Civilis”
Como se demonstrou no primeiro capítulo desta tese, a civilização romana, que surgiu em uma cidadela do século VIII a.C, transformou-se em um império internacional. A transição da Realeza para a República e, posteriormente, para o Principado é acompanhada de uma evolução na mentalidade romana.
Passou-se de uma concepção tradicionalista da cidade para uma visão cosmopolita de mundo a partir da expansão territorial do império e da assimilação dos ideais da filosofia estoica, como se viu no capítulo segundo desta pesquisa.
No presente capítulo, foi evidenciado como os ideais do Pórtico influenciaram a Jurisprudência Clássica, em particular nos textos do jurisconsulto Ulpiano.
Contudo, antes de concluir a presente tese, deve-se, ainda que brevemente, esclarecer como o pensamento jusfilosófico de Ulpiano atravessou séculos e continua a inspirar aqueles que operam o Direito.
Nos capítulos antecedentes, citaram-se, diversas vezes, Digesto,
de Justiniano120, Imperador Romano do Oriente, e fazem parte do Corpus Iuris
Civilis.
As compilações do imperador Justiniano tiveram inestimável valor na formação do mundo ocidental, pois são fruto de quase dez séculos de evolução do Direito Romano. “Justiniano era monarca tipicamente absoluto. No campo político, reunificou o Império; no terreno jurídico, acercou-se de jurisconsultos e empreendeu a grande reforma do Direito” (MOURA, 1998, p. 41).
Devido à sua origem humilde, Justiniano não era um homem culto, e muito menos letrado. Percebeu, porém, que vivia em uma época de decadência do direito e, para preservar as conquistas intelectuais desse ramo do conhecimento, resolveu reunir os melhores juristas do século VI, para empreender uma imensa obra legislativa. Posteriormente “a esse conjunto, o romancista francês Dionísio Godofredo, em 1538, na edição que dele fez, denominou Corpus Juris Civilis (Corpo do Direito Civil), designação essa que hoje é universalmente adotada” (ALVES, 2007, p. 48). Corpus Iuris Civilis foi empregado por Godofredo, em sua edição genebrina de 1583, por oposição à legislação canônica, que havia tomado o nome de Corpus Iuris Canonici (Corpo do Direito Canônico).
Apesar da ausência de melhor cultura, ordena que uma equipe composta dos mais notáveis juristas da época, dirigidos por Triboniano, faça uma compilação dos escritos dos jurisconsultos romanos e, assim, surge o Corpus Juris Civilis do qual deriva diretamente a maioria das legislações atuais. Compõe-se o Corpus Juris do Código (Codex) Antigo (ano de 529), do Digesto (533), das Institutas (533), do Código novo (534) e das Novelas. (LUIZ, 1999, p. 48).
A primeira parte do Corpus Juris Civilis foi promulgada em 529 d.C. e era uma reunião de constituições imperiais, teve o nome de Novus
Codex Iustinianus (Novo Código de Justiniano), mas, por se tornar logo
obsoleta, passou a se chamar, na década subsequente, Codex Vetus (Código
120
JUSTINIANUS, Flavius Petrus Sabbatius, Imperador do Oriente (483-565) – Passou para história como Justiniano I, foi imperador bizantino de 527 até sua morte em 565. De origem humilde, casado com a dançarina Teodora, foi nomeado cônsul ligado ao trono por seu tio Justino I, a quem sucedeu. Considerado um dos mais importantes soberanos da antiguidade tardia, tanto no plano político, quanto no legislativo e religioso. Seu maior legado é a compilação normativa posteriormente conhecida como CORPVS IVRIS CIVILIS, que, ainda hoje, é a base do ordenamento jurídico mais difundido no mundo. (GUIDA NT, texto digital b).
Velho). No ano seguinte, Justiniano manda reunir e sistematizar, em uma única obra, vários escritos de jurisconsultos clássicos que estavam dispersos.
Depois de haver editado o Codex Iustinianus (529 d.C.), reunião das leges, concebida por Justiniano desde a época de seu tio Justino (518-527), adaptando-as à realidade da sua época, o Imperador convocou os homens da maior competência para uma missão muito mais hercúlea, através da Constituição Deo Auctore, de 15 de dezembro de 530 [...] Tratava-se de recolher, nos escritos dos juristas antigos providos do ius respondendi, os fragmentos necessários para levar a cabo um tratado completo daquela parte do direito ainda vigente que, por pertencer à época clássica, somente podia ser conhecida pela obra dos prudentes. Os fragmentos deveriam ser organizados. A compilação resultou no Digesta ou Pandectae, a parte mais importante do esforço justinianeu, uma vez que reunia a doutrina que haveria de influenciar todo o mundo futuro, na criação e aprimoramento do Direito (POLETTI, 1996, p. 54).
“Foram consultados 1.265 livros e o trabalho foi concluído com grande rapidez, pois três anos depois estava pronto” (POLETTI, 1996, p. 54), mas Justiniano considerou que, antes de publicar essa obra extraordinária (o
Digesto, ou Pandectas em grego, é integrado por 50 livros), deveria preparar os
estudantes da escola de Direito de Constantinopla para recebê-la e compreendê-la, portanto ordenou que se elaborasse, também, um manual para ser publicado simultaneamente ao compêndio.
Terminada a elaboração do Digesto, mas antes de sua promulgação, Justiniano escolheu três dos compiladores – Triboniano, Doroteu e Teófilo – para a organização de um manual escolar que servisse aos estudantes como introdução ao direito compendiado no Digesto. Seguindo as Institutas de Gaio, essa comissão elaborou as Institutiones (institutas). Ambos (Digesto e Institutas) entraram em vigor na mesma data: 30 de dezembro de 533 d.C. (ALVES, 2007, p. 47).
Durante a elaboração do Digesto e das Institutas, Justiniano sancionou 50 novas constituições imperiais reunidas em uma coleção designada Quinquaginta Decisiones. (ROLIM, 2000, p. 92). Também enquanto os membros da comissão compilavam o Digesto, perceberam que o código de 529 d.C (Novus Codex Iustinianus) estava desatualizado (ROLIM, 2000, p. 94) e Justiniano determinou, então, que se elaborasse o Codex Iustinianus
Repetitæ Prælectionis, promulgado em 29 de dezembro de 534 d.C.
Depois de elaboradas as Institutas, o Digesto e os Códigos, essas obras tiveram algumas modificações introduzidas por meio de constituições
imperiais promulgadas por Justiniano, denominadas Novellæ Constitutiones – Novelas (ALVES, 2007, p. 47).
O imperador julgava completo o Corpus Juris, capaz de oferecer solução pronta para todos os litígios possíveis no presente e no futuro; por isso não admitia os Comentários, nem outros quaisquer trabalhos elucidativos. Se acaso surgissem dúvidas na prática, deveriam os juízes dirigir-se ao soberano para que ditasse a exegese competente; as regras de Hermenêutica, espalhadas pelo Digesto, deveriam apenas guiar o intérprete oficial e legislador, e não o aplicador, ou expositor, do Direito. (MAXIMILIANO, 2000, p. 55).
“A recolha legislativa de Justiniano encontrou o caminho para Itália, apenas poucos anos depois da sua emanação” (BRETONE, 1998, p. 21) e, mesmo que a soberania do Oriente sobre as regiões reconquistadas tenha sido breve, a influência das obras jurídicas para lá enviadas não o foi.
Com a reconquista da Itália, Justiniano enviou para aí, oficialmente, exemplares das suas compilações e das novelas até então publicadas. A hegemonia bizantina foi efêmera. Três anos após a morte de Justiniano, os lombardos foram, pouco e pouco, conquistando aos bizantinos quase toda a península itálica (ALVES, 2007, p. 57).
De imediato, obrigou a observância do Direito Romano em toda aquela região reconquistada, proibindo terminantemente a vigência de qualquer outro ordenamento jurídico estrangeiro. Esse domínio bizantino no ocidente, no entanto, durou pouco. Três anos após a morte de Justiniano a Itália foi novamente invadida, desta feita pelos Longobardos(sic). A partir de então, diversos pequenos países foram se formando no que restara do antigo Império Romano do ocidente (ROLIM, 2000, p. 101- 102).
A compilação do Corpus Juris Civilis foi realizada entre os anos 528 e 535. A redação de um corpo legal que unificava o direito vigente, executada por ordem do imperador Justiniano I Magno, imortalizou o Direito Romano.
Com a morte do Imperador Justiniano, em 565 d. C., considera-se o termo final do Direito Romano, já que, no Oriente, desenvolve-se o direito bizantino, com acentuadas influências orientais. No Ocidente, o Direito Romano foi assimilado paulatinamente, combinando-se com o direito germânico dos povos bárbaros, que, aos poucos, foram se cristianizando e latinizando.
Durante a Alta Idade Média, enquanto era assimilado pelos povos germânicos, o Direito Romano se corrompeu, ressurgindo no século XI com a
fundação do trabalho dos legistas da Escola dos Glosadores na Universidade de Bolonha, dentre os quais Inério, autor da Littera Bononiensis.
À Inério se atribui uma nova edição do Corpus Juris Civilis, a Littera Bononiensis: assim, ele não o descobriu, mas o consolidou. Inério não foi apenas o editor da nova cópia do Corpus, foi também o autor de um formulário notorial e de um ensaio sobre as ações (LOPES, 2008, p. 118).
A Inério vieram juntar-se outros estudiosos formando-se, então, um grupo de estudos denominado Escola dos Glosadores, porque as notas que eles inseriam às margens dos textos eram chamadas glosas, palavra originária do grego que significa “uma breve explicação de uma palavra difícil” (ROLIM, 2000, p. 111).
Surgem, depois dos glosadores, outras escolas de hermeneutas que se dedicam à exegese do direito antigo, como os pós-glosadores, comentadores e humanistas.
No século XIII surgiu na Itália o movimento dos Bartolistas, também conhecidos por Comentadores ou Pós-glosadores. Liderados por Bártolo de Saxoferrato, era formado por estudiosos do Direito que reagiram contra o método dos glosadores, que eles consideravam demasiadamente analítico, e defendiam uma nova forma de interpretação do Direito Romano; para eles, deveria ser estudado não através de pequenas notas explicativas (glosas) mas sim, através de longos comentários comparativos entre o Direito Romano Clássico, o direito canônico e os direitos de cada região. Desse estudo comparativo deveriam ser retirados os princípios gerais que deveriam ser aplicados na solução do problema real. Surgiram, desta forma, os princípios da dialética escolástica, método utilizado na teologia por influência de São Tomás de Aquino (ROLIM, 2000, p. 112).
Enquanto a cena medieval esteve dominada por preocupações relativas a Deus, os pensadores do Renascimento se interessaram mais pelo homem. Dessa circunstâ extai o seu nome o novo movimento cultural, o humanismo (RUSSELL, 2001, 240), Foram os estudiosos da Escola Culta dos humanistas, que, no crepúsculo medieval, século XV, dedica-se a encontrar a verdadeira jurisprudência para renovar o direito vigente.
Desde então, não se parou jamais de se estudar o Direito Romano. São notórias as contribuições de outras correntes de exegetas, tais como a Escola Histórica nascida no âmbito iluminista, com Savigny, na Alemanha, no século XVIII, da qual decorre a também alemã Escola Pandectística, fundada por seu discípulo Putcha.
Os povos germânicos não destruíram o Direito Romano, ao contrário, adotaram-no, conservaram e adaptaram. Os seus
herdeiros, nações germânicas latinizadas e cristianizadas, estudam as compilações antigas desde então e, disto tudo, originou-se o que se convencionou chamar Direito Romano Germânico, que é o direito vigente na maioria dos Estados do Ocidente hodierno (GUIDA NT, texto digital c).
Sinteticamente, pode-se afirmar que as ideias do Pórtico foram assimiladas pela Roma imperial, época na qual influenciaram a Jurisprudência Clássica e, consequentemente, Ulpiano. A Jurisprudência Clássica sobreviveu à queda de Roma e à helenização Bizantina, graças à compilação justinianeia posteriormente chamada de Corpus Juris Civilis.
Com a latinização e cristianização dos bárbaros germânicos, o Direito Romano sobreviveu à Alta Idade Média e, com o trabalho dos legistas das universidades da Baixa Idade Média, Ulpiano e a Jurisprudência Clássica foram redescobertos e, desde esse momento, inspiram os legisladores ocidentais.
Todavia, não se pode negar um lugar a Justiniano na posteridade, pois a obra jurídica que ele fez compilar tornou-se um dos pilares da civilização ocidental. Não é, portanto, sem razão que, séculos mais tarde, o mais genial poeta italiano Dante Alighieri, no seu poema épico A Divina Comédia, coloca o Imperador Justiniano no Paraíso entre os bem-aventurados:
Sou Justiniano, e César fui então; que por querer do Deus que eu acalento, o supérfluo das leis tirei, e o vão.
E antes de estar nesse trabalho intento, só uma Natura ter Cristo, não mais supondo, me encontrava a meu contento. (ALIGHIERI, 1998, p. 44)
CONCLUSÃO
O princípio de igualdade jurídica contido atualmente no Direito Romano Germânico, dos Estados ocidentais, era inexistente no Direito Romano nos primeiros séculos da história de Roma.
Como se viu, Roma, fundada no século VIII a.C., no final da idade do bronze, era uma cidadela provinciana, distante geográfica e culturalmente das civilizações que floresciam a leste.
O Direito que se desenvolveu naquele ambiente arcaico, na pequena vila submetida a um governo monárquico e muitas vezes despótico, era fruto dos costumes e da tradição do povo romano, o que excluía a plebe e, igualmente, qualquer forasteiro, da vida política e da religião.
A evolução do Direito para que se alcançasse a igualdade jurídica perante a lei perpassa toda a história de Roma e a gradativa transformação da mentalidade romana.
A instigante pergunta que aqui se enfrenta é, justamente, como a ideologia romana evoluiu da tradição nacionalista, na qual não existia espaço para a ideia de igualdade, para uma visão de mundo mais arejada, com crenças em forças transcendentes, e a concepção do ser humano como ente cosmopolita.
Para responder como se deu a evolução do pensamento romano, resgataram-se os momentos históricos que ensejaram tão significativa mudança.
Apontou-se aqui o modo pelo qual a plebe romana lutou para ter um tribuno próprio e se insurgiu para conseguir a cidadania romana. Como se disse, desde o fim da Realeza, os habitantes do Lácio e, depois, de toda a península itálica envolveram-se em batalhas sangrentas para obter a cidadania romana. Entende-se que a conquista da cidadania é essencial - e foi decisiva - para se alcançar a igualdade jurídica.
Todavia, a cidadania só foi estendida aos cidadãos livres do império no ano de 212, séculos depois do fim da República e no ocaso do Principado.
Mesmo com o fim da Realeza e com advento da República, ainda era modesta a ideia de igualdade jurídica, não obstante a criação do tribunato da plebe e da promulgação das leis das XII Tábuas. Tal ideal de igualdade só amadurece plenamente no Direito Romano do Alto-Império, no Principado.
Mesmo que, no século II a.C., Roma, ainda republicana, já fosse senhora do Mediterrâneo, tendo subjugado os gregos e os púnicos, seu patrimônio cultural e seu sistema de crenças ainda estavam muitos ligados à tradição nacional.
Já sendo um império internacional, faltava, todavia, para Roma se tornar um império cosmopolita. A ancestral ideia de Urbs (Roma, a “Cidade” por excelência) era acanhada para aquele novo Orbis (mundo, no caso o mundo romano).
A transição da República para o Principado é precedida por décadas de guerras civis, inevitáveis para que se acomodasse a sociedade e a política ainda tradicionalistas e arcaicas à nova ordem que se impunha no imenso território romano.
É precisamente durante a árdua acomodação política que transformou a República em Principado que a concepção tradicionalista da
Urbs se transfigurou ganhando contornos de uma ótica cosmopolita mais
harmônica com o novo Orbis.
A conversão ideológica havida a partir da expansão territorial do império deu-se contemporaneamente à assimilação dos ideais da filosofia estoica importados da Grécia recém-integrada na órbita de influência romana.
O estoicismo, que inspirou a elite romana, notadamente do Círculo de Cipião, assim preparou o terreno para a assimilação das ideias de igualdade jurídica, graças à sua bem elaborada teoria sobre o Direito Natural desenvolvida pelos filósofos latinos como os aqui citados Cícero, Sêneca, Epiteto e Marco Aurélio.
O Direito Natural estoico decorrente da reta razão é baseado na observação de aspectos universais e imutáveis da natureza humana. O homem sábio e virtuoso, à maneira do Pórtico, acredita em uma justiça possível.
A influência do estoicismo fez-se sentir na prática jurídica e social do mundo romano. Os jurisconsultos da época do Principado, na era Clássica,
incutiram na jurisprudência romana a síntese de tudo que aspiravam, ou seja, noções de virtudes propriamente estoicas, como humanidade e caridade.
Foi evidenciado, neste trabalho, como os ideais do Pórtico influenciaram a Jurisprudência Clássica, em particular nos textos do jurisconsulto Ulpiano.
A filosofia estoica decorre da compreensão do mistério da Natureza, que é autora e parte da criação. Viver virtuosamente é entender a Natureza, procurar perceber seus desígnios e integrar-se a ela.
O sábio estoico deve incorporar-se à Natureza, o que o faz comungar com o divino, que é o sopro criador. Nessa comunhão, encontra-se o cerne da igualdade jurídica proposta na Jurisprudência Clássica.
Tudo que foi dito, e espera-se que tenha sido suficiente, foi para mostrar que o espírito da doutrina jurídica clássica (que tinha força de legislação), elaborada durante o Principado, recebeu impulso imenso do estoicismo.
A moral romana foi enriquecida com a influência estoica e, excluindo os posicionamentos pessoais e a educação filosófica, o autor aventura-se a demonstrar cientificamente e de forma indiscutível que Justiniano, ao compilar o Corpus Juris Civilis, estava, de fato, compendiando uma doutrina e legislação bem adaptada à filosofia do Pórtico.
Importante voltar a dizer que o jurisconsulto Ulpiano é o mais citado no Digesto (um terço dos fragmentos são citações de seus textos). Considerando-se que o Digesto é a maior e principal parte da totalidade do
Corpus Juris Civilis, não é leviano dizer que, é em grande parte graças a
Ulpiano que o pensamento jusfilosófico estoico foi legado à civilização Ocidental e incorporado nos ordenamentos jurídicos modernos.
A influência que o estoicismo teve sobre o Direito Romano Clássico refletiu, nos séculos subsequentes, na absorção desse Direito pelos bárbaros germânicos, ao serem latinizados e cristianizados e, portanto, moldou a civilização europeia.
No começo da Idade Média, observamos uma mistura do direito germânico com o Direito Romano, acrescido ainda das decisões do Direito Canônico, que igualmente tem inspiração romana.
Quando no século XI, na Universidade de Bolonha, a escola dos glosadores começa a estudar o Digesto como se fosse o Direito Romano no seu estado puro, que teria vigorado durante toda a história romana, não percebe que estão estudando um Direito Romano com considerável substrato estoico que carrega em seu bojo um apurado e elevado ideal filosófico. Provavelmente por isso, até os dias atuais, tende-se a subestimar a influência do estoicismo sobre a consolidação legislativa imperial.
Outra hipótese que deve ser considerada para se entender o motivo da dissociação entre o estudo do Direito Romano e da filosofia do Pórtico é que, a partir do Iluminismo, muitos filósofos passaram a se preocupar em estudar e conhecer seus pares da antiguidade clássica, desdenhando a clara e simples filosofia estoica.
Ademais, como também se disse, a filosofia estoica preparou o terreno para a difusão e aceitação do cristianismo, religião que guarda paralelos consideráveis com os ideais do Pórtico e é uma das bases da sociedade ocidental.
Fica evidente que o estoicismo nutriu a transformação da tradição nacionalista da República Romana para um universalismo cosmopolita a partir do Principado.
Esse universalismo cosmopolita moldou o Direito Romano Clássico graças aos textos dos jurisconsultos, como Ulpiano e seus pares. O Direito Clássico foi consolidado no período pós-clássico durante a era de codificação justinianeia e, graças a isso, foi conservado e transmitido.
Desconhecer a influência estoica e seu legado civilizatório priva o homem moderno da realização plena de suas capacidades para enfrentar situações adversas, comuns a todas as épocas da história.
Em contrapartida, a consciência do legado do Pórtico proporcionaria a possibilidade para os operadores do Direito, e igualmente para o leigo, de encontrar soluções para os desafios que a vida contemporânea apresenta.
As ideias de homem cosmopolita, de vida em harmonia com a Natureza e de Direito Natural esposar-se-iam convenientemente e seriam um fármaco para problemas que estão na ordem do dia, como as migrações em massa de populações de miseráveis, as nações sem território, o aquecimento
global e outros problemas ecológicos, o terrorismo internacional e assim por diante.
Para concluir, pode-se dizer, sem medo de comprometimento, que a influência do estoicismo no Direito Romano Clássico é incontestável, pois, a partir do século I, os senhores de Roma trabalharam na criação de um ideal jurídico que é homocêntrico ao ideal moral do Pórtico. Esse ideal presente no pensamento, e nos textos de Ulpiano, sobreviveu e continua a inspirar muitos daqueles que operam o Direito. Ter plena consciência da influência e da inspiração estoica é benfazejo e isso se afirma denodada e intrepidamente.
REFERÊNCIAS
ALBERGARIA, Bruno. Histórias do Direito. 2ª. ed. São Paulo: Atlas, 2012. ALVES, José Carlos Moreira. Direito Romano. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2007.
ANTONINO, Marco Aurélio, Imperador de Roma. O Guia do Imperador. Trad. Gean Bruno Grosso. 2. ed. São Paulo: Planeta, 2007.
ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. Trad. Italo Eugenio Mauro. São Paulo: Editora 34, 1998. 3v.
ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. Trad. Mauro W. Barbosa. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.
ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges (Coord.). História da Vida Privada 1: Do Império Romano ao Ano Mil. Trad. Hildegard Feist. 15. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.