• Sonuç bulunamadı

2.3. Veri Madenciliği Modelleri

2.3.2. Tanımlayıcı Modeller

Os jovens estabeleceram relações entre os comportamentos de obediência/transgressão e a percepção de responsabilidade e justiça o que se confirma com Piaget (1932/1994), para quem a justiça seria a lógica normativa, a equilibração das relações sociais. Nesse sentido, ele afirmou que muitas crianças acham justas as ordens do adulto porque as consideram leis e, portanto, justas. Outras consideram algumas ordens injustas, mas as aceitam porque acreditam que a regra da obediência ao adulto deve ter primazia sobre a justiça, executando-as sem discussão; e outro grupo, ainda, considera algumas ordens injustas e preferem respeitar a justiça, colocando-a acima da obediência por submissão. Por fim, estão as que consideram algumas ordens injustas e não acham obrigatória a obediência, mas que se submeteriam a elas; por não querer discutir, para não vivenciar o conflito ou por achar necessário agir de acordo com a coletividade. Como notamos, em nossa pesquisa, essas atitudes do professor poderiam ter como consequências a obediência, o tédio e as atitudes reguladas pela exigibilidade social.

Sendo assim, uma atitude arbitrária do professor, como a de punir um grupo todo de alunos pelo barulho provocado por alguns deles, nem sempre seria percebida como injusta; ou seja, nem sempre daria origem à indignação. Em nossa pesquisa observou-se que para alguns jovens, o aluno deveria aceitar essa sanção por considerar o professor uma figura de poder cuja decisão seria indiscutível, afirmando uma atitude passiva frente uma situação injusta, confirmando o que vimos anteriormente sobre o comportamento de submissão.

Na situação apresentada, o professor utilizaria sanções expiatórias e arbitrárias, pois não levaria em conta uma relação direta entre o conteúdo da sanção e a natureza do ato sancionado. A transgressão do aluno corresponderia a regras que foram impostas e, nesse caso, a maneira que o professor encontrou para restaurar a ordem seria reconduzir o aluno à obediência, por meio do ponto negativo, por exemplo. Ele poderia ter utilizado outras formas de marcar sua posição, por exemplo, a repreensão, exclusão ou outros tipos de punição. Diferentes dessas poderiam ser as sanções por reciprocidade, frutos da cooperação e das

regras de igualdade que seriam construídas pela instituição e professores, com participação ou conhecimento dos alunos. Nesse caso, o resultado de transgredir poderia ser o rompimento do elo social, o que, provavelmente, seria o suficiente para recolocar as coisas em ordem, pois a ação transgressora incidiria negativamente no vínculo do aluno com a autoridade do professor e também sobre as representações de si do aluno (que desejaria ser admirado ou reconhecido pelo professor). Isto é, as sanções por reciprocidade, por garantirem a relação de conteúdo e de natureza entre a falta e a sanção, poderiam ter mais sucesso na regulação do comportamento dos alunos.

Notamos, em nossa pesquisa, que alguns jovens são mais sensíveis à sanção expiatória e outros, à sanção por reciprocidade, inspirada na justiça igualitária. A crença na justiça igualitária foi observada por jovens que consideraram que os alunos deveriam aceitar a decisão do professor por ser justo compartilhar a responsabilidade entre todos, expressando também o desejo de pertinência no grupo e de não querer se expor e aos outros. No entanto, alguns deles consideraram a atitude do professor arbitrária, sugerindo que esta não deveria ser aceita pelos alunos e que, nesse caso, o aluno deveria revidar o professor, sem, no entanto, perder o respeito por ele, como vemos nas respostas de J.V. (12): “Se ela tiver errada, eu

acho certo questionar, mas sem ignorância.” e, também, I.S. (10): “Eu mandaria descer se fosse eu (o aluno para falar com a coordenadora ou diretor). Mas tipo se a professora fala alguma coisa e eu não aceitar, eu falo mesmo, sem ser ignorante com ela.”. Isso porque o

professor teria rompido, mesmo que temporariamente, o vínculo de confiança e respeito com o aluno, o que confirmaria a percepção dos jovens de que seria preciso reconhecer coerência no professor para querer respeitá-lo. Sendo assim, não aceitar o ponto negativo seria um ato transgressão que afirmaria o respeito para consigo mesmo. Entre estes jovens estão os que justificaram a atitude de revide como correta, porque julgaram a decisão do professor, simplesmente uma ação injusta. Sendo assim, a motivação da transgressão seria moral, originada da indignação (notada, também, nas respostas dos alunos frente a situações de coação agressiva por parte dos professores).

Como vimos, o sentimento de indignação, como define La Taille (2006), seria um forte sentimento negativo, desencadeado por um juízo negativo de ordem moral. As expressões de indignação buscariam recobrar um direito que o jovem consideraria seu, assim como representa a busca pela justiça, mesmo que ainda autorreferenciada. O fato de experimentar a indignação pessoal seria sinal de que os valores de justiça e os direitos não estão somente colocados externamente, pois, assim como o jovem é capaz de realizar julgamentos simples de outrem, realiza alguns sobre si mesmo. Nesse sentido, ser repreendido

por ter feito algo errado, ou mesmo por não ter feito (como na situação apresentada aos jovens), poderia ser sentido como desvalorização de sua pessoa. Como Tungendhat (2003), podemos pensar que a indignação aconteceria porque haveria exigências mútuas, causando no jovem o sentimento de indignação pela desaprovação vir de alguém que considera uma pessoa confiável, como se esta pessoa deixasse de corresponder à sua expectativa, ou ainda por perceber dissonância entre o que consideraria correto o professor fazer e o que ele de fato fez, isto é, entre a boa imagem que ele tem do professor e como este se revela.

No entanto, a maioria dos jovens, que considerou que o aluno não deveria aceitar a decisão do professor, julgou o professor injusto por outro motivo. Segundo eles, a sanção deveria recair exclusivamente sobre quem causou a situação, isto é, a responsabilidade deveria seria individual. Poderíamos considerar que assim reivindicariam um direito de o aluno não ser punido por algo que não fez, mas também poderíamos pensar que essa seria a posição oposta à solidariedade e comprometimento com o coletivo, apresentada pelos que aceitariam a decisão do professor por reconhecer a responsabilidade pelo barulho como de todo o grupo. Dessa forma, a atitude do aluno em não aceitar poderia ser tanto originaria da justiça retributiva como da equitativa. Infelizmente, nossas observações nas escolas, nos alertaram para o fato de que os alunos, frequentemente, não assumem sua responsabilidade pelo “barulho” durante a aula, mesmo tendo contribuído para que ele ocorresse, sendo a postura alheia e a culpabilização, hábitos instaurados nas escolas.

Ainda assim, alguns jovens sugeriram que o aluno deveria ter uma atitude conciliadora, procurando esclarecer os motivos da decisão com o professor, a fim de não receber sanções de forma injusta, inspirados nas relações de reciprocidade, que, como vimos, expressam a valorização que os jovens dão ao diálogo na relação com os professores.

O posicionamento dos jovens na situação apresentada nos mostra o quanto é dinâmica a relação entre a percepção de justiça e a legitimação da autoridade do professor. Sendo assim, vamos examinar, ainda, outras questões que revelam a complexidade da relação professor/aluno no ambiente escolar.