O Conselho Nacional de Educação – CNE, depois de realizar diversas consultas e promover discussões em diferentes fóruns e audiências públicas, aprovou a Resolução CNE/CEB n. 2/2009 que, junto com o parecer CNE/CEB n. 9/2009, imprimiu nova orientação no que diz respeito aos planos de carreira e remuneração do magistério da educação básica pública no Brasil.
Essa diretiva tem por base a legislação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização dos Profissionais da Educação – Fundeb – e a Lei n. 11.738/08 que fixou o piso salarial nacional para os professores da educação básica, estabelecendo que, até 31/12/2009, os entes federados deveriam elaborar ou adequar seus Planos de Carreira e Remuneração do Magistério. A Resolução CNE/CEB n. 2/2009 orientou sobre os princípios e aspectos que deveriam ser observados nesses planos. A Resolução promoveu a articulação entre as diferentes políticas de ação do MEC, dentre as quais se destacam a Lei do Fundeb e a Lei do Piso Salarial de professores dentre os diferentes entes federados.
Muito embora a Resolução do CNE não tenha o caráter de lei, ela expressou uma perspectiva norteadora, evidenciando aspectos importantes para a constituição dos processos educacionais escolares dos quais os profissionais do magistério são concebidos como essenciais.
Importante se faz chamar a atenção para alguns dos aspectos que compõem essa Resolução. No que se refere à remuneração, o Conselho Nacional de Educação validou as disposições pertinentes à lei do piso salarial profissional nacional, tendo por base a Lei n. 11.738/2008, enfatizando o reconhecimento quanto à importância da carreira dos profissionais da educação, com vistas à equiparação salarial do profissional docente com os demais da categoria, que tinham as mesmas exigências formativas iniciais; além da preferência pela jornada integral de 40 horas semanais, com necessária ampliação das horas a serem dedicadas
à realização das atividades de planejamento educacional e outras voltadas para o ensino e à cultura; incentivou a dedicação exclusiva a uma unidade escolar; a efetiva participação de todos os profissionais da educação no projeto educativo da escola e sua avaliação; aumento e intensificação dos apoios técnicos e financeiros, com vista à melhoria das condições de trabalho e à integração das redes de ensino no que se refere às políticas formativas, de maneira a propor uma articulação entre as esferas de gestão nos diferentes aspectos administrativos.
A Lei n. 11.738/2008 também propôs que fossem supridas as vacâncias, por meio de concursos públicos, assim como cumprimento do piso salarial, de forma a assegurar a revisão salarial anual, além de criar e manter uma comissão paritária de profissionais da educação e gestores, membros da comunidade escolar e responsáveis pela análise das condições de trabalho, objetivando o bom desempenho profissional e, sobretudo, a qualidade da educação. Chama a atenção para a necessidade da existência de regras claras no que se refere ao cálculo dos proventos dos servidores, assim como à aposentadoria, a partir do regime do serviço público.
A mesma legislação estabeleceu ainda a obrigação de promoção, na rede escolar, de uma relação numérica adequada no que se refere ao professor-estudante, de forma a conformar as características dos educandos em cada modalidade de ensino, a partir de regras claras, para a ocupação dos cargos, de forma a garantir o exercício da democracia. Por fim, chamou a atenção para a necessidade de estabelecer, por propostas curriculares e composição dos cargos, um quadro de lotação de pessoal, a fim de que tornar possível a previsão de concursos para remoção ou ingresso.
No artigo 4º, da Resolução CNE/CEB n. 2/2009, ganhou destaque a necessidade da formação continuada dos profissionais, levando-se em conta a constituição das horas de trabalho pedagógico de caráter coletivo, entendidos enquanto espaço de formação do profissional da educação; da mesma forma garantiu, na rede, a oferta de programas permanentes e regulares de formação continuada de diferentes naturezas; instituiu mecanismos de concessão de licenças para formação continuada dos docentes, de forma a não ferir os interesses da aprendizagem dos alunos.
As licenças sabáticas por período de média duração, com remuneração para a formação, foram indicadas, desde que tivessem por base regras claras e obedecidas a prerrogativas legais. Dessa questão deveria decorrer a constituição de incentivos de
progressão na carreira por qualificação para o trabalho profissional, agregando a avaliação de desempenho do profissional do magistério, assim como do sistema de ensino.
No que se refere à avaliação de desempenho profissional, a Resolução chamou a atenção para o fator objetividade, realizando a recomendação da enunciação, nos planos, dos requisitos que possibilitassem a análise de indicadores, tanto dos aspectos qualitativos quanto quantitativos.
Destacou a necessária transparência em todo o processo avaliativo, propondo-se “que o resultado da avaliação possa ser analisado pelo avaliado e pelos avaliadores, com vistas à superação das dificuldades detectadas para o desempenho profissional ou do sistema”, devendo ser encaminhado de acordo com os princípios de participação democrática dos profissionais inseridos no processo na organização do processo de avaliação, assim como na abrangência das áreas de atuação da rede escolar no processo avaliativo (art. 4º, inc. XVI). Tal processo de avaliação deve ser, da mesma maneira, detalhado e contar com a participação efetiva dos profissionais, para o estágio probatório.
Dourado (2009, p. 134) chama a atenção para o fato de que não se pode esquecer que “No âmbito da política, há, por vezes, o descompasso entre a concepção mais abrangente e a proposição mais restrita – e sua materialização acaba por ser ainda mais estreita”. Como reflexões oriundas das análises que realiza em seu artigo, o mesmo autor lembra que “As Diretrizes Nacionais para os Planos de Carreira dos Profissionais da Educação avançam, mas de forma datada e localizada. Há que avançar um pouco mais”, afirmando que não se pode apenas contemplar a luta pela reelaboração e implementação dos planos por cada ente federado, mas se faz importante prosseguir no que se refere à:
[…] regulamentação do regime de colaboração, da construção do novo plano direcionado a todos os trabalhadores em educação (professores e funcionários) e sua discussão da materialização das conquistas para todos os trabalhadores em educação – temas a serem pautados pela própria CNTE. (DOURADO, 2009, p. 143).
Monlevade (2000) assevera que a discussão em torno do piso salarial é primordial e trata-se de uma reivindicação de longa data, solicitada pelos profissionais na área da educação. O autor também considera que:
O Piso, além de seu conceito formal, adquire um duplo desafiante sentido. Primeiro o de "segurar" como indica a palavra, pois o valor do salário do professor, corroído pela inflação que caracterizava os tempos da Constituinte de 1.987-88 ameaçado pelo aumento da demanda de matrículas e professores, desproporcional à oferta de recursos financeiros arrecadados pelos Poderes Públicos. Segundo, o de nivelar num patamar de "dignidade
profissional" o valor social do professor, desfigurado pela miséria e pelas diferenças salariais no território brasileiro (MONLEVADE, 2000, p. 111). Partilha-se da compreensão do mesmo autor, para o qual a valorização do professor procede de três fatores:
• Da formação intelectual e ética do professor para desafios do seu trabalho com crianças, adolescentes, jovens e adultos do Brasil real, do Brasil inteiro, e não do país particular.
• Da constituição de uma identidade profissional (e não de várias subcategorias que se estranham), dada não só pelo saber científico como pela luta e organização sindical, que redunde em autoestima e reconhecimento social.
• De uma decisão política do estado para tirar os entraves que impedem nas condições de hoje o pagamento pelos Estados e Municípios de salários dignos balizados por um PSPN calculado para a jornada integral e dedicação exclusiva do professor na escola (MONLEVADE, 2000, p. 282).
Nessa ótica, cabe aos docentes e suas entidades representativas (sindicatos e associações) dar continuidade à luta para implementação de políticas públicas de valorização do Magistério Público.
Em consonância com o Fundeb, foi aprovada a Resolução n. 2/2009, do Conselho Nacional de Educação de 28 de maio de 2009, que fixou as Diretrizes Nacionais para os Planos de Carreira e Remuneração dos Profissionais do Magistério da Educação Básica Pública, em conformidade com o artigo 6º da Lei n. 11.738 de 16 de julho de 2008, e com base nos artigos 206 e 211 da Constituição Federal, assim como nos artigos 8º, parágrafo 1º, e 67 da Lei n. 9.394 de 20 de dezembro de 1996, e no artigo 40, da Lei n. 11.494 de 20 de junho de 2007. Essa Resolução foi elaborada com base no Parecer do Conselho Nacional de Educação/Câmara de Educação Básica - CNE/CEB n. 9/009, homologado pelo Ministro de Estado da Educação.