Os resultados da presente revisão evidenciam que a prática da caça, além de abranger todas as regiões do Brasil, representa uma atividade onipresente durante toda a história do país. As técnicas de maior influência indígena são aquelas que consideram o uso de armadilhas, uma vez que os métodos de captura ativa tradicional, com arcos, flechas, lanças e zarabatanas, foram sendo substituídos pelas armas de fogo, maior herança europeia para a cinegética nacional.
A depleção populacional de algumas espécies devido à sobre- exploração também pode ser observada, tanto pela comparação entre relatos de abundância do passado com os dados atuais de ameaça, a exemplo de Tapirus terrestris, citada como abundante na Mata Atlântica (ex. Varnhagen 1860) e ocorrente no Ceará por Breuer no século XVIII (Papavero et al. 2011), enquanto as populações atuais na floresta úmida estão em perigo e as do estado cearense, bem como as de todo o bioma da Caatinga, estão regionalmente extintas (Médici et al. 2012). Outro animal frequentemente citado como alvo de caça desde os primeiros relatos, esses provenientes principalmente da Mata Atlântica próxima ao litoral brasileiro, é a Panthera onca, cujas populações nessa região são consideradas como criticamente em perigo (Morato et al. 2013).
Outro fato observado é a preponderância de determinadas espécies tratadas como preferenciais desde o século XVI até hoje. Tapirus terrestris, Tayassu pecari, Pecari tajacu, Cuniculus paca, cracídeos, cervídeos, psitacídeos e tinamídeos são os animais mais citados, os quais ainda são documentados como principais itens envolvidos no abate para fins alimentares em todo o país (Peres 2000, Canale et al. 2012, Trinca & Ferrari 2006, Alves et al. 2009).
Ficou também evidenciado o potencial de impacto decorrente do comércio de peles de animais silvestres, uma vez que, desde os relatos quinhentistas até os relatórios governamentais do século passado, a atividade ocorre de forma pertinente e indicando números extremamente elevados de retirada de fauna.
Como podemos observar, nos três primeiros séculos após o descobrimento pelos portugueses, as citações envolvendo atividades de caça estiveram intimamente relacionadas aos relatos sobre as riquezas naturais do território e suas populações indígenas.
Almaça (2002) relata que, no século XVI, o padrão de escrita dos investigadores da fauna brasileira, por questões provavelmente de simples desconhecimento, não corroborava a literatura clássica e renascentista dos historiadores naturais europeus já renomados (ex. Plínio, Belon e Salviani). Afora as drásticas consequências do atraso imputado ao estudo das riquezas nacionais pelos portugueses, até hoje conferidas se considerarmos as imensas lacunas de respostas biológicas e ecológicas do nosso território gradativamente ameaçado, podemos concluir um cenário positivo nesse cerne. As descrições livres sobre nossa fauna, por exemplo, não foi influenciada pela narrativa fantasiosa de muitas da literatura europeia disponíveis na época. Além disso, desde os relatos dos descobridores até os manuscritos dos jesuítas, não havia um interesse por uma análise teórica sobre a fauna e sim por algo que permeava todo e qualquer documento ilustrando as riquezas do Brasil, o caráter utilitário, padrão proveniente do medievalismo (Almaça 2000) e que perdurou em nosso solo durante séculos. O que interessava a esses descritores era basicamente quais espécies eram comestíveis; quais eram as de melhor qualidade; o modo de seu preparo; que produtos medicinais, comerciais e artesanais poderiam ser aproveitados e quais os animais que ofereciam risco à vida humana e aos animais domésticos (Almaça 2002, Hue 2009, Nomura 1996, Vanzolini 1996).
Torna-se claro que essas preocupações, inicialmente, serviam para ilustrar ao Império Português os potenciais de ocupação de um país recém- descoberto. E, sob esse ponto de vista, o estudo sobre a caça no Brasil obtém alguma vantagem, pois era através dela que ocorria a obtenção desses recursos, portanto, nada mais óbvio que essa atividade estivesse presente em praticamente todos os documentos que tratavam das riquezas naturais do país. Entretanto, esse caráter utilitário permaneceu durante quase 300 anos, um período muito maior do que o necessário para simplesmente desvendar o quão rico o Brasil seria para servir aos colonos. E é exatamente por isso que o estudo cinegético, a exemplo de todas as áreas que envolvem natureza e
antropologia, também sofreu com os embargos que os reinados lusitanos impuseram ao nosso território. Durante todo esse período, os relatos foram de caráter superficial e extremamente repetitivo em relação a técnicas e espécies envolvidas.
Após a abertura dos portos às nações estrangeiras, em 1808, é notável ainda que o estudo cinegético não tenha acompanhado a complexidade com a qual se imergiu a literatura zoológica, simplesmente porque o foco dos viajantes eram questões mais específicas em relação à morfologia, sistemática, taxonomia, biogeografia e biologia, à exceção dos primeiros estudos antropológicos desenvolvidos por Steinen e Koch-Grünberg.
Somente através de Varnhagen (1860), é que surge a primeira bibliografia dedicada ao tema. Se considerarmos que a literatura cinegética europeia, inclusive portuguesa, é publicada desde o século XVI (Galvão et al. 1941, Ferreira 1616), há aí uma ampla diferença de cerca de 400 anos em relação à brasileira. É claro que temos que considerar a diferença do caráter dessa atividade entre os dois continentes. Enquanto as atividades venatórias na Europa já possuíam um caráter desportivo desde a Idade Média, realizadas não só pelas camadas mais baixas das sociedades, como também por membros de reinados, dinastias, alto clero e alta burguesia, no Brasil, esse caráter, durante mais de dois séculos, era praticamente exclusivo da população branca abastada. Com exceção desse setor social, a caça era um item de extrema necessidade para praticamente todas as comunidades indígenas e rurais que aqui viviam.
Entretanto, sem deixar de ser meio de subsistência para diversas comunidades humanas, a caça esportiva passa a ganhar mais adeptos em solo pátrio a partir do século XIX, devido também ao aumento da população e consequente formação de uma sociedade brasileira miscigenada e com amplo espectro de camadas sociais. Esse, indubitavelmente, é um fator preponderante para o incremento da literatura venatória nacional, através da linguagem narrada em primeira pessoa, que veio ganhar amplitude no início do século XX. Cunha (1919), que inaugurou esse formato de conto, retratou sua viagem com o ex-presidente estadunidense Theodore Roosevelt, que, a exemplo de outros membros dessa expedição, também publicou obras com grande enfoque cinegético. Essa divulgação, que alcançou fronteiras
internacionais, certamente foi um fator motivador para novas produções brasileiras, inclusive, de forma indireta, para as que retratavam aspectos em um contexto mais teórico-reflexivo, narrado em terceira pessoa. É pertinente pontuar que, junto com esse panorama, as citações clamando por um controle de caça adicionadas a apelos para a proteção das áreas silvestres foram inauguradas nesse período e permearam quase toda a bibliografia cinegética popular desde então.
Quanto ao maior acesso social às bibliografias sobre caça, podemos considerar as décadas de 1940 a 60 como as mais importantes, graças ao advento das revistas “Caça e Pesca” e “Fauna”, bem como do livro “Manual do Caçador”, de Eurico Santos, e principalmente da série “Caçando e Pescando por todo o Brasil” de Barros-Júnior, de amplo alcance nacional. De acordo com Fernandes-Ferreira & Alves (2014), é possível concluir que esse cenário de produção literária cai vertiginosamente à medida que a legislação envolvendo a atividade vai ganhando um caráter mais restritivo, influenciado principalmente pelo surgimento de um apelo social totalmente preservacionista, esse inspirado nos movimentos ambientalistas que surgiram nos Estados Unidos na década de 1970.
Sobre o histórico das pesquisas científicas desenvolvidas no Brasil ou com dados relacionados a esse território, a explicação para o início de uma ascendente mais forte na década de 80 pode ser contextualizada pela tendência mundial em procurar mensurar os impactos de uma atividade que já há algum tempo conjecturava-se sobre a gravidade dos impactos, mas que ainda não havia estudos robustos em bom número nas florestas neotropicais, um dos símbolos dos clamores de preservação e conservação daquela época. Nesse contexto, os trabalhos do grupo do Dr. Carlos Peres na Amazônia, no início da década de 90, atuam como base fundamental para o desenvolvimento de pesquisas posteriores. A partir da primeira década do século XXI, o aumento vertiginoso da assíntota pode ser explicado pelo grande aumento do número de universidades públicas, vagas para docentes, cursos e bolsas de pós-graduação no Brasil, o que promoveu, a exemplo de praticamente todo o cenário científico, um relevante acréscimo nos índices de produção acadêmica (Neri 2012). Além disso, cabe a responsabilidade do estabelecimento de grupos de pesquisa, principalmente na região Nordeste, focados na
Etnozoologia, cuja análise histórica também aponta o surgimento dos números mais expressivos a partir dos anos 2000 (Alves & Souto 2010).
A predominância de estudos realizados na Amazônia pode ser justificada por alguns fatores. Primeiramente, o histórico. Remonta desde o século XVI o interesse de jesuítas, exploradores, naturalistas e pesquisadores acerca da fauna amazônica e seus usos, principalmente pelos indígenas (Meireles-Filho 2009). Há também o fato da implantação de dois grandes centros de referência multidisciplinares na região, o antigo Museu Paraense de História Natural, atual Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), com fundação datada em 1871, na cidade de Belém, capital do estado do Pará e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), fundado em 1954 na cidade de Manaus, estado do Amazonas. Essas instituições possuem um histórico amplo de pesquisas voltadas para a conservação de recursos naturais e seus usos por populações humanas, pois garantem no quadro técnico profissionais ligados à Ecologia, Antropologia, Sociologia, História, Arqueologia, facilitando, por consequência, o fomento aos estudos sobre caça. Além da já citada base fornecida pelos trabalhos de Peres, uma questão assaz importante é a relativa facilidade com a qual as atividades cinegéticas são observadas e estudadas na Amazônia, quando comparada a outros biomas. Por se tratar de uma região com densidade demográfica ainda bastante inferior às outras regiões do país e com um potencial insipiente quanto à fiscalização de uma atividade ilegal, torna-se mais fácil a coleta de dados. Essa vantagem ainda pode ser potencializada, se considerarmos o estudo em reservas indígenas e reservas extrativistas, as quais ocorrem em maior número nesse bioma e que são regidas por um abrandamento parcial ou total das leis para a captura de fauna. Diante do exposto, a alta densidade demográfica na Caatinga e a grande dificuldade no levantamento de dados defronte ao caráter ilegal (Souto 2014) poderiam ressoar como explicações contraditórias em relação a sua posição de segundo lugar nessa predominância de estudos desenvolvidos. Entretanto, as justificativas para tal diferem bastante das apresentadas acima. Primeiro, a concentração da maior parte dos trabalhos em um único grupo de pesquisa. As pesquisas realizadas nesse bioma só começaram a figurar revistas científicas a partir de Miranda & Alencar (2007) e ganharam alta frequência de publicação somente há cinco anos, protagonizada principalmente
pelos trabalhos do grupo do Dr. Rômulo Alves, que abrange autores das universidades Estadual da Paraíba, Federal da Paraíba, Federal Rural de Pernambuco e Regional do Cariri.
A dificuldade de amostragem entre os dois biomas pode ser refletida na comparação do escopo das publicações. Ao contrário da Amazônia, onde as pesquisas geralmente possuem um caráter ecológico, na Caatinga as pesquisas possuem um escopo completamente etnozoológico, baseado em entrevistas ou levantamento bibliográfico, uma vez que quantificar biomassa caçada é tarefa que esbarra em diversos obstáculos de aspecto legal e de relação entre pesquisador e comunidade local (Souto 2014).
A predominância de estudos realizados com populações não-indígenas pode ser explicada pela maior facilidade de contato em relação a tribos indígenas, baixa densidade demográfica dessas comunidades nas regiões fora da Amazônia e dificuldades com trâmites burocráticos para a emissão de licenças de pesquisa junto aos órgãos competentes, como por exemplo a Fundação Nacional do Índio (FUNAI).
Diante da importância aqui evidenciada em relação aos estudos envolvendo caça, é de grande pertinência o fomento de pesquisas em regiões ainda pouco abordadas nesse escopo, como Pampas, Pantanal e Cerrado, em adição ao estímulo da continuidade das pesquisas sobre o tema nos demais biomas nacionais. Além disso, fazem-se necessárias, por mais obstáculos que sejamos obrigados a superar, análises mais quantitativas sobre a retirada de fauna no país, dado que essas estão praticamente restritas à Amazônia e Mata Atlântica. Entender, em uma abordagem nacional, com a maior quantidade e qualidade possível de trabalhos, os pormenores relacionados à sobre- exploração de espécies animais é um passo fundamental para a execução de estratégias de conservação efetivas no Brasil.