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A criação do Departamento de Imprensa e Propaganda, pelo decreto-lei nº 1915, em 27 de dezembro de 1939, ligado diretamente ao governo, é a comprovação da importância que Vargas dava ao rádio, instrumento usado para divulgar as ações políticas, sociais, econômicas e, principalmente, para se dirigir ao

121 Op. Cit. FAUSTO, Boris. p. 69

122 Op. Cit. PANDOLFI, Dulce (org). p. 11

123 Movimento que defendia a Constituinte com Vargas e a sua permanência no poder até a promulgação da nova Constituição e das eleições.

povo brasileiro. Além disso, o órgão também cumpria o papel de censurar e controlar os veículos de comunicação que não eram governamentais. Para isso, foi destinado um censor para cada rádio a fim de que cada um acompanhasse a programação.

Dentro da organização do DIP havia seis divisões: Divisão de Divulgação, Divisão de Cinema e Teatro, Divisão de Turismo, Divisão de Imprensa, de Serviços Auxiliares e de Divisão de Radiodifusão que tinha determinadas competências, descritas no artigo 7º, como:

a) levar aos ouvintes radiofônicos nacionais e estrangeiros, por intermédio da Rádio-difusão oficial, tudo o que possa fixar-lhes a atenção sobre as atividades brasileiras em todos os domínios do conhecimento humano; [...] c) fazer a censura prévia de programas radiofônicos e de letras para serem musicadas; d) organizar um programa denominado "Hora do Brasil", que, realizado diariamente, será obrigatoriamente, retransmitido por todas as estações de "broadcasting" existentes no país; [...] f) difundir, ampla e sistematicamente, na 'Hora do Brasil", números musicais ou literários que manifestem o pensamento brasileiro; h) incentivar, através do Rádio, as relações comerciais entre o Brasil e os países estrangeiros, fornecendo aos mesmos dados estatísticos da nossa produção econômica, boletins comerciais e financeiros, bolsa do café e de outros produtos, devendo essas transmissões serem feitas em diversos idiomas, várias vezes por dia, em horas que a recepção seja mais fácil e cômoda aos ouvintes estrangeiros; i) irradiar, diariamente, além da "Hora do Brasil', um programa em idioma estrangeiro, em hora apropriada e determinada pelos países para os quais a irradiação se fará, em antena dirigido, devendo esse programa, além de números musicais, comportar a leitura de crônicas sobre as belezas naturais do Brasil, discrição pitoresca de regiões e cidades brasileiras, condições climatéricas do país e tudo o que possa constituir atração para o turista;124

Nas competências citadas acima estão descritas com detalhes as justificativas da censura aos programas radiofônicos e às músicas criadas pelos artistas e compositores, a obrigatoriedade da transmissão da Hora do Brasil e o uso do rádio com a finalidade de incentivar as relações comerciais entre o país e os países estrangeiros. Ainda entre as atribuições da Divisão de Radiodifusão pode-se destacar:

124 Decreto nº 5.077, de 29 de Dezembro de 1939, que aprovou o regimento do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).

j) levar, através do Rádio, às aglomerações que se acham situadas em zonas afastadas dos centros irradiadores de cultura do país, elementos capazes de aumentar o contingente de conhecimentos práticos necessários a uma evolução social rápida, obedecendo as seguintes condições: programas que facilitem a divulgação, de modo prático e atraente, das conquistas do homem em todos os ramos de suas atividades; [...] l) organizar programa radiofônico com o fim de divulgar os principais fatos da História do Brasil, assim como os feitos dos nossos grandes homens; m) transmitir, diariamente, a súmula dos atos oficiais, assim corno os boletins ministeriais, meteorológicos, movimento dos principais portos do país, etc.

n) autorizar previamente às emissoras nacionais a retransmissão de programas estrangeiros125.

O primeiro diretor nomeado do DIP foi o jornalista Lourival Fontes, que tinha dirigido o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural, criado em 1934, e o Departamento Nacional de Propaganda, que funcionou entre 1937 e 1939. A censura, feita pelos repreensores que se revezavam para acompanhar os três períodos de trabalho em cada rádio era tão forte, observa Haussen, que os profissionais começaram a se autocensurar e agir de maneira a ocultar determinadas informações, então proibidas. Em alguns momentos, o próprio censor indicava ao profissional que o programa deveria ser alterado para não ser censurado. Em outros, como os programas de humor e alguns humoristas, iam ao ar sem nenhuma restrição. Entre eles, exemplifica Haussen, estavam as duplas “Jararaca e Ratinho” e Alvarenga e Ranchinho” que “muitas vezes foram chamadas ao DIP para dar explicações. Mas eram exceções, pois de forma geral, as emissoras procuravam permanecer dentro das exigências para evitar transtornos126”.

Vargas, completa Haussen, “procurou sempre contar com o apoio da imprensa127” e aproveitava para deixar isso claro quando fazia seus discursos ou

concedia entrevistas. Numa certa ocasião, em 16 de julho de 1936, o presidente proferiu um discurso de nove páginas na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) sobre o tema “A missão social do jornalismo128”:

125 Op. Cit. Decreto nº 5.077.

126 Op. Cit. HAUSSEN, Doris Fagundes. p. 28 127 Idem. p. 29

128 Discurso “A missão social do jornalismo”, proferida por Getúlio Vargas, em 16 de julho de 1936, na Associação Brasileira de Imprensa. http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/ex- presidentes/getulio-vargas/discursos-1/1936/04.pdf/at_download/file, visitada em 2 de novembro de 2012, às 11h45. p. 173

Assim pensando, por convicção e experiência, tornou-se para mim perfeitamente natural manter com os jornalistas relações de inalterável cordialidade, alheio a preferências de ordem política ou pessoal. Habituei-me a receber encômios e juízos críticos com a mesma serenidade. Se aqueles não me embriagam, estes jamais me fazem mal humorado. Peso-os por igual, para verificar o que há de verdade nuns e noutros e apreciá-los com tranqüila razão129.

Vargas afirmou que mantinha uma conduta coerente, procurando sempre prestigiar a imprensa para ouvir as sugestões e ajudar as iniciativas da classe. Por isso, destacou a necessidade de

dar estabilidade à profissão jornalística e oferecer oportunidades mais diretas e eficientes para que todos os que a ela se dedicam pudessem cooperar no trabalho de reconstrução cultural e política do país. Na obra de disciplina e organização das atividades socialmente úteis, iniciada com a Revolução de 1930, cabia, também, o amparo legal aos jornalistas. Urgia evitar que a profissão continuasse a ser simples estágio intelectual, ponte de passagem para outras ocupações, simples degrau de acesso à vida pública130.

Ao final, quando se referiu ao cenário que o país estava vivendo, o estadista enfatizou que à

imprensa incumbe, nesta conjuntura, tarefa sobremodo relevante. Orientando a opinião, alertando-a diante do perigo, concorrerá de maneira decisiva para resguardar a ordem e neutralizar as atividades dos agentes da subversão social131

Vargas também incentivou a criação de diversos dispositivos que contribuíram para a regulamentação da profissão de jornalista, concretizadas no governo de Jânio Quadros, em 1961. Haussen cita um levantamento feito pelo jornalista Antônio Firmo de Oliveira Gonzales, que foi presidente da Associação Rio-grandense de Imprensa (ARI/RS) e diretor da Famecos/PUCRS, e salienta alguns exemplos: os decretos de 1932 com a determinação da expedição das cédulas de identificação e o de 1933 que garantia o exercício profissional. Mais tarde, o estadista criou o

129 Op. Cit. Discurso “A missão social do jornalismo”. p. 173 130 Idem. p. 173

decreto-lei 910, de 30 de novembro de 1938, que fixava a jornada de trabalho e estabeleceu normas para a função jornalística; 5.452, de 1º de maio de 1943 institui a CLT – Consolidação das Leis de Trabalho, onde constava um capítulo sobre o jornalista, e o decreto 7.037, de 14 de novembro de 1944 que fixou a remuneração mínima para jornalistas empregados132.

Haussen salienta que Vargas “tinha, portanto, uma visão muito clara a respeito da importância dos meios de comunicação para o apoio e a divulgação das medidas do seu governo133”. De um lado se posicionava favorável às

conquistas da categoria, por outro, usava o DIP para “cercear o que não fosse do interesse do governo em matéria de divulgação134”. De acordo com a autora,

Vargas “não instrumentalizou a utilização do rádio no sentido doutrinário – havia o controle através da censura, mas a programação, mesmo a Hora do Brasil, era diversificada e não só de divulgação de atos públicos135”. Ao final de cada

programa, o destaque era dado à Música Popular Brasileira, com a participação de artistas como Carmen Miranda, Herivelto Martins e Francisco Alves. E, ressalta Haussen, cabia ao DIP organizar ainda os concursos que selecionavam as melhores músicas, sempre escolhidas pelo público.

O DIP, além de controlar o rádio, também usou a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que tinha a maior potência e era a mais tradicional e popular, sendo ouvida em Ondas Curtas em diversas cidades brasileiras e no exterior, para beneficiar o governo ditatorial de Vargas. Isso passou a acontecer principalmente quando a emissora foi “incorporada à união pelo decreto nº 2073, de 8 de março de 1940, em pagamento de impostos não recolhidos136”. A rádio pertencia ao grupo A Noite, do

empresário norte-americano Percival Farquhar e tinha sido inaugurada em 12 de setembro de 1936. Ao ser agrupada, e por ser considerada de utilidade pública e de interesse do país, passou a ser a “retransmissora oficial do Estado Novo137” e

contribuiu “estrategicamente para o sucesso do projeto de mitificação da imagem de Vargas e disseminação da propaganda autopromocional do governo138”.

132 Op. Cit. HAUSSEN, Doris Fagundes. p. 29 133 Idem. p. 29

134 Idem. p. 29 135 Idem. p. 30

136 JAMBEIRO, Othon. Tempos de Vargas: o rádio e o controle da informação. Salvador: Edufba, 2004.p. 109

137 Idem. p. 109 138 Idem. p. 109

Conforme Jambeiro, a Nacional do Rio de Janeiro impulsionou a integração nacional e em 31 de dezembro de 1942, com a inauguração de um transmissor de Ondas Curtas, “passou a ser uma das cinco emissoras mais potentes do mundo139”. Como a rádio recebia verba oficial do governo, “mantinha o melhor

elenco da época, incluindo músicos, cantores, radioatores, humoristas e técnicos. Tendo a frente o jornalista Gilberto de Andrade, ex-diretor das revistas A Voz do Rádio e Sintonia140”.

Vargas também percebeu que não adiantava falar ao microfone da emissora mais importante do país, era necessário que mais pessoas ouvissem seus discursos e, por isso, incentivou a comercialização de receptores no Brasil. Ao elaborar o decreto nº 4.701, de 17 de setembro de 1942, ele organizou o “comércio de aparelhos de rádio, transmissores ou receptores, seus pertences e acessórios [...]141”. O objetivo era garantir a segurança nacional e proibir, por exemplo, a

comercialização de equipamentos fabricados na Alemanha, Itália ou Japão. O decreto estabelecia ainda que as pessoas físicas ou jurídicas que possuíssem aparelhos desses países poderiam ter seus rádios confiscados e a pena para seus proprietários, por violar a determinação, poderia ser a reclusão que variava de cinco a dez meses. Com essa medida, Vargas se posicionou diplomaticamente e interrompeu as relações comerciais com os três países que formavam o Eixo na 2ª Guerra Mundial.

Outra decisão tomada por Vargas, quando entrou oficialmente no conflito mundial, foi a criação do decreto-lei nº 4.828142, de 13 de outubro de 1942, que

coordenava os meios e os órgãos de divulgação e publicidade existentes no país. O artigo 1º alertava que no estado de guerra e para manter a ordem pública civil, ficavam a serviço do Brasil “os meios e órgãos de divulgação e de publicidade existentes no território nacional, seja qual for a sua origem, forma caráter,

139 Op. Cit. JAMBEIRO, Othon. p. 110 140 Idem. p. 110

141 Decreto nº 4.701, de 17 de setembro de 1942, sobre o comércio de aparelhos de rádio, transmissores ou receptores, seus pertences e acessórios e dá outras providências. http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-4701-17-setembro-1942-414790- publicacaooriginal-1-pe.html, visitada em 3 de novembro de 2012, às 15h15.

142 Decreto-lei nº 4.828, de 13 de outubro de 1942, que coordena os meios e órgãos de divulgação e publicidade existentes no país e dá outras providências - http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-4828-13-outubro-1942-414826- publicacaooriginal-1-pe.html, visitado em 3 de novembro, às 16h10.

processo, propriedade ou vínculo de subordinação143”. Portanto, cabia ao ministério

da Justiça e Negócios Interiores as seguintes atribuições:

a) excluir da divulgação e publicidade assuntos julgados inconvenientes aos interesses, aos compromissos, à ordem, à segurança e à defesa do Estado; b) determinar a divulgação e publicidade do que, em vista do estado de guerra, convenha à incentivação da harmonia dos povos do Continente, da mobilização espiritual dos brasileiros e à segura elucidação dos problemas políticos ou administrativos que interessem ao conhecimento público: c) sistematizar e orientar a cooperação que os Governos dos Estados dos Municípios devem dar para organização e funções dos Departamentos Estaduais e Municipais de Imprensa e Propaganda, nos termos e para os fins do decreto-lei n. 2.557, da 4 de setembro de 1940; d) promover a mais estreita colaboração e cooperação entre os órgãos da administração pública, inclusive para-estatais e autárquicos, federais, estaduais a municipais, os órgãos consultivos do Governo e as organizações privadas;

e) providenciar para que as informações e noticiários oficiais sejam uniformes em todo o país, afim de evitar erros, divergências ou superfluidades inconvenientes à unidade nacional e ao exato esclarecimento da opinião pública144.

Quem se opusesse ou infringisse o decreto-lei nº 4.828, de acordo com o artigo 5º, seria punido “com as penas estabelecidas no decreto-lei 4.766, de 1 de outubro de 1942, na parte aplicável, e, quando neste não estiver prevista, com a pena de reclusão de três meses a três anos e multa até 20:000$0 (vinte contos de réis)145”.

Segundo Lopes, em 1943, a Rádio Sociedade também foi incorporada ao patrimônio estatal, sendo integrada ao Ministério da Educação para transmitir programas culturais e educativos. E no final do regime, “o governo ainda adquire a Rádio Mauá para mobilizar mais diretamente os trabalhadores146”.

Benzer Belgeler