Eu lembro que a gente participava de bastante oficinas na parte de filmar, a agente aprendia a filmar, aprendia a editar, aprendia a entrevistar também que era a parte que eu mais gostava que era entrevistar, a gente ia para vários lugares, fazia vídeos curtos, depois exibia na escola, exibia em alguns lugares.18
Poliana relata as diferentes atividades técnicas das quais participou enquanto estava no projeto realizado, durante os anos de 2000 e 2002, e financiado pelo Instituto Ayrton Senna, parte do Programa Educação pela Comunicação, no âmbito do Programa Cidadão 21, que tinha como objetivo mudar o enfoque de abordagem dos jovens, passando de problema social para parte da solução dos desafios sociais.19 O Programa Educação pela Comunicação envolveu iniciativas realizadas em todo o país e tinha como meta sistematizar essas experiências. Para atender a esse objetivo, foi criada a Reducom – Rede de Educação e Comunicação. Algumas discussões dessa Rede estavam relacionadas ao conceito de Educomunicação20 e a relação entre processo e produto, considerando que educação se dá em um processo e a comunicação pressupõe um produto (vídeo, programa de rádio, site, etc.).
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Entrevista realizada pela autora, em 23/07/2011.
19
Fonte: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao/0029.html Fernando Rossetti, no Instituto Ayrton Senna, participou da estruturação do Programa Educação Pela Comunicação.
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O conceito de Educomunicação vem sendo amplamente discutido e ampliado no campo da comunicação e não se pretende aqui aprofundar esse tema.
Cabe aqui apresentar duas das quatro metas do Programa Educação e Comunicação, que contribuem para a compreensão do conceito de juventude utilizado pelo IAS:
(i) propor, identificar e implementar ações e projetos cooperativos que promovam o desenvolvimento da comunicação como proposta para uma nova concepção da educação e da escola, e como método para a formação de jovens, oferecendo oportunidades educativas para o desenvolvimento pleno dos seus potenciais como pessoas, trabalhadores e cidadãos; (iv) defender a formulação e a implementação de políticas públicas e de ações de solidariedade social, visando a valorização dos jovens como protagonistas de desenvolvimento social, econômico, cultural e a promoção da educação pela comunicação.21
Essas metas preveem, em um âmbito mais geral, a formação e desenvolvimento dos jovens em diferentes âmbitos, indicando, assim, o papel da juventude enquanto parte da solução de problemas sociais. Nessa concepção, recai sobre a juventude a perspectiva de que são responsáveis por solucionar problemas sociais complexos.
Parte desse programa, o BMM, envolveu diretamente cerca de 30 alunos, devidamente matriculados e frequentadores de cinco escolas públicas da Baixada Fluminense, que cursavam a última série do Ensino Fundamental ou as séries do Ensino Médio, todos alunos eram moradores de bairros localizados no entorno da escola e não apresentavam nenhum tipo de conflito com a lei. O objetivo do projeto BMM era:
Contribuir para a construção de novas relações na comunidade escolar e, consequentemente, melhorar as condições de ensinar e aprender, através da utilização da linguagem audiovisual como um instrumento de expressão. Por meio deste processo, estimular professores e alunos a se tornarem mais atuantes na comunidade escolar, exercendo dessa forma a cidadania.22
Os dois projetos analisados foram realizados em escolas públicas da Baixada Fluminense, mantendo a localidade onde o CECIP iniciou suas atividades, entendendo essa região parte de um centro urbano, com contrastes sociais e com muitas potencialidades. Os jovens egressos conhecem e reconhecem a sua realidade e a importância de terem um projeto de vídeo realizado na sua região, visto que os projetos sociais, segundo o Fábio, em sua maioria, eram realizados em favelas.
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Metas retiradas do Instrumento Particular de Parceria, arquivo CECIP.
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Eu vejo que a Baixada ela é muito discriminada, o governo, a sociedade dá mais valor ao pessoal que mora em comunidade, que agora não pode mais falar favela, é comunidade, e assim parece que só as pessoas que vivem em comunidade que são carente de oportunidades, dos serviços sociais né e colocando isso (o projeto) para a Baixada Fluminense eu achei muito bacana, porque realmente a Baixada Fluminense tem grandes talentos, grandes pessoas, muitas pessoas que são capazes de fazer até o que Deus duvida23.
Essa fala reforça a ideia de que grande parte das ações sociais, sejam elas governamentais, sejam privadas, acontecem em espaços e com grupos que possibilitam maior visibilidade aos seus realizadores, fazendo, assim, uma hierarquização das necessidades dos grupos de jovens a serem atendidos.
O projeto BMM tinha entre os seus objetivos específicos: a discussão sobre a linguagem do vídeo e da TV, para o desenvolvimento de um olhar crítico sobre os meios de comunicação; a utilização do vídeo como instrumento de “escrita”, de expressão e comunicação entre os jovens e produção de conhecimentos; resgate de identidade cultural dos jovens; produção e exibição de vídeos, voltados para o público jovem, como estímulo à participação cidadã através da mobilização da sua comunidade.
Um dos pontos em comum, descritos nos dois projetos, é a metodologia, que faz uso de atividades lúdicas, de reflexões teóricas e práticas, que possibilitam uma ação coletiva, na qual os jovens se apropriam da linguagem audiovisual. Outra semelhança encontrada nos dois projetos, é a formação da equipe de educadores.
Nos dois projetos, a equipe permanente era formada por um coordenador, três jovens monitores, e, para trabalhar temas específicos, eram convidados diferentes profissionais. A relação dos jovens com a equipe foi comentada pelos jovens em suas entrevistas, destacando a importância de serem pessoas com realidades e histórias de vida muito próxima as suas, o que facilitava a relação entre as pessoas. De acordo com os relatos, as aprendizagens se deram no âmbito das relações de troca, relações de confiança, afeto e responsabilidade. Diego comenta da relação que mantinha com a equipe de educadores do projeto.
A trajetória de todo mundo sempre foi muito falada e sempre foi muito bacana pra gente conhecer a trajetória das pessoas que estavam lá e essas pessoas tinham também uma realidade muito próxima, daqui de Nova Iguaçu, a maioria
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e tal então eu acho que essas talvez sejam questões que tenham contribuído para isso, enfim pra esse clima super bacana que tinha no projeto.
Os monitores, além de serem moradores da mesma localidade, tinham idades entre 18 e 20 anos, idades muito próxima da dos participantes do projeto, o que contribuiria também para o estreitamento das relações. Diego dá continuidade a sua análise sobre a relação dos jovens com os educadores.
Eu acho que essa questão da idade também ajudava muito porque você está numa linguagem mais próxima assim, apesar de você ter uma trajetória diferente, você ter uma vivência diferente tem coisas ali que a idade, a trajetória não consegue dissociar da idade que você tem, é uma coisa geracional mesmo assim, então acho que a maneira de falar enfim, uma série de coisas.24
Esse é um dos pontos marcantes no trabalho com jovens, desenvolvido pelo CECIP, quando, desde o projeto Capacitação de Jovens em Produção de Vídeo, em 1999, constitui uma equipe com jovens para o desenvolvimento dos projetos. Propõe-se, assim, uma relação diferenciada entre educador e jovem, pois se trata de jovens educadores de jovens. De acordo com o relato dos entrevistados, pode-se compreender o papel desse jovem educador como um acompanhante, de acordo com Tommasi.
Talvez deveríamos pensar mais no papel dos adultos como os de acompanhantes dos percursos de busca e de experimentação dos jovens, pessoas de referência que escutam e sustentam nos momentos de fragilidade e de dúvida sem fazer julgamentos ou querer impor seus modelos de vida. (TOMMASI, 2004, p. 12)
O Projeto BMM foi dividido em duas fases, com duração de 12 meses cada. Suas atividades aconteciam três vezes na semana, com encontros de quatro horas. A primeira fase foi dedicada às atividades de capacitação teórica – oficinas sobre saúde, cidadania, elaboração de projeto, comunicação e mídia – e capacitação prática – oficina de ideia, pesquisa, formato, produção, direção, iluminação, áudio, câmera/fotografia, edição e exibição – com jovens e educadores,25 separadamente, com produção e exibição de vídeos. Fábio fala sobre as atividades práticas do projeto, o uso do vídeo como uma forma de expressão e da valorização de si.
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Entrevistas realizada pela autora, em 23/07/2011.
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No projeto tinha oficina de câmera, de som e oficina de iluminação no caso, tinha também a parte de edição, tinha tudo na área de imagem, no caso de TV, até mesmo fotografia. Nós aprendemos, fizemos vários vídeos, tiramos várias fotos. Nós apresentávamos nas ruas, na praça, na escola e assim fazia muita integração de pessoas que não sabiam absolutamente nada, chegando num patamar quase que profissional. Essa era a melhor recompensa que a gente tinha, o reconhecimento.26
A partir da experiência vivida, foi elaborado, pelos alunos, um Plano de Ação para a continuidade do Projeto até o final dessa primeira fase. Na segunda fase, de acordo com critérios estabelecidos pela equipe do CECIP, foi escolhida uma das cinco escolas envolvidas para sediar uma TV Comunitária, que passaria a produzir vídeos e exibi-los na escola, em conjunto com os jovens das demais unidades de ensino. Nessa fase, foram produzidos e exibidos dois programas sobre os temas: a influência da mídia na vida dos jovens, o relacionamento familiar, o namoro, o desemprego e a fome. Os jovens, também participaram de oficinas técnicas para aprofundamento do processo de produção de vídeo.
Ao final do projeto, a proposta seria dos alunos continuarem a atuação no espaço escolar e a produção de vídeos para alimentar a TV. Apesar do interesse dos jovens em multiplicar a experiência, esse objetivo não se seguiu. De acordo com o relatório final sobre o projeto, seria necessário mais tempo de formação dos jovens e um acompanhamento sistemático da equipe.