6. HĐDROJENĐN UÇAK YAKITI OLARAK KULLANILMASI
6.1. Tarihsel ve Teknolojik Evrim
Diana tem 29 anos, solteira, católica não praticante, segunda filha de uma família de três irmãos, tendo uma irmã mais velha e um irmão mais novo, que faleceu aos dois anos. Esse evento marcou a sua vida, pois tinha uma relação de maternidade com esse irmão e, quando o mesmo chegou a falecer, por ser ainda muito pequena não conseguiu compreender a situação, com poucos recursos para elaborar a perda. Tinha consciência que o irmão era doente, mas não tinha ideia do que poderia significar a morte naquele momento, pois tinha somente cinco anos. Os pais, atualmente aposentados, são casados, mas vivem em uma relação tensa, com muitos conflitos conjugais que foram constantes no decorrer do desenvolvimento da paciente.
Atualmente encontra-se desempregada, pois resolveu dedicar-se aos estudos do seu segundo curso universitário, Psicologia, que afirma ser o seu grande sonho, uma meta de vida. Trabalhou como professora no ensino médio e fundamental durante alguns anos após o término da primeira graduação, mas relata que, apesar de ter certa independência financeira, não conseguia se sentir muito realizada com a docência. Essa decisão de abandonar o trabalho para dedicar-se integralmente a outro curso tem sido um fator de conflitos familiares intensos, pois a paciente se diz muito cobrada pelos pais de não contribuir mais financeiramente em casa, bem como não ter definido ainda sua profissão aos plenos 30 anos, dependendo financeiramente da família, acarretando sentimentos ambivalentes na relação com os pais e consigo mesma:
Eu me cobro mesmo porque eu não queria mais estar naquela casa porque aquela casa é muito pesada pra mim e eu gosto de paz, gosto de tranquilidade. Não gosto de barulho... Mas, ao mesmo tempo também, eu sei que aquela casa pra mim é o único lugar, pelo menos, por enquanto, onde eu posso ficar. É muito angustiante. Muito ambivalente pra mim. E eu tô sofrendo porque já começaram as cobranças. Né? Não posso fazer isso. Não posso fazer aquilo. Eu me considerava relativamente independente. Pagava minhas contas. Ajudava em casa. E saía na hora que eu queria. Não tinha que ficar dando satisfação. E agora é como se eu tivesse voltando, retrocedendo. E aí,
87 assim, eu fico no dilema. Eu vou começo a trabalhar e aí atraso meu curso, né? (...) Eu sei que, assim, pra alguns pais, na verdade, eu gostaria de ter esse apoio, mas eu sei que eu não vou ter. Eu só vou ter cobrança. E é nesse sentido que me angustia, a cobrança (Entrevista 01).
Antes de participar do processo de pesquisa, estava em processo psicoterapêutico de base psicanalítica há um ano. Procurou a ajuda psicológica devido a crises de ansiedade e pânico, nas quais teve sintomas de taquicardia, sufocamento, sensações de terror, mal estar na garganta e dificuldade de deglutir, bem como insônia e bruxismo. Posteriormente o quadro evoluiu para episódios de depressão, com sintomas de desmotivação, falta de energia, cansaço constante e sonolência. Sintomas somáticos associados de maneira secundária também estavam presentes, como gastrite, náuseas, tonturas, dores de cabeça e manchas de pele em algumas partes do corpo, agravados em situações de estresse.
Seu pai é relatado como um homem controlador, violento, que manipulou as pessoas de sua casa com a dependência financeira. Durante a primeira infância, Diana afirma que tinha uma grande admiração e apego com seu pai, chegando a afirmar que era o seu “herói”. A morte do irmão mais novo marcou uma crise na vida da família, principalmente com o pai, que perdeu o controle emocional e começou a ter uma relação sádica com as mulheres da família, no caso da mãe, com brigas constantes, alcoolismo e traição com outras mulheres. No tocante à paciente, aos oito anos, começam as primeiras investidas de abuso sexual, por parte do pai, que vão perdurar até os dias atuais, mas com menos frequência e intensidade.
O tema das relações abusivas foi algo extremamente trabalhado durante as sessões, pois a paciente trouxe diversas histórias de um padrão de repetição neurótico de abuso nas relações com os homens, com amigos e figuras de autoridade, nas quais primeiramente é seduzida para depois sentir-se invadida. Sensações de irrealidade, terror, impotência e paralisia estão associadas a sua experiência de invasão, acarretando uma cisão em sua personalidade entre uma criança indefesa, carente de amor, e uma adulta que precisa ser forte e dar conta de todas as responsabilidades. A mais conflitiva é justamente tomar conta desse pai, que atualmente encontra-se com sérios problemas cardíacos, tendo que ir constantemente ao hospital – a ambivalência entre odiar esse pai invasivo e cuidar do mesmo foi um tema recorrente em nossos encontros.
88 A mãe nessa dinâmica é vista como uma pessoa fria, distante, indisponível para trocas afetivas mais profundas. Diana traz em seu relato uma sensação constante de falta de aceitação e acolhimento, o que não aconteceu com a irmã mais velha, com quem a mãe parece relacionar-se muito bem. Há um sentimento de mágoa profunda com respeito ao episódio do abuso, pois de acordo com a paciente, a mãe foi conivente com o acontecido na infância e permanece impotente até hoje, pois ao conversar com a mãe sobre o assunto quando adulta, a mesma não demonstra sinais de indignação, deixando a paciente num estado de confusão e desrealização, pois não consegue aceitar como uma mãe não consegue ter o mínimo de compaixão com a dor de uma filha nessas condições:
E minha mãe não gosta de mim porque ela sabe e sempre soube e nunca fez nada (...) É porque eu tenho muita mágoa. Eu não sei de onde é que vem, mas eu tenho muita raiva. E porque minha mãe teve muito amor, teve muita energia pra dar pra minha irmã, teve muita energia pra dar apoio à minha irmã, mas comigo sempre foi diferente (Entrevista 04).
Porque eu acho que ela sabia e ela confessou que sabia e não foi só com uma pessoa, foi com a vizinha, foi... (...) Como é que uma mãe sabe disso, presencia isso e não faz nada? (...) Eu já perguntei. Aí ela faz: ‘você sabe que seu pai é assim. Ele é doente’ ‘E por que você não falou?’ ‘Porque agora eu sou uma adulta. Uma coisa é adulta, outra coisa é uma criança falar’. Aí, vem a culpa: ‘por que eu não falei antes’? (Entrevista 03).
Uma das questões bastante trabalhada nas sessões diz respeito a constante humilhação que a mãe submete a paciente, desqualificando-a por estar ainda solteira aos 29 anos e sem um trabalho fixo, instável na vida. Em diversos momentos, a mãe relata o desejo de que a filha saia o quanto antes de casa, como uma forma de solucionar os diversos conflitos existentes. Vale ressaltar que o tema do abuso nunca foi mencionado explicitamente para os pais, gerando uma tensão familiar latente. A paciente chega a pensar em uma hipótese, durante os nossos encontros, que exista um segredo na relação entre o casal, um mistério, que faça com que eles permaneçam unidos, mesmo que com tantos entraves e violências. Faz sentido: afinal de contas, essa paciente parece possuir um poder sobre essa dinâmica familiar a ponto de deixar o casal muito fragilizado – de acordo com Diana, a mãe possui a fantasia que se for revelado o abuso, o pai chegará a morrer de infarto. Além disso, como é recorrente nas dinâmicas de abuso, a paciente com isso mantém um olhar de atenção, atrai esse pai, mesmo que de maneira perversa, em detrimento da sexualidade do mesmo com sua mãe.
89 Como o episódio de abuso aconteceu tardiamente no desenvolvimento da paciente, percebemos que a sua repercussão, ainda que muito dolorosa, não teve como consequências um esfacelamento da capacidade integrativa do eu. Muito pelo contrário: Diana possui uma capacidade elaborativa/imaginativa muito rica, seu discurso é permeado de emoção e, apesar da sensação de terror/pânico presentes em sua vida, percebemos um esforço ativo para compreender o seu sofrimento e transformá-lo. Isso fica claro na forma como ela consegue desenvolver relações amorosas, mesmo ambivalentes: atualmente está namorando, sente-se gratificada com o relacionamento, apesar de reconhecer que frequentemente busca encontrar um pai cuidador no parceiro, que tente suprir as suas necessidades afetivas infantis. Surge aí mais uma demanda típica da organização de defesa oral, na qual a briga entre a autossuficiência e a sensação de esvaziamento e falta de apoio são a tônica psicodinâmica central do conflito, como podemos perceber no seguinte fragmento:
“Tenho medo de que meu namorado me deixe por causa disso... Porque não é fácil. É... Eu transmito muita insegurança pra ele. Meu lado infantil, meu lado menina aparece muito, muitas vezes, pra ele porque quando eu me vejo totalmente desprotegida, naquela casa, vejo que realmente eu sou muito só e que eu sou só... Aí eu não tenho a quem recorrer e arrumo um certo tipo de amparo porque eu me vejo muito só (...). É muito ruim ficar muito tempo só e aí eu acabo, ele tá ali disponível, assim, e eu acabo depositando algumas carências nele. (...) Eu sei que isso é humano. Todo mundo é autossuficiente. Não depende de ninguém. Mas dependendo também, né, porque ele pode embora e eu ficar sozinha”. (Entrevista 05)
Discutindo um pouco sobre seu diagnóstico corporal, podemos afirmar que é uma paciente tipicamente histérica/rígida, com boa proporção corporal (Lowen, 1988; Johnson, 2001), atitude sedutora na relação transferencial, vivacidade no corpo e no contato. Também percebemos sua rigidez como um mecanismo de defesa de cobertura para encobrir questões pré-edípicas esquizo-orais, devido aos sentimentos constantes de pânico e ansiedade, alternados com períodos de depressão. Seu olhar assustado, tensões fortes na base da nuca e na boca nos sinalizam para questões vivenciadas como traumáticas em fases precoces do desenvolvimento, assim como necessidade constante de falar como descarga de sua ansiedade e o medo como emoção central em diversos contextos. A forma defensiva como a paciente tenta superar esse medo decorrente da rejeição de suas necessidades é refugiar-se na racionalidade e centrar sua vida nos estudos, na compreensão racional do mundo e das pessoas. Além disso, existe um esforço
90 quase que sobre-humano de perfeição, de corresponder expectativas das pessoas, na intenção de ser amada e aprovada.
Eu tenho medo do fracasso. Eu quero essa sensação de desapego. (Risos). De não ter mais essa prisão em relação ao outro porque, realmente... Eu já tinha pensado sobre isso, sobre as expectativas que, que eu tenho que ser legal, que eu tenho que ser uma boa aluna, uma boa filha, uma boa namorada, que eu tenho que ser uma boa profissional (Entrevista 1).
Por isso que eu tô com medo de prejudicar minha relação porque, as vezes, me dá um medo muito grande. O medo de ser abandonada. De novo. Pra eu reafirmar que eu não sou amada... Isso é loucura. Isso é doença. Eu não quero isso. Isso dói. Muito. Eu tenho muito medo de ser feliz. Eu já reconheci isso. Quando eu tô feliz, eu acho sempre que alguma coisa vai acontecer. Eu fico preparada. Como se eu não merecesse também. Como se eu não pudesse... (Entrevista 2).
Essa paciente foi encaminhada posteriormente, tendo a sua disposição dez semanas para atendimento, das quais frequentou seis. As faltas aconteciam geralmente decorrentes de crises que a paciente tinha de choro, momentos de insônia, ou angústias após algum conflito ou briga no âmbito familiar. Tivemos a liberdade de trabalhar diversos procedimentos corporais com a mesma, que aceitou bem as propostas e relatou ter muito proveito com as técnicas e exercícios experimentados. Uma experiência fundamental para essa paciente foi o relaxamento dos músculos da nuca, por meio do suporte da cabeça sobre nossas mãos, conforme preconizado por Lewis (2004). Esse procedimento permitiu uma ampliação da respiração, principalmente devido à abertura do tubo da garganta, possibilitando um melhor acesso ao choro preso, com o suporte somático do terapeuta, de uma maneira acolhedora e passiva. Outra forma de relaxar a tensão na nuca e pescoço deu-se de maneira mais ativa, na quinta sessão, quando pedimos que a paciente pudesse expressar um pouco o seu medo da loucura mediante a grande pressão que estava sofrendo em casa, aliada às novas investidas sexuais do pai. A paciente teve a oportunidade de, em grounding, experimentar um pouco de “desorganização”, expressando sua imagem de loucura por meio de movimentos espontâneos na cabeça, assanhando os cabelos, pulando, birrando de maneira lúdica.
Outro trabalho realizado foi o de construção de limites, tendo em vista que a paciente possuía uma história de abusos e invasões, a partir da investida sexual do pai. Com os braços em posição de defesa, com as palmas da mão abertas para o terapeuta, ela pôde experimentar construir o seu espaço, de maneira ativa e defensiva, em grounding, no lugar de adulta. O contato profundo com a respiração
91 foi também enfatizado como forma de construir recursos somáticos para lidar com os sentimentos ameaçadores de pânico e ansiedade. Tentamos trabalhar no sentido de propiciar uma pulsação de acordo com o fluxo de ativação psicossomática que a paciente nos trazia: ativando o sistema nervoso por meio de técnicas e exercícios com fins de aumentar a carga quando a tônica da sessão estava na depressão e promovendo uma ação nervosa parassimpática com o relaxamento, respiração e contato com as vísceras, quando prevalecia a ativação simpática, da ansiedade.
A paciente referia-se com muito entusiasmo aos procedimentos corporais realizados, terminando as intervenções com um sentimento de gratidão e curiosidade para conhecer mais da abordagem corporal:
Que coisa maravilhosa essa experiência... Fui na minha infância. Fui na minha infância... Eu não sabia fazer isso. Eu não conseguia. Eu tinha medo. Eu ainda tenho... (...)Tá ótimo. Muito bom. Muito bom. Gostei muito. Nossa. Que diferença! (Entrevista 1).
Como o corpo é... Nossa. A bioenergética é muito fascinante. Pois é. Eu quero estudar mais pra poder entender melhor. (Entrevista 4).
Eu tô triste porque eu sei que isso aqui é muito rico, mas eu tô grata... Muito satisfeita porque numa sessão como essa de hoje, eu tive muitos insights. Muitos. Muitos. Infinitos. (...) E aí, eu vou fazendo. Trilhando o meu caminho. (Entrevista 5).
Tal melhora pode ser observada por meio dos resultados obtidos nos testes realizados. No ISSL, houve um aumento significativo dos sintomas de ordem psicológica, ao contrário da testagem inicial, na qual prevaleciam os sintomas físicos. É importante ressaltar que, nas últimas semanas de nosso trabalho, a paciente reativou uma série de questões relacionadas ao abuso do pai, devido a uma nova investida sexual do mesmo, como citamos anteriormente. Além disso, houve uma resistência significativa para o término do processo, desvincular-se foi difícil, tivemos que fazer uma sessão extra para elaborar o luto de nossos encontros, enfatizando as descobertas e potencializando os recursos da paciente para o enfrentamento das questões estressoras de seu cotidiano. Tais resultados são corroborados com os obtidos no QSG, no qual percebemos uma estabilidade do quadro de vulnerabilidade, apesar de algumas pequenas oscilações nos percentis.
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