Convém destacar que os centros das cidades mais importantes e expressivas do mundo sempre foram caracterizados por diversas operações urbanas, razão pela qual, o centro possui na maioria dos casos um extraordinário papel simbólico e funcional, extremamente solidificado no processo de organização dos espaços urbanísticos. É comum a rotulação do centro observando dois significados, sendo o primeiro como o lugar histórico da cidade que detém riquezas consubstanciadas nas construções, praças e monumentos, além de ser uma das principais referências espaciais para os cidadãos, no que tange ao segundo significado pode-se enfatizar as inúmeras atividades econômicas e comerciais e administrativas que também são polarizadas como fortes indícios de localização nos conceitos de centro e periferia dentro das cidades.
O centro concebe-se como o mais importante elemento da estrutura urbana, Ele é o ponto estratégico para o exercício da dominação, liderança e governo. Por isso, ele possui uma dimensão simbólica muito importante. “Se os centros adquirem um enorme valor simbólico, esta é a fonte e a base material desse valor. O valor simbólico que os centros adquirem decorre de um valor de uso concreto, material, fruto do trabalho cristalizado”. (VILAÇA, 1989, p. 116).
É importante destacar que o centro desenvolve várias funções na cidade, sendo assim, percebe-se principalmente nas metrópoles, a partir da segunda metade do século XX, que a expansão do sistema capitalista alicerçado pelos pré-requisitos da Segunda Revolução Industrial, foi determinante para o crescimento das cidades e para a redefinição das funcionalidades da sua área central, que até então era uma única centralidade. Com os avanços tecnológicos e as questões inerentes ao fluxo e à circulação, revelou-se a necessidade de criar novos centros adaptados às novas exigências do padrão de acumulação capitalista.
A título de exemplo, é possível contextualizar a grande remodelação de Paris, comandada por Haussmann no século XIX. A política urbanística implementada na capital francesa foi articulada por intermédio da construção de avenidas largas para garantir a fluidez viária, sendo assim, foram necessárias desapropriações, demolições e reconstruções. Os propósitos não se restringiam ao embelezamento da cidade, pois estavam em pauta naquele momento as políticas saneadoras, corretivas e de segregação, cujo objetivo era atender às demandas da burguesia industrial emergente e obviamente, expulsar das áreas centrais as classes perigosas representadas pela pobreza, enfermidades, que causavam constrangimento e possíveis ameaças para a burguesia que preferia vê-la distante na periferia. Além de afastar o
perigo representado pelas classes despossuídas que colocava em permanente risco os privilégios dos poderosos na França e poderia promover insurreições como a Comuna de Paris52 em 1871.
Obviamente as transformações que ocorreram em Paris serviram de modelo para outras cidades que recebiam forte influência cultural da França. É importante frisar que o Brasil se espelhava neste país europeu naquela época. Logo, o Rio de Janeiro que era a capital federal de então, promoveu avassaladora reforma urbanística no seu centro, uma política apontada como de “arrasa quarteirão”.53
Para as reformas acontecerem, foi preciso empregar as forças policiais e sanitárias que desalojassem a classe popular que habitava o centro por meio dos cortiços, em condições precárias de habitação, afinal eram os ex-cativos que não tiveram nenhuma alternativa de inserção social no Rio de Janeiro de outrora.54Convém mencionar que está sendo abordado o período de transição do regime escravocrata para o trabalho livre assalariado, motivo pelo qual muitos escravos fugiam e encontravam abrigo nos cortiços que eram habitados por negros forros e brancos pobres. Entretanto a elite e as autoridades da época olhavam os cortiços com desconfiança, um antro que escondia escravos fugitivos das propriedades e também elementos procurados pela justiça. Logo, eram comuns as batidas policiais e a arbitrariedade. Enfim, mais um forte argumento para expulsar os pobres das áreas centrais das principais cidades.
Na história do Brasil as autoridades nunca negaram que a pobreza estava associada às mais variadas moléstias e enfermidades. Para combater as doenças que pudessem se tornar epidemias usavam o álibi sustentado no discurso e práticas saneadoras e urbanísticas. Em suma, remover a população carente era a política pública mais utilizada no planejamento da cidade. Obviamente não existiam programas de habitação para a população que foi expulsa da região central, ficando evidente a ocupação dos morros e fundos de vales próximos ao centro, pois as oportunidades de trabalho para os trabalhadores excluídos garantir a sobrevivência eram materializadas no espaço central da cidade.
52 A população de Paris sentiu-se traída pelos governantes, e a agitação começou a tomar conta da capital
francesa em fevereiro de 1871. Em março, os parisienses proclamaram um governo autônomo na cidade, a Comuna. Inspirado nas teorias socialistas, o novo governo adotou, entre outras medidas, a bandeira vermelha, um novo calendário e o princípio da autonomia absoluta das comunidades. (PETTA; DELFINI, 2004, p. 35).
53 Sobre as políticas urbanas no Rio de Janeiro no último decênio do século XIX, tem-se com referência o
livro: Cidade Febril: cortiços e epidemias na cidade imperial. Do historiador Sidney Chalhoub, que faz uma ampla abordagem com relação à destruição dos cortiços como medidas sanitárias, desalojando milhares de trabalhadores na gestão do prefeito Barata Ribeiro.
54 Vale lembrar que outro personagem da política que introduziu reformas urbanas no Rio de Janeiro foi o