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O ensino das estratégias não pode se constituir em um programa de atividades determinadas e descontextualizadas, é preciso que seja feito atendendo às características situacionais, com a finalidade de contribuir para o desenvolvimento de processos, enfatizando a autonomia e o planejamento do próprio sujeito na construção de metas e no desenvolvimento de suas competências e atitudes.

“Aprender não é somente adquirir um savoir-faire, mas também saber como fazer para adquirir saber” (MORIN, 1999, p. 68). É fundamental que a educação esteja orientada para promover aptidões e competências, e não apenas conhecimentos estanques. “Numa sociedade cada vez mais complexa, existe uma insistência crescente para que a educação deva estar dirigida para promover competências, e não só conhecimentos fechados ou técnicas programadas” (SIMÃO VEIGA, 2002a, p. 72).

O construto da auto-regulação da aprendizagem contribui para esta compreensão, auxiliada pelas estratégias de aprendizagem que estão organizadas para sistematizá-lo. Para isto, é preciso desenvolver estratégias coerentes com a proposta pedagógica, considerando a concepção de educação; enfrentar o desafio de criar condições favoráveis ao desenvolvimento da aprendizagem regulada, encaminhada e avaliada pelo aprendiz; refletir sobre os aspectos que podem concorrer para uma intervenção mais adaptada sobre estratégias de aprendizagem, englobadas num processo auto-regulatório mais abrangente.

O termo estratégia de aprendizagem é entendido como “processos de tomada de decisão (conscientes e intencionais) pelos quais o educando-trabalhador escolhe e recupera, de maneira organizada, os conhecimentos de que necessita para completar um determinado pedido ou objetivo, dependendo das características da situação educativa na qual se produz a ação” (MONEREO et al., 1995, p. 25). Veiga Simão (2006a) destaca que as estratégias de

aprendizagem são distintas das técnicas de estudo. Estas dizem respeito a atividades mentais que facilitam e desenvolvem os diversos processos de aprendizagem escolar. Elas são sempre “conscientes e intencionais, dirigidas para um objetivo relacionado com a aprendizagem” (op. cit., 2002, p. 73). A estratégia é considerada um guia de ações e, ao organizá-la, o educando- trabalhador aprende a fazer relações significativas entre o que sabe e o que busca saber, decidindo de que forma e como organizar os procedimentos para realizar tal atividade.

Segundo Veiga Simão (2006), a utilização das estratégias de aprendizagem “requer um sistema de auto-regulação que se fundamenta na reflexão consciente que o estudante faz ao explicar o significado dos problemas que vão aparecendo e ao tomar decisões sobre a sua possível resolução numa espécie de diálogo consigo mesmo” (p. 77). O aprendiz, ao eleger uma estratégia, passa a regular sua ação e a se orientar através dela, podendo, a qualquer momento, avaliar o seu percurso.

Um dos propósitos da aprendizagem auto-regulada é conferir papel central ao uso de estratégias, às atribuições dos indivíduos e à sua percepção de competência. Isto envolve múltiplos processos, como: definição de objetivos; planejamento estratégico; recursos e estratégias para organizar, codificar e fornecer informação; monitoramento e metacognição; metodologia; controle da ação; gestão efetiva do tempo e do ambiente físico e social; crenças de automotivação (auto-eficácia, expectativas dos resultados, interesse intrínseco, orientação dos objetivos); avaliação; auto-reflexão (ZIMMERMAN, 2000).

As estratégias de aprendizagem confirmam que os aprendizes para que possam ser independentes, criativos, com capacidade para desenvolver estratégias de soluções para problemas. Com a intervenção docente adequada na construção destas estratégias, os aprendizes podem melhorar o rendimento cognitivo e superar supostos limites, às vezes, denominados dificuldades de aprendizagem. O fracasso na realização de uma proposta de trabalho, geralmente, conduz a mais um fracasso profissional, se o sujeito não estiver preocupado em analisar e refletir sobre como e por que agiu de determinada maneira. Romper este círculo vicioso é uma necessidade prioritária e a estratégia relacionada à auto- regulação da aprendizagem se apresenta como alternativa para isto. A reflexão auto-regulada oportuniza ao sujeito o redimensionamento de sua ação.

As estratégias dizem respeito a operações ou atividades mentais que facilitam e desenvolvem os diversos processos de aprendizagem escolar. Através das estratégias, podemos processar, organizar, reter e recuperar o material informativo que temos que aprender, cada vez que planificamos, regulamos e avaliamos esses mesmos processos em função do objetivo previamente traçado ou exigido pelas especificidades da tarefa (VEIGA SIMÃO, 2002b, p. 74).

As estratégias de aprendizagem metacognitivas supõem a capacidade de controlar e regular os processos mentais. Segundo Frison e Schwartz (2006), além de conhecer as demandas e as características da tarefa, as características pessoais e as estratégias que se pode utilizar, é preciso também regular e controlar o curso cognitivo para poder realizar a tarefa até o final. Escolher, selecionar e decidir quando, como, onde e por que utilizar uma estratégia e não outra, para alcançar uma meta, passa a ser desafiador e relevante para o pedagogo. Com o desenvolvimento das habilidades metacognitivas, o que se pretende também é contribuir para que o aprendiz utilize, construtivamente, seus conhecimentos prévios. Aprenda a selecionar as informações, sistematizá-las, estabelecer relações, utilizando-as produtivamente na construção do pensamento.

A finalidade é integrar novas propostas de ação, investir na construção de estratégias e organizar, a partir das necessidades evidenciadas pelos sujeitos, um planejamento de estudo que corrobore a (re)organização de sua carreira. Todas estas ações e intervenções possíveis na atuação do pedagogo se desvelam viáveis à aprendizagem auto-regulada e podem ocorrer em qualquer área de ensino. O desafio da aprendizagem auto-regulada consiste em desenvolver atividades, experiências, estratégias, metodologias, instrumentos, propostas de trabalho, ao longo dos programas de formação e de qualificação, que possam contribuir para a aquisição e a manutenção da aprendizagem. Para que isso aconteça, é necessário definir quais as estratégias importantes a serem ensinadas, quando ensiná-las, como ensiná-las e o quê e como avaliar.

A aprendizagem como atividade estratégica supõe que os sujeitos estejam conscientes dos seus motivos, intenções, competências cognitivas e das exigências das tarefas, sejam capazes de regular os próprios recursos para o desenvolvimento de suas ações. Elaborar e avaliar atividades e experiências de aprendizagem, bem como construir metodologias, instrumentos, propostas de trabalho, exercícios, esquemas e pautas pedagógicas exigem bastante cuidado, porque ensinar apenas um conjunto de táticas e técnicas específicas que o sujeito emprega de forma automática e rotineira não leva à aprendizagem auto-regulada.

O ensino das estratégias de aprendizagem não se concretiza na forma de um programa explícito, descontextualizado, mas exige do profissional educador/pedagogo responsabilidade e envolvimento com as necessidades desveladas pelo aprendiz, quer estejam ligadas à formação de competências ou ao desenvolvimento de habilidades específicas. Quando um aprendiz ajusta continuamente suas ações em função de mudanças, em

decorrência da construção da tarefa, com a finalidade de atingir o objetivo de forma mais eficaz, ele está utilizando estratégias de aprendizagem (VEIGA SIMÃO, 2002b).

A introdução das estratégias de aprendizagem tem como finalidade contribuir para o desenvolvimento dos processos de auto-regulação, enfatizando e estimulando a promoção da autonomia e o controle do sujeito na organização de propostas que promovam a aprendizagem comportamental, metacognitiva, motivacional e volitiva.

As estratégias de aprendizagem são definidas como processos, planos de ação, gerais e específicos, que, na realização de diferentes tarefas intelectuais, servem de base para mediar a construção das aprendizagens. As estratégias, como mostram Paris et. al. (1990), são habilidades, capacidades, competências ou ações que o sujeito seleciona e utiliza para alcançar metas particulares.

Perrenoud (1999a) salienta que é preciso desenvolver a possibilidade desaber e saber fazer em situação. Estratégias de aprendizagem são processos que contribuem para a compreensão e a transposição da informação em diferentes contextos, contribuem para a escolha da ação efetiva.

A consciência das variáveis pessoais abrange os conhecimentos, as crenças de quem a pessoa é e como ela é, que habilidades reconhece em si, a percepção de auto-eficácia, expectativas de rendimento e possibilidade de controle. Conhecer as características de desenvolvimento de estratégias de aprendizagem contribui para determinar o que se deve fazer para resolver a tarefa e previne determinadas estratégias equivocadas ou outros recursos que se pode mobilizar.

A percepção das variáveis que influem na tarefa específica refere-se ao conhecimento das estratégias cognitivas, metacognitivas e procedimentais que podem contribuir para o desenvolvimento das tarefas necessárias para a construção da aprendizagem sistematizada que se deseja atingir. A intervenção do educador ocorre no sentido de encaminhar o pensamento do aprendiz para lembrar as estratégias que já construiu e para, através delas, solucionar problemas semelhantes. Ao perceber que o aprendiz não sabe por onde iniciar a resolução da tarefa, o educador pode fazer perguntas desafiadoras no sentido de orientar o pensamento ou a memória para estratégias já conhecidas.

Através dos processos mentais é possível controlar e regular as estratégias de aprendizagem desde o início até o final da tarefa e, para tal, utilizam-se as habilidades metacognitivas, que contribuem para que o aprendiz construa efetivamente seus conhecimentos e aprenda a selecionar informações necessárias para sistematizar, relacionar, e estabelecer relações na construção de pensamento. (Re)aprender a aprender não é somente

sinônimo de desenvolver habilidades específicas para o estudo, mas inclui ser capaz de organizar, dirigir e controlar os processos mentais, mobilizando-os para as diferentes demandas do contexto, sendo este o papel do educador: ensinar o educando-trabalhador a reaprender a aprender.

As estratégias de aprendizagem são inseparáveis dos processos de ensinar e de aprender, o que requer do educador/pedagogo conhecimentos para organizar o ensino, os conteúdos, as técnicas, os procedimentos, as estratégias necessárias para intervir em situações concretas.

O conhecimento de si mesmo, o controle do esforço, a persistência na resolução da tarefa, no que está implicada a vontade, são características importantes para a produção de pensamentos, pois se está pavimentando um caminho (interminável) entre o não saber e o saber, e isto requer esforço, desejo e, conseqüentemente, motivação para realizá-lo.

Segundo Perrenoud (1999a), nem todas as intervenções, cuja intenção é reguladora, estimulam da mesma maneira e no mesmo grau os mecanismos de auto-regulação do sujeito. Existem inúmeras vias pelas quais se pode tentar influenciar os processos mentais de outras pessoas – estímulo, gosto, emoção, coragem – mas boa parte dessas tentativas está fadada ao fracasso, porque se fundamentam em teorias inadequadas. Apostar na auto-regulação consiste em reforçar as capacidades de o sujeito gerir seus projetos, seus progressos, suas estratégias diante das tarefas e dos obstáculos. A auto-regulação da aprendizagem supõe que o aprendiz tenha um motivo forte, um verdadeiro desafio, o desejo de saber e a decisão de aprender que o sensibilizem profundamente.

Se o aluno não aprende por si mesmo, se suas incompetências e suas insuficiências em leitura ou em expressão escrita não o perturbam pessoalmente, não o impedem de fazer o que quer, ele só avançará ao sabor das chamadas externas à ordem, pois para ele não há desafio, salvo talvez um proveito ambíguo: antecipar as expectativas dos adultos, pais e professores, para lhes dar prazer, ter paz, ser recompensado (PERRENOUD, 1999a, p. 97).

É importante que o educador aprenda sobre o uso metacognitivo das estratégias de aprendizagem, sobre os requisitos necessários para que o sujeito aprenda, pois não se pode mais agir como se todas as pessoas tivessem constantemente vontade de aprender de modo espontâneo.

Resultados obtidos em diversos estudos (FLAVELL, 1979; VEIGA SIMÃO, 2004a, 2005a, 2006) mostram que os sujeitos que foram ensinados a utilizar estratégias obtém melhores resultados escolares, acreditam que o seu sucesso escolar depende do seu esforço pessoal. A metacognição é um componente crucial para o exercício da aprendizagem auto- regulada.

Muitos autores dizem que os sujeitos são motivados intrinsecamente para aprender a aprender, quando perseguem objetivos de aprendizagem, quando não têm medo de falhar, de inovar e quando o espaço no qual estão inseridos lhes oportuniza autonomia e competência, fatores essenciais para auto-regulação da aprendizagem. No entanto, quando, nestes lugares, existe muita pressão, cobrança e repreensões, as estratégias motivacionais podem ser de extrema cobrança, e provocar sentimentos de incompetência, de aversão às tarefas. Elas podem transformar o aprendiz em alguém extremamente preocupado e estressado, conduzindo-o ao fracasso.

Estudos, como o de Garcia e Pintrich (1994), identificam estratégias utilizadas pelos sujeitos para protegerem sua imagem, como se autovalorizarem frente a obstáculos para evitar o pessimismo defensivo, quando prevêem que os resultados não são favoráveis. A adoção de estratégias defensivas (esquecimento das tarefas, incapacidades pessoais, ficar muito nervoso) pode levar a pessoa à defesa constante e à internalização de condutas que não lhe são familiares.

Estas posturas dificultam a construção de estratégias motivacionais adequadas à auto-regulação bem sucedida. Muitas intervenções buscam estimular e motivar os sujeitos para que tenham competências compatíveis e adequadas ao desempenho esperado. A motivação é necessária para iniciar a ação escolhida, mas o controle da motivação só pode ser conseguido através do emprego de estratégias volitivas. As variáveis volitivas são responsáveis pelo nível de envolvimento na realização das tarefas, pois estimulam a procura de condições favoráveis à realização bem-sucedida de uma ação e ajudam a controlar emoções e sentimentos que possam desanimar ou causar ansiedade e interferir negativamente no percurso da ação. “As estratégias volitivas reforçam o caráter voluntário da ação auto- regulada” (LOPES DA SILVA, 2004a, p. 27). Os componentes motivacionais e metacognitivos juntam-se aos comportamentais, porque a auto-regulação de uma ação

exige que o indivíduo teste os procedimentos disponíveis, selecione as estratégias e os métodos mais eficazes, conjugue recursos pessoais, materiais e sociais na execução do plano estabelecido, promova alterações e correções quando os resultados não forem os desejados (LOPES DA SILVA, 2004a, p. 27).

É insuficiente saber fazer e como fazer para executar as tarefas, é preciso encontrar os procedimentos adequados, corrigir os que não possibilitam os resultados esperados. Esta ação é a auto-regulação. Ela ocorre quando se consegue exercer alguma espécie de controle sobre a própria ação, sobre a busca de opções para perseguir metas em função de seus interesses e valores; quando se planejam estratégias e procedimentos adequados para uma

ação; quando se vencem dificuldades e obstáculos; quando se avalia a própria ação para mantê-la ou modificá-la.

A capacidade de agir intencionalmente, de elaborar planos, de antecipar possíveis meios e resultados que possibilitem obter as metas desejadas por si, em numa ação individual, ou em parceria com outros, numa ação coletiva, pode ser definida como estratégias de auto- regulação da aprendizagem. Elas são utilizadas para auto-regular a aprendizagem e têm implicação direta com as questões: intencionalidade do estudo, sensibilidade ao contexto.

Veiga Simão (2006) destaca que é preciso elaborar e avaliar atividades para se ensinar com este enfoque estratégico. Definir junto aos educandos-trabalhadores apenas uma coletânea de técnicas que se empreguem de forma automática e rotineira levará ao esvaziamento do conteúdo e não à aprendizagem estratégica. Quando as metas são definidas por outras pessoas, o comportamento do sujeito aprendente passa a ser de submissão, de obediência e de autodirecionamento e, na maioria das vezes, não se transforma em saberes. A aprendizagem auto-regulada “é caracterizada por três características centrais: consciência do pensamento, utilização de estratégias e a manutenção da motivação” (VEIGA SIMÃO, 2006, p. 204).

Benzer Belgeler