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Tanzimat Sonrası Türk Edebiyatında İlk Manzûm Komedya: Rüyâ

2.7. Tanzimat Sonrası Türk Edebiyatında Manzûm Tiyatro Eseri Olarak

2.7.3. Tanzimat Sonrası Türk Edebiyatında İlk Manzûm Komedya: Rüyâ

Por meio dos dois primeiros capítulos dessa dissertação pudemos compreender as fundamentações teóricas gerais que configuraram O Escravismo Colonial, Ser escravo no

Brasil, Rebelião escrava no Brasil e Campos de violência. A figura do escravo apareceu

atrelada ao conjunto de temas que foram tratados em tais obras. Nosso objetivo neste tópico é de colocar em evidência a situação do escravo que se delineou no interior de cada um destes livros.

Em O Escravismo Colonial, como foi visto, mesmo que não exista uma coisificação generalizada do escravo, este, ainda assim, aparece como um sujeito altamente a mercê das leis econômicas do modo de produção escravista colonial. Isso fica evidente em vários pontos da obra. A moderação do castigo aplicado ao escravo dependia “[...] menos do temperamento do senhor do que das exigências objetivas da economia escravista” 230. Segue-se o mesmo raciocínio na parte da obra dedicada à lei da rigidez da mão de obra escrava, em que o “[...] critério principal do dimensionamento do plantel [...]” de escravos “[...] devia ser o da fase de pico do processo de produção” 231. Dentro deste tema, Gorender faz considerações acerca dos efeitos de tal lei e denuncia a sobrecarga do trabalho efetuado pelos escravos, alegando que eles eram explorados até o limite – ou além – de suas energias. Quanto à economia escrava, a subordinação plena do cativo à lógica do sistema também se faz presente.

A concessão de um pequeno lote de terra ao escravo, para que este o cultivasse, é acompanhada de duas explicações. Primeira: tal prática era mais frequente nas ‘plantagens’ algodoeiras e cafeeiras, e não nas canavieiras, o que se explica pelos ciclos vegetativos, pois, diferente dos dois primeiros sistemas de produção, o ciclo produtivo do açúcar ocupava braços durante o ano todo, diminuindo, assim, a concessão de lotes aos escravos 232. Segunda explicação: tal prática atendia os interesses dos senhores, pois, além de diminuir a obrigação

230 GORENDER, op. cit., p. 71.

231 Ibidem., p. 223.

para com a alimentação dos escravos, também agia no sentido de diminuir as fugas e os atos de rebeldia.

A lei da população escrava esboçada no Escravismo Colonial também serve de exemplo de como o sistema agia no sentido de coagir os escravos. A tendência era a da “[...] diminuição absoluta da população escrava e da criação de sua escassez [...]” 233. A predominância de escravos homens e as más condições de vida na colônia – ligadas à elevada taxa de mortalidade – são exemplos de subsídios que fundamentam tal lei234. Em suma, tanto a questão do tratamento dispensado ao escravo, quanto à da vida do escravo de forma geral, são “[...] encaradas do ângulo do sistema escravista, situada, por conseguinte, dentro das linhas básicas do modo de produção” 235. Sendo assim, mesmo que Gorender aponte para as exceções à essas regras do sistema escravista – estas sempre agindo no sentido de oprimir, em todas as circunstâncias, os escravos –, ele considera tais ressalvas incipientes diante das leis gerais que moldavam “[...] as normas de convivência regular entre senhores e escravos” 236.

Em Ser escravo no Brasil, de Kátia Mattoso, podemos perceber algumas mudanças em relação à perspectiva de Gorender. Se o Escravismo Colonial buscou cristalizar as relações sociais para justificar o funcionamento do modo de produção escravista colonial, Ser escravo

no Brasil agiu no sentido de compreender a diversidade destas mesmas relações. Nesta obra

há uma valorização das diversas possibilidades de vivência dos escravos.

Com a intenção de traçar a trajetória do escravo no Brasil, a autora em questão coloca em evidência várias circunstâncias, que poderíamos chamar de ‘espaços de experiência’, nos quais os escravos submeteram-se ao longo da história do país - a captura na África, a viagem, a venda, o trabalho, a conquista da alforria, a vida em liberdade, etc. Mattoso insere em sua análise tanto os fatores estruturais, de ordem macro-histórica – como o funcionamento do tráfico, do comércio, dos ciclos econômicos –, quanto os aspectos ligados à condição dos escravos, buscando sempre demonstrar como eles respondiam à essas situações e qual a leitura e a posição que tomavam em tais circunstâncias históricas.

Existe também o cuidado de estabelecer as nuanças entre diferentes tipos de escravos, como os domésticos, os urbanos, os rurais, etc. Contudo, apesar dessa valorização das múltiplas formas de vivências escravas, podemos encontrar algumas diretrizes principais que norteiam esse leque de possíveis relações. De forma geral, se sobressai a ideia de que a

233 Ibidem., p. 321.

234 Vale destacar que, num âmbito onde operava tal lei, a constituição de famílias entre escravos fugia da regra.

235 Ibidem, p. 356.

personalidade perdida pelos escravos – devido à tendência do sistema tratá-los como propriedade – poderia ser reconstituída a partir de sua inserção no novo mundo, este sendo desdobrado em dois mundos: o branco e o negro. O escravo, assim, teria a oportunidade de interagir dentro da dinâmica social na qual estava inserido. Almejando sua liberdade, ou espaços maiores de autonomia, os cativos muitas vezes criavam uma relação dinâmica com a cultura senhorial 237. Aprender o idioma dos opressores, converter-se ao cristianismo, ser produtivo, fiel e obediente, eram atitudes escravas com fins estratégicos que visavam a conquista de determinados benefícios. De forma geral, o que temos em Ser escravo no Brasil, então, é uma apresentação das multiplicidades de vivências escravas, e uma valorização da capacidade dos escravos compreenderem o sistema opressor, e agirem, em benefício próprio, dentro dele.

Rebelião escrava no Brasil de João José Reis, no que diz respeito à perspectiva sobre o escravo, exibe certas semelhanças com Ser escravo no Brasil.

Ainda que a obra de Reis tenha apresentado um recorte – temporal, temático, regional

– bastante específico em relação ao trabalho de Mattoso, isso não alterou a possibilidade de convergência entre ambas quanto à formulação da figura do escravo.

Como vimos no segundo capítulo, o objeto principal de Reis é a revolta dos Malês em 1835. Um dos objetivos centrais é o de compreender mais afundo os personagens envolvidos na rebelião. Existe uma preocupação em entender como tais escravos constituíram-se cultural e socialmente. Trata-se, também, de uma tentativa de examinar o que levou, e como levou, estes sujeitos a tornarem-se rebeldes. Neste intento, diversos âmbitos da vida escrava são colocados em evidência. Existe uma grande preocupação em explorar suas vidas e exibir o papel dos elementos simbólicos que estiveram presentes na revolta. Procura-se, por exemplo, compreender as diversas questões ligadas à religião – pois o termo Malês refere-se aos negros adeptos do islã –, como a utilização de roupas específicas, amuletos, a prática da escrita, as reuniões, as ceias, etc., para entender como elas propiciaram a formação de uma rede de solidariedades entre os escravos, e como isso, posteriormente, refletiu na esfera política. Segundo Reis, o islã “[...] propunha uma revolução nas vidas de seus seguidores; tirava deles a vontade de ser escravos, impregnava-os de dignidade, constituía novas personalidades” 238.

237

Vale ressaltar que o exercício do escravo inserir-se no mundo negro também constituía um desafio, pois o mundo negro na colônia era configurado por um complexo feixe de relações interétnicas, o que o diferenciava dos modos de vida africanos. Além disso, também vale destacar que existiam vários pontos de contato entre o mundo branco e o negro, de modo que não devem ser considerados como duas categorias homogêneas e completamente antagônicas.

Ou seja, ao invés de focar nos elementos repressores do sistema que anulavam a dinâmica de possibilidades de vivências escravas, o autor buscou trazer à luz as experiências culturais acionadas pelos escravos. O escravo de Reis interage em seu meio social, exerce sua fé, cria redes de solidariedade e, no caso em questão, em simbiose com a prática cultural – enleado por ela –, exerce sua consciência política. Rebelião escrava no Brasil também mergulha nas biografias de escravos específicos, dos principais atores do levante de 1835 e explora outros âmbitos da vida escrava, como as famílias, as moradias, os ofícios, etc. Por fim, vale ressaltar que, assim como no trabalho de Mattoso, as atitudes escravas relacionadas à assimilação dos valores senhoriais também são entendidas como formas de resistência que, embora sutis, sugerem a capacidade do escravo interagir com as regras do sistema e buscar tirar proveito delas.

Campos da violência também apresenta equivalências, no que diz respeito ao escravo,

com as obra de Kátia Mattoso e João José Reis. Neste trabalho, Silvia Hunold Lara buscou superar as pesquisas referentes à historiografia anterior. Ao invés de denunciar a violência empregada no regime escravista, a autora procurou historicizá-la. Para isso, examinou a questão da violência, não a partir de esquemas ou categorias prontas, e sim a partir da dinâmica das relações cotidianas entre senhores escravos. Por meio desta análise delineou- se, então, uma figura específica do escravo. Um personagem que, assim como em Ser escravo

no Brasil e Rebelião escrava no Brasil, apareceu inserido num jogo de relações, tecidas por

diversos elementos sociais diversificados, como o castigo, o comércio, os feitores e agregados, os crimes, os ofícios, etc. Deste modo, o escravo que é estudado em Campos da

violência se difere do escravo analisado em O Escravismo Colonial.

Em O Escravismo Colonial as possibilidades de vivência do escravo são sufocadas por um jogo de leis orquestradas pelo modo de produção escravista colonial. Já na obra de Silvia Hunold Lara o que temos é uma inversão de perspectiva. Prevalece o que poderíamos chamar de ‘visão de baixo’. Sob este ângulo aparecem diversas dimensões da vida do escravo. Surgem, então: escravos que através do trabalho conquistavam sua autonomia; escravos que eram utilizados como capangas por seus senhores, mas que respondiam por seus atos; escravos que interferiam nas negociações de compra e venda entre senhores; escravos que se auto sustentavam; escravos que casavam e constituíam famílias; escravos que exerciam práticas culturais fora da esfera cultural senhorial; escravos que tinham liberdade para circular, mas não fugiam; enfim, são inúmeros os tipos de vivências e relações que os escravos constituíam. São diversas as circunstâncias que desvendam um escravo agente, um

escravo que exerce um papel importante na configuração das regras do exercício de dominação sob o qual estava submetido. Por fim, vale destacar que a especificidade do castigo, por exemplo, é algo que se constitui a partir de um jogo de forças que envolvia não somente a metrópole e os colonos, mas, principalmente, os senhores e os escravos, por meio da dinâmica de enfrentamentos e acomodações cotidianas que se configurava com as relações entre ambos.

O que percebemos, então, é que existe, entre a obra de Gorender e a dos outros autores, uma diferença no olhar sobre o escravo: surge um novo enunciado. O escravo coagido pelo sistema, o escravo sem espaços de autonomia, o escravo que sofre uma imposição inquestionável de dominação, cede lugar ao escravo que faz uma leitura das relações que o permeiam, ao escravo que costura espaços onde possa se mover, ao escravo que se constitui culturamente, que tem consciência política, ao escravo que faz uma leitura das relações de dominação e que sabe jogar com ela, tirar proveito, por fim, ao escravo que exerce poder na constituição do próprio exercício de dominação.

2. Marx, Thompson e Genovese: economia, cultura e resistência na historiografia da