Já sabemos que, conhecendo a taxa da mais-valia, conhecemos, também, quanto de mais-valia o capitalista tira do trabalho individual. Entretanto, o capitalista, com seu desejo de expandir o seu valor, não emprega a força de trabalho de um indivíduo apenas. Quando ele vai ao mercado de trabalho, ele compra a força de trabalho de vários indivíduos, para que a massa, o montante da conversão de seu dinheiro em capital seja do tamanho da presteza que a lei do capital exige para se valorizar. Portanto, aqui, consideramos que
o capital variável é a expressão monetária de valor global de todas as forças de trabalho simultaneamente empregadas pelo capitalista. Seu valor é, portanto, igual
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Cf. MARX, Karl. O capital. Livro 1. Vol. I. Op.cit., p. 255. 288
103 ao valor médio de uma força de trabalho multiplicado pelo número das forças de trabalho empregadas289.
Aqui, portanto, a mais-valia não é calculada mais individualmente, mas em massa. Simplificando, "a massa de mais-valia produzida é, portanto, igual à mais-valia fornecida pelo dia de trabalho do trabalhador individual multiplicada pelo número dos trabalhadores empregados”290. Ora, sabendo que a taxa de mais-valia é o grau de exploração do trabalho de um indivíduo, para descobrir o grau de exploração dessa massa de indivíduos, basta seguir a mesma regra do cálculo individual e massificá-la pelo número de indivíduos sob a tutela de um mesmo capital:
a massa da mais-valia produzida é igual à magnitude do capital variável antecipado multiplicado pela taxa da mais-valia, ou é igual ao valor de uma força de trabalho multiplicado pelo grau de sua exploração e pelo número das forças de trabalho simultaneamente exploradas291.
Ou seja, como vimos, aqui o trabalhador é descaracterizado de seus talentos e igualado em uma média social, como trabalhador que produz valor, ou seja, como mera unidade de trabalho abstrato. Se a taxa de mais-valia produzida por um trabalhador individual é dada, para descobrir o grau de exploração da massa dos trabalhadores, basta substituir as magnitudes do capital variável, ou seja, no lugar do pagamento de um indivíduo, basta substituir pelo pagamento de todos os indivíduos empregados. Portanto, se o grau de exploração de um indivíduo é mv (equivalente à taxa de mais-valia), para descobrir a massa da mais-valia, podemos apenas tomar o capital variável gasto na massa dos trabalhadores empregados (cv) e, facilmente, descobriremos a massa de mais- valia (M) total retirada dos trabalhadores: = × .
É importante saber dessa massificação, pois, como sabemos, o capital toma os indivíduos apenas como força de trabalho. Dessa forma, não se emprega indivíduos para dar-lhe sustento, mas para produzir mais-valia. Por essa razão, “a oferta de trabalho que o capital pode obter é, portanto, independente da oferta de trabalhadores”292. O emprego de indivíduos, pelo capital, variará bastante, em cada tempo. No geral, para manter a magnitude da mais-valia, se disporá de mais ou menos trabalhadores. Se, por exemplo, a taxa de exploração dos indivíduos, em decorrência da redução da jornada de trabalho, 289 Ibidem, p. 349. 290 Idem. 291 Ibidem, p. 350. 292 Ibidem, p. 351.
104 cair, o capitalista compensará a sua perde total, empregando mais trabalhadores e, portanto, caindo o grau de exploração de um indivíduo, ele compensará com a exploração de mais indivíduos. Como diz Marx, “um decréscimo na taxa da mais-valia não altera a quantidade da mais-valia produzida quando há um acréscimo compensatório na magnitude do capital variável ou no número dos trabalhadores ocupados”293.
Para tornar isso claro, tomaremos um exemplo fictício. Um capitalista emprega 100 trabalhadores, que trabalham 10 horas por dia. Em meio dia de trabalho, cada indivíduo já trabalhou o suficiente para pagar o seu próprio salário e, portanto, em 5 horas o capitalista já recuperou o capital variável antecipado. Em unidades valores fictícias, podemos dizer que o valor pago para cada indivíduo, por um dia de trabalho, é igual a 1 valor e, para cada 1 valor que o capitalista paga, ele recebe 2 valores de retorno. A taxa de mais-valia, portanto, é de 100%. Massificando esse exemplo, vimos que o capitalista emprega 100 indivíduos. Portanto, o capital variável empregado será igual ao valor paga para um indivíduo, multiplicado pelo número de indivíduos. Com isso, chegamos à conclusão que o capital variável do capitalista é igual á 100 valores. Sua massa de mais-valia será igual a 100 valores, também, já que a taxa de mais-valia é igual a 100%.
Ora, ainda em nosso exemplo, supomos que a jornada de trabalho foi reduzida para 8 horas de trabalho. Manteve-se estável o tempo de trabalho necessário, portanto, o valor pago aos indivíduos. Com isso, os ganhos do capitalista caíram de 100 valores para 60 valores. O resultado na taxa de mais-valia é expressivo: no lugar de 100%, a taxa de mais valia caiu para 60%. Como o capitalista poderá compensar essa sua perda? Empregando mais trabalhadores. Ele vai ao mercado de trabalho e compra mais força de trabalho para compensar a sua perda. Digamos que no lugar de contratar 100 trabalhadores, ele contrate, agora, 170. O seu capital variável sairá de 100 valores para 170 valores. A taxa de mais-valia, já sabemos: é 60%. Quanto arrecadará de mais-valia, o capitalista, no final do processo? O total do seu ganho será de 102 valores. Ou seja, o capitalista recuperou a magnitude do seu ganho anterior à redução da jornada de trabalho, e com sobras.
Enfim, usamos apenas um exemplo de como pode variar a taxa de mais-valia e como essa variação pode ser compensada. Em outros exemplos, poderíamos supor que o
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105 trabalho necessário para a reprodução do trabalhador subiu de 5 horas para 7 horas. Ou mesmo se o tempo de trabalho necessário cair, o capitalista poderá reduzir o número de força de trabalho individual empregado. Podemos supor, também, que no caso de não regulamentação da jornada de trabalho, o capitalista aumente o tempo de trabalho excedente. Enfim, em todos os casos, o capitalista teria, mais uma vez, que equilibrar a balança dos seus ganhos.
Vemos, assim, como a massificação da exploração equilibra o ganho total do capitalista. “Contudo, tem limites intransponíveis a compensação da queda do número de trabalhadores ou da magnitude do capital variável pela elevação da taxa da mais- valia ou pelo aumento do dia de trabalho”294. Sempre usamos, aqui, exemplos com taxas de mais-valia extremamente altas. Mas se supormos uma taxa de apenas 3%? O capitalista seria forçado a empregar milhares de indivíduos, ou prolongar a jornada de trabalho diária para 24 horas, ou mesmo reduzir o salário de cada trabalhador para menos do que é necessário para viver. Ou seja, a mais-valia absoluta e, portanto, a exploração das massas dos indivíduos têm seus limites.