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Tahsilinden Vazgeçilen Alacaklar

E- Başvuru, Ödeme Süreleri ve Diğer Ortak Hükümler

18. Tahsilinden Vazgeçilen Alacaklar

Os capítulos anteriores mostram que, se as ações jesuíticas circulavam e atravessam os oceanos e territórios, as políticas pombalinas, no século XVIII, acompanhavam-nas e formavam redes com outras coroas e soberanos, proporcionando simultaneamente uma circularidade de ideias, medidas e interesses que assumiram caráter antijesuítico. Dentre essas Coroas interessadas em entender e controlar o percurso universal da Companhia de Jesus, estava a da Inglaterra.

A partir da observação do próprio percurso do Marquês de Pombal, que envolve uma temporada como diplomata na Inglaterra antes de assumir o cargo de ministro em Portugal, ocorreu-nos a indagação sobre o papel da Inglaterra na expulsão dos Jesuítas de Portugal. Essa dúvida levou-nos a buscar uma historiografia e documentação mais ampla e afeita aos tratados e acordos portugueses com a Inglaterra em meados do século XVIII. Por meio desse cotejo, pudemos encontrar evidências novas, baseadas em algumas interpretações historiográficas, que têm apontado para a importância de estudos mais verticalizados sobre a relação entre Portugal, Grã-Bretanha e Companhia Jesus, numa espécie de confirmação da nossa suspeita inicial. Esses estudos abrem espaço para uma narrativa histórica que contemple o significado tanto econômico quanto político dessa relação; que envolva, portanto, a sua dimensão diplomática, fora, portanto, da política meramente interna de Portugal com seu enredo de intrigas e perseguições.

Ao desenvolver a nossa pesquisa nos veio a seguinte questão: Qual a relação entre apropriação dos bens dos Jesuítas de Pernambuco, sistema de educação jesuítico e interesse da coroa portuguesa em um cenário internacional que apresentava outros Estados em ascensão e aumento de hegemonia econômica e política entre os séculos XVII e XVIII, como é o caso da Inglaterra?

Este tema nos levou a arquivos como o A.N.T.T, em Portugal, e o National Archives, na Inglaterra, em busca de documentos que contribuíssem em uma maior apreensão dessa relação e que apontassem para as razões do interesse da Inglaterra, sobretudo no século XVIII, no processo que culminou com a expulsão da Companhia de Jesus da América portuguesa e de todos os domínios do Rei D. José I, em 1759, momento em que a presença inglesa vai ficando mais visível em Portugal.

O final do longo governo de D. João V, segunda metade do século XVIII, constituiu um cenário negativo para economia Portuguesa. Como apontamos no segundo capítulo deste trabalho, uma forte crise financeira se instaurou no Reino. Parte das críticas da época acusam D. João de má administração, mais preocupado com a vida religiosa, com os religiosos e com gastos excessivos em mosteiros e conventos do que com as políticas que beneficiariam o desenvolvimento do Estado. Outra acusação que se imputava a D. João V é de que este favorecia a alta nobreza234 em detrimento dos comerciantes burgueses. Mas é sabido que a conjuntara político-econômica europeia favorecia o avanço de outros reinos, como Inglaterra e França, em direção à América e à Índia, o que levou Portugal a investir em uma política militar de proteção às fronteiras e no melhoramento dos entrepostos no Atlântico para evitar o contrabando e a pirataria. Outro agravante foram as consequências desfavoráveis para balança comercial de Portugal causadas pelo Tratado de Methuem (1703).

A inadequação das instituições e das estruturas da administração régia às exigências e aos desafios políticos, económicos, sociais, culturais e religiosos, a acefalia régia e

a ‘autonomização regional que enformava os próprios órgãos do Estado e se exprimia na influência das figuras locais’, provocaram um perigoso e visível enfraquecimento

do poder estatal nos últimos anos do período joanino. Por outro lado, a nobreza perdera consciência do seu lugar na sociedade e utilizava os privilégios apenas em proveito próprio. (COUTO, 1990, p. 39).

O diplomata D. Luís da Cunha235 (1662-1759), em sua obra Testamento Político,236 considerou que o Tratado de Methuem (1703) arruinou o “espírito de iniciativa” do país e, por isso, era necessário um governo “forte e austero”, que proporcionasse a Portugal criar condições para retomar o desenvolvimento. Luís da Cunha, no Testamento, deixa a entender que as medidas de D. João V haviam favorecido mais a Inglaterra que a produção e comércio português. O Testamento,além de mostrar a situação econômica de Portugal — em declínio depois do Tratado de Methuem — queria reforçar a ideia de que Portugal tinha possibilidade

234 Exemplos de favorecimento da nobreza são as nomeações de D. Luiz Pereira de Ataíde e D. Francisco de Assis de Távora. D. Luiz Pereira de Ataíde (1700-1758), 10º conde de Atouguia, neto materno dos 2º marqueses de Távora, casou com D. Clara de Assis Mascarenhas, filha dos 2º condes de Óbidos; foi governador e capitão-general do Algarve; em 1749, foi nomeado 6º vice-rei do Brasil. D. Francisco de Assis de Távora (1703-1759), 3º conde de Alvor e, pelo casamento (21 de março de 1718) com sua prima materna, D. Leonor Tomásia de Távora (1700- 1759), 6º conde de S. João da Pesqueira e 3º marquês de Távora; foi governador militar da praça de Chaves; partiu para a Índia em Fevereiro de 1750, acompanhado da mulher e do primogénito, o marquês Luís Bernardo. Ver MONTEIRO, Nuno Gonçalves. D. José. Coleção Reis de Portugal. Temas e Debates, 2008. Também disponível em: <http://www.arqnet.pt/dicionario/atouguia3c.html>; <https://www.geni.com/people/Francisco-de-Assis-de- T%C3%A1vora-vice-rei-da-%C3%8Dndia/6000000016786736547>. Acesso 15 de junho de 2015.

235 Luís da Cunha foi diplomata Português atuando em Londres, Madrid e Paris e autor da obra Testamento Político (1748/49). Este documento é também conhecido como Carta de Conselhos ao Senhor Dom José, por conter sugestões de administração política e de mudanças no Gabinete do futuro Rei de Portugal. Foi também Luís da Cunha quem apresentou Carvalho e Melo à Corte de Portugal.

236 CUNHA, Luís da. Testamento político ou carta de conselhos ao Senhor D. José sendo príncipe; introd., estudo e ed. crítica Abílio Diniz Silva. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal, 2013.

de sair da crise causada pelas desvantagens desse tratado de comércio. Uma medida para tal superação era a nomeação de um novo gabinete, nomeadamente Sebastião José de Carvalho e Melo, para a Secretaria do Reino; para a da Marinha e Domínios do Ultramar, Gonçalo Manuel Galvão de Lacerda; para a dos Negócios Estrangeiros e Gente de Guerra, Marco António de Azevedo Coutinho237.

Com base no quadro abaixo, elaborado por Antônio Matosso (1939), podemos visualizar, em números, o que Luís da Cunha expunha em sua obra.

Quadro 16 — Principais parceiros comerciais e composição das trocas na primeira metade do século XVIII

Inglaterra Holanda França Espanha Alemanha Cidades italianas Colônias americanas Escandinávia I M P O R T A Ç Ã O bacalhau carvão cereais cobre, ferro cordas ferragens ferro forjado laticínios manufaturas papel pólvora têxteis vidros art. náuticos cavalos laticínios linhos madeiras prod. cobre prod. ferro trigo artig. luxo cereais gesso sedas alpiste cereais ferro fruta frutas secas lã peixe vinagre cereais laticínios linhos madeiras arroz cereais panos papel sedas bacalhau biscoito cereais farinha cereais enxárcia ferro tabuado E X P O R T A Ç Ã O azeite cortiça couros diamantes fruta lã pau-brasil sal sumagre vinhos açúcar couros diamantes fruta pau-brasil sal tabaco vinho açúcar couros lã pau- brasil açúcar cereais couros gado lã sal tabaco vinho açúcar pau-brasil sal tabaco vinho açúcar couros tabaco fruta sal tabaco fruta sal

Fonte: Mattoso, 1939. Apud Luiz Fernando B. Belatto. O Tratado de Methuen: interpretações e desmistificações, 2000. 238

237“Dos três Secretários que Sua Majestade nomeou, vejo não ser grande perda o faltar-lhe o da Marinha, que foi António Guedes Pereira, e ouço também lhe podia vir a faltar o do Reino, Pedro da Mota e Silva, que muitas vezes tem pedido licença para se demitir daquele emprego, que o punha na sujeição de não poder gosar do seu descanso de maneira que se, V.A se acomodar com seu desejo, será preciso prover uma e outra Secretaria, para as quais tomei o atrevimento de lhe indicar dois Ministros, pelo conhecimento que tenho deles e dos seus talentos; a saber: para a do Reino Sebastião José de Carvalho e Melo, cujo génio paciente, especulativo, e ainda que sem vicio, um pouco difuso, se acorda com a Nação; e para a da marinha Gonçalo Manuel Galvão de Lacerda, porque tem um juízo prático e expeditivo, e serviu muitos anos no Conselho Ultramarino, aonde adquiriu um grande conhecimento do governo, comércio e forças das conquistas; e dessa sorte gratificaria V.A com muita vantagem os serviços de Estado dos Negócios Estrangeiros Marco António de Azevedo Coutinho, porque o primeiro é seu parente e o segundo sempre foi seu íntimo amigo [...]” Cf. D. Luís da Cunha, Testamento Político, ou carta escrita pelo grande D. Luiz da Cunha ao senhor rei D. José I antes do seu governo. Ver também MONTEIRO, 2008, p. 64.

O quadro apresenta a exportação de Portugal como sendo prioritariamente de produtos agrícolas. Entre eles, destaca-se o açúcar, o vinho e o pau-brasil. Já na importação de produtos vindos da Inglaterra — a maior exportadora em variedade de produtos para Portugal —, havia ferro forjado, papel, pólvora, manufaturas, têxteis e vidros, ou seja, produtos mais elaborados do ponto de vista de fabrico e industrial. Em outras palavras, Portugal exportava produtos de baixo rendimento e importava outros de valores maiores que suas exportações, gerando, em uma imediata análise, um déficit comercial na balança portuguesa. Mesmo o produto mais exportado não era suficiente para proporcionar um equilíbrio, até porque o açúcar vindo do Brasil começou a sofrer concorrência, a partir do século XVII, do açúcar produzido nas Antilhas pelos holandeses depois que estes foram expulsos do Brasil e indenizados pela Coroa lusitana. Chama a atenção que Portugal também comprava alimentos como cereais, frutas, peixe, biscoitos, arroz e outros, isso porque os seus dois produtos mais vendidos demandavam uma monocultura e grande extensão de terra, seja o açúcar proveniente das colônias, seja o vinho produzido em terras portuguesas — este último sempre pressupunha o vasto cultivo de uvas nas melhores terras e, como era o maior produto de exportação, condicionou Portugal a esse cultivo, defasando, portando, a produção agrícola interna e exigindo importação de alimentos. Segundo Luiz Fernando B. Belatto239 (2000),

os vinhos rendiam pouco para Portugal, sua venda era coordenada pelos comerciantes ingleses residentes em terras portuguesas (utilizando-se dos meios já citados anteriormente, esses comerciantes locais de saída monopolizavam o grosso das rendas do comércio de vinhos, o que contribuía para os baixos lucros portugueses e as altas rendas da Inglaterra). (BETALLO, 2000, p. [sem data]).

A relação comercial luso-inglesa consolidada pelo tratado de Methuem e a partir dos dados acima, indica que Portugal do século XVIII não só ficou na condição de produtor agrícola, mas também arruinado em seu “espirito de iniciativas” para o desenvolvimento e mergulhado em uma crise econômica sem precedente pelo fato de a balança comercial o colocar na condição de devedor e ser favorável aos ingleses. O quadro abaixo mostra o gradual crescimento das exportações inglesas para Portugal e as tênues (por comparação) importações inglesas de Portugal. Porém, o que mais chama a atenção é o montante em milhares de libras esterlinas do excedente das exportações inglesas.

239 BELATTO, Luiz Fernando B. O Tratado de Methuen: interpretações e desmistificações In clepsidra. São Paulo, n.4, out/nov. Disponível em: Disponível em: <http://www.klepsidra.net/klepsidra4/methuen.html>. Acesso em: 20 de abr. 2015.

Quadro 17 — Demonstrativo, em milhares de libras esterlinas, do favorecimento Inglês na relação comercial com Portugal, século XVIII

Quinquênio Exportações inglesas para Portugal Importações inglesas de Portugal Excedente das Exportações 1756-50 1114 324 790 1751-55 1098 272 826 1756-60 1301 257 1044

Fonte: BOXER, Charles R. O império marítimo português. 2008, p.194.

É importante ressaltar que os tratados de comércio, os quais levaram Portugal a devedor da Inglaterra, tiveram início em 1642, depois da restauração de Portugal em 1640. Em contrapartida ao apoio inglês na luta pela autonomia das terras lusitanas em relação à Espanha (depois da União Ibérica, 1580-1640) e na expulsão dos holandeses do Brasil, em 1654 — por meio de empréstimos para pagar indenização a estes últimos — Portugal abriu seus portos na Europa, África e Ásia para a marinha britânica e acordou o livre comércio para as mercadorias inglesas240.

A marinha inglesa podia chegar e comercializar em Lisboa e em portos ultramarinos, antes de exclusividade portuguesa. Os britânicos, com o desenvolvimento técnico, uma grande frota e com seus produtos manufaturados, passaram, a partir de 1642, a arrecadar, nas colônias, mais rendas a partir da ampliação de seus mercados, enquanto Portugal, ao contrário, perdia mais espaço e diminuía ainda mais sua arrecadação241.

240 SILVA, Francisco Ribeiro da. Vinho e viticultura: A Aliança Luso-Britânica (1756-1765). Comércio E Guerra. A Importância Diplomática do Vinho do Porto. Texto de uma comunicação apresentada à Academia Portuguesa da História em 2000. Disponível em: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/8266.pdf. Acesso em: 4 fev. 2017. 241 Ver SIDERI, Sandro – Comércio e poder: colonialismo informal nas relações anglo-portuguesas. Lisboa, trad. Port., Ed. Cosmos, 1970. Nesta obra o autor analisa os tratados firmados desde o século XVII entre Portugal e Inglaterra.

Gráfico 3 — Nacionalidade dos Navios no Porto de Lisboa

Fonte: Gráfico elaborada a partir dos dados de Mattoso (1939). Arte gráfica de Elionardo José Barros de Azevedo, Fortaleza, 2017.

Os tratados de livre comércio e a abertura dos portos portugueses implicaram em uma forte e aberta concorrência comercial nas próprias terras portuguesas, com benefício para os ingleses, que, além de terem acesso aos portos, estavam autorizados a transportar em seus navios produtos portugueses para as colônias e trazer das colônias produtos para comercializar na Europa. O grau da investida inglesa na relação comercial com os lusitanos acarretou, o que muitos passaram a considerar, uma “dependência” de Portugal à Grã-Bretanha.

O termo “dependência” como caracterização da conjuntura econômica de Portugal é uma forma de descrever sua relação com a Inglaterra nos séculos XVII e XVIII. Esse termo passou a ser usado na Europa do século XVIII e faz parte da historiografia que trabalha com a ideia do atraso português em relação às outras nações em hegemonia no século XVIII. João Lúcio de Azevedo, por exemplo, além de defender a tese da dependência econômica portuguesa, demonstra a forte presença de ingleses em cidades importantes de Portugal, na época, sabendo-se que essa presença significava o controle do comércio por britânicos em terras lusitanas.

Desde 1703, por efeito do tratado, conhecido pelo nome de Methuen, Portugal era a mais excelente colônia da Grã-Bretanha, cujas manufaturas viviam principalmente desse concurso valioso. A imigração era constante e, dizia um contemporâneo, “o inglês falido em Londres vinha recuperar as suas perdas em Portugal”... o comércio achava-se todo nas mãos de súditos britânicos. De uma relação sem data, mas do tempo de D. José, verifica-se existirem na capital mais de 100 casas de negócio deles. (AZEVEDO, 2004, p.220).

Em Lisboa do século XVIII, era possível encontrar ingleses e irlandeses atuando em várias profissões, das mais simples às mais complexas — engomadeiras, sapateiros, cabeleireiros —, e em diferentes áreas — nos estaleiros, nos arsenais, nas escolas militares. Os privilégios da Inglaterra nos domínios portugueses estabeleceram entre esses dois povos relações econômicas específicas de benefício aos britânicos, que, para modificá-las ou “rompê- las, seria mister esforço em demasia intensa para a energia de Portugal” (AZEVEDO, 2004).

5.2 O terremoto: destruição de Lisboa, construção do Marquês de Pombal e maior