do dragão”. Esse desenho possui uma linguagem mítica, talvez mais ocidentalizada, nem por isso deixa de ser interessante, tendo em vista que reflete o pensamento de um mundo regido pelo encantamento. O desenho foi originado de um Role Playing Game (RPG), surgido nos Estados Unidos, nos anos 80, fazendo muito sucesso por lá. Depois de ganhar fama nesse país, o jogo se transformou em desenho animado, sendo composto por 27 episódios. Nos anos 90, a Rede Globo passou a exibi-los durante as manhãs num programa infantil (2009). Ainda nessa época, tive a oportunidade de assistir ao desenho e, naquela ocasião, recordo que gostei muito. O desenho possui um roteiro simples, em relação a grandes produções como Harry Potter, talvez nem seja muito original. Apesar disso, é capaz de prender a atenção de um adulto que não tenha o hábito de assistir desenhos animados, assim como eu.
O desenho conta a história de seis crianças que saem para passear num parque de diversões, e eles resolvem entrar num brinquedo chamado caverna do dragão. A partir daí, são transportados para um mundo bem diferente do seu, cheio de bruxas, dragões e muita magia. Ao se verem perdidos nesse mundo, encontram um senhor velhinho e muito pequeno, chamado mestre dos magos, o qual se revelará como um aliado deles durante todas as histórias21. Pois se proporá a ajudá-los a encontrar o caminho de volta para casa. Em troca, eles lhe ajudam a combater o vingador, um personagem que vive atrapalhando a vida de quase todos os moradores desse mundo. Além disso, ele está imbuído do desejo de acumular poderes que possam lhe favorecer a destruir o mestre dos magos, a quem considera seu grande inimigo. Para ajudar às crianças a se defenderem dos perigos desse mundo, o mago dá a cada uma delas, uma arma que possui poderes mágicos.
Ao transformar esse desenho numa técnica de pesquisa, resolvi criar uma forma de relaxamento que incluiu uma viagem pelo mundo da caverna do dragão. Contudo, tentei reduzir ao máximo as idéias que possam lhes induzir a um pensamento já pronto, substituindo as afirmações por perguntas acerca de como se sentem e do que vêem nesse
21Mesmo se tratando de uma história fictícia, resolvi escrever história com “h” por concordar com a
historiadora piauiense, Cecília Nunes (2005) que as histórias que criamos fazem parte da História com maiúsculas. Daí recusar a convenção lingüística que faz uma separação entre as histórias e estórias, considerando as segundas menos reais que as primeiras.
mundo. A idéia da viagem foi levar cada membro do grupo-pesquisador a se colocar no lugar daquelas crianças, levando-os a se imaginarem habitando um mundo regido pelo encantamento. Cada episódio do desenho caverna do dragão se encerra sempre depois de uma dura escolha que eles têm que fazer entre ficar naquele mundo ou voltarem para o seu.
No caso dessa pesquisa, a viagem foi interrompida no momento em que os co- pesquisadores receberem as armas do mago. Ao retornarem, cada um foi convidado a desenhar a arma recebida, dar um nome a ela e dizer qual a relação da mesma com a EJA.
Esta técnica também foi construída usando alguns elementos de “Alice no país da Maravilhas,” obra do escritor Lewis Carroll (2002) que conta a história de uma menina que ao correr atrás de seu coelho, cai num buraco que dá acesso a outro mundo. Lá ela vive uma série de aventuras e experimenta diversas identidades.
Descrição da técnica caverna do dragão com Alice no país das maravilhas
Ao iniciar a oficina, pedi para todos ficarem de pé. Nessa posição, fiz alguns alongamentos que usavam, principalmente os braços e as pernas. Os movimentos eram simples. Em pé, cada um abria as pernas, unia as duas mãos para esticá-las para o lado direito. Depois para o esquerdo, para cima, para baixo e para trás. Durante essa sessão de exercícios corporais, o grupo ia fazendo o mesmo que eu. Após isso, solicitei para que os (as) co-pesquisadores (as) deitassem nos colchonetes, já estendidos no chão, e fechassem os olhos. Pedi também para que todos fizessem silêncio. Solicitei que prestassem atenção a suas respirações. Nesse momento, orientei aos co-pesquisadores que ficassem atentos aos seus movimentos de inspiração e expiração. Conduzi-os a brincarem com a entrada e saída de ar das narinas, solicitando que alternassem movimentos de encher e esvaziar os pulmões de ar. A partir daí, iniciei com eles uma viagem imaginária. O ponto de partida foi um campo verde, extenso e composto de muitas plantas. Quando todos se encontravam nesse campo, sugeri que, de repente, aparecia uma bola de cor alaranjada. Eis que a bola começou a vagar pelo espaço do campo mencionado. Nessa situação, cada um foi conduzido a persegui-la.
Durante essa perseguição, os co-pesquisadores caíram num buraco. O buraco era muito profundo. Por isso, eles demoraram a chegar em terra firme. Ao invés de tocar o solo rapidamente, foram incitados por mim, a se imaginarem flutuando nessa sua passagem pelo buraco. Enquanto faziam essa travessia, iam me ouvindo perguntar como
se sentiam nesse buraco? Há algo nas paredes do buraco? Em caso, afirmativo, o que era? Ou melhor, o que viam? Depois de flutuarem por todo o trajeto, os co- pesquisadores foram conduzidos ao chão.
Ao deixarem o buraco para trás, aportaram num mundo desconhecido, ou seja, um lugar completamente estranho. Perguntei como é esse lugar? O que há nele? Depois de dar um tempo para que cada um formulasse essas imagens em seus pensamentos, sugeri que andassem por aquele mundo. Nessa caminhada, se depararam com dois animais gigantescos lutando. Indaguei que animais são esses? Qual o seu sentimento diante disso e o que você faz? Eis que exatamente nessa hora, surgiram armas mágicas nas mãos de cada um. Mais uma vez instiguei-os: que arma é essa? Qual o seu formato? Como é que ela apareceu? E o que você faz com ela? Os co-pesquisadores foram convidados a fazer o caminho inverso, passando por todos os lugares antes trilhados, até retornar ao local de onde haviam partido. Pedi-lhes para abrirem os olhos.
Solicitei que desenhassem a arma mágica que receberam, criando um símbolo e um nome para ela. Além disso, o grupo-pesquisador também foi desafiado a responder a seguinte questão: se essa arma que eu criei fosse a Educação de Jovens e Adultos como ela seria? Depois de redigirem escritos sobre o que pensavam, foram convidados a falar das sensações da viagem imaginária e socializar o que haviam produzido entre eles. Nesse momento, trouxeram elementos que os escritos não revelaram, ampliando os dados da técnica. Finalmente, realizei apenas com os grupos-pesquisadores de professores22 a análise na perspectiva dos co-pesquisadores. Para isso, solicitei que cada um dos participantes tomasse o desenho da arma de um dos colegas para analisá-lo.
Minha intenção ao aplicar esta técnica, foi fazer com que os co-pesquisadores se imaginassem num mundo regido pela magia (e não pela razão), bem como se colocassem no lugar da menina Alice, isto é, como alguém que perde e ganha identidades.
22Não pedi para o grupo de alunos analisar as produções plásticas uns dos outros porque como este grupo
Fotos da produção plástica da técnica caverna do dragão com Alice no país da maravilhas do grupo pesquisador-CEJA manhã
Análise classificatória da técnica caverna do dragão com o grupo de professores do CEJA manhã
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