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A perspectiva das mediações no campo da comunicação nos remete a processos e práticas de construção de sentidos culturais e sociais. Nesse contexto, destacam-se as idéias de Martin-Barbero (2001). Esse pesquisador dos estudos culturais latino-americanos preocupou-

se em investigar as culturas populares e seus modos de comunicação. Estabelecendo novas relações entre essas culturas populares e os meios de comunicação de massa, procurou analisar as mediações ocorridas nesse contexto. Em sua obra de maior repercussão “Dos meios às mediações – comunicação, cultura e hegemonia”, publicada originalmente em 1987, adverte:

Assim, o eixo do debate deve se deslocar dos meios para as mediações, isto é, para as articulações entre práticas de comunicação e movimentos sociais, para as diferentes temporalidades e para a pluralidade de matrizes culturais. (MARTIN- BARBERO, 2001, p.270)

Para o autor, o conceito de mediação se refere, sobretudo, às construções simbólicas e culturais de indivíduos mergulhados no multiculturalismo e na globalização cultural. As tecnologias, nesse caso, não são meras ferramentas; materializam a dinâmica de uma determinada cultura e seu modelo de organização de poder.

Ainda que não tenha tratado do conceito de mediação de maneira mais concreta, a perspectiva crítica de Martin-Barbero (2001) acerca da tecnologia como “espaços-chave de condensação e intersecção de múltiplas redes de poder e produção cultural” (MARTIN- BARBERO, 2001, p. 20) mostra-se bastante profícua para oferecer suporte às pesquisas realizadas sobre a temática, especialmente na América Latina. Um dos pesquisadores que recebeu fortes influências de Martin-Barbero (2001) e procurou aprofundar as questões acerca da mediação foi Guillermo Orozco Gómez (1991).

Realizando, originalmente, pesquisas sobre as audiências da televisão, Orozco Gómez (1991) procurou desenvolver um marco conceitual no qual pudessem ser identificados os diversos elementos presentes nos membros da audiência quando da interação com a mídia de massa.

Nesse contexto, as mediações se configuram como estruturas nas quais se constitui o significado da comunicação e se produzem os sentidos. Trata-se de um processo complexo e difuso que se manifesta pelas ações e discursos dos diversos sujeitos. Sobre isso, destaca:

As mediações provêm de diversas fontes Algumas do próprio sujeito televidente enquanto um indivíduo com uma história e uma série de condicionamentos sócio- culturais específicos. As mediações provêm também, do mesmo discurso televisivo, ao ser capaz de naturalizar sua significação e ancorar-se no sentido comum. Outras mediações provêm da situação em que se dá o encontro e a negociação entre a audiência e a TV. Outras mais derivam de fatores contextuais, institucionais e estruturais do entorno onde interatuam as audiências. (OROZCO GOMEZ, 1991, p.117).

Essas mediações, assim constituídas, entrelaçam tempos e espaços diferenciados, ampliando possibilidade de interação e produção de saberes. Para o autor, por apresentarem esse caráter múltiplo, podem ser classificadas em cinco grupos: mediações individuais, mediações institucionais, mediações vídeotecnológicas, mediações situacionais e mediações de referências.

As mediações individuais ou cognoscitivas são determinadas pelo que caracteriza o sujeito como sujeito social e membro de uma cultura. Aqui se consideram o gênero, idade, nível socioeconômico, filiação política e outros fatores que podem alterar as formas de interação do sujeito com as mídias. Incidem também sobre o conhecimento, incluindo as generalizações, o pensamento lógico e a valorização afetiva a ele associada.

A mediação cognoscitiva constitui a principal mediação individual. Nela, atuam os esquemas mentais, que destacam o processamento informativo e a estrutura mental que o possibilita; os repertórios, que evidenciam os conteúdos e relevância do que o sujeito processa, e os scripts, compostos de seqüências específicas de ações e discursos, determinadas social e culturalmente, que proporcionam diretrizes para atuação dos sujeitos em situações específicas.

As mediações institucionais, por sua vez, envolvem as interações estabelecidas nas instituições sociais. As regras, o poder, a negociação e as condições materiais e espaciais entre outros, são elementos constitutivos das instituições. São espaços onde os sujeitos produzem seus conhecimentos e manifestam sua cultura e suas referências por meio da comunicação. Sobre isso, Orozco Gómez (1991) adverte:

As audiências são ativas, mas sobretudo criativas. Produzem sentido em sua interação social os limites a essa produção não estão dados apenas por razões individuais. Mas estão dados à criatividade em si, em um cenário sócio-cultural específico. (OROZCO GÓMEZ, 1991, p. 122)

E complementa:

É na interação entre os significados das diversas instituições nas quais participa a audiência, que atuam como mediação no processo de produção dos seus próprios significados, é onde se define o alcance da criatividade dessa audiência, é onde se definem as audiências como tais ou seus segmentos e, finalmente, é onde se logra sua manipulação ou emancipação cultural. (OROZCO GÓMEZ, 1991, p. 122)

As mediações situacionais ou culturais são aquelas que têm como fonte a situação de interação, entendida como os diversos cenários onde essa interação pode ocorrer. Esses

cenários variam de acordo com as condições físicas e espaciais, a exemplo da disposição, cansaço dos sujeitos, estar só ou acompanhado e também dos aspectos culturais presentes nos ambientes de recepção, como o silêncio ou comentários entre os sujeitos. Constituem mediações situacionais, pois implicam possibilidades e limitações para a interação.

Essas mediações procedem, também, dos cenários onde os sujeitos interatuam ordinariamente (a escola, reunião de amigos, local de trabalho, igreja etc), sendo que alguns desses cenários são mais relevantes do que outros como fontes de mediação.

As mediações tecnológicas referem-se às próprias mediações que a televisão produz e os recursos e formas que utiliza para impô-la às audiências. A televisão não reproduz simplesmente as outras mediações institucionais. Apresenta signos e características que a tornam peculiar. A mediação própria da televisão não é um estruturador oriundo apenas das características tecnológicas do meio, mas um processo concreto originado nos gêneros televisivos com os quais a televisão reforça seus vínculos com a audiência. Dessa forma, os modos de estruturar os textos para reproduzir a realidade, os gêneros, formatos e estruturas discursivas provocam diferentes respostas dos sujeitos envolvidos.

As mediações de referências incluem todas aquelas características que situam um ambiente determinado em um contexto peculiar (idade, gênero, etnia, classe social, localização geográfica entre outros). Essas mediações são referências nos momentos de interação e incidem diferentemente entre os sujeitos.

Os diferentes grupos de mediações encontram-se, portanto “ativados” nas relações entre os sujeitos da ação educativa. Não existem, previamente, educadores, educandos e mediações previamente constituídos. Na interação, regida por uma prática comunicativa, os papéis e posições são continuamente reelaborados, fluindo entre os diferentes pólos. Não apenas o professor é o mediador e o aluno mediado. Ambos, em presença, se transformam continuamente, assumindo diferentes lugares nessa interação.

A modalidade de educação a distância que utiliza tecnologias digitais evidencia a possibilidade de conciliação entre o campo da educação e o terreno da comunicação. A classificação das mediações proposta por Orozco Gómez (1991), adaptada ao contexto de utilização das tecnologias digitais, torna-se bastante útil para a compreensão das interações que se estabelecem em cenários de ensino e aprendizagem, na medida em que evidenciam as diversas características e contextos das mediações. Dessa forma, as mediações são percebidas em seu amplo espectro de multiplicidade, diversidade e descentramento.

Rodrigues (2006) corrobora essa idéia ao postular a mediação no campo da educação como constituída de múltiplos entendimentos, onde, além do conceito básico de possibilitar o

processo de ensino e aprendizagem, estão envolvidos os meios e os sujeitos desse processo. Para a autora,

No processo educativo, especificamente na modalidade a distância, as mediações implicam compreender as diferenças entre as formas de organização e as relações de tempos e espaços no ato de ensinar e de aprender de forma colaborativa ou não, bem como o deslocamento das relações e as produções dessas do plano da “presencialidade” corpórea para a distância espacial Na configuração de tempos e espaços, aparece a intenção dos sujeitos envolvidos num processo de mediação comunicacional. O caráter educativo intencional, tanto explícito quanto implícito, não é produzido pelos meios ou técnicas adotados no processo pedagógico, mas pelos sujeitos envolvidos em processos comunicacionais sociais e culturais. (RODRIGUES, 2006, p. 38)

Procurando realizar uma integração entre a perspectiva educativa e o campo comunicacional da mediação na EAD, a autora propõe um entendimento da prática pedagógica onde estejam articulados aspectos culturais e as diferentes mediações comunicacionais, segundo a classificação de Orozco Gómez. A essas mediações agregam-se elementos da Didática, constituindo-se, então, as mediações pedagógicas. Assim, a mediação pedagógica em EAD “estabelece sentidos e significados individuais, situacionais, institucionais, de referências por múltiplas mediações comunicacionais, predominantemente utilizando meios midiáticos.” (RODRIGUES, 2006, p. 40).

A interação e as possibilidades de expressão encontram-se fortemente presentes nas idéias de Pérez & Castillo (2007) sobre a mediação pedagógica no contexto de um modelo alternativo a uma EAD industrializada, institucionalizada e autoritária. Nesse contexto, entendem a medição pedagógica como “tratamento dos conteúdos e das formas de expressão dos diferentes temas a fim de tornar possível o ato educativo dentro do horizonte de uma educação concebida como participação, criatividade, expressividade e relacionalidade.” (PÉREZ & CASTILLO, p. 70, 2007).

Procurando aprofundar o conceito de mediação numa proposta de educação a distância alternativa, os autores propõem algumas idéias que norteiam o que denominaram “jogo pedagógico”.

Segundo eles, é preferível em um processo de EAD que se faça uma real reflexão acerca dos conceitos do que estudar uma grande quantidade de temas. Sugerem, ainda, centrar o discurso pedagógico na experiência dos diversos interlocutores, em um processo lúdico, pautado pela alegria de formular experiências e conceitos. Para tanto, devem existir “acordos mínimos” entre os participantes com relação à interpretação das experiências, o valor dos conceitos e os métodos e técnicas para a prática educativa. Assim, o ato pedagógico está

fundado no respeito, tolerância e no reconhecimento das idiossincrasias de cada um, dando espaço, também, para a criatividade e a imprevisibilidade. Destacam, ainda, a importância do grupo como um locus de concretização do processo de coesão e de retroalimentação do processo educativo.

Segundo Pérez & Castillo (2007), com tais idéias, a mediação pedagógica na EAD promove uma educação como ato de liberdade, onde se encontra “possibilidade de expressão, comunicação e crítica.” (PÉREZ & CASTILLO, 2007, p. 93).

Vemos, dessa forma, como a mediação, mesmo envolvendo uma multiplicidade de aspectos, quando aplicada em um contexto educativo, recupera a intencionalidade dos sujeitos com relação ao ato pedagógico.

Para nós, portanto, a mediação pedagógica objeto da nossa pesquisa se caracteriza pelas interações entre os diversos sujeitos do processo educativo que, pautadas pela autoria e co-autoria11 e orientadas por uma intencionalidade pedagógica, têm como objetivo a aprendizagem e o desenvolvimento de saberes colaborativos.

Essas mediações que se manifestam explícita ou implicitamente, referenciam-se pelos discursos e práticas dos sujeitos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem de forma a tornar possível o ato educativo em um contexto de autonomia, interatividade e solidariedade.

Benzer Belgeler