Dando sequência à nossa exposição acerca das formas de representação e discurso no cenário religioso colonial brasileiro, parece-nos relevante discutir a importância de duas grandes fontes do pensamento estético, fortemente presentes no Barroco: a poética e a retórica. Sem elas, nossas explicações acerca da “filosofia barroca” perderiam sentido. Tanto a retórica quanto a poética tiveram sua grande referência em Aristóteles (384-322 a.C.), filósofo grego, discípulo de Platão.
A primeira dessas fontes, a retórica, diz respeito à arte do bom discurso (techné) com vistas à persuasão de seus ouvintes e, como especifica Aristóteles, “é sobretudo a arte de falar no Areópago, isto é, da discussão política” (2004, p. 68).
No entanto, segundo Aristóteles, mais do que a persuasão propriamente dita, os caminhos escolhidos para o alcance de tal objetivo é que importavam. A esse respeito, é o próprio Aristóteles que acrescenta: “A Retórica é a faculdade de ver teoricamente o que, em cada caso, pode ser capaz de gerar a persuasão” (1964, p. 22).
Na visão de Aristóteles, a retórica assemelhava-se à dialética, em muitos aspectos, na medida em que ambas poderiam ser consideradas artes persuasivas, diferenciando-se apenas em relação à produção de provas por parte do orador e/ou discursante. Essas provas deveriam constituir-se, primeiramente, do caráter moral do orador e, depois, das disposições criadas nos ouvintes, além do conteúdo do próprio discurso. Acerca disso, afirma Aristóteles que, para a retórica, “os discursos baseados em exemplos prestam-se mais que os outros para persuadir; mas os discursos baseados em entimemas impressionam mais” (1964, p. 25).
Assim, um bom exemplo moral por parte do orador do discurso tende a apresentar uma eficácia persuasiva significativa uma vez que “este” deixa nos ouvintes uma impressão de o orador ser digno de confiança. Caso típico foi o padre Belchior de Pontes, a quem os nativos do M’Boy chamavam de “Médico das Almas”,
pois seu exemplo de amor e abnegação, impressionando a todos, o tornou um exemplo a ser seguido.
Os entimemas (Aristóteles, 1964, p. 25), silogismos incompletos, produzem uma ação que gera sobre os ouvintes um impacto maior, conduzindo o indivíduo à reflexão. Um entimema caracteriza-se pelo fato de uma das premissas apresentar- se subentendida. Tomemos como exemplo o seguinte silogismo: Todos os homens
são mortais. Pedro é homem. Depreende-se que, por lógica, Pedro é mortal. Da
mesma forma, é um entimema a famosa reflexão de Descartes, na qual, o fato de o indivíduo, na busca pela verdade do conhecimento, duvidar de algo, questionar, já constitui evidência de sua existência enquanto ser pensante. Assim: Se duvido, penso. Se penso, logo existo.
Não entraremos em mais detalhes sobre as modalidades de discurso empregadas no Barroco, uma vez que não são relevantes para a compreensão de nosso estudo. Basta reforçar que a oratória deveria vir impregnada de uma religiosidade que, mais do que impressionar, pudesse persuadir o ouvinte, conduzindo-o à reflexão sobre sua vida. A oratória jesuíta (exemplos valiosos foram o padre Vieira, além do padre Pontes, em Embu), extremamente engenhosa11 e carregada de alguns artifícios do Barroco, atingiu a muitos. No
entanto, esse discurso, quando não feito em forma de palavras ou de pregações mas expressando-se por meio da arte sacra nas igrejas, promoveu um alcance mais eficaz do que a pregação, persuadindo fiéis por meio do intenso apelo ao visual, característico do Barroco.
No tocante à poética, traduzida ao pé da letra como “a arte de fazer poesia ou algum tipo de atividade manual”, o grande referencial é igualmente Aristóteles. Arte da imitação por excelência, a poética apresenta variados gêneros com funções específicas. São eles: a epopeia, a poesia trágica, a comédia, a poesia ditirâmbica, a maior parte da aulética e da citarística, a dança, a música, todas enquadradas nas artes da imitação. O que difere esses gêneros diz respeito aos meios de transmissão dos mesmos, nos objetos que imitam e na maneira como são imitados.
11 Atribui-se ao termo engenho a capacidade interior do indivíduo, ao talento individual
Para Aristóteles, o que a arte deveria imitar seriam os caracteres, as emoções e as ações. O fato de não produzir verdade não se configuraria um problema, pois isso, segundo ele, não era tarefa dela. Ao contrário, na visão aristotélica, a arte propunha-se a uma verossimilhança e não a uma verdade, que se revelava nas artes da pintura e da imaginária barroca. A esse respeito, citemos Carlos Ceia:
Em sentido genérico e comum, verossimilhança é a qualidade ou o caráter do que é verossímil ou verossimilhante; e verossímil, o que é semelhante à verdade, que tem a aparência de verdadeiro, que não repugna à verdade provável […]; não precisa ser historicamente “verdadeira”, bastando que seja verossímil (Dicionário
de Termos Literários, “Verossimilhança”).
A poética, fundamentada no princípio da ut pictura poesis (“como há pintura, há poesia”), envolve, segundo Argan, “o problema da atividade produtora de imagens e da discriminação entre imagens úteis e nocivas […]. São úteis as imagens produzidas pelo processo de verossimilhança; nocivas as imagens produzidas pelo capricho arbitrário da fantasia” (2004, pp. 67.68).
O eixo norteador da produção artística se baseava na capacidade de comunicação proporcionada pelo artista, por meio de suas obras. Não importava tanto o aspecto original ou verdadeiro da obra, mas mais o alcance e o efeito produzidos pela mesma no espectador. A esse respeito se expressa Argan:
Os artistas são orgulhosos da própria técnica de comunicação e frequentemente se
servem de técnicas diferentes para atingir os fins diversos a que se propõem […]. O
que importa é que se estabeleça a comunicação e que esta se dê em todos os níveis, como os meios e os processos, diretos e indiretos, mas eficazes (2004, p. 71).
No Barroco, em que a chave para a leitura e compreensão da nova atmosfera social, política, econômica e religiosa residia no poder da persuasão, tanto por meio das imagens quanto por meio das palavras, podemos apreender
quão grande foi o peso dessas duas fontes do pensamento estético para os artistas e religiosos do período.12