Nenhuma cabeça é melhor cabeça que aquela que olha pelas partes de que se compõe seu corpo. Juan Lopes Sierra.
No capítulo anterior, nós tratamos acerca da administração da justiça enquanto a principal função dos governantes, e cuja aplicação devia ser pautada pelo exercício da prudência. Para os autores ibéricos do século XVII, a prudência, enquanto saber de ordem operativa, assemelhava-se à arte, compreendida como potência da alma para a realização de determinadas obras. Dessa maneira, é possível encontrar nos discursos memoriais, espelhos de príncipes e tratados de bem-morrer, expressões que se referem à boa vida, à boa morte e à atividade política como sendo artes599.
No entanto, a prudência se diferenciava da arte, pois enquanto esta constituía a boa capacidade de realização de uma obra, a prudência, além disso, conferia ao agente o bom uso dessa capacidade. Nesse sentido, além de uma virtude prática, como a arte, a prudência era considerada uma virtude moral, pois necessitava da boa ordenação da vontade para a realização de seu fim, ou seja, a boa aplicação da justiça nos diversos âmbitos político-sociais. Assim sendo, a prudência também era mais do que o meio para se alcançar a justiça, era a reta razão da ação particular na condução da vida temporal600.
A prudência governativa e a astúcia
Acerca da prudência enquanto fundamento do bom governo dos homens notáveis, Fernando de Santo Agostinho, em sua Oraçam funebre nas exequias do
Rey Dom Manoel (1686), afirma que as ações, tanto do governante, quanto dos demais homens, devem partir da “razão, & do entendimento; pois quando falta a razão às obras, não he obrar, he faltar na obra, por isso o pecado he defeito”601.
599 MARAVALL, J. A. Teoría del estado em España en el siglo XVII. 2. ed, Madrid: Centro de
estudios constitucionales, 1997, p. 242.
600 Ibidem, p. 242-243.
601 SANTO AGOSTINHO, Fernando de. Oraçam funebre nas exequias annuaes do Serenissimo
Rey de Portugal Dom Manoel de gloriosa memoria. Disse a na Santa Casa da Misericordia desta Cidade de Lisboa, em treze de Dezembro de 1685. Fernando de S. Augustinho, da Ordem de S. Jeronymo, Offerecida ao Senhor Nuno de Mendonça, Conde de Val de Reys, Lisboa: na Officina de Joaõ Galraõ, 1686, Biblioteca Nacional de Portugal, p. 9
Portanto, o pecado era considerado uma falha na razão natural de determinada pessoa, que deveria ser suprimida por meio da prudência, enquanto virtude moral. Ademais da vida temporal, a prudência também deveria ordenar o governante à bem-aventurança, como coloca Giuseppe Aimino, em seu El
mausoleo machina erigida en las exequias del Señor Don Luis de Guzman Ponce de Leon (1668):
El sentido solo se paga de lo que esta delante, sin cuidar lo futuro, pero quien gobierna con la Raçon sus obras, debe, para conseguir el fin regular sus acciones con el entendimiento. Las grandezas que en el mundo se gozan, hacen sinduda que facilmente el hombre se olvide del Cielo; y si descuida en vivir atento, y vigilante [...] no desconpusieron a nuestro Principe las grandezas del mundo; antes reconociendolas caducas, puso su coraçõn solamente en los bienes eternos602.
De maneira semelhante, Bartolomé de Molina, em seu Breve tratado de
las virtudes de don Iuan Garcia Alvarez de Toledo (1621), também evidencia a prudência do conde de Oropesa y Deleytosa em relação ao ajuste do seu governo com as matérias espirituais:
Pues como el Conde era tan discreto, y de tan gran talento en lo natural, y en espiritual tan alumbrado del Cielo, era fuerça ser en todas sus cosas prudentissimo, y acertado. No las determinava de repente, sino miravalas muy de espacio, y comunicavalas con fidedignos sugetos, y encomendavalas a Dios, sin cuya luz todo es en la tierra, yerro, y desacierto603. Assim como Bartolomé de Molina, António dos Arcanjos, no seu Sermão
nas honras que fes a cidade de Tavira na morte do Senhor Dom Joam IV (1657), evidencia a importância do conselho como fundamento da prudência do governante, de acordo com o frei,
O ser bom politico não consiste em atinar no governo, pois todos os governos do mundo são desatinados, consiste nos
602 AIMINO, Giuseppe El mausoleo machina erigida em las solemnes exéquias del Señor Don
Luis de Guzman Ponce de Leon, Gouernador, e capitan general del Estato de Milan. En regia capilla, y colegial iglesia de Santa Maria de la Escala, por lapiedad de DoñaMencia de Guzman Pimentel suconsorte; traducido al idioma españoldel italiano, por el. Dotor Ioseph de Villarroel, Milan: por el Gariboldo, 1668, Biblioteca Nacional de Portugal, p. 99.
603 MOLINA, Bartolomé de. Breve tratado de las virtudes de don Iuan Garcia Alvarez de Toledo,
Monroy, y Ayala, quinto Conde de Oropesa y Deleytosa, Madrid: por la viuda de Cosme Delgado, 1621, Biblioteca Nacional de Portugal, p. 57 (v).
desejos de atinar em quem governa; que se só faltas da vontade vem a ser culpas, sò nesta parte os desejos são merecimentos, sò acerta com a politica quem deseja acertar politico, nascem os erros do governo, ou das faltas na experiencia, ou dos sobejos na presumpção, ambos os danos se cortão, na tenção aos que mais sabem, na obediencia aos que melhor entendem, afferar ao discurso proprio não he ser politico, & sò ser attentado em admitir o juizo dos que mais entendem he seguir a politica604. Nessa passagem do sermão de António dos Arcanjos, podemos perceber uma articulação entre a prudência de Dom João IV, que o frei procura evidenciar, e o caráter inconstante do mundo temporal, que se refletia na política. Segundo essa concepção, o autor sugere que um bom governo é medido pela reta vontade do governante, ou seja, pela sua prudência, enquanto suas faltas eram resultado da instabilidade dos assuntos terrenos. Por meio dessa estratégia retórica, António dos Arcanjos busca defender o monarca de quaisquer queixas que o público pudesse ter em relação ao seu exercício régio.
Aqueles que exerciam o poder político possuíam o justo governo dos grupos sociais como eixo operativo, e o bem-comum da república enquanto fim. Sob essa ótica, além de ordenar a conduta dos governados, os governantes deveriam ordenar a sua própria, principalmente naquilo que dizia respeito às situações ocasionais relacionadas ao seu ofício, e em relação às demandas da opinião comum, que compunham a sua fama605.
Nesse sentido, Paravicino y Arteaga, em seu Panegyrico funeral (1625), interpela seu público acerca da prudência de Filipe III em seu governo: “[...] mas como no regiria justa y dichosamente à los otros, se o à si se rigio tã dichosa y tan justamente, que ni afectos naturales desobedientes a la razõ se sospecharon del [...]?606”.
São Tomás de Aquino denomina esse tipo de prudência, própria daqueles que governam, de prudência governativa. A prudência governativa era essencial para o governo da monarquia, em razão do grande poder concedido ao rei, que
604 ARCANJOS, António dos. Sermão nas honras que fes a cidade de Tavira em o Reyno do
Algarve na morte do Serenissimo Senhor Dom Joam o IV. Rey de Portugal. Prêgado pello P. M. Fr. Antonio dos Archanjos na Igreja de S. Maria da mesma cidade, em 24. de Novembro de 1656, Lisboa: na officina de Antonio Craesbeeck, 1657, Biblioteca Nacional de Portugal, p. 7.
605 Ibidem, p. 7.
606 PARAVICINO y ARTEAGA. Panegyrico funeral a la gloriosa memoria del Señor Rey D.
Filipe Tercero, el Piadoso, Madrid: por D. Teresa Iunti, 1625, Biblioteca Nacional de Portugal, p. 36.