Em 1931, a CEN criou seu mais ambicioso projeto editorial, a Biblioteca Pedagógica Brasileira, convidando para a direção o educador escolanovista Fernando de Azevedo92. A CEN aproximava-se, assim, do movimento de renovação educacional do País, cujo marco foi o lançamento do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932)93. Assim, esse projeto editorial de tamanha envergadura representou, de certa forma, a incorporação do ideário da Escola Nova no mercado editorial brasileiro.
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Fernando de Azevedo dirigiu a Biblioteca Pedagógica Brasileira até 1951, quando foi substituído pelo historiador Américo Jacobina Lacombe. Mais dados biográficos desse educador podem ser encontrados no seu livro de memórias: AZEVEDO, Fernando de. História de minha vida. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971.
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Apesar de ser custeada pelos próprios signatários, foi a CEN que publicou o Manifesto dos Pioneiros da
Educação Nova e, dada sua abrangência nacional, com filiais em pontos estratégicos do País, encarregou-se da
Ao analisar a Coleção Atualidades Pedagógicas, uma das séries da BPB, Rita Toledo explica por que a editora escolheu Azevedo:
[...] ao optar por Azevedo como diretor da BPB, a CEN acaba por escolher um dos representantes de uma das hostes de educadores do movimento educacional dos anos 30. Mas é preciso notar que a projeção do nome do educador estava ligada ao movimento de renovação educacional e não especificamente ao grupo que vai assinar o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932). Talvez, a escolha do nome de Azevedo entre os diferentes educadores de projeção do período estivesse ligada ao fato de ter relações próximas a Lobato (TOLEDO, 2001, p. 64).
Vale ressaltar que a Editora Melhoramentos94 já contava com o trabalho editorial de outro importante educador do período. Manuel Bergströn Lourenço Filho (1897-1970) desempenhou desde 1926, quando substituiu o professor Arnaldo de Oliveira Barreto na direção da Biblioteca Infantil, papel importante na edição de obras pedagógicas, livros didáticos e infantis na editora (SOARES, 2007).
A Biblioteca Pedagógica Brasileira era constituída de cinco séries, a saber: Literatura Infantil, Livros Didáticos, Atualidades Pedagógicas, Iniciação Científica e a famosa coleção Brasiliana, que foi responsável pela renovação do pensamento social brasileiro e publicou, até 2005, 444 títulos de expressivos nomes da intelligentsia nacional, a exemplo de Nina Rodrigues, Sérgio Buarque de Hollanda, Florestan Fernandes e autores estrangeiros que estudaram o País, como Roger Bastide, Jacques Lambert, entre outros.
Segundo Eliana Dutra, a coleção Brasiliana foi “o maior empreendimento editorial destinado a reunir um conhecimento sistemático sobre o Brasil, ainda hoje sem equivalente na história da edição do país.” (DUTRA, 2006, p. 301). Ela foi concebida, segundo a autora, para ser uma biblioteca ideal, uma “biblioteca sem muros”95 e uma enciclopédia do conhecimento brasileiro. Fez tanto sucesso, que serviu de exemplo para que outras empresas lançassem projetos editoriais semelhantes. Foi o caso da Editora José Olympio, que lançou em 1936 a Coleção Documentos Brasileiros, coordenada por outro intelectual, o sociólogo
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Sobre a história da empresa Melhoramentos e sua trajetória de indústria de papel a editora de livros, consultar: DONATO, Hernani. 100 Anos da Melhoramentos: 1890-1990. São Paulo: Melhoramentos, 1990.
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Expressão usada pelo historiador francês Jean-Yves Mollier para designar as edições de coleções, dicionários e enciclopédias que marcaram a cultura impressa no século XIX em toda a Europa (MOLLIER, 2008).
pernambucano Gilberto Freyre, que lançou o importante livro Raízes do Brasil, do renomado historiador Sérgio Buarque de Holanda.
No entanto, aqui, interessa-me mais de perto a série Literatura Infantil, por nela estarem incluídos dois livros de Viriato Corrêa: História do Brasil para crianças, de 1934, e Meu Torrão (contos da História Pátria), de 1935.
A série Literatura Infantil era uma “collectanea de livros para crianças, em que se acham incorporadas, traduzidas por mestres, obras universalmente consagradas, de literatura infantil” (CEN, Catálogo escolar, 1935, p. 63). Essa série publicou ao todo 33 volumes, sendo que 21 livros eram de autoria de Monteiro Lobato; 8 volumes eram traduções de clássicos da literatura ocidental, a exemplo de Alice no País das Maravilhas e Contos de Fadas de Charles Perrault; 1 livro de poemas para crianças, A Estrela Azul, de Murilo Araújo, e uma tradução do clássico Aventuras do Barão de Münchhausen, de G. A. Burger, além dos dois livros de Viriato Corrêa, anteriormente mencionados.
Vale dizer que muitos desses livros que passaram a integrar a série Literatura Infantil da BPB já haviam sido publicados anteriormente. É o caso de Narizinho Arrebitado, publicado originalmente em 1920 e considerado um marco na literatura infantil brasileira e um dos primeiros best-sellers do autor Monteiro Lobato. Depois, já no âmbito da BPB, passou a se intitular Reinações de Narizinho.
Na série Literatura Infantil, merece destaque a História do mundo para crianças, publicada em 1933. O livro é uma adaptação feita por Lobato da obra do professor norte- americano e diretor da Calvert School, de Baltimore, V. M. Hillyer, intitulada Child’s History of the World. De todos os livros infantis de Lobato, foi História do mundo para as crianças o que mais críticas recebeu, tendo sido censurado nas escolas católicas da época e expurgado das bibliotecas públicas infantis (PALLOTA, 2001). A obra era acusada pelas autoridades religiosas de pregar a ideologia comunista, atentar contra a moral cristã e incutir nas crianças idéias contrárias ao nacionalismo (BRASIL, 1957).
História do mundo para as crianças foi considerada tão polêmica que causou
reações negativas até fora do Brasil. Segundo Cavalheiro, o órgão oficial do Governo português pediu, e obteve, a proibição da obra em Portugal e colônias. Interpelado pelas razões de tal atitude, Monteiro Lobato responde que só encontrava explicação pelo fato de pertencer à corrente que afirma ter sido o Brasil descoberto “por acaso” [...].
Devido a tantas críticas, nas escolas oficiais e praticamente em todos os colégios católicos, é dada uma ordem absurda, chocante: os livros de Monteiro Lobato devem ser retirados das bibliotecas escolares (PALLOTTA, 2008, p. 225-6).
No ano seguinte, saiu pela Companhia Editora Nacional o livro História do Brasil para crianças, de Viriato Corrêa, na mesma série Literatura Infantil da BPB. A partir de então, a editora usou a seguinte estratégia de divulgação: colocou a imagem da capa dos dois livros e uma pequena resenha nas contracapas de outros livros escolares. Com isso, ela disponibilizava aos alunos e professores a oportunidade de conhecerem outros livros que abordavam, de forma diferenciada, a História do mundo e do Brasil para crianças, colocando, lado a lado, dois dos maiores escritores infantis da época – Lobato e Viriato.
A divulgação empreendida pela editora contribuiu, sem sombra de dúvida, para tornar esses livros best-sellers da infância brasileira.
Figura 28 – Contracapa do livro de leitura O Tesouro da Criança Fonte: Acervo CEN.
No decorrer dos anos 1930, a Companhia Editora Nacional foi se transformando na maior editora de livros de São Paulo. Na década de 50, por exemplo, lançou nova coleção, intitulada Brasiliana Infantil, sob a coordenação do educador Theobaldo Miranda Santos96. Essa coleção, a exemplo de sua homônima para o público adulto, pretendia ser
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No livro Contos Cívicos do Brasil, Theobaldo Miranda Santos diz que se utilizou, para a elaboração de seus textos, dos livros Meu Torrão e História do Brasil para crianças, de autoria de Viriato Corrêa, entre outros, o que nos leva a concluir, mais uma vez, que a produção didática de Viriato esteve também presente, de forma indireta, em outros livros escolares.
[...] a mais moderna, a mais brasileira e a mais interessante coleção de livros de literatura infantil e escolar [...]. Trata-se de um conjunto de livros de leitura recreativa e pedagógica, destinado às crianças de todas as idades e de todas as séries escolares. A Brasiliana Infantil representa uma modesta tentativa de oferecer às crianças do Brasil livros de leitura que não sejam enciclopédias escolares e de tornar o conhecidos de nossa infância, em toda a sua beleza e esplendor, os mitos, as lendas, os heróis, os contos populares, as histórias maravilhosas, os episódios cívicos, bem como as aventuras e viagens que mais se destacam no panorama colorido e luminoso do folclore, da história e da tradição brasileira (SANTOS, 1955, p. 7)
A coleção Brasiliana Infantil compunha-se de cinco títulos, para cada uma das séries do ensino primário: Contos Populares do Brasil (vol. I – 1ª série); Histórias Maravilhosas do Brasil (vol. II – 2ª série); Lendas e Mitos do Brasil (vol. III – 3ª série); Contos Cívicos do Brasil (vol. IV – 4ª série) e Viagens e Aventuras do Brasil (vol. V – 5ª série).
Em sua trajetória, a Companhia Editora Nacional, apesar de ter sido uma empresa comercial, que visava a lucros com a venda de livros, teve um compromisso com a questão educacional do País, seja na escolha de Fernando de Azevedo para coordenar a BPB, seja na publicação de importantes livros de significativos autores, seja em ações de menor alcance, mas não menos importantes, tais como a preocupação para que os professores escolhessem bem os livros didáticos a serem usados pelos alunos: em um de seus catálogos distribuído aos professores, a CEN recomendava critérios para a escolha correta do livro didático. Citando, por exemplo, as recomendações do Prof. Jonathas Serrano97, na sua obra Como se ensina História (1935), a editora fazia um alerta mostrando que o livro escolar deve ser um facilitador do processo ensino-aprendizagem:
COMO SE ESCOLHE UM LIVRO DIDACTICO
No início do anno letivo, surge para os professores e directores de estabelecimentos de ensino um problema de grande importância: escolher, dentre a profusão de livros didacticos no mercado, os que possam ser considerados como “os melhores”
No intuito de facilitar esta árdua tarefa aos nossos educadores, tentamos dar, nestas páginas, uma serie de indicações que servirão de guia na escolha de livros que realmente possam ser proveitosos no ensino.
Segundo a opinião unânime de autoridades em literatura escolar, um livro didático, para ser considerado bom, deve preencher os seguintes requisitos essenciais, quanto à substância, à forma e ao método:
1º.) exatidão da matéria tratada; 2º.) clareza e segurança na exposição;
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Jonathas Serrano foi membro do IHGB e professor de História do Colégio Pedro II e do Instituto de Educação do Rio de Janeiro. Publicou vários livros didáticos (Epítome de História Universal e Epítome de História do
Brasil) e foi um dos primeiros autores a se preocupar com a metodologia do ensino da História (Como se ensina História, Methodologia da História, Cinema e Educação, A Escola Nova, entre outros).
3º.) didaticidade e método dos assuntos; 4º.) perfeição tipográfica;
5º.) boa apresentação material [...] “O Compêndio foi feito para o aluno
O aluno deve gostar do livro adotado em aula. Deve entendê-lo perfeitamente. O compêndio é feito para facilitar o estudo, e não para torná-lo complicado e enfadonho. O melhor juiz do compêndio é o próprio estudante. Livro antipático e detestado é, por força, livro malfeito. JONATHAS SERRANO. Como se ensina História” (CEN, 1935, p. 19-20).
Na contracapa desse mesmo catálogo, constata-se uma preocupação da Editora em vender livros novos para os alunos. A CEN faz junto aos livreiros e professores uma campanha contra a compra de livros usados em sebos, pois, segundo ela, eles poderiam trazer prejuízos para a aprendizagem dos alunos:
NÃO COMPRE LIVROS DE SEGUNDA MÃO.
O hábito de comprar livros usados é de uma enganadora vantagem: traz em si tantos prejuízos que na verdade não se realiza a intenção inicial de fazer economia. Reparem nisso: geralmente a differença de custo é muito pequena. O livreiro, que compra baratíssimo, por preços quase irrisórios, revende sempre com ganho abusivo, revende quase pelo custo normal das livrarias comuns. Attrahido por essa pequena differença, vai o estudante comprar-lhe o livro. Compra-o pensando ter feito optimo negócio. Mas se tivesse pensado melhor, se tivesse reflectido um pouco antes de bater à porta do “sebo”, ter-se-ia lembrado das innúmeras desvantagens do seu gesto. Algumas dessas desvantagens são as seguintes:
a) Compra um livro materialmente precário e, portanto, de duração ephemera. b) Arrisca-se a adquirir um livro a que faltem páginas e páginas de matéria,
inútil, portanto.
c) Traz para casa, geralmente, uma edição velha, cheia de erros, vehiculo de idéas e noções antigas, já em desuso.
d) Corre o perigo de contaminação: os livros velhos têm, para substituir-lhes a utilidade e belleza, ricas colleções de micróbios, que poderão invadir o organismo do estudante desprevenido, causando-lhe moléstias graves e benignas, desde a tuberculose até as simples erupções cutâneas.
e) Traz para casa, enfim, um objeto pouco útil, feio e porco.
Compre apenas livros novos. As edições modernas, principalmente as pedagogicas e didacticas, da COMPANHIA EDITORA NACIONAL, são baratíssimas. Não se prejudique acreditando fazer bons negócios com livros usados (CEN, Catálogo Escolar, 1935).
Até o final dos anos 1960, a CEN era uma das maiores do Brasil, sendo responsável por 55% da produção didática destinada ao ensino primário e secundário (HALLEWELL, 1985). Após a morte de seu fundador, Octalles Ferreira, em 1973, a editora vivenciou um período de crise e foi colocada à venda pelos herdeiros. A José Olympio Editora tentou adquirir a CEN com recursos do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDE),
mas, no fim das negociações, as duas editoras foram incorporadas ao Governo Federal. Sem conhecer as leis do mercado editorial, a administração estatal foi desastrosa para a CEN.
Em 1980, foi adquirida pelo Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas (IBEP). A partir de então, o IBEP tentou redimensionar o acervo da Companhia. Prova disso é a retomada da edição da obra de Viriato Corrêa, que vem ocorrendo desde 2001 em novo formato e design contemporâneo (IBEP/CEN, 2006).