A busca do protagonista deste romance o leva a sair do artificialmente iluminado centro de Buenos Aires e vivenciar os ambientes decadentes da urbe, essa margem espacial e social que concentra sujeitos incapazes de se adequar à normalidade e aos parâmetros estabelecidos. Nesse espaço no qual a regra é mais flexível, Junior acaba se deparando com diversos relatos, em que alguns deles são provenientes da máquina de Macedonio, outros são claramente apócrifos e a grande maioria oriundos de uma zona indeterminada em que a noção de autoria é posta em dúvida. Esse fator contribui para colocar em crise todas as narrativas, mesmo aquelas que não transitam de forma tão clara entre o ficcional e o real.
O museu abandonado ao qual o protagonista retorna após a conversa com Russo, momento em que fica mais clara a posição deste personagem em relação aos poderes que desejam calar o engenho macedoniano, encontra-se fechado e nele a máquina continua seu trabalho de produzir narrativas que dialogam entre si, ao mesmo tempo em que tangenciam outros textos, tempos e lugares.
O ponto de chegada de Junior nos ajuda a refletir sobre a questão disparadora de nosso trabalho, a representação do intelectual proposta em La ciudad ausente, como se o próprio personagem estivesse buscando entender o percurso da inteligentsia argentina para poder compreender a maneira como deve aderir ou negar esta tradição.
Durante todo o romance, deparamo-nos com uma imensa quantidade de referências a textos e autores, um conjunto amplo de antecedentes que não constitui um mero malabarismo intelectual e que abarca escritores laureados pela Academia até aqueles considerados produtores de uma literatura “menor”. Ao eleger uma tradição, Piglia parece usar como um de seus critérios a concepção de intelectual que se expõe no conjunto de sua obra e, em especial, neste romance.
Na acepção pigliana, como dito no capítulo I, o “verdadeiro” homem de ideias é aquele sujeito que mantém a capacidade crítica e a autonomia em relação ao poder estabelecido, mesmo que isso o leve a adotar uma posição de isolamento, posto que seu compromisso para com a verdade, a justiça e a memória não pode ser relativizado.
Essa maneira de ver o papel do intelectual influencia de maneira profunda a seleção dos autores citados ao longo de La ciudad ausente. Em todos os casos, observamos um tipo de leitura que relaciona texto e biografia, resultando com que a
ficção não esteja de todo descolada da vida de quem a produz. Fica evidente que Piglia se apropria principalmente do imaginário que existe em relação aos escritores escolhidos, espécie de mitologia que paira sobre a vida desses ficcionistas. Nesse processo, percebe-se a invenção de uma tradição que conecta a todos e que se baseia na maneira como autores e obras rompem com uma tradição, atitude que os leva, muitas vezes, a ocupar uma posição de marginalidade dentro da sociedade.
A associação entre a posição marginal e o trabalho intelectual é articulada de duas maneiras: em um primeiro plano temos os personagens que se congregam em volta dos relatos da máquina, que se esquivam constantemente do centro e optam pela margem e pela visão privilegiada que esta lhes fornece. Num outro plano, de forma um tanto velada, encontramos a biblioteca que Piglia nos apresenta durante o romance como espaço no qual seus autores serão associados à contestação das hierarquias literárias e linguísticas. Mediante este processo se propicia o encontro da arte com os debates públicos.
De ambas as maneiras, pode-se afirmar que a postura crítica e independente perante a sociedade, vista pelo narrador como essencial para a ação do intelectual, assenta-se em uma tradição que ele deve conhecer e valorizar. Não podemos esquecer que o romance foi publicado no contexto do pós-ditadura, por isso, é importante lembrar que a interlocução com os antecedentes pode ser entendida como uma tentativa de compreender o sentido da derrota recente, de resistir ao horror do presente.
O passado é uma constante na vivência destes intelectuais dispostos a manter seu juízo crítico, o que nos remete ao importante papel da repetição na estrutura formal deste romance. Em todo o momento, os acontecimentos, temas e personagens reaparecem, ocasionando a impressão de que tudo se encontra estagnado em um arranjo cíclico que impossibilita qualquer escapatória. Só é possível suportar este ciclo quando se atenta para o passado, observando o passar do tempo através de ferramentas conceituais refinadas como as múltiplas temporalidades e a longa duração. É isso o que não nos permite vislumbrar os nudos blancos, temas e conflitos essenciais que se projetam por grandes intervalos de tempo e que indicam a impossibilidade de compreender o presente, a partir unicamente dele, sem a interferência da leitura de outros tempos.
Tomando como ponto de partida os valores estabelecidos desde o princípio da modernidade, a busca da verdade, a necessidade de justiça e a liberdade de expressão, os personagens se propõem a fazer uma crítica da sociedade e do Estado. Isso os afasta
de qualquer relativismo pós-moderno, apontando para o fato de que Piglia é um articulador de leituras que aproxima tradições literárias bastante diversas e conecta escritores argentinos e estrangeiros, com base em sua evidente preocupação a respeito do papel social do escritor.
A opção pelo ponto vista localizado nas bordas da sociedade se justifica, pela maneira privilegiada que tal posição proporciona. Ao se colocar na margem, sua voz se encontra cada vez mais distante e tende a não ecoar de maneira ampla. O distanciamento contribui para a liberdade crítica, porém, acaba dificultando a comunicação entre o pensador e os outros agentes da sociedade. O intelectual marginal, um outsider como diria Edward Said, cai no dilema: quanto mais fiel às suas ideias ele for, mais afastado se encontra em relação ao restante da sociedade, menor o alcance de suas proposições; caso se torne mais flexível, passa a ter maior visibilidade, porém, isso implica que aquilo que ele diz perde o potencial para gestar mudanças.
Esse dilema persiste na Argentina atual, como pode ser verificado na entrevista com o autor, em anexo. Desde 2003, com a ascensão do governo de Nestor Kirchner e posteriormente sua esposa Cristina, o Estado argentino vem elaborando uma política da memória que possui grande aceitação entre setores de esquerda, principalmente entre aqueles grupos que sempre estiveram ligados ao esclarecimento dos crimes cometidos durante a última ditadura civil-militar201. Por um lado, isso trouxe um maior empenho na busca por consolidar os direitos humanos na base da sociedade democrática, entretanto, não se pode negar certa instrumentalização da memória no campo político, que passa a servir como marca de filiação a um grupo ou partido, com isso, impossibilitando o diálogo objetivo sobre a memória e o passado.
Nesse contexto, a obra de Ricardo Piglia ganha ainda mais importância, pois coloca a todo o momento a incômoda questão da necessidade de autonomia por parte do intelectual. Quando o centro ouve a periferia, o dilema se instaura mais uma vez: associar-se para tentar operar mudanças ou manter distância e salvaguardar a objetividade crítica?
Quando, no final do romance, Junior observa a máquina macedoniana e reflete sobre sua trajetória, por meio de seu narrador, Piglia parece estar dizendo que o intelectual deve elaborar seus antecedentes e compreender o local que ocupa dentro de uma determinada tradição cultural.
201 LVOVICH, Daniel. Op. Cit. 2008. p. 81.
A modo de coda final, gostaria de dizer que a experiência desta investigação me levou a uma curiosa constatação a respeito da minha própria escrita. A repetição sendo um mecanismo tão constante na composição de La ciudad ausente ultrapassou a própria obra e passou a atingir o andamento desta dissertação. Relendo a estrutura do trabalho, fica evidente, para mim, que certos nudos blancos se tornaram recorrentes aqui também, formando uma espiral em cujo centro há certos temas constantes que retornam, não de maneira idêntica, mas agregando elementos novos à análise e contribuindo para a compreensão de alguns aspectos.