4. ARAŞTIRMA SONUÇLARI VE TARTIŞMA
4.2. Tartışma
Neste item, serão articuladas as ideias de alguns autores que nos subsidiarão nas reflexões teóricas sobre o mundo que nos cerca. Mais especificamente, traremos as ideias de autores dos quais pudemos nos apropriar para o mundo da educação e para as relações sociais vivenciadas pelos sujeitos/subjetividades neste espaço.
Pensar esse mundo e suas relações é considerado aqui como necessário, pois partimos do pressuposto de que é nesse universo que tanto os professores, sujeitos de nossa pesquisa, se relacionam com seus alunos, quanto esses - quando no futuro forem também professores - se encontrarão com seus alunos, estando imersos, portanto, no contexto que estamos nos propondo a discutir.
Vamos, então, refletir sobre isso. Lahire (2002 e 2006) apresenta como a Sociologia, ao longo dos tempos, vem explicando as práticas e os comportamentos sociais dos homens. Explicita que, inicialmente, os sociólogos elaboraram uma visão homogeneizadora de homem
em sociedade, considerando-o como moldado, de maneira uniforme, por seu meio social. Mas, complementa que a observação das sociedades tem evidenciado, por outro lado, que os indivíduos podem incorporar modelos de ação diferentes e contraditórios, alterando-se de acordo com seus contextos. Esse fenômeno revela não só uma troca de papéis sociais, mas remete também a pensar em uma diversidade de modelos de socialização.
Mesmo considerando os comportamentos sociais do homem de acordo com essa perspectiva da pluralidade de papéis, os pesquisadores, ainda segundo Lahire (2002), insistem, frequentemente, que encontra-se, mesmo assim, por trás dessa multiplicidade, uma unidade fundamental.
Mas, para Lahire, corroborando, de alguma maneira, a noção de subjetividade anteriormente colocada, um indivíduo é resultado do que ele apreende na escola, na sua família e nos diversos contextos nos quais está inserido, em sua vida profissional, de lazer e afetiva, sendo que a apreensão do singular nesta pluralidade resulta em um singular que é necessariamente plural. Para Lahire (2002), portanto, o sujeito é plural.
Além disso, esse autor reforça também os momentos diferentes da vida como constituintes da subjetividade e, do ponto de vista sociológico, a noção de uma socialização primária seguida de uma socialização secundária. A primeira ocorre no interior da configuração familiar, que, ainda que sendo única, pode conter a heterogeneidade; e, a segunda, realizada em espaços socioafetivos diferentes da família, que, assim, podem ser concorrentes com ele. (LAHIRE, 2002). Considerando o nosso mundo contemporâneo, é importante salientar que o autor complementa essas ideias, dizendo que não tem sido incomum, no entanto, o questionamento da sucessão, ou seja, tem ocorrido a superposição desses processos de socialização primária-secundária, dada a ação socializadora cada vez mais precoce, de universos sociais diferentes do universo familiar ou de estranhos ao universo familiar. Ele nos dá um exemplo, de crianças pequenas, que têm ido para as escolinhas ou creches, em algumas famílias, bem mais precocemente do que em outras.
São esses espaços, então, que configuram o nosso complexo mundo contextual, e o próprio Lahire diz algo que nos interessa, ao apontar que, apesar de as socializações serem múltiplas, os mal- estares são individuais, e que seriam resultado do desacordo entre o que a sociedade, ao longo desses processos de socialização nos inibe ou nos permite exprimir.
Mas, como isso se expressa em nosso mundo, no dia a dia de nossas tarefas? Como isso se expressa na dinâmica interrelacional entre os sujeitos no mundo? É sobre isso que o nosso olhar indagador se voltou quando estivemos em nosso universo de pesquisa, pois a nós, como será mostrado em nossas informações, interessa esse fator interacional como constitutivo do que somos e fazemos.
Das grandes ideologias, dos parâmetros e sociabilidade tradicionais vividas na modernidade, passando pela pós-modernidade e a grande influência do consumo de massa, que faz surgir o indivíduo que vive mais em função de si mesmo e de seu prazer, atingimos a hipermodernidade, que tem como marca a característica do excesso ou de tudo o que é demasiado. Atualmente, chegamos a alguns autores que elaboram uma metáfora dizendo que vivemos em uma sociedade liquida ou desorganizada em oposição à solidez ou à organização de períodos sociais anteriores. (BAUMAN, 2003; LIPOVETSKY, 1989).
Encontramos essa ideia no texto de Lipovetsky (1989), quando ele trata do processo que denomina de personalização. Segundo esse autor,
Negativamente, o processo de personalização remete para a fractura da socialização disciplinar; positivamente, corresponde à instalação de uma sociedade flexível assente na informação e na estimulação das necessidades,
no sexo e no levar em conta os „factores humanos‟, no culto da naturalidade,
da cordialidade e do humor. É assim que opera o processo de personalização, novo modo de a sociedade se organizar e se orientar, novo modo de gerir os comportamentos, já não através da tirania dos pormenores, mas com o mínimo de austeridade e o máximo de desejo, com o mínimo de constrangimento e o máximo de compreensão. (p.8-9)
e é assim, nesse mundo, em que vivemos nós, e os alunos e professores com quem convivemos no período de nossa pesquisa. Para complementar esse conceito de processo de personalização, Lipovetsky (1989) ainda se refere ao conceito de autonomia e a uma nova significação que teria se instalado em nossa sociedade, do que é o ser autônomo.
Sem dúvida, o direito de o indivíduo ser absolutamente ele próprio, de fruir ao máximo a vida, é inseparável de uma sociedade que erigiu o indivíduo livre em valor principal e não passa de uma última manifestação da ideologia individualista; mas foi a transformação dos estilos de vida associada à revolução do consumo que permitiu este desenvolvimento dos direitos e desejos do indivíduo, esta mutação na ordem dos valores individualistas. (p.9-10)
Dessa maneira, concordamos inteiramente com Lipovetsky (1989) quando nos aponta que a autonomia não é equivalente à liberdade individual e total dos sujeitos em suas práticas
sociais, incluindo suas práticas no espaço21 escolar. Ser autônomo não compreende manifestações individualistas de desejos e de direitos próprios de cada um. Mesmo porque, esse cada um, dentro da perspectiva com a qual trabalhamos, é constituído a partir do social. Em Vigotski, encontramos que toda aprendizagem tem seu início nas relações interpessoais para depois se tornarem intrapessoais.
Piaget (1994), em sua obra clássica, O Juízo Moral na Criança, desenvolve uma discussão que pode contribuir para o encaminhamento deste impasse dicotômico entre liberdade e disciplina. Mesmo considerando os diversos aspectos teóricos desse autor, que, sabemos, divergem dos demais autores referência com os quais estamos trabalhando, queremos somar, particularmente essa sua contribuição, a esse texto, pois a julgamos suficientemente adequada. Para Piaget, a autonomia é algo que é construído e que, para chegar a essa capacidade autônoma de juízo moral, os sujeitos, que inicialmente vivenciam a
anomia, passam, antes e necessariamente, pela construção da chamada heteronomia, quando,
então, descobrem a importância dos outros e das regras sociais. Os sujeitos vivenciam, neste período, relações que exercitam, neles mesmos, o respeito unilateral que, posteriormente, cede espaço para o respeito mútuo, conceitos importantes nas reflexões piagetianas. Esse movimento, que passa da vivência da coerção, para a de relações de cooperação e, posteriormente, chegando ao que Piaget denominou como a ética da solidariedade e de
reciprocidade, é que irá resultar no surgimento da autonomia progressiva da consciência.
Mas como construir autonomia, ou seja, estas regras próprias e interiorizadas, em um mundo hipermoderno tão caótico, tão bem definido por Lipovetsky (1989) ao afirmar que a cultura pós-moderna
sai de um tipo de organização uniforme, dirigista, e que, para o fazer, mistura os últimos valores modernos, reabilita o passado e a tradição, (...). A cultura pós-moderna é descentrada e heteróclita. Materialista e psi, pornô e discreta, inovadora e retro, consumista e ecologista, sofisticada e espontânea, espectacular e criativa; e o futuro não terá, sem dúvida, que decidir em favor de uma destas tendências, mas, pelo contrário, desenvolverá as lógicas duais, a co-presença flexível das antinomias. (p.12-13)
Este trecho permite refletir sobre que tipo de ação seria necessária para trabalhar do ponto de vista psicossocial nesse processo de construção de autonomia dos sujeitos em nossa sociedade e em nossas escolas. E se não seria possível enfatizar o trabalho e a discussão de
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Queremos enfatizar precisamente aqui o conceito de espaço como diferente e mais do que o conceito de lugar, pois espaço envolve elementos não presentes, mas vivenciados simbolicamente e é assim que trabalharemos e olharemos para o nosso campo de pesquisa. (Hall, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, DP & A, 1992)
como se dão as relações, e o trabalho nesse espaço que se produz entre o social e os atores, e também entre os atores que nele convivem. Julgamos que essa é uma reflexão fundamental aqui e para o campo da Psicologia, especificamente, para a teoria histórico-cultural, com a qual estamos trabalhando, que, ao analisar determinado fenômeno, não ressalta apenas os elementos desse fenômeno, mas, fundamentalmente, as relações que o constituem.
Bauman (2003) vai dizer de uma certa fraqueza, de uma debilidade e vulnerabilidade das parcerias pessoais como características também do atual ambiente a nossa volta, apesar de considerar essa flexibilidade importante e de fato presente em todos os vínculos sociais. Mas coloca que isso conduz a um mundo, hoje, que parece estar “conspirando contra a confiança” (p. 113), o que Lipovetsky reafirma quando aponta, como dito anteriormente, que a coerência e continuidade, os pontos de orientação, neste mundo tão flexível, podem ser cada vez mais raros e mais difíceis de alcançar.
Neste momento do capítulo, iremos nos aproximar do ponto central desta pesquisa, trazendo, agora, uma discussão sobre a escola e a sua localização, então, neste mundo social aqui desenhado. Discutiremos, assim, como essas pressões denominadas pelos autores, como globalizantes, podem interagir com o modo como são construídas as subjetividades, por exemplo, nos espaços escolares.