifra de 121.247 julgamentos no ano de 1999184.

Como se nota, os números são muito próximos daqueles verificados no STF e no STJ, de modo a se concluir que o TST também se encontra em situação de grave crise decorrente do excesso de processos recebidos, o que compromete a sua prestação jurisdicional. Assim como ocorre no âmbito do STF e do STJ, os recursos acabam sendo julgados pela enorme estrutura de assessores de cada um dos Ministros, ante a desumana tarefa de julgamento de um número tão expressivo de recursos.

Diante deste quadro, e no contexto da reforma do Judiciário, no ano 2000 foi apresentado o Projeto de Lei nº 3.267, com o objetivo de introduzir o critério da transcendência como requisito de admissibilidade do recurso de revista no Tribunal Superior do Trabalho. Segundo o projeto, seria acrescentado o artigo 896-A à CLT, com a seguinte redação:

Art. 896-A. O Tribunal Superior do Trabalho não conhecerá de recurso oposto contra decisão em que a matéria de fundo não ofereça transcendência com relação aos reflexos gerais de natureza jurídica, política, social ou econômica.

§ 1º - considera-se transcendência:

I – jurídica, o desrespeito patente aos direitos humanos, fundamentais ou aos interesses coletivos indisponíveis, com comprometimento da segurança e estabilidade das relações jurídicas;

II – política, o desrespeito notório ao princípio federativo ou à harmonia dos Poderes constituídos;

III – social, a existência de situação extraordinária de discriminação, de comprometimento do mercado de trabalho ou de perturbação notável à harmonia entre capital e trabalho;

IV – econômica, a ressonância de vulto da causa em relação a entidade de direito público ou economia mista, ou grave repercussão da questão na política econômica nacional, no segmento produtivo ou no desenvolvimento regular da atividade empresarial.

No entanto, em 4 de setembro de 2001, pouco antes da promulgação da EC nº 32/2001, que restringiu o uso de Medidas Provisórias, foi editada a MP nº 2.226, acrescendo à CLT o artigo 896-A atualmente vigente, mas nos seguintes termos:

Art. 896-A. O Tribunal Superior do Trabalho, no recurso de revista, examinará previamente se a causa oferece transcendência com relação aos reflexos gerais de natureza econômica, política, social ou jurídica.

E conforme o artigo 2º da aludida MP, caberia ao TST “regulamentar, em seu regimento interno o processamento da transcendência do recurso de revista”.

Todavia, como até a presente data não houve regulamentação do procedimento relativo à demonstração de transcendência no recurso de revista, o artigo 896-A jamais foi aplicado, em que pese todas as discussões que ocorreram a seu respeito na doutrina e jurisprudência constitucional185.

Quanto ao originário PL nº 3.267/2000, encontra-se arquivado na Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, após ter sido retirado de pauta em setembro de 2009186.

185 O STF liminarmente reputou a MP nº 2.226/2001 constitucional, nos autos da MC na ADI 2.527.

186 É possível verificar os andamentos do PL nº 3;267/2000 no sítio eletrônico da Câmara dos Deputados

Benzer Belgeler