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2.2. Kompozit Malzemeler

2.2.3. Takviyeler

2.2.3.1. Fiber takviyeler

Na época da Operação Bandeirante, a transcrição do interrogatório era chamada de “resumo de declarações” e, na época do DOI, apenas de “declarações”. A primeira denominação não deixa de ser apropriada na medida em que sugere que o discurso do depoente passava por um tratamento, sofrendo cortes e reestruturações, conquanto não se tratasse propriamente de um resumo, como quer indicar o termo empregado, visto que há, não raro, informações repetidas. Em alguns casos, pouco freqüentes, a não-transcrição de trechos do depoimento é explícita, como nesta observação do interrogador, acrescida ao depoimento de um militante da Ala Vermelha do PC do B: “OBS: O depoente fêz uma grande explanação de Ideologia e conduta política que foram simplificados; das ações citadas, alega o mesmo serem tôdas às quais esteve ligado, sabendo que houve outras mas não sabe pormenores”.430 O mesmo ocorre no interrogatório de um militante da ALN, mas, dessa vez, no interior do próprio depoimento: “O depoente esclarece agora a documentação encontrada em seu poder e

429

COELHO, Marco Antônio Tavares. Herança de um sonho, p. 392.

430

Interrogatório preliminar. 17/01/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 134, 28020.

fornece explicações satisfatórias e sem importância [...]”.431 O mesmo ocorre na fala transcrita de outro militante da ALN: “Quanto a sua participação política, limitou-se ao já declarado em seu depoimento das 1700 às 0230 horas do dia 18/19 de fevereiro de 1972”.432 Considerando a desproporção muitas vezes encontrada entre a duração das sessões e a quantidade de páginas, pode-se supor que acontecia do depoimento ser abreviado ou, mais precisamente, não integralmente transcrito, sem que o agente tivesse o zelo profissional necessário para assinalar o procedimento. Ocorria de haver, do mesmo modo, adições, o que é evidenciado nesta nota incluída ao final do depoimento de um militante da Ala Vermelha do PC do B: “OBS: Os 8 primeiros ítens acima estão em ordem cronológica definida pelo depoente, e as datas precisas foram extraidas de Documento reservado da SSP-SP [Secretaria de Segurança Pública de São Paulo] do dia 18-01-71”.433

As adições eram comuns, pois a equipe de análise completava os dados parciais fornecidos, como datas de eventos ou sobrenomes desconhecidos do depoente. O mesmo ocorria no DOPS. A descrição do procedimento pelo jornalista Luiz Maklouf Carvalho merece ser reproduzida, pois segue exatamente a mesma lógica que se percebe nos interrogatórios do DOI:

Como boa parte de seus colegas, Magnotti [delegado adjunto do DOPS] não tinha escrúpulos quando se tratava de moer os terroristas – e deles tirar o máximo de informações. Quando não tirava, acrescentava o que bem lhe aprouvesse – muitas vezes colocando na boca da presa informações que já havia levantado de outras formas igualmente ilícitas. É o caso, por exemplo, de muitos nomes completos que aparecem nos depoimentos, como se o preso interrogado os tivesse falado. Ora, no geral, os presos só conheciam os nomes de guerra. Magnotti e sua trupe, cruzando informações analisadas, obtinham os nomes verdadeiros e os enxertavam nos depoimentos a seu bel- prazer.434

Exemplo dessa prática no DOI se encontra no depoimento de um militante do POC:

Confirma suas declarações anteriores, retificando que da sua célula, faziam parte 3 elementos: O depoente, “SIDNEY” ou “ELZA” e um outro elemento; que anteriormente, não havia citado o nome de RUTH RIBAS

431

Interrogatório preliminar. 20/04/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 92, 17249.

432

Interrogatório preliminar. 20/02/1972. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 166, 34509.

433

Interrogatório preliminar. 20/01/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 117, 22819.

434

sem saber como explicar o seu aparecimento nas suas declarações de 17/18 Jul 71 [...].435

Em auto de qualificação e interrogatório realizado na Auditoria, um preso político, detido no DOI, afirmaria, no mesmo sentido, que “as ‘coisas a mais’ que há no seu depoimento policial foram criadas por quem o elaborou e coagiu o interrogado a assinar”.436

Muitas das retificações feitas pelos interrogados no DOI não desfazem histórias inventadas ou revelam informações omitidas. Ao contrário, atenuam declarações por demais comprometedoras, o que leva a pensar que os interrogadores conduziam os depoentes a exagerar determinadas informações e estes últimos, nas sessões seguintes, procuravam corrigi-las. Uma presa política, suspeita de envolvimento com o POC, por exemplo, retifica da seguinte maneira o seu depoimento:

Confirma suas declarações anteriores, retificando sua declaração do dia 27/07/71, das 0030 às 0100 hora, quando declarou que era do seu conhecimento, que seu amásio ANTONIO JOSÉ DA SILVA (“GOUVEIA”, “MARIO” ou “TONINHO”), era militante de uma organização subversiva; que na verdade pretendia declarar que o mesmo era simpatizante de esquerda, ignorando qual a facção política.437

Outras retificações levam a crer que as transcrições dos interrogatórios preliminares tendiam a dar um espaço considerável para o que não se havia dito. Um depoente, interrogado por ter participado de reuniões do Partido Socialista Revolucionário (PSR), não reconhece sua fala repetida pelos interrogadores: “Voltando a ser interrogado novamente, JOSÉ TEIXEIRA PINTO DINIZ FILHO, declarou que não prestou as referidas declarações, conforme os ‘Resumos de Declarações’ do dia 24 para o dia 25 do corrente Mês, às equipes de

435

Interrogatório preliminar. 18/07/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 176, 36289.

436

Projeto Brasil: nunca mais. Tomo V, v. 1, A tortura, p. 750. O dirigente do PC do B, Haroldo Lima explica bem como a fala do interrogado era transformada em depoimento: “Referido 'depoimento' era inteiramente arbitrário. Um delegado ditava-o para um datilógrafo, tomando por base um rascunho previamente feito e anotações selecionadas. Tudo era dito como se a pessoa tivesse 'declarado'. Por exemplo: se em uma anotação de conversa com alguém já identificado tivesse uma frase como, por hipótese. 'trabalho zona sul crescendo', e uma data como 25 de agosto, escreviam-se frases inteiras como: 'Declara que no dia 25 de agosto efetivamente encontrou-se com fulano, que também se chamava beltrano e sicrano, com quem conversou sobre andamento do trabalho do Partido na zona sul da cidade; acrescentando que recebeu informações de que o Partido estava muito ativo nessa região; esclarece, ainda, que fulano lhe disse que o trabalho estava crescendo...'“ LIMA, Haroldo. Memorial de Haroldo Lima a respeito de seu afastamento do Comitê Central (1979). Apud POMAR, Pedro Estevam da Rocha. Massacre na Lapa, p. 181.

437

Interrogatório preliminar. 28/07/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 109, 20779.

interrogatórios preliminares ‘C’ e ‘D’”.438 Situação semelhante ocorreu com um militante da ALN em cujo depoimento afirma que: “Sôbre o seu conhecimento de membros da ALN teria a fazer uma nova declaração, pois como está registrado não exprime exatamente idéia que o depoente quis transmitir”.439 O mesmo se repete com um militante do PCB: “Retifica, integralmente, o item 2 de sua declaração de 26/26 Jul 72, das 1200 às 2230 horas, folha 1, no que diz respeito a ‘GERÔNIMO’, afirmando que o que consta da mesma não foi o que declarou”.440

As incorreções das transcrições podiam ser resultado de enganos. Contudo, repetidamente eram fruto de um “excesso de imaginação” dos interrogadores, de uma tendência à exacerbação dos delitos, ao estabelecimento de conexões livremente inferidas e, até, à inclusão deliberada de informações obtidas alhures na fala dos depoentes. Exemplo deste último caso pode ser encontrado no depoimento de um militante da VPR: “declara ter havido mal entendido em suas declarações, pois nunca ouviu ninguém fazer menção aos nomes dos sargentos acima [mencionados], como elementos ligados ao grupo de LAMARCA no 4° RI”.441 Marco Antônio Tavares Coelho fala a respeito de uma “preocupação doentia a respeito do comportamento sexual dos presos”,442 o que provavelmente teria levado um de seus interrogadores a transformar sua afirmação de que “‘morava’ no apartamento da velha Alva Mendes” em “‘vivia’ amasiado com Alva Mendes”.443 Processo análogo levou um militante da Ala Vermelha do PC do B a esclarecer um desses “deslizes”:

que o declarante esclarece que provàvelmente houve um mal entendido quanto ao “apôio” que o PC do B receberia da China Comunista; [...] Que o declarante desconhece por completo qualquer tipo de “ajuda financeira” recebida do PC do B – ala Vermelha, da China Comunista.

438

Interrogatório preliminar. 25/08/1969. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 056, 9477.

439

Interrogatório preliminar. 20/02/1972. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 166, 34510.

440

Interrogatório preliminar. 26/07/1972. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 146, 30585.

441

Interrogatório preliminar. 26/02/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 150, 31299.

442

COELHO, Marco Antônio Tavares. Herança de um sonho, p. 385. Essa preocupação não transparece claramente na documentação aqui estudada.

443

ACAREAÇÃO: [...] ficou esclarecido que foi citado a expressão “apôio” e não “apoio financeiro”, conforme consta no depoimento dêste último citado, no dia 12 próximo passado.444

Havia, assim, em algumas ocasiões, o preenchimento de informações consideradas incompletas ou a reorganização de dados, segundo os critérios do agente responsável pela transcrição, demonstrando como o outro era percebido e enquadrado em determinado estereótipo.

Benzer Belgeler