NOVIDADE DA LÓGICA DIFUSA
Conforme já exposto, a exposição realizada a seguir pretende apresentar como a lógica se mostrou, ao longo da história da filosofia e da ciência ocidentais, uma perseguição pela
verdade, pela coerência e pela certeza.
Esclareça-se que não se trata de uma história vasta e completa da lógica, porque, "por mais que nos empenhemos em reconstruir o passado, só alcançaremos esse objetivo em parte"272. Também não é objetivo exaurir a história da lógica. Na realidade, buscam-se somente os elementos necessários para a compreensão da relevância da lógica difusa como meio da ruptura epistemológica que se propõe neste trabalho273. A verdade é que "somos sempre seletivos na busca pelo passado"274.
As escolhas ainda devem ser assumidas em relação aos recortes no tempo e no espaço. A lógica de que aqui se trata é a ciência desenvolvida no Ocidente e os marcos temporais são os convencionados para a sua história.
Também não se encontrará neste trabalho uma pesquisa típica de lógica jurídica, ou seja, dos debates acerca da possibilidade de uma lógica deôntica, já que há um consenso entre os filósofos de que normas não possuem valor de verdade275. Mesmo que esta tese trate de compatibilização de normas jurídicas no domínio dos direitos humanos, a abordagem aqui não é da possibilidade da construção de uma lógica deôntica como uma lógica de proposições normativas ou da ampliação do conceito de lógica a ponto de possibilitar uma
272 BOSCHI, Caio César. Por que estudar história? São Paulo: Ática, 2007, p. 21.
273 "A reconstrução histórica é intrinsecamente uma tarefa seletiva e interpretativa, e sem dúvida é a prévia
posição filosófica adotada pelo historiador da ciência que agirá como um dos instrumentos mais importantes de seleção e interpretação" ÉVORA, Fátima Regina Rodrigues. História e filosofia da ciência: uma dependência necessária? In: ÉVORA, Fátima Regina Rodrigues (org.). Século XIX: o nascimento da ciência contemporânea. Campinas: CLE/UNICAMP, 1992, p. 3-20, p. 9.
274 BOSCHI, Caio César. Por que estudar história? São Paulo: Ática, 2007, p. 21.
275 "Todavia, de um lado, há um consenso entre filósofos, com raras exceções (Kalinowski, 1975), de acordo
com o qual normas (discurso prescritivo) não possuem valores de verdade." MARANHÃO, Juliano Souza de Albuquerque. Lógica e ontologia das normas. In: Revista Brasileira de Filosofia, ano 58, n. 233, jul- dez/2009, p. 7-38, p. 16.
lógica de normas276. Conforme já explicitado, pretende-se verificar as repercussões de uma mudança de perspectiva acerca dos valores de certeza e verdade para a percepção da realização dos direitos humanos universais como aproximação de normas em escala global. Ademais, não se pode olvidar que o termo “lógica” foi utilizado de formas diversas ao longo do tempo. O que foi a lógica para os escolásticos não é a lógica dos matemáticos dos séculos recentes. É certo que, como salienta Bantes,
Ao abordar a história da lógica, deve-se ter presente que o termo 'lógica' e seus cognatos foram aplicados a muitos objetos diferentes daquele que examinamos e, por outro lado, que este objeto já foi designado por termos outros que não 'lógica'. Ainda que nos julgássemos capazes de tanto, seria de interesse reduzido traçar a história simultânea de todos os tópicos de epistemologia, metafísica, psicologia, sociologia e filologia que, nesta ou naquela ocasião, foram colocados sob a epígrafe 'lógica'. O propósito em vista é apenas o de esboçar a história do que nós chamamos de 'lógica'... (grifos nossos)277
Assim, o propósito é apenas esboçar "a história do que nós chamamos de lógica". Então, é preciso perguntar o que se chama de lógica no presente trabalho. Na esteira de Susan Haack, adota-se “lógica” num sentido amplo, de teoria do que é bom em matéria de
raciocínio278. Nas palavras de Haack,
É bastante claro a partir da história da lógica formal (considere-se Aristóteles, por exemplo, ou Frege) que a motivação para a construção de sistemas formais foi, com base em uma concepção inicial de alguns argumentos como bons e outros como ruins, separar aspectos lógicos de outros aspectos, por exemplo, retóricos, dos bons argumentos, e dar regras que admitissem apenas os argumentos logicamente bons e excluíssem os ruins. (grifos nossos)279
Então, a lógica cuja história será esboçada é a ciência da legitimidade do raciocínio, da
coerência, da correção280. Além disso, a compreensão da lógica nesses termos a aproxima
276 BULYGIN, Eugenio. Lógica deóntica. In: ALCHOURRÓN, Carlos E. Lógica. Madrid: Trotta, 2005, p.
129-141.
277 MATES, Benson. Lógica elementar. Tradução de Leônidas H. B. Hegenberg e Octanny Silveira da
Mota. São Paulo: Editora Nacional e Edusp, 1967, p. 256.
278 "Dissimular o fato de que a lógica formal dedutiva – a lógica no sentido estrito, e, hoje, senso comum da
palavra – é apenas uma parte da lógica no sentido amplo de 'teoria do que é bom em matéria de raciocínio' faz que seja fácil esquecer por que a lógica é relevante." HAACK, Susan. Filosofia das lógicas. Tradução de Cezar Augusto Mortari e Luiz Henrique de Araújo Dutra. São Paulo: Editora UNESP, 2002, p. 12.
279 HAACK, Susan. Filosofia das lógicas. Tradução de Cezar Augusto Mortari e Luiz Henrique de Araújo
Dutra. São Paulo: Editora UNESP, 2002, p. 296.
280 "Lógica investiga a relação de conseqüência que vige entre premissas e a conclusão de um argumento
legítimo (correto, válido) quando a conclusão decorre ou é conseqüência de suas premissas; caso contrário, será ilegítimo." MATES, Benson. Lógica elementar. Tradução de Leônidas H. B. Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. São Paulo: Editora Nacional e Edusp, 1967, p. 2.
muito da epistemologia e da metodologia, sendo certo que, em alguns pontos, a discussão dialogará com esses ramos científicos281. A realidade é que a lógica, como observação dos modos do raciocínio humano, interessa à filosofia e à matemática, mas também, por exemplo, aos juristas, psicólogos e cientistas da computação282. Logo, o estudo da lógica demanda o diálogo com diversas áreas.
Por outro lado, os riscos que se assumem ao efetuar uma retomada histórica de determinada ciência são enormes: reducionismo, evolucionismo e arbitrariedades de todo gênero. Então, por que assumi-los? Primeiramente, porque esta é uma tese elaborada no campo do direito e não é recomendável que se presuma que o público tenha conhecimento específico sobre a filosofia e a história da lógica. Em segundo lugar, porque "em certa medida, o aparecimento do sistema que agora denominamos 'lógica clássica' foi produto da história"283. Em terceiro lugar, após séculos de estabilidade, a lógica foi revolucionada no século XX, provocando uma releitura recente dessa ciência.
Nesse sentido, Blanché e Dubucs explicam que
Tem-se dito que toda a história é contemporânea. Consciente ou inconscientemente, projectamos sobre o passado, para o interpretarmos ou, simplesmente, para o descobrirmos, não só os novos conhecimentos, mas também e sobretudo os nossos interesses presentes e os nossos recursos conceptuais do momento. A história da lógica oferece-nos, como veremos, um bom exemplo disso. A renovação dessa disciplina, no nosso tempo, modificou a nossa perspectiva e já não é possível ver hoje a lógica de Aristóteles, a dos estóicos, a dos medievais e mesmo a dos modernos, de Leibniz a Boole inclusive, do mesmo modo como eram encaradas ainda no início do nosso século.284
É interessante esclarecer, desde já, que, em certo ponto da história, esse fascínio pela
certeza, representado na lógica, traduzir-se-á em uma obsessão matemática, que se
revelou em um duplo caminho: a tentativa de submissão da matemática à lógica
281 "A lógica pode subdividir-se em duas partes: A 'lógica geral' propõe-se o exame crítico do processos de
aquisição dos conhecimentos científicos (metodologia) e o próprio conhecimento, assim como princípios, leis gerais e teorias (epistemologia). A 'lógica formal' é consagrada à determinação do valor dos raciocínios, apoiando-se essencialmente na sua forma (e não no seu conteúdo)." BOLL, Marcel; REINHART, Jacques. A história da lógica. Tradução de A. J. Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1992, p. 9.
282 "Models of human reasoning are clearly relevant to a wide variety of subject areas such as sociology,
economics, psychology, artificial intelligence and man-machine systems." GAINES, Brian R. Foundations of fuzzy reasoning. In: International Journal of Man-Machine Studies, v. 8, 1976, p. 623-668, p. 623.
283 HAACK, Susan. Filosofia das lógicas. Tradução de Cezar Augusto Mortari e Luiz Henrique de Araújo
Dutra. São Paulo: Editora UNESP, 2002, p. 14.
284 BLANCHÉ, Robert; DUBUCS, Jacques. História da lógica. Tradução de António Pinto Ribeiro e Pedro
(logicismo) e o desenvolvimento de linguagens artificiais para a lógica, nos moldes da linguagem matemática (logística). O que motivou esse movimento foi a crença comum no mundo científico de que a matemática, como ciência, "é, sem dúvida, a mais perfeita e rigorosa de todas"285.
Mas até mesmo a matematização da lógica (ou a 'logicização' da matemática), paradoxalmente, ajudou a mostrar que a saga pela precisão não levava à conquista do objetivo, qual seja, a certeza e coerência totais, já que "não se pode querer fundamentar (recorrendo-se a processos positivos e racionais) a matemática de uma vez por todas sobre alicerces firmes e definitivos"286. Foi preciso, então, repensar o objeto, levando-se a crer que a lógica, em si, ironicamente, acaba por incorporar a incerteza, ou seja, o que é bom
em matéria de raciocínio tem limites difusos.
285 COSTA, Newton Carneiro Affonso da. Introdução aos fundamentos da matemática. 2ª ed. São Paulo:
Hucitec, 1977, p. 45.
286 COSTA, Newton Carneiro Affonso da. Introdução aos fundamentos da matemática. 2ª ed. São Paulo: