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V. BÖLÜM: TARTIġMA, SONUÇ VE ÖNERĠLER

5.1. TartıĢma

Quadro 2 - Entrevistas extra corpus

Informante Local e data da entrevista

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2) Mario Calco (Lecco), 12 de janeiro de 2012 3) Giorgio São Paulo, 1 de dezembro de 2011

4) Lucia Milão, 23 de maio de 2013

Apenas uma informante procurada, por razões familiares e de indisponibilidade de tempo, não pode nos conceder a entrevista. Outra negativa veio na última fase de pesquisa de campo na Itália, por parte de uma militante que, num primeiro momento, mostrou interesse e disponibilidade em contribuir com a pesquisa, mas em seguida optou por não realizar o depoimento, alegando que a entrevista podia versar – ou de alguma forma recair – sobre questões da política italiana atual com as quais ela não queria se envolver. No entanto, é preciso ressaltar que tal depoimento, por mais que pudesse contribuir para o enriquecimento da pesquisa, não fazia parte de nossa amostra intencional e sua negativa não impactou no andamento do estudo.

Além das entrevistas previstas inicialmente, foram colhidos três depoimentos que não foram adicionados formalmente ao grupo estudado, ainda que constituam de fato um material narrativo complementar relevante por apresentar informações históricas referentes ao período em questão. Após uma avaliação preliminar do conteúdo dessas entrevistas “extra corpus”, considerou-se que esses depoimentos apenas tangenciavam as questões centrais do nosso roteiro e que, de fato, não acrescentam dados indispensáveis para o desenvolvimento da elaboração narrativa da tese. No entanto, as referências disponibilizadas nesses relatos ajudaram como um material narrativo suplementar na reconstrução mais geral do contexto histórico (a igreja no Brasil no período do regime militar) ou mesmo de aspectos específicos relacionados com a dimensão micro social do movimento eclesial de Milão (experiências e informações individuais experimentadas no grupo da GS).

Cabe esclarecer que, em nosso conjunto de 18 entrevistas – realizadas com 15 informantes –, encontram-se os entrevistados que participaram diretamente da experiência da GS no Brasil ou que tiveram, mesmo permanecendo na Itália, um papel de atuação de destaque dentro do movimento. Como foi mencionado acima, são, ao todo, dezoito depoimentos que constituem um material narrativo bastante heterogêneo, seja pela duração de cada entrevista ou também pelas diferenças de aprofundamento de conteúdo. É preciso ressaltar que as entrevistas coletadas, uma vez que são analisadas em conjunto, apresentam

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em seu tamanho e conteúdo níveis de discurso bastante diferenciados. Isto, evidentemente, como resultado da pesquisa de campo, se deu em função do grau de intensidade da interação alcançada junto ao informante como também de sua capacidade e disposição de discorrer sobre os assuntos postulados pelo nosso roteiro.

Cabe salientar algumas notas sobre nosso percurso metodológico e as reflexões que dele emergiram. Nesse sentido, uma questão merece esclarecimento. Com três de nossos informantes, realizamos uma segunda fase de entrevista – o que explica a existência de 18 entrevistas, sendo apenas 15 os informantes. Isto se deu, em parte, como consequência da própria metodologia e técnica de coleta adotada que, como assinala Bourdieu, deve ser pensada dentro de uma dimensão complexa de problemas, ao mesmo tempo práticos e

teóricos. O que se pretende frisar, retomando Bourdieu, é que, a condução e o

desenvolvimento de pesquisas por meio de entrevistas, como às quais nos dedicamos, em suas diversas etapas operacionais, antes de tudo deve ser entendida como uma “prática” de pesquisa que de fato não pode ser facilmente solucionada, nem recorrendo a um desenho rígido “frequentemente mais cientista que científico”, nem tampouco nas “precauções anticientíficas das místicas da fusão afetiva” (Bourdieu, 1997: 693). Nesse sentido, enquanto pesquisa sociológica, somos chamados a explicitar passo a passo as escolhas e seleções aplicadas ao longo do trabalho de campo, assim como a ter que explicar os procedimentos e os princípios adotados na prática da pesquisa. O que é relevante relatar é o fato de que o trabalho de pesquisa de campo nos mostrou que não só evidentemente não se pode eximir da

prática, mas que é justamente na prática da pesquisa, no seu dia a dia, nas idas ao campo, que

encontram-se as pistas operativas que permitem incorporar e efetivar as reflexões e precauções metodológicas adquiridas anteriormente ao longo de um percurso de aprofundamento teórico sobre método. Bourdieu, ao relatar uma experiência de trabalho realizada com sua equipe, explica o processo de desenvolvimento e de construção de um desenho metodológico em atividades de pesquisa que recorrem à entrevista como técnica de investigação:

Em muitos casos, a escuta ou a leitura da primeira entrevista suscitaram novas perguntas (de fato ou de interpretação) levando a uma segunda entrevista.(...). É na confrontação continua das experiências e das reflexões dos participantes que o método foi pouco a pouco aparecendo, pela explicitação e a codificação progressiva das providências realmente tomadas (Bourdieu, 1997: 694).

Podemos encontrar nessas reflexões do sociólogo francês algo bem análogo à nossa experiência e enxergar, por meio dessa identificação, um ponto de apoio para relatar algo

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semelhante ocorrido em nosso percurso, uma vez que, de fato, o desenho metodológico do campo foi pouco a pouco aprimorando-se e encorpando-se, por meio das escutas das primeiras entrevistas, de sua transcrição e composição em material narrativo, como na própria confrontação e diálogos constantes com o orientador. O que de todo modo cabe mais uma vez frisar é que o caminho metodológico trilhado e desenvolvido não prescindiu de uma reflexão metodológica ou teórica anterior ao campo. O que seguimos como “norte” nessa fase de trabalho foi algo próximo daquela disposição que Bourdieu chama de reflexividade reflexa, baseada num “trabalho”, num “olho sociológico”, que segundo ele é de fato uma possibilidade de garantir a aplicação do método (Bourdieu, 1997).

A segunda razão pela qual, com alguns de nossos informantes (Anna, Matteo, Marco), realizamos uma segunda rodada de entrevistas foi justamente uma consequência de um aspecto decorrente da própria experiência maturada, e relatada em suas rememorações, por estes militantes no Brasil. A análise do material narrativo gravado sinalizava o impacto que a experiência no Brasil havia tido sobre as trajetórias biográficas desses sujeitos. Percebemos que, de fato, haviam ali elementos cruciais de uma escolha de vida, uma vez que os três tomaram a decisão de se mudar para o Brasil após a conclusão dos estudos secundários ou universitários. Anna pretendendo se tornar missionária leiga, e os outros dois, Matteo e Marco, decidindo ingressar rumo à vida sacerdotal e optando pelo seminário diocesano de Belo Horizonte. Além disso, as três experiências relatadas apresentavam também aspectos análogos uma vez que, por diferentes razões individuais, acabaram deixando o projeto missionário inicial no Brasil junto ao movimento, e voltando para a Itália.

Além disso, a realização de uma segunda entrevista funcionou também como um teste para medir a intensidade de aprofundamento da nossa técnica até uma possível saturação de informações, relacionadas não só às experiências individuais e subjetivas como missionários no Brasil como também à sua efetiva capacidade em captar e coletar ao máximo dados e elementos úteis à reconstrução de uma narrativa histórica dos acontecimentos referentes ao grupo enquanto movimento católico organizado. Esse teste foi importante uma vez que mostrou que, apesar da disponibilidade dos informantes em colaborar, o resultado da segunda entrevista não foi tão satisfatório. Quando comparada à primeira entrevista, a segunda permitiu obter novos dados, mas não avançou da maneira como se poderia esperar. A impressão obtida foi a de que houve repetição de muito do que havia sido relatado na primeira conversa e de que o próprio “entusiasmo” dos informantes em relatar o tema foi se “afrouxando”. Tal resultado serviu como base para reavaliarmos o procedimento de repetição

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das entrevistas junto aos demais informantes e embasou nossa opção por um caminho mais oportuno para a produção de dados primários, por meio do direcionamento dos esforços da pesquisa de campo rumo a novos informantes (sempre que existissem e se disponibilizassem a fornecer seu relato) que pudessem complementar o material narrativo produzido.

Essa mudança no procedimento da pesquisa de campo, em alguns momentos, chegou a provocar certo desânimo, devido a tentativas frustradas de identificação de novos entrevistados e mesmo devido às tentativas de estabelecer contato que resultaram sem respostas ou retornos de alguma forma. A inquietação surgida nesses momentos alimentava o surgimento de dúvidas como: será que, do grupo, participaram só essas pessoas? Existirão outras pessoas que conheceram ou participaram da experiência? Mas como conseguir um contato?

Parte dessas questões foram solucionadas por meio da colaboração dos próprios informantes que, em alguns casos, sugeriam nomes e/ou pediam: “você tem que entrevistar fulano” “Você já entrevistou ciclano?”. Mas tais intervenções nem sempre ocorreram ou, ocorrendo, nem sempre foram profícuas. Em alguns casos, mesmo mantendo contato com outras pessoas do grupo da GS, os informantes discretamente preferiram não indicar outras pessoas. Portanto, tivemos que adotar uma busca até certo ponto “artesanal”, procurando possíveis informantes a partir das indicações dadas nos depoimentos, ou por meio de informações contidas em material bibliográfico, como nos livros de Massimo Camisasca (2001; 2003). Outros esforços de identificação de possíveis fontes se deram por meio de informações coletadas na internet, em sites como o de Comunione e Liberazione (http://it.clonline.org/), e até por meio de conversas com pessoas que podiam ajudar em nossa busca. Assim, entramos em contato com pesquisadores, sociólogos e historiadores da Universidade Católica de Milão, da Universidade de São Paulo (USP), jornalistas, membros do clero da arquidiocese de Milão – especialmente aqueles mais próximos ao mundo missionário. Tal busca acabou por, de fato, ajudar na identificação e localização de possíveis informantes dispostos a contar sua experiência no movimento. Uma vez encontradas tais fontes, a etapa sucessiva foi a de entrar em contato com os informantes (via telefonema ou através de e-mail) e nos apresentar e explicar a nossa pesquisa e os seus objetivos, demandando a possibilidade eventual de realização da entrevista.

Dos informantes selecionados nesse segundo momento de mapeamento, a maioria mostrou interesse em marcar um encontro e eventualmente realizar a entrevista (coisa que de fato aconteceu). Geralmente, após ter marcado previamente o encontro, o entrevistado decidia

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um lugar para a realização das entrevistas. Assim, as conversações e os depoimentos ocorreram em diversos lugares, como nas próprias residências dos entrevistados, em seus locais de trabalho – que podiam ser tanto uma casa paroquial, universidade ou fundação de cultura – ou mesmo em lugares públicos, como uma cafeteria. Essas entrevistas foram realizadas no Brasil – em Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro – e na Itália – em Milão e cidades próximas, Roma e Bolonha.

A interlocução com os informantes tinha início com minha apresentação pessoal e explicação de que se tratava de uma pesquisa de doutorado. Em geral, os informantes mostraram-se curiosos pelo fato de tratar-se de uma pesquisa desenvolvida em uma universidade brasileira e acabavam por se interessar pelo projeto, o que, de certa forma contribuiu para que aceitassem me oferecer seu relato e assumissem uma postura mais aberta e colaborativa. Nesse sentido, o próprio fato de minha trajetória acadêmica ter se desenvolvido entre Brasil e Itália e a coincidência de termos em comum uma experiência de vida entre esses dois países acabava, de certa forma, por minimizar a distância social de um desconhecido que entra repentinamente como “intruso” (Bourdieu, 1997) na vida do outro, criando um assunto em comum a ser compartilhado. Da mesma forma que contribuía para reduzir o distanciamento social, esse ponto em comum compartilhado por entrevistador e entrevistados ajudava a “quebrar o gelo” e criar certo tipo de familiaridade, que ajudava, inclusive, nos momentos de hesitações mútuas.

Antes de dar início à aplicação das perguntas do roteiro pré-elaborado, era realizada uma conversa amigável, como forma de introduzir o informante no universo das questões e iniciar, com ele, um movimento de rememoração. Nesse momento também, em geral, prosseguia com uma apresentação mais contextualizada de minha própria trajetória, que contribuiu para delinear, inclusive, meus interesses de pesquisa e, por meio da qual, me vejo nesse momento inserido neste esforço de investigação. Aproveito, aqui, para recapitulá-la.

Me seja concedida aqui a liberdade de alterar para a primeira pessoa do singular a narrativa da tese, pra relatar uma experiência pessoal que contribuiu para que escolhesse como objeto de pesquisa a experiência missionária. Nasci e cresci em uma família italiana que, como tantas – talvez a maioria –, se declara católica, mas não pratica. Nunca houve muita proximidade ou familiaridade com os ambientes da igreja. Só quando me encontrava já em uma fase mais avançada, nos primeiros anos da universidade, juntamente com amigos, tive a oportunidade de me aproximar de alguns religiosos da ordem dos frades franciscanos, que trabalhavam em Milão com atividades missionárias. Foi nessa oportunidade que, durante

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alguns anos, participei de atividades voltadas para o mundo missionário e pude ter um contato efetivo, mais próximo, com alguns setores da igreja católica. Daí surgiu a oportunidade de uma experiência no Brasil, como voluntário. Emergiu então um interesse sociocultural e uma inquietação por entender e decifrar a sociedade brasileira contemporânea, principalmente no entendimento da real relação dessa sociedade com a religião católica.

Apesar dessas “credenciais”, a sensação de intruso, quanto à trajetória dos informantes, voltava à tona em outros momentos das entrevistas. Muito em função do fato de que a existência de um roteiro pré-definido e de uma metodologia estabelecida para a coleta de dados não conseguem, por si, estabelecer limites para o relato dos informantes ou impedir que eles desloquem seu fluxo narrativo para outras trilhas. Em muitos casos, o fluxo narrativo parece seguir o fluxo da memória, que não se restringe aos assuntos de nosso interesse e traz à tona assuntos que se tornaram, para esses informantes, intrínsecos aos fatos que buscamos conhecer. Em um caso específico, a percepção dessa sensação foi bem nítida. Em entrevista realizada com um determinado informante, ele tocou em aspectos de sua vida bastante íntimos e delicados, que podem ser aproximados ao que Bourdieu designa como uma sócio-análise a

dois ou a uma auto-análise provocada e acompanhada (Bourdieu, 1997). Relembrando o fim

de sua experiência missionária e, consequentemente, de sua volta do Brasil para Itália, esse informante contava as dificuldades que o regresso provocou no seu equilíbrio psicológico. Em uma passagem da entrevista ele diz:

Perché io tornai in Italia e rischiai la pazzia, proprio esattamente così. Mi salvarono i miei genitori, per una volta, i miei genitori con i quali non ho mai avuto un bellissimo rapporto, per una volta mi salvarono loro. Non so come capirono e utilizzando tutte le amicizie che avevano. Io, venti giorni dopo essere tornato, in stato abbastanza confusionale, avevo una supplenza annuale nel più prestigioso liceo della città. Mi salvò.

Porque eu voltei à Itália e beirei a loucura, foi exatamente assim. Me salvaram os meus pais, por uma vez, os meus pais com os quais nunca tive uma boa relação, dessa vez foram eles que me salvaram. Não sei como compreenderam e utilizaram todas as amizades que possuíam. Eu, depois de vinte dias da volta, em estado de bastante confusão, tinha uma vaga como substituto no mais prestigioso liceu da cidade. Me salvou.

Esse momento rememorado nos impulsiona a apresentar uma consideração geral relacionada com a percepção que constantemente nos acompanhou ao longo de toda a atividade de pesquisa de campo. Muitas das pessoas entrevistadas, frente às perguntas que lhe propusemos, além de procurar responder racionalmente a essas questões previstas pelo roteiro nos depositaram às vezes suas mais íntimas e internas experiências de vida. As emoções, as expectativas, as derrotas, os sofrimentos, as esperanças. A ponderação da importância de

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assuntos como esses, diretamente concernentes à esfera pessoal dos entrevistados, nos colocou frente a questões que nos exigiram tomar algumas decisões, como decidir se seria apropriado, ou não, declarar a identidade dos entrevistados. Três alternativas se apresentaram e nos pareceram viáveis: revelar a identidade dos entrevistados; optar por deixar nossos informantes anônimos e usar nomes fictícios; ou, ao invés disso, adotar uma forma híbrida, digamos a meio caminho, citando ou não os nomes dos entrevistados de acordo com as condições e fatos referidos em cada entrevistas, ou seja, revelando os nomes verdadeiros apensas nos casos em que as circunstâncias o permitam.

Frente a uma análise mais aprofundada de todo o material narrativo coletado, nossa escolha se dirigiu para a segunda modalidade citada acima, uma vez que, em determinados casos, a nomeação dos informantes implicava em uma exposição que não seria bem-vinda aos mesmos. Nesse sentido, a identidade dos informantes ouvidos nas entrevistas será preservada. Tal escolha não se deve ao conteúdo das entrevistas ou a nenhuma informação colhida. É apenas uma opção metodológica, que julgamos mais adequada à ética do trabalho.6

Durante as entrevistas, procuramos seguir as noções acerca do método aprendidas nas nossas leituras sobre entrevista e, além disso, buscar uma disposição próxima daquela que Bourdieu chama de uma comunicação não violenta. A entrevista, tratando-se de fato de uma

interação, antes de mais nada, se constitui efetivamente como uma relação social, com tudo

que isso implica em termos de violência simbólica, uma vez que pode projetar nas suas comunicações uma eventual dissimetria social, dada por uma distância de posição devida à posse de mais ou menos capital cultural. Para evitar que a interação com os entrevistados fosse de alguma forma geradora de um conflito e para tentar reduzir ao máximo possíveis mecanismos de violência simbólica, optamos, como sugere Bourdieu, adotar uma disposição de diálogo sempre atenta e respeitosa às pessoas, e até tentando nos aproximar, o quanto fosse possível, da linguagem de quem estava a nossa frente. Tentamos assumir o que Bourdieu chama de abertura oblativa, que o autor descreve mobilizando um léxico religioso:

Deste modo sob risco de chocar tanto os metodólogos rigoristas quanto os hermeneutas inspirados, eu diria naturalmente que a entrevista pode ser considerada como uma forma de exercício espiritual, visando a obter, pelo esquecimento de si, uma verdadeira conversão do olhar que lançamos sobre outros nas circunstâncias comuns da vida (Bourdieu, 1997: 704).

6 Rosa Weber (1996) pondera que há várias modalidades referentes ao uso das entrevistas, mostrando que não se

encontra uma única visão consensual. Historiadores, antropólogos e sociólogos avaliam, a partir do exame das caraterísticas de seus próprios objetos de pesquisa, se é oportuno adotar uma modalidade ao invés de outra.

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A adoção dessa postura foi fundamental na condução das entrevistas, diante do fato da pré-existência de um distanciamento geracional, que já implicava possíveis distorções no que se refere a visões de mundo e valores, adicionado, eventualmente, a uma possível dissimetria social, devida à identidade profissional, ao capital cultural e ao capital econômico dos entrevistados.

O fato de ter entre os informantes alguns professores universitários ou pessoas que tiveram contato direto com a realidade de pesquisa e de atividades acadêmicas criava uma aproximação na esfera da identidade profissional, facilitando, desde o começo, a explicação dos objetivos da pesquisa e contribuindo para que se pudesse estabelecer um diálogo com reflexões pertinentes sobre as questões – inclusive facilitando a mútua e direta compreensão a partir de um repertório linguístico e de um léxico conceitual no âmbito da sociologia e da teologia compartilhado. Vale a pena lembrar, a tal propósito, a situação dissonante, mas não por isto pouco interessante para nossa análise, que foi gerada na interação com um dos informantes, que começou a questionar a metodologia da pesquisa, afirmando não saber como seria possível realizar uma pesquisa sociológica a partir do exame de experiências pessoais e

Benzer Belgeler