A proposta política de enfrentamento ao crack, assim como suas ações são assimiladas ou justificadas diante da população em geral, comumente se sustentam no que Freud chama de contágio de pânico. Desse modo, o crack, ao emergir na cena pública como algo ameaçador, intimamente ligado a uma “cessação de laços emocionais” (FREUD, 1823), se atrela ao crackeiro enquanto aquele que não faz vínculos sociais e não possui uma vida produtiva, abandonando sua família para viver do uso de crack43
. O horror a esta cena, assim como a forma que esta é especulada por jornalistas e demais meios de comunicação, denuncia o recalque sobre a angústia de não ter segurança de que o modo de vida que se escolheu seja uma vida que valha a pena ser vivida. Portanto, atribui-se ao crackeiro uma cota maior de gozo, como um privilégio que seria negado aos demais. Assim, esta angústia pode ter todo o seu peso convertido na culpabilização de quem opta por experimentar ou usar drogas.
Nessa descrição, a cota maior de gozo que o crackeiro supostamente tem em relação a quem não faz uso de crack, diz exatamente de um gozo a mais. Segundo Lacan (1962-1963), esta cota de gozo atribuída ao Outro, faz com que o sujeito se sinta prejudicado, de forma que o sujeito passa a vivenciar este gozo do Outro como um pesadelo, algo que lhe é roubado. Portanto é diante deste gozo que o sujeito pode vivenciar que algo lhe falta, ou lhe é privado. Assim, se constitui o objeto a, ou como podemos chamá-lo aqui, objeto da angústia, furo que certifica sua impossibilidade enquanto todo. Este objeto localizado no Outro, detém o status de uma verdade sobre si, fazendo operar este desejo enquanto causa, ou a fantasia para qual o sujeito recorre de
43 Infelizmente, muitas vezes as complicações decorrentes do uso de crack, atingem pessoas em situação econômica precária e moradores de rua. No entanto, a cena de quem larga tudo para fumar crack, é noticiada com mais frequência, como se fosse a situação predominante.
72
modo que não tenha de lidar com a implicação em seu desejo. Este processo, não indica necessariamente que as pessoas que ratificam que os usuários de crack devem ser tratados de forma violenta, gostariam de usar crack. Isto indica, em maior ou menor grau, que estas pessoas não aceitam o ônus da renúncia de gozo que envolve as escolhas que dizem respeito à vida que se vive.
Assim, esta operação sempre opera por meio de uma cena, onde comumente, um elemento presente em sua narrativa, detém algo da verdade do sujeito. Portanto, é no endereçamento de uma mensagem ao Outro, que o sujeito se faz objeto da linguagem. Segundo Lacan:
Antes da palavra, nada é, nem não é. Tudo já está aí, sem dúvida, mas é somente com a palavra que há coisas que são – que são verdadeiras ou falsas, quer dizer, que são – e coisas que não são. É com a dimensão da palavra que se cava no real a verdade. Não há nem verdadeiro nem falso antes da palavra. Com ela se introduz a verdade e a mentira também. (…) o ato mesmo da palavra que funda a dimensão da verdade, fica sempre, por esse fato, atrás, para além. A palavra é por essência ambígua. (1953- 1954, pág. 261).
Para que possamos atentar às ambiguidades contidas no uso do crack enquanto palavra, buscamos as significações ordinárias desta onomatopeia, que tem seu uso mais explorado na língua inglesa. No dicionário Priberam de língua portuguesa, se apresentam as seguintes descrições: “1. cessação de pagamentos, 2. crise bancária, 3. baixa geral em título bancários”(2011). Já no dicionário Aurélio inglês / português:
n 1 fenda, racha, fresta, ruptura. 2 estalido, estalo, estrépito, estrondo, pancada. 3 coll golpe, soco que produz um estalido. 4 tiro de arma de fogo. 5 abertura estreita, fresta. 6 instante, momento. 7 craque: esportista de excelente qualidade. 8 droga à base de cocaína. 9 arrombamento. • vi+vt 1 rachar, fender(-se), quebrar, rebentar. the plate is
73
cracked / o prato está trincado. 2 estalar. he cracked his fingers / ele estalou os dedos. 3 crepitar. 4 estourar. 5 bater. 6 ficar áspero e agudo, falhar, mudar de voz. 7 sl ceder, entregar-se. 8 contar (piada). 9 arrombar (cofre). 10 abrir (garrafa) e beber. they cracked a bottle / eles beberam uma garrafa. 11 falhar, falir. • adj excelente, brilhante. • interj zás! crack of doom prenúncio do juízo final. in a crack num instante. to crack a crib sl arrombar uma casa. to crack a crust viver modestamente. to crack a joke contar uma piada. to crack a tidy crust viver bem. to crack town a) Amer fazer ou dar uma batida policial. b) tomar medidas severas. to crack up a) exaltar, elogiar. b) sofrer um colapso mental. c) despedaçar-se. (2011).
Ao atentarmos para estas significações, reconhecemos já no uso da palavra, algumas referências às consequências trágicas decorrentes do uso da droga. Portanto, cabe considerarmos que o crack, talvez desde o seu batismo, já tivesse dentre seus usuários o reconhecimento de uma droga de alto impacto sobre o corpo. Ou, de modo contrário, o entendimento do uso desta substância como algo baseado na fantasia de cessação de pagamentos, ou seja, um gozo pelo qual não se paga.
Eduardo Leite (2005), ao discutir as campanhas de prevenção, aponta que nestas campanhas as drogas são apresentadas como um “anti-objeto, um objeto que inexoravelmente conduz ao pior” (Idem: 97), devemos considerar que tal especulação não é embasada no estatuto de objeto para a psicanálise, mas podemos considerá-la como uma versão de objeto a segregado dentro de uma pestilência que rodeia o dejeto. Em escritos pertencentes à psicanálise lacaniana que buscam desvelar a toxicomania encontramos elevado ao estatuto de objeto: os efeitos da droga sobre o corpo (CRUGLAT, 2001), no caso seria o status da função do psicoativo que seria compreendido como objeto – as produções da interação entre organismo e substância –, hipótese que consideramos em parte, visto que, estes efeitos só encontram significação dentro de uma narrativa. Há também o posicionamento de que o objeto droga
74
está em seu estatuto social, no heroísmo do uso desenfreado e da rendição do corpo a um gozo na finalidade de causar inveja aos outros (MELMAN, 1992), descrição que só poderíamos considerar em trabalho com um caso clínico que contenham estes elementos.
Nogueira Filho (1999) rechaça a proposta de que haja objeto para o toxicômano, segundo o autor:
O encanto dos traços erógenos do corpo do outro, assim, não mais dirige ato algum num desfazer das operações que envolvem o objeto a. A pulsão que sustenta a nova borda erógena quer saber dos significantes e do semelhante tão somente enquanto representações unidimensionais, unisemânticas do gozo operado pelo efeito da droga (NOGUEIRA FILHO, 1999, pág. 54). O autor conclui com o apoio de Freud: “Assim, é teoricamente possível não considerar a droga um objeto, no sentido clássico que Freud conferiu a “objeto” (NOGUEIRA FILHO, 1999, pág. 54), já que este determina que “chamemos objeto sexual à pessoa que exerce a atração sexual”(FREUD APUD NOGUEIRA FILHO, pág. 54). Consideramos relevante o rigor do posicionamento de Nogueira filho. Freud ao trabalhar as relações objetais, faz referência as relações libidinais, e assim como o mito de Eros, proferido por Aristófanes, diz do desejo de fazer Um, encontrar a parte perdida de um ser que já foi completo, atualizando no encontro dos corpos as saudades de um tempo mítico, no qual o andrógino, “gênero comum composto de macho e fêmea” (PLATÃO, pág 63, 2010), reconhecia em si tamanha força a ponto de desafiar os deuses, de modo que, flagrados em sua tentativa, foram separados em dois, para que assim se resguardassem sob a condição de meros mortais. Entretanto, no decorrer do psiquismo humano o objeto é dotado de uma parcialidade e, diante da construção de Nogueira Filho, temos de discordar que o gozo de quem usa drogas seja sempre unidimensional, pois se este gozo é contado a alguém, ele automaticamente passa por uma bidimensionalidade, conferida nas palavras direcionadas a um outro.
75
das pulsões parciais e não por menos, enquanto objeto a caído. Este seria o elemento que curto-circuita a função de deslocamento do objeto causa do desejo. Assim, “nas toxicomanias, o objeto a comparece na sua vestimenta de dejeto, de puro resto, uma vez que não ocorre a duplicação do plano narcísico ao plano do desejo, não há inversão da mensagem desde a pergunta o que sou para o outro?” (ALMEIDA, 2010, pág. 115). Assim como as citações trabalhadas anteriormente, Almeida também parece cometer o erro de aceitação das toxicomanias, como um movimento comum ou padronizado. Todavia, o que é tratado como objeto em nosso estudo, não é a droga em si, mas o recorte de uma cena feita através do discurso. Nesta cena se situa a imagem do drogado e, neste sentido, podemos considerar esta identidade como produto do discurso proibicionista, a saber, dejeto enquanto produto do discurso do mestre.
Portanto, apesar de concordar em parte com a afirmação de Almeida (2010) de que a droga pode adquirir o status de objeto a caído. Gostaríamos de demarcar que não julgamos adequado supor que aquele que tem problemas com drogas não se questione “o que sou para o outro?”. A problematização necessária a este tema não é a de que não se faça a inversão da mensagem contida nesta pergunta, mas devemos lidar com a possibilidade de que esta pergunta “o que sou para o outro?” encontre uma resposta breve em um circuito simbólico, inscrevendo o sujeito e suscitando um discurso de estereotipias correspondentes a uma identidade social. Este circuito, mesmo que um século depois, é delineado pelos mesmos saberes que demarcam o lugar de Lima Barreto, citado anteriormente neste trabalho. Assim, consideramos que há consciência por parte de um usuário de crack do olhar que este recebe dos passantes, ele sabe muito bem em qual lugar está, justamente no lugar de dejeto44
, já que a imagem do nóia é um lugar social demarcado que pode ser visto por qualquer um, sofrendo ou não problemas decorrentes do uso drogas. Este processo se dá pelo reconhecimento que efetuado pelos membros da comunidade em que vivemos. Este
44 “Deveria ser tombado o patrimônio do bairro, sirvo pra mãe mostrar pro filho o fim do
caminho errado” (Aperte o gatilho por favor, Facção Central), letra de rap que aborda problemas sociais ligado ao uso de drogas.
76
reconhecimento contém códigos que o mantém em seu lugar. Como exemplo, podemos citar o código de conduta de meninos moradores de rua e usuários de crack que, ao pedir água para o dono de um estabelecimento comercial, lhe faz um sinal sem entrar no estabelecimento para não incomodar os demais clientes (LESCHER, A.D.; SARTI, C. Et al, 1998). Esta ação é uma amostragem de saber acerca do lugar de onde se é reconhecido pelo Outro. Infelizmente este lugar pode ser nomeado em qualquer via pública, geralmente chamado de sarjeta.
Quem perambula pelas ruas e faz uso de crack, já detém uma série de nomeações que demarcam um reconhecimento: nóia45
, crackeiro46
, crackudo47 , cracolândia, drogado, junkie48
. Este reconhecimento visa estabilizar a vista daqueles que não se acostumaram com a imagem da pele acinzentada coberta por farrapos. Imagem que deveria ser indicativa de que algo não vai bem. A Sensibilidade que escapa a este reconhecimento é própria aos que conservam na sua percepção alguma estrangeireidade inerente à condição de sujeito, já que de modo usual, para os comerciantes e frequentadores, os indivíduos mais modulados e habituados à cena, a horda que se droga ao relento da miséria e do desemparo encontra-se atada às imagens grosseiramente estereotipadas que confortarão a vista sobre uma cena que pode mudar em conteúdo, mas respeita uma forma fiel a qualquer filme trash49
.
Portanto, o objeto do qual tratamos aqui é considerado o produto de uma operação discursiva e transmitida culturalmente. Desta forma, mantemos a droga, de acordo com a proposta deste trabalho, como um produto discursivo, ainda que insistam que quem faz uso da droga, lança mão de uma prática que não passa pela palavra (NOGUEIRA, 2003). Infelizmente, consideramos que na psicanálise, a ideia de que o uso de drogas não passa pela palavra, ou está alheio à cultura, é um vício merecedor dos mais sérios esforços em prol da
45 O termo vem enquanto sufixo da palavra 'paranóia', é atribuído a usuários devido ao
sentimento de persecutoriedade de quando se está sob efeito de alguma substância. Seu uso acabou abrangendo a referência de qualquer um que esteja fortemente vinculado a uma substância ilícita.
46 Em São Paulo.
47 No Rio de Janeiro.
48 Gíria na língua inglesa utilizada para denominar o “drogado”
49 “olham pra mim como se eu fosse extraterrestre, esquelético, feridas na pele, tipo monstro
77
abstinência. Quem sabe deste modo, abstinente de pré-concepções, o analista possa escutar sem maiores resistências aquele que lhe procura para falar sobre a dispendiosa relação na qual se enredam suas formas de gozo.