Tendo como ponto de partida o excessivo desmembramento da arquitetura, propusemos em nosso trabalho a aproximação do projeto com seu processo construtivo como possibilidade de melhoria do ofício. Tal proposta não implicava, necessariamente, um retorno do arquiteto ao canteiro de obras, mas o retorno à materialidade da arquitetura e à poética da construção. Partimos, então, para uma procura de exemplos em que essa preocupação se mostrasse evidente, mas a dificuldade de encontrá-los nos preocupou. Tínhamos, aparentemente, duas opções: mostrar apenas esses contra- exemplos, denunciando vícios e armadilhas da profissão, ou nos ater aos poucos exemplos encontrados. Optamos por um terceiro caminho, que incluísse ambas as manifestações, imaginando que estas, por apresentarem diferentes maneiras de projetar, enriqueceriam nosso universo de investigação. Apesar de não acreditarmos em métodos de projeto únicos e fechados, percebemos uma necessidade de evidenciar posturas críticas e criativas, em um momento que as forças do mercado convidam insistentemente para o contrário. É necessário, pois, uma mudança do papel do arquiteto nesse contexto, que começaria por mudanças na sua atuação. Dentre os projetos escolhidos, pudemos verificar estratégias comuns entre eles.
A primeira seria a importância de uma interação entre as disciplinas envolvidas no projeto, que deve acontecer desde a concepção do projeto. Entretanto, como o problema arquitetônico é sempre único e específico, a simples aplicação dos conhecimentos das disciplinas afins não é suficiente para se resolver todas as variáveis envolvidas, e, uma equipe “aberta” às contaminações recíprocas é vista como fundamental para um bom desenvolvimento do projeto.
Encontramos evidências de que a opção pelos materiais e sistemas construtivos deva ser sempre problematizada e contextualizada, e de que o enfrentamento é a única solução para se vencer as barreiras econômicas.
Em relação à forma, não parece haver vantagem no fato de ela anteceder o processo, mas que seja o resultado de uma operação arquitetônica complexa, na qual a escolha do sistema construtivo deveria ser uma das variáveis.
Nas situações em que a escolha dos materiais e sistemas construtivos é feita a partir de um contexto geográfico e cultural, há maior possibilidade de que o resultado formal também seja coerente com esse contexto. Mesmo nos projetos cuja solução formal foi inspirada em formas arquitetônicas já existentes, arriscamos afirmar que os materiais construtivos foram os pontos de partida do projeto, visto que as formas “originais” partiram deles. Entretanto, não estamos aqui propondo uma busca pelas “origens” ou a “essência” da “verdade arquitetônica” através da escolha dos materiais, pois cairíamos numa dicotomia redutora: materiais locais e naturais versus tecnologia high tech.
A opção exclusiva pelo primeiro, muito defendida pelos ecologistas, se baseia na sua facilidade e economia de obtenção, além de possuírem um vínculo geográfico e cultural evidente, o que facilmente nos remetem ao seu contexto. Somado a isso, o filósofo Levi-Strauss aponta a ambiguidade da relação entre cultura e natureza nos povos ditos primitivos: se por um lado “a natureza é pre-cultura e também subcultura”, por outro lado há um “componente sobrenatural”, o que a coloca numa posição acima da própria cultura (LÉVI-STRAUSS, 1976, p.325). Identificamos essa ambigüidade nos povos “civilizados” dos dias atuais.
A segunda postura se apóia na idéia de uma tecnologia inteligente e eficiente, além de, segundo Ignasi de Solá-Morales (SOLÁ-MORALES, 2003, p.131), a novidade arquitetônica ainda está associada a uma novidade técnica, e, por conseguinte, à idéia de progresso, mesmo que esse conceito esteja desgastado. Somada a isso, muitos projetos são iniciados a partir da geometria, à revelia das possibilidades materiais conhecidas no momento, e o desenho do computador facilita e estimula essa prática. Formas anteriormente difíceis de serem desenhadas, muito menos construídas, hoje não encontram impedimento algum. Se por um lado, essa maneira de projetar estimula e
impulsiona as pesquisas dos materiais, por outro lado corremos o risco de dissociar a arquitetura do habitar. Será que pelo fato de um projeto ser representável (e até exequível), ele deve ser construído?
Desta maneira, poderíamos afirmar que é papel da arquitetura mediar o paradoxo identidade/superação? Seria possível um entendimento da arquitetura como uma superposição de realidades tectônicas? E que a poesia da construção pode estar em encontrar novas formas para velhos materiais, ou velhas formas para novos materiais?
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