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No ano de 2008, quando os Estados Unidos começaram a manifestar os primeiros sintomas da crise econômica, alguns enunciados passaram a circular em diversos suportes midiáticos. Entre eles, a internet sem dúvida foi um dos meios em que se viu uma regularidade de textos em diferentes

materialidades circular. Quase três anos depois, notamos um recorrente número de enunciados com os sintagmas “grande crise”, “crise econômica”, “crise americana”, “crise financeira internacional”, “crise no setor imobiliário” etc. do ponto de vista verbal. Estamos falando de sintagmas vinculados a cadeias sintáticas de enunciados produzidos dentro de (ou em

relação a) uma mesma formação discursiva; não estamos tratando de outras FDs que passaram a ter enunciados com a palavra crise ou termo similar provocados pelo enunciado origem “crise americana”.

Por outro lado, em volume tão expressivo quanto aquele dos enunciados verbais de que tratamos há pouco, circulou também um expressivo número de desenhos, pinturas, charges, cartuns etc. mobilizados pelo mesmo acontecimento. Nessa conjuntura em que milhares de novos enunciados surgem compondo uma rede interdiscursiva – já que cada

Figura 4.3: Charge American dreams (internet)

115 um vem contagiado por outros enunciados -, emerge uma charge postada em um blog31 para compor o inapreensivo arquivo de tudo aquilo que pôde ser dito e ser mostrado sobre a crise econômica internacional. O mais curioso é que os mesmos enunciados verbais e alguns icônicos da fotografia de Bourke-White voltam a circular, compondo o eixo sintagmático do texto misto presente na charge (Cf. Figura 4.3).

A atualização da fotografia de 1929 traz outros signos como uma lancha em vez de um carro, três pessoas brancas idosas com face derrisória no veículo, a paisagem urbana ao fundo em vez de campesina, a fala do condutor What’s to go wrong?32

, a bandeira americana na proa da lancha e os sujeitos em fila quase totalmente submersos em um rio. As próprias cores vermelha, azul e branca reforçam os símbolos estadunidenses já presentes na bandeira. A contradição presente no discurso da charge se evidencia entre os sujeitos da fila e os que viajam na lancha como se estes estivessem a passar por cima daqueles (tal como na foto de Bourke-White); mas não percebendo a condição a que se encontram, questionam “o que há de errado com eles?” Quase 80 anos depois, os enunciados WORLD'S HIGHEST STANDARD OF LIVING e There's no way like the American Way reaparecem mantendo sua mesma estruturação sintática. O que mudou? A formulação, decerto, em nada mudou, mas seu sentido já não é mais o mesmo por algumas razões: a) as condições sócio-históricas que possibilitaram seu reaparecimento não são mais as mesmas, ainda que se trate de uma crise de ordem aparentemente semelhante à do ano de 1929; b) os sujeitos do discurso já não são os mesmos; c) a relação que estes enunciados mantêm com outros sistemas semiológicos no conjunto da materialidade também é distinta daquela vista na fotografia, até porque aqui já não se trata da mesma materialidade por ser uma charge; e, finalmente, d) pelo fato de a enunciação ser singular a cada momento em que um enunciado é posto em funcionamento. Podemos ainda exemplificar com as próprias palavras de Foucault (2001b), ainda que ele esteja tratando de uma frase como enunciado produzido diferentemente no interior de um outro discurso – o literário – este é também constituídos por diversos enunciados igualmente heterogêneos, por diversos saberes de uma cultura:

31 Blog: Disponível em:

<http://www.democraticunderground.com/discuss/duboard.php?az=view_all&address=105x3967067>. Acesso em: 20 set. 2010.

116 As duas frases “Durante muito tempo deitei cedo” e “Durante muito tempo deitei cedo”, a primeira sendo uma frase que eu digo e a segunda sendo a que leio em Proust, embora verbalmente sejam exatamente idênticas, são, na realidade, profundamente diferentes. A partir do momento em que ela é escrita por Proust no limiar de Em busca do

tempo perdido, pode ser que, em última análise, nenhuma dessas

palavras tenha exatamente o sentido que lhes damos quando as pronunciamos cotidianamente, pode ser que as palavras tenham suspenso o código de onde foram retiradas. (FOUCAULT, 2001b, p. 159)

Do mesmo modo que o filósofo concebe o enunciado para a análise do discurso na literatura e o difere da enunciação, aqui podemos olhar para os enunciados verbais nas duas situações históricas de uso e compreender as razões porque manifestam outras leituras. Conforme Courtine (2009), a formulação difere da enunciação justamente no que diz respeito à historicidade. O enunciado, como dissemos no segundo capítulo, tem uma espessura histórica; a formulação não, já que é próprio do sistema semiológico, e só concebemos seus efeitos se a analisamos a partir do interdiscurso.

Se antes a promessa de um mundo melhor, um modo de vida único e promissor sem o qual nenhum outro sujeito estaria feliz e seguro senão vivendo nos EUA faz parte do discurso publicizado no outdoor contraposto com as condições subumanas daqueles que esperavam por alimentos; na charge, a contradição se evidencia com mais destaque, uma vez que outros sujeitos, na contemporaneidade, vitimados pelos efeitos da crise e, por extensão, do capitalismo já não somente esperam por melhores condições de vida, mas clamam por salvamento pelo fato de estarem afundando.

Os signos visuais do enunciado (lancha, água, homens afundando) sugerem, no mínimo, duas possíveis leituras em conflito: de um lado, a tentativa de salvamento de pessoas a ponto de perder a vida; de outro, o veículo que ameaça passar por cima destas pessoas, afundando-os ainda mais. Mas são os signos linguísticos em relação aos signos icônicos que definem a ironia da charge, pondo em questão a ideia de mais alto padrão de vida do mundo, o que reduz o saber posto em anúncio a uma espécie de piada.

Nos subitens a seguir, daremos uma atenção maior à materialidade levando em conta a especificidade da linguagem. Comecemos com a linguagem mista que constitui o texto publicitário com objetivos governamentais (produto de uma dada campanha de governo), depois o texto misto em forma de charge e de tirinhas. O texto analisado anteriormente poderia, sem nenhum problema metodológico, aparecer nas análises abaixo,

117 mas começamos por elas nos pontos acima para pensarmos na imagem como operadora de memória vinculada à fotografia com a qual começamos este capítulo.

4.3 Abordagem semiológica e discursiva em linguagens mistas

Benzer Belgeler