Le Goff (2012), em seu livro História e memória, considerou a memória o elemento essencial da identidade individual ou coletiva e também um instrumento de poder:
Tornarem-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva (LE GOFF, 2012, p. 408).
Para o autor, toda história deve ser uma história social. Neste trabalho, utilizei essa referência, no sentido de apresentar suas reflexões ao tema da memória, embora seu trabalho tenha abarcado diversos conteúdos, com um olhar crítico da História, fundamental no presente debate sobre a História em oposição à memória.
O autor utilizou a expressão: “O documento é monumento” para expor sua crítica sobre a noção de documento, pois não considerou um material “inocente”, objetivo, e sim resultado de um processo de construção do historiador a partir de seus pressupostos teóricos. Compreendeu que não bastava falar sobre os silêncios da historiografia tradicional, avaliou ser necessário questionar a documentação histórica sobre as lacunas, os esquecimentos. “[...] esta história lenta que encontramos na cultura ‘popular’ é, com efeito, uma espécie de anti-história, na medida em que se opõe à história ostentatória e animada dos dominadores” (LE
No mesmo sentido que Le Goff, encontrei a obra de Neves (2000) para a compreensão do conceito de memória na presente dissertação A autora procurou dissecar o conceito de memória para posteriormente abordar seu aspecto relacional com a identidade. Para Lucília (2000), “a memória é uma forma de preservação e retenção do tempo, salvando-o do esquecimento e da perda” (NEVES, 2000, p. 109).
Porém a construção da lembrança ocorre no momento presente, o ato de lembrar é a forma como o indivíduo de hoje recorda um fato do passado, com a oportunidade de olhar para trás e enxergar esse caminhar das experiências e identificações que o guiaram, que o constituíram como o sujeito que é na atualidade. Ao abordar a memória como a capacidade de lembrança do indivíduo, a relacionaríamos também com as identidades dos sujeitos históricos.
Neves (2000) descreveu a função de outro tipo de memória, ligada à coletividade de sujeitos, destacando assim, sua função social de dar suporte à identidade coletiva. Deste modo, tem-se a definição dada pela autora, de que a memória social se estabelece por meio de mitos fundadores, dos quais são produzidas diferentes formas de registro.
Para a relação entre História e memória, Neves (2000) apresentou um levantamento histórico sobre o tema, desde os tempos antigos, situando o papel de cada uma na produção de fontes e considerou que a História disciplina a memória, pois retira dela seu caráter espontâneo. Considerou que são duas as formas da história e a memória se relacionarem. Para os objetivos do presente texto, optei por utilizar o referencial da primeira alternativa: a memória como uma das fontes de informação e construção do saber histórico. A saber, a segunda forma aproxima a História da cultura erudita. Apesar de localizar as duas formas possíveis de articulação entre memória e História, Neves (2000) desconstrói a ideia de oposição entre elas e as considera complementares.
“Memória e História são processos sociais, são construções dos próprios homens – que tem como referências as experiências individuais e coletivas inscritas nos quadros da vida em sociedade” (NEVES, 2000, p. 113).
A memória é também o registro da pluralidade, das múltiplas raízes do ser humano, e assim funciona também como antídoto do esquecimento, e em especial na atualidade, em que a sociedade parece viver um processo de desenraizamento.
Sobre as narrativas, Delgado (2010) descreveu como importantes instrumentos de preservação e transmissão das tradições e heranças identitárias, e considerou-as importantes como estilo de transmissão das experiências mais simples da vida, do cotidiano, passadas de geração a geração, “são suportes das identidades coletivas e do reconhecimento do homem como ser no mundo” (DELGADO, 2010, p. 43).
Neste sentido, alerta para a velocidade e superficialidade das relações no mundo contemporâneo, avaliando que os narradores espontâneos que fazem das lembranças “lastros de pertencimento e sociabilidade”. Ainda ao tratar das narrativas, considerou as produzidas pela história oral – narrativas históricas – como referências cronológicas mais próximas de um tempo recente.
Sobre o desenraizamento, a referência foi a obra de Bosi (2003), que aborda a questão do desenraizamento como condição desagregadora da memória. Atribuiu aos processos migratórios e como Neves (2000) à questão da sociedade moderna e de consumo. Considerou o processo contrário, de enraizamento, possível na sociedade atual, e viu na liturgia, a saída para o problema:
O enraizamento é um direito humano esquecido, O migrante vem chegando à cidade com as raízes partidas: a liturgia poderia enraizá- lo, criar e reviver tradições valore, lembranças que dão sentido à vida (BOSI, 2003, p. 208).
Para Bosi (2003), existem dois princípios enraizadores: o alimento e a música. Avaliou que a celebração do culto envolve ambos. E utilizou o Candomblé como exemplo: “ O Candomblé enraíza profundamente, uma vez que integra o batuque e o canto, a oração e a dança” (BOSI, 2003, p. 204).
Portelli (1997) escreveu sobre a memória social e procurou evitar o termo coletivo, por compreender que há sempre uma influência do meio social em que o indivíduo se inscreveu. porém a lembrança se reportou a ele, ao modo como se expressou, “ o ato e a arte de lembrar” (PORTELLI, 1997, p. 16).
Considerou que “a memória é um processo individual, que ocorre em um meio social dinâmico, valendo-se de instrumentos socialmente criados e compartilhados”
(PORTELLI, 1997, p. 17). A partir deste referencial, em que Portelli se refere à sociedade contemporânea, os relatos orais dos diferentes sujeitos revelam “fragmentos de muitas recordações sociais diferentes” (PORTELLI, 1997, p. 16) e isso os diferencia – o prisma a partir do qual os sujeitos interpretam suas lembranças.
Desta forma, Portelli denominou de experiência multivocal a possibilidade ofertada pela história oral de ouvir sobre uma determinada lembrança por diferentes vozes.