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takipFormuSil Metodu

Belgede SOSYAL GÜVENLĠK KURUMU (sayfa 131-0)

4.6 T AKĠP F ORMU K AYIT M ETOTLARI

4.6.3 takipFormuSil Metodu

Rafael escolheu a praça Luiza Távora, no bairro Aldeota, para a entrevista narrativa, disse que iria a um compromisso de trabalho nas imediações da praça e que seria um bom local para ele. Na primeira vez que marquei a entrevista, troquei as datas e, ao confirmar um dia antes, percebi minha confusão. Acabei precisando remarcar, ele confirmou para o mesmo local e, no dia combinado, cheguei uma hora antes e com um pedido de desculpas pela confusão. Ele falou que não tinha problema, sorrimos,

conversamos sobre a praça e iniciamos a entrevista sentados num banco próximo à Rua Costa Barros.

Um carro de som estacionado ao nosso lado nos fez procurar o outro extremo da praça, mais tranquilo e mais ventilado. As árvores e plantas do local trazem uma calmaria que diverge do movimento acelerado do bairro. Algumas mulheres praticavam atividade física ao fundo, vendedores ambulantes nos abordavam vez por outra oferecendo água ou algodão doce e alguns jovens andavam de skate e usavam as escadas para fazer manobras assim como eu fazia, anos atrás, nessa mesma praça e nessas mesmas escadas.

Rafael pergunta se eu gostei do lugar, digo que sim e falo um pouco sobre minhas histórias no local e a entrevista já inicia com um tom de conversa. Explico como é a entrevista biográfica, que ele pode usar o tempo que quiser para responder e que depois retornarei com as respostas. Ele parece satisfeito com a possibilidade. Pergunto se posso gravar, ele concorda de pronto e faço a primeira pergunta.

Logo na primeira frase fala: “na verdade, eu sou paraense, sou nascido em Belém

do Pará, e vim pra cá muito novo”. Depois explica que Fortaleza é a sua cidade de

referência, nunca deixou de morar nessa cidade, desde os 6 anos de idade, mas que ainda sente falta das árvores e reclama da aridez que encontrou ao chegar.

Ouvindo novamente o áudio da entrevista para fazer esta análise, escuto o som do vento tocar das folhas das árvores e a escolha do local começa a ganhar novos contornos, não fiz essa relação entre a necessidade que tinha do verde e o local escolhido durante a entrevista, mas agora percebo que as árvores, a floresta, são questões presentes tanto em sua fala quanto na escolha do local. Em outro encontro que tivemos, ele escolheu a Praça da Imprensa e conversamos ao pé de uma árvore desenhada por ele na enorme caixa d'água que fica no local.

Enquanto eu lhe perguntava sobre a busca de visibilidade dos grafiteiros, ele me

contava sobre “algo mais ancestral” que era deixar nossas marcas nos muros e nos “apoderarmos” da cidade, citou o movimento que participou contra a derrubada das árvores no Bairro Cocó para a construção de um viaduto, também falou “das pinturas clandestinas de ciclovias” e de como isso pode nos fazer perceber que somos parte da

cidade. Eu, mesmo buscando exercer a escuta atenta da qual nos fala Marinas (2014), continuei perguntando da disputa visual do graffiti, o que me leva a uma reflexão da pesquisa (auto)biográfica como um processo de formação também para o pesquisador que vai aprender no caminho a perceber os pequenos pontos de luz, também a ficar aberto ao

que o campo vai mostrar, adaptando os procedimentos de pesquisa e compreendendo os sujeitos como participantes do processo e não somente como informantes, como discuto em minha dissertação de mestrado (ARAÚJO, 2008).

Percebo na análise que faço agora as possibilidades de novos diálogos com o Rafael, vejo pontos do rizoma que poderiam gerar ramificações, então percebo que novas conversas gerariam novos pontos de ramificação e teríamos um diálogo sem fim porque a entrevista narrativa é atravessada pela pesquisadora que eu era naquele momento, mas, ao ouvir as experiências do outro, já fui transformada, e também o outro, ao fazer sua narrativa já não é mais o mesmo.

Cena 2: Caminhos

A escolha da compreensão cênica, de Marinas (2014), como metodologia de análise das entrevistas narrativas se deu pela percepção do autor de que cada relato é composto de muitas maneiras e que existe uma pluralidade de cenas que circulam na narrativa, sendo o papel do pesquisador articular lugares e tempos, percebendo que existe uma encenação na narrativa que a compõe e não que deve excluída, ou seja, a ficção que inventamos de nossas experiências é parte integrante e fundamental de nossa “história de vida”.

Dessa forma, na segunda cena do Rafael, crio uma relação entre o seu presente, passado e futuro, faço uma articulação das cenas do seu cotidiano e analiso algumas

questões já citadas na análise da “nuvem de palavras”, mas agora, a partir da compreensão de como essas experiências formam sua “história de vida”, compõem uma trama em que

relaciono as experiências narradas à abordagem da pesquisa (auto)biográfica, gerando conforme explica Pineau (2006), um trabalho reflexivo e uma elaboração teórica.

Inicio esta análise, assim, com uma articulação entre o início e o fim da entrevista narrativa de Rafael. Ele começa e termina falando de sua chegada à Fortaleza, sua história narra um percurso, como nos fala Certeau (1998) ao refletir sobre os lugares praticados, sua história é um relato de percurso até chegar a um local e fala de um constante movimento de chegada e partida, como ele mesmo nos conta:

Falando um pouco da origem, os meus pais são do Cariri, são primos, ambos nasceram no Crato e, nessa loucura da vida, foram morar em São Paulo, separados. Se reencontraram lá e casaram. Então, o meu pai foi transferido para Belém do Pará e eu nasci lá. Ele tentou a transferência de novo pra cá, pra Fortaleza, porque queria ficar perto dos pais

dele. Eu vim pra cá com 6 anos, e, desde esse período, eu nunca deixei de morar aqui, eu fiz uma viagem longa de bicicleta, mas sempre aqui foi muito da minha referência de muita coisa.

Ao final, ele constrói o desfecho de sua narrativa mandando um recado para quem deseja ser artista urbano e volta para a sua infância, para o relato do percurso que fazia com sua mãe, de como ia reconhecendo a paisagem e ficava ansioso ao se aproximar do painel da Avenida 13 de maio, como nos diz:

(...) eu volto ao começo da minha história aqui em Fortaleza, de como eu gostava de quando eu sabia que ia passar por aquela rua, colava o rosto no vidro e ficava olhando para ver o que tinham pintado, o que é que tinham pintado de novo, eu já me interessava por desenho.

Rafael continuou sua fala dizendo que a grande questão da arte urbana é que ela é acessível. Em outra passagem, diz que não sabe se seu trabalho gera uma grande mudança na cidade, parece preferir os pequenos deslocamentos, um sorriso de um estranho, um comentário de uma mulher no ônibus, a possibilidade de ser motivo para uma conversa entre desconhecidos. Mas sabe que esses pequenos pontos de luz podem gerar o que ele

chama de uma “ressignificação da cidade”, como quando fala da sua multi-intenção O Gordo e de como ainda o procura pela cidade como quem busca um pedaço seu.

Rafael queria que O Gordo fosse espalhado no maior número de locais, mas sem uma explicação, a busca era por uma saturação da imagem, de tanto ver, podia ser que os transeuntes enxergassem e criassem histórias para ele, como diz que fizeram. É interessante relacionarmos o experimento de Rafael com uma das primeiras inscrições em muros com tinta spray que temos documentada no Brasil que aconteceu nos anos 1970, em São Paulo, quando um criador de cães escreveu “cão fila km 26” por toda a cidade para divulgar a raça, mas as pessoas inicialmente não sabiam a motivação.

A ação ganhou muita repercussão em São Paulo, pois existia uma grande quantidade de intervenções feitas em muros geograficamente distantes, atingindo boa parte da cidade. Knauss (2001) explica que inicialmente, não se sabia que se tratava da divulgação de uma raça e o mistério da mensagem levou a outros jovens o interesse em

escrever os seus nomes ou mensagens nas paredes como aconteceu com os postes e fotossensores que passaram a ser usados por outros artistas e mesmo para mensagens publicitárias após o stencil do Rafael.

A inscrição “cão fila km 26” mostra como uma alteração no espaço urbano pode

fomentar invenções, pode gerar desejos que levam outros corpos a interferir também na cidade ou mesmo criar uma nova relação com a rua. A partir do momento em que a inscrição percorre a cidade, a intencionalidade de seu autor ganha novas dimensões.

Rafael também falou sobre a pulverização de uma imagem por meio da internet, diz que anda interessado em lugares abandonados e que fotografar e postar suas intervenções pode gerar um retorno rápido e ampliado como aconteceu no caso da pintura que fez no Farol do Mucuripe, monumento da cidade pintado durante a primeira edição do Festival Concreto, em 2013. O embate entre pessoas favoráveis e contrárias ao graffiti gerou, como nos conta Rafael, uma visibilidade para o monumento e o seu entorno.

Então, as pessoas ainda se incomodam com a arte urbana, com o graffiti, quanto mais num espaço que é um ícone de Fortaleza, que tá na bandeira do Ceará, do Estado do Ceará, mas é muito complexo, muita gente não sabia nem que existia o Farol. Então, essa ação lançou um olhar muito bacana para esse monumento e nã o só pra ele, mas para o estado dele, e eu acho que é isso, eu acho que o graffiti também tem essa função, essa experiência do olhar.

A metáfora do Farol, que é um ponto de luz para os navegantes em busca de um porto seguro para atracar, é oportuna principalmente por dois motivos. Primeiro, foi a experiência de pintar o Farol que levou Rafael a criar outros projetos de arte urbana e estreitar sua parceria com Narcélio Grud, organizador do Festival Concreto, fazendo da intervenção um guia para novos caminhos que o nosso viajante resolveu trilhar. Assim, a construção criada para ser um ponto de luz que orienta a chegada e uma esperança de encontrar o caminho de volta, continua cumprindo o seu papel e orientando o nosso viajante que está sempre num movimento de chegada e partida. O outro motivo é a questão apontada por Rafael do graffiti proporcionar a experiência do olhar para um espaço que era invisível para muitos moradores da cidade e que foi criado justamente para ser um ponto de luz, que deveria permanecer visível até à linha do horizonte.

A experiência o levou a procurar esses locais abandonados, que, como ele fala,

“recebem pessoas abandonadas também”. São locais que descreve como quase

inexistentes, posto que foram esquecidos por boa parte dos moradores da cidade, mas que resistem ainda. Sobre esse seu projeto Rafael nos fala:

Eu estou com um projeto que nasceu a partir do Farol, que se chama Arte, Cidade e Abandono. Eu procuro alguns lugares, eu já fui naquele Casarão de Redenção, eu grafitei lá, eu fiz um graffiti no Mara Hope, no Farol e numa outra casa abandonada - o Casarão não é em Redação, é em Guaiúba - e o outro casarão abandonado na estrada de Redenção. Eu tenho um projeto que ainda está aí nas burocracias do governo, mas para grafitar o antigo IPPS, que vai ser demolido, e é dentro disso, esse pensamento a partir desse não lugar da cidade, que não existe mais, não existe no imaginário das pessoas, não existe na memória das pessoas, está abandonado, ele existe enquanto lugar, mas ninguém vai, ele tá abandonado, ou quem vai são justamente os abandonados.

Rafael passa, então, a visitar locais abandonados, grafitar suas figuras fantásticas em um casarão esquecido na beira da estrada da cidade de Redenção, lugares escondidos e distantes passam a ser pintados por ele, mas também outros em espaços amplamente visitados, mas que guardam suas invisibilidades. Assim como o Farol passa a ser conhecido ou lembrado por muitos a partir de seu graffiti, também aquele velho navio encalhado na Beira Mar passa a ser conhecido pelo nome depois que foi colorido por ele e outros artistas. Olho para o navio e agora sei que seu nome é Mara Hope e sinto profundo uma esperança que vem do mar.

Cena 3: Quando a realidade cansa

Marinas (2014) sugere que a terceira cena de análise seja criada a partit dos pontos esquecidos, que ficaram implícitos ou foram pouco tratados, mas que possuem uma densidade importante na narrativa e, na entrevista do Rafael, talvez o ponto que compreendo nesta análise como um dos mais relevantes foi também um dos menos explorados, estou falando sobre a questão da loucura.

Suas figuras fantásticas, o espaço que habitam, o universo pictórico de sua obra, suas experiências entre a floresta e o sertão, seu desejo de ser veterinário e artista, a viagem de dois anos que fez e todas as vezes que ouviu o termo "loucura" quando fala de suas

experiências são como um fio invisível que liga as histórias sem precisar que façam sentido entre si.

Ele fala rapidamente sobre sua Nau de Loucos, diz que criou uma série de figuras e

escolheu uma para “jogar” na rua, conta que elas são de um mundo em que não negamos

essa parte instintiva, animal, sexual e que aparecem algumas vezes com frases como

“amai-vos uns aos loucos”.

Rafael conta que em seu trabalho de conclusão de curso queria muito falar sobre a questão da loucura, que voltou da viagem com a ideia na cabeça, mas que seu professor o orientou a não entrar em tema tão complexo, foi quando ele resolveu continuar falando sobre a questão, mas por meio de uma figura que tinha desenhado. Na pergunta seguinte, aprofundo a discussão sobre a figura, mas não voltamos a falar sobre loucura, uma ausência que senti mesmo antes de compor esta cena.

Meses depois da entrevista narrativa, nos encontramos e conversamos por uma hora ao pé de um grande graffiti feito por ele na caixa d'água da Praça da Imprensa. Na ocasião, conversamos sobre seu interesse pela loucura, ele me fala que a realidade cansa, que gosta de criar outros mundos possíveis, diz que não sabe ao certo, mas talvez esse seu interesse pelo grotesco, pelas figuras monstruosas, venha do seu apreço pelos bichos que o fazia estudar as mais diversas espécies ou tenha vindo também das histórias que ouviu entre Belém do Pará e o Cariri.

Conversamos sobre uma viagem de quinze dias que faria em busca de artistas que também nutrem um apreço pela monstruosidade, uma expedição que chamou de Oco do Mundo. Falou que passaria por quatro estados e que conhecer o universo em que as obras eram criadas era tão importante quando as obras.

O pergunto, então, sobre o seu universo e ele responde que “tem um lugar onde essas figuras vivem e às vezes eu vou lá buscar”, mantendo o mistério, mas dá pistas em

uma outra narrativa que fez, em seu livro de viagem (LIMAVERDE, 2012), quando diz que sonha com o dia em que as baleias Jubarte irão sair das águas e voar com suas enormes barbatanas. Em outra passagem do livro, fala sobre loucura, se pergunta se seria um louco, como muitos diziam, por ter partido ou se loucos seriam os que ficam e completa dizendo que a insanidade é o tempero da vida.

Recorro aqui ao meu guia louco, Mário Gomes, que ramifica com sua insanidade os caminhos de meu texto, e penso em quantas vezes nos chamaram de loucos por trabalharmos com a pesquisa (auto)biográfica e entendermos que pesquisar é colocar-se em

risco, o quanto continuam nos chamando de loucos os que não nos aceitam por fazermos pesquisas e escrevermos em primeira pessoa, por mergulharmos no campo e construirmos os procedimentos de pesquisa a partir dele.

Penso em o quanto minha escrita e o formato de pesquisaque escolhi é um risco para um mundo em que as quantidades ainda são apresentadas como o que há de mais importante. Então, noto que não conseguiria fazer diferente e que, quando entendemos o campo como o lugar onde a pesquisa acontece e a escrita como uma invenção corporalizada de nossas experiências, não conseguiremos fazer pesquisa com indiferença. Se isso é ser louca, lhe convido a ser comigo.

Belgede SOSYAL GÜVENLĠK KURUMU (sayfa 131-0)

Benzer Belgeler