3. YÖNTEM
5.1 Tartışma
Distante 8 km dos das outras duas estruturas, mas também em topo de morro, este sítio de estrutura anelar, SC-AG-108, caracteriza-se por dois anéis independentes, distantes menos de 10 m entre eles e com um montículo de terra no interior de cada um (SCIENTIA SUL, 2006c).
Apesar de ser utilizado como área de pastagem, o local está protegido por um capão de mato, distando 130 m de um conjunto de casas subterrâneas. Por possuir dois anéis, os mesmos passarão aqui a ser denominados por números “1” e “2”.
Figura 20: Representação do sítio SC-AG-108, com as áreas de escavação demarcadas em vermelho. Acervo: Scientia Consultoria Científica.
A estrutura “1” , maior delas, mede 19 m de diâmetro no anel, e 7 m no montículo. No centro do montículo, entre 20 e 30 cm de profundidade apareceram os primeiros fragmentos de ossos humanos cremados, numa estrutura com carvões que permaneceu até o nível 40 cm.
Nos primeiros centímetros escavados desta mancha, os ossos se apresentavam bem fragmentados, medindo muitas vezes menos de 1 cm. Foi também nos primeiros centímetros que se encontraram a maior parte dos carvões em bom estado para coleta de amostras (SCIENTIA SUL, 2006c, p.22-23).
Figura 21: Vista geral da estrutura 1 do sítio SC-AG-108. Acervo: Scientia Consultoria Científica. Fotografia: Ana Lucia Herberts.
Essa estrutura mostrou maior quantidade de fragmentos ósseos que as demais, e também melhor conservados, o que levou a retirada de todo o sepultamento em bloco para escavação em laboratório. Este procedimento, somado a melhor conservação dos ossos oportunizou a melhor identificação de alguns deles, bem como seu posicionamento. Vértebras, falanges, mandíbulas, um úmero e uma costela estavam dispostos separadamente e sem conexão anatômica. De um lado se encontravam os ossos chatos, como crânio e mandíbula, além de fragmentos das primeiras vértebras cervicais. Já os ossos longos estavam agrupados na parte sudoeste da estrutura, sem aparente ordem. Apenas um úmero estava completo, os demais apresentavam apenas uma seção. Devido à duplicação de alguns ossos, como a mandíbula e o atlas, constatou-se pelo NMI (número mínimo de indivíduos) a presença de dois indivíduos.
Figura 22: Úmero entre ossos longos, nível 30-40 cm, estrutura 108-1. Acervo: Scientia Consultoria Científica. Fotografia: Letícia Morgana Müller.
Figura 23: Mandíbula entre ossos do crânio, nível 30-40 cm. Acervo: Scientia Consultoria Científica. Fotografia: Letícia Morgana Müller.
As raízes da araucária sobre o montículo causaram transformações tafonômicas importantes no enterramento, penetrando nos ossos, e fazendo com que, principalmente os ossos longos, fraturassem ficando reduzidos a placas (figuras 22 e 23).
Os fragmentos de cerâmica, raros e em sua maioria lisos, estavam junto à estrutura e na área interna do anel. Não foi possível remontar nenhum recipiente, como nos demais sítios. A escassez de cerâmica junto ao enterramento pode explicar-se pelo crescimento de uma araucária sobre o montículo, o que explicaria também a dispersão de parte do material ósseo para fora da estrutura.
Diferentemente do sítio SC-AG-100, onde os ossos estavam no centro da fogueira e os carvões nas extremidades; ou da estrutura “2” do sítio SC-AG-98, onde havia grande quantidade de carvões e poucos ossos, nesta os carvões não eram abundantes e tampouco expressivos, mas estavam distribuídos na mesma área dos ossos. Havia um grande cepo entre os ossos longos e os crânios que não estava completamente queimado e outros menores periféricos. Abaixo deste cepo a estrutura de finalizava, sem presença de ossos. No lado leste deste sepultamento, ainda dentro do montículo, foi encontrado um amontoado intencional de pedras, mas sem sinais de fogo ou lascamento.
A escavação deste sítio oportunizou reconhecer o processo de construção do montículo e do anel. A base de estrutura formada por carvões e ossos estava em 40 cm de profundidade, o que é próximo ao nível atual do solo do lado de fora do anel, com diferença de menos de 10 cm. O nível do solo entre o anel e o montículo está cerca de 20 cm mais baixo. Estas observações sugerem que a estrutura está em nível próximo ao do solo original, e que os ossos e os carvões foram depositados sobre o mesmo nível natural.
Depois da colocação dos ossos, teria havido a construção do montículo e do anel, com a retirada de solo existente entre estes dois, levando a um rebaixamento da área interna de até 20 cm. O montículo e o anel mostraram pequeno desnível quando comparados ao nível do chão fora da estrutura, sendo o primeiro 50 cm, o segundo 20 -15 cm.
A estrutura “2”, localizada a 10 m da “1” está caracterizada por um anel com 15 m de diâmetro e um montículo com 5,20 m. O corte realizado sobre o montículo apresentou uma pequena concentração de ossos e um fragmento de carvão a 40 cm de profundidade. Com apenas 15 cm de espessura, e menos de 50 cm de diâmetro, esta concentração não estava no centro do montículo, mas um pouco mais ao sul. Nela pode ser identificado em campo um maxilar com cinco dentes inclusos e a metade direita de uma mandíbula humana. Estes também foram removidos como um bloco inteiro, terminando de ser escavados em laboratório. A escavação permitiu verificar que o maxilar havia sido colocado com os dentes voltados para baixo, e sobre ele estavam a mandíbula e um fragmento de costela, confirmando o sepultamento de ossos humanos desarticulados. Na estrutura “1”, também havia um amontoado de pedras organizadas, porém abaixo do enterramento. Elas não possuíam sinal de fogo e tampouco marcas de trabalho ou uso intencional.
Figura 24: Fragmento de mandíbula. Acervo: Scientia Consultoria Científica. Fotografia: Letícia Morgana Müller.
Figura 25: Fragmento de costela e mandíbula sobre maxilar. Acervo: Scientia Consultoria Científica. Fotografia: Letícia Morgana Müller.
A disposição dos ossos e a ausência de alguns elementos, o tamanho da estrutura, bem como a ausência de carvão, apontam, portanto, para um enterramento secundário, em que a cremação se deu em outro local.