Como afirmado em outras ocasiões, a atividade turística em Caetanos de Cima é bastante recente e ainda se encontra em fase de estruturação. A experiência das famílias empreendedoras e da comunidade organizada para o desenvolvimento de uma atividade econômica com tamanha complexidade como o turismo comunitário ainda é bastante incipiente.
As análises que se seguirão consideraram este momento histórico sobre o qual se alicerça a atividade, fazendo as devidas ponderações.
163 A discussão sobre a sustentabilidade da atividade em Caetanos de Cima se baseou na noção de sustentabilidade abordada na seção 3.
Nos termos deste trabalho, portanto, sustentabilidade no turismo comunitário diz respeito à capacidade que a atividade dispõe para gerar benefícios e incrementar habilidades com o mínimo impacto considerando a dinâmica econômica, social, política e ambiental.
5.3.1 Aspectos econômicos
Em termos econômicos, o turismo comunitário precisa ser rentável, ou seja, seu planejamento e execução precisam fazê-lo lucrativo e não trazer prejuízos. Este é um aspecto da sustentabilidade às vezes negligenciado por ONG‘s, associações e comunidades envolvidas verdadeiramente nos movimentos sociais – seja por ser um tema distante do seu rol de atuação seja pela carência de habilidades específicas.
No item anterior, pudemos perceber que os aspectos administrativos, de comercialização e promoção do turismo comunitário de Caetanos de Cima ainda precisam de melhorias.
Esta situação, aliada a ausência de plano de negócios ou estratégias de comercialização (por empreendimento ou por comunidade), impossibilita a atração de um maior fluxo de turistas, logo uma maior rentabilidade dos empreendimentos e serviços oferecidos pela comunidade.
A relação da comunidade com os stakeholders do turismo comunitário local é bastante deficiente, restringindo-se à ONG que assessora a comunidade, à Rede Tucum e ao meio ambiente onde ela está inserida.
Todas as pessoas entrevistadas desenvolvem outras atividades produtivas, pois o turismo não é capaz de suprir as necessidades financeiras das famílias. Esta situação condiz com uma das premissas do turismo comunitário enquanto atividade complementar e diversificação econômica em detrimento da especialização no turismo.
Para 80% dos entrevistados, os rendimentos provenientes do turismo comunitário não ultrapassam 10% do total dos seus ganhos. Apesar de ser um valor discreto, significa uma renda extra para as famílias e a comunidade.
164 Outra premissa do turismo comunitário é que ele promova a dinamização das atividades produtivas tradicionais, incorporando aos seus produtos e serviços matérias primas, conhecimentos e práticas já existentes na comunidade. 39% das famílias possuem alguma das suas atividades produtivas ligadas e/ ou absorvidas pelo turismo local. Entre essas atividades estão o artesanato, a criação de animais, a pesca, o comércio, a hospedagem, a produção de coco, a batata e o feijão.
Os preços dos produtos e serviços são definidos coletivamente e se baseiam no valor justo para os custos com matéria prima e trabalho bem como para o lucro.
A distribuição equitativa dos serviços entre os diferentes fornecedores ainda não é realizada de maneira sistemática. Especialmente em relação a hospedagem, a ocupação da pousada tem sido privilegiada pelos visitantes por sua localização e facilidade de acesso.
Segundo as práticas sugeridas no Caderno de Normas da Rede Tucum e adotadas por comunidades mais maduras no turismo comunitário, existe uma taxa repassada ao GTCL e/ ou a Associação Comunitária sobre todos os serviços prestados. Esse montante é investido em ações comunitárias definidas de maneira coletiva, sejam elas voltadas a melhoria de infraestrutura ou para projetos locais desvinculados da atividade turística.
Entretanto, essa arrecadação ainda não está ocorrendo devido, principalmente, a desestruturação do GTCL decorrente da sua pouca atuação em 2009. Assim, ainda que discretos, os benefícios econômicos que a atividade promove na comunidade são aqueles gerados diretamente pelo trabalho e a dinamização das atividades produtivas locais.
5.3.2 Aspectos políticos
A participação é um dos componentes políticos mais importantes do turismo comunitário. Não apenas enquanto trabalhador, mas, principalmente, sua participação qualificada nos lugares de planejamento e organização da atividade.
Em Caetanos de Cima, as decisões que dizem respeito ao planejamento e desenvolvimento do turismo comunitário são discutidas e definidas em reuniões abertas não apenas para o GTCL, mas também, e principalmente, para toda a APAPAIS.
165 Todos os entrevistados afirmaram participar das reuniões que discutem acerca do turismo comunitário e consideram tomar parte nas decisões referentes à atividade.
Essa prática possibilita que os interesses coletivos sejam contemplados e que o projeto seja comunitário, mesmo que os empreendimentos sejam administrados por famílias.
Entretanto, uma clareza é importante que todos tenham acerca do turismo comunitário: nem todas as famílias irão se mobilizar para o seu desenvolvimento nem terão parte nas atividades direta e indiretamente a ele relacionadas.
Isto é próprio da dinâmica das comunidades, onde não há pensamento único nem ausência de conflitos e discordâncias. Algumas famílias não estão envolvidas em nenhuma atividade nem se mobilizam em torno da APAPAIS, logo não participam do turismo.
Além disso, existem as famílias que não tem disposição, interesse ou recursos financeiros para investir na atividade, ficando de fora e aguardando os resultados do turismo comunitário em termos de atender à estratégia e objetivos coletivos.
Outro componente importante da sustentabilidade política diz respeito às relações de poder. Uma comunidade não é homogênea, mas sim marcada por discordâncias e disputas internas e pela atuação de lideranças que, ontologicamente77, exercem poder sobre as decisões e os procedimentos adotados.
A estabilidade política ainda é um objetivo pelo qual a comunidade se mobiliza, enfrentando audiências públicas e conflitos diretos com a vizinhança que questiona a desapropriação das terras e o projeto de assentamento. Sem o direito assegurado à terra onde vivem, as atenções e ações da associação comunitária sempre se voltarão prioritariamente para as disputas fundiárias em detrimento das demais atividades, especialmente as produtivas em estágio inicial como o turismo comunitário. Além disso, a própria segurança interna e, consequentemente, dos visitantes se torna frágil.
77 Ontologicamente diz respeito a ontológico que é a característica inerente do ser enquanto ser. Neste caso, dizer
que a liderança exerce, ontologicamente, o poder significa que é próprio do liderar tomar a frente e ser mais ativo do que aqueles que são liderados.
166 5.3.3 Aspectos sociais
A aliança que caracteriza a comunidade deve ser reforçada pelo turismo. A adoção de procedimentos transparentes no planejamento e execução dos projetos, nas tomadas de decisão, nos encaminhamentos e nos resultados econômicos da atividade turística possibilita a transparência, a confiança e o espírito comunitário. A socialização de informações e dados sobre a atividade cria uma situação que permite a avaliação, monitoramento e planejamento de maneira qualificada, ampliando as possibilidades da participação qualificada e descentralizada de todos os membros do grupo.
O protagonismo comunitário é uma marca forte de Caetanos de Cima não apenas nas questões relacionadas ao turismo comunitário. Sua organização é bastante experiente e exerce, com autonomia, o controle sobre suas ações e projetos. O turismo aproveita-se dessa competência institucional e coesão social como uma grande vantagem para se estruturar.
De maneira geral, em comunidades rurais e/ ou tradicionais, os mais jovens não se sentem atraídos pela organização comunitária ou pelas atividades tradicionais. As discussões, experiências e novas habilidades proporcionadas pelas formações em turismo comunitário colaboraram para o incremento da autoconfiança e do conjunto de técnicas e conhecimentos existentes na comunidade e instigaram os jovens a organizarem-se em torno de um objetivo comum.
As atividades do Ciclo de Cultura (música, dança, brincadeiras e contações de histórias pelos mais velhos) reforçam a cultura local e o sentimento de pertença e o orgulho da sua identidade cultural vão sendo absorvidos pelos mais jovens. Atuou de maneira semelhante e sistematizada, a formação em história e memória local vinculadas ao projeto de turismo. Essas atividades fortalecem o orgulho de si, tornando uma ação preventiva diante da possibilidade de desestruturação cultural provocada pelo turismo.
É importante, porém, atentar para a possibilidade de mercantilização da cultura local que folcloriza as manifestações culturais, tornando-as produtos preparados sob medida para o consumo dos turistas. Ao se desconectar da realidade cotidiana dos sujeitos, a cultura perde a sua autenticidade e torna-se um simulacro.
167 5.3.4 Aspectos ambientais
Espera-se que, com o desenvolvimento dos produtos e serviços do turismo comunitário, haja um maior envolvimento e preocupação tanto dos turistas quanto dos moradores locais em relação ao meio ambiente.
Caetanos de Cima tem incorporado, nos últimos anos, boas práticas ambientais, desde a coleta seletiva de lixo e do não uso de agrotóxicos até o monitoramento do acesso motorizado às dunas, por exemplo.
Desta maneira, é o turismo comunitário quem poderia se aproveitar da consciência e respeito ao meio ambiente já existentes na comunidade. Entretanto, essas características estão de fora dos materiais promocionais e não são devidamente valorizados pelos anfitriões.
A capacidade de carga78 ainda não foi mensurada, mas a oferta de leitos é reduzida, chegando a apenas 6 UH‘s e 12 leitos nas instalações não domiciliares79.