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3.4. Araştırma Bulguları

3.4.7. Tahmin Sonuçlarının Karşılaştırılması

Em 1938,a literatura de Graciliano Ramos procurava,de certa forma,o engajamento de dois mundos fronteiriços e imiscíveis que o Brasilcongrega.O escritor filiou-se ao Partido Comunista e,muito embora não se tenha deixado subjugar pela imposição literária estilística a que o partido tentara submetê-lo, escreveu sobre o homem brasileiro sedento e triste,deu a ele sentimentosdignose aspirações para além do maniqueísmo grotesco,mostrou ao restante do País que aindahaviamuito porconhecere,principalmente,porfazer.

Aos45 anos,ex-preso político,desempregado,hospeda-se em uma pensão, onde começa a escrever o conto “Baleia”,de Vidassecas.Como afirma o próprio escritorem umacartaàesposa,HeloisadeMedeiros:

Escrevium conto sobre a morte duma cachorra,como você vê:procurei adivinharo que se passa na alma duma cachorra.Será que há mesmo alma em cachorro?Não meimporto.O meu bicho morredesejando acordarnum mundo cheio depreás.Exatamenteo quetodosnósdesejamos.38

Como estava precisando dedinheiro para sanara dívida da pensão,publicou o episódio “Baleia” em jornais.O texto foibem recebido pelos leitores e,assim,

Graciliano Ramos prosseguiu a estória,traçando o perfildos donos da cachorra Baleia:Fabiano,sinha Vitória,e osfilhos(o menino maisnovo e o menino mais velho).É umafamília deretirantesquechega a uma fazenda abandonada,vivem em condição de miséria,e são impossibilitados da permanência na terra.Os outros capítulos,como sendo espéciesde contos,foram também publicadosisoladamente em jornaise revistas.Só maistarde,a pedido de José Olympio,osepisódiosforam publicadosem formaderomance.O livro,aprincípio,sechamaria O mundocoberto depenas,título de um doscapítulos,ou então,Cordilheiras,que significa avesde arribação ou cardos,plantasdefolhascom espinho.Masficou definitivamentecomo Vidassecas,publicado em 1938.

Graciliano Ramos,em um texto publicado em 1944 na revista “O Cruzeiro”, explica a seu amigo,João Condé,a forma como escreveu este livro.Dizia que sua inspiração nasceu depersonagensreais,taiscomo Baleia,que veio da lembrança de um cachorro sacrificado na Maniçoba,interior de Pernambuco,há muitos anos. Fabiano,da lembrança deseu avô,Pedro Ferro.Sinha Vitória,da figura desua avó. Osmeninosmaisnovo emaisvelho,dostiospequenos.

O primeiro conto publicado,intitulado “Baleia”,pareceu,segundo o próprio autor,“infame”,masdepoispercebeu queacríticao haviaaprovado.Em suaopinião, “esse romance era apenasum livrinho,sem paisagens,nem diálogose sem amor. Nisso,pelo menos,eledeveteralgumaoriginalidade”39.

Ausência de tabaréus bem falantes,queimadas,cheias,poentes vermelhos, namorosdecaboclos.A minhagente,quasemuda,vivenumacasadefazenda,os personagensadultos,preocupadoscom o estômago,não têm tempo de abraçar- se.Até a cachorra é uma criatura decente,porque na vizinhança não existem

galãscaninos.40

O romance Vidassecasreduzo sertanejo à condição de“bicho”edenuncia a miséria do sertão.A obra inicia-se com Fabiano,sinha Vitória,os dois filhos,a cachorra Baleia e o papagaio,fugindo da seca e miséria do Nordeste à procura de uma região menos inóspita.Eles encontram uma fazenda,onde permanecem. Surgem nesse ínterim capítuloscomo flashesda família deretirantesno novo lugar, porexemplo,“Cadeia”,“Inverno”,“Festa”.Masa seca castiga essa região e elessão obrigadosa abandonara fazenda.O último capítulo,intitulado “Fuga”,revela uma retiradatipicamentenordestina:eo destino cruelserepetenatristesinado retirante.

A obra apresenta três movimentos:inicia com a retirada de uma família sertanejaqueatravessaacaatinga,intitulado “Mudança”,apermanênciadafamíliana fazenda,eo último episódio terminacom aretiradadafamília,intitulado “Fuga”.

Essescapítulos“Mudança”e “Fuga”se convergem,poisambosconsistem na retiradadeumafamíliasertanejaem buscadeum lugarmaispropício àvidaemenos castigado,é a realidade do retirante nordestino.O tempo em que se desenvolve a trama,ocorreentreduasestiagens“Mudança”e“Fuga”,todavia,o tempo cronológico éindefinido,poisnão sesabedeondeafamíliaderetirantesvem nem paraondeeles irão.

O espaço verdadeiro é o físico e o social e ambos impossibilitam a sobrevivência e a permanência na terra.O primeiro é marcado poruma paisagem naturale hostil:um solo inóspito,clima semi-árido e rios intermitentes,já o segundo,poraquelesque detêm o poder:o soldado amarelo,o dono da fazenda, símbolo do despotismo capitalista,e o fiscalda prefeitura,símbolo da intolerância governamental.

Graciliano Ramosusa o estilo seco,e a linguagem é gestual,gutural,com o uso de onomatopeias e monossílabos,relacionando a linguagem primitiva dos personagenscom a criação deum sentido deopressão socialepolítica.O raciocínio eaexpressão são atrofiados,porisso falam pouco,recorrendo aessestiposdegestos, com o intuito detraduzirseussentimentos.Podem sernotadosem Fabiano,quando usa a mesma linguagem com a mulher,filhos e bichos.Alguns exemplos dessa linguagem no romance são:“ – Você é um bicho,Baleia”41,ou Calçada naquillo,

tropega,mexia-se como um papagaio,era ridicula”42,ou ainda:Isto é.Vamose

não vamos.Querdizer.Emfim,comtanto,etc.É conforme.”43

A narração éfeita em terceira pessoa com onisciência quecoloca o leitorem contato direto com o fato narrado e com ossentimentosdospersonagens,como se esse fosse relatado por eles.A onisciência é usada não apenas para retratar o ambiente, mas também como instrumento de análise psicológica e do comportamento daspersonagens,atravésdo discurso indireto livre,que é a junção do discurso do narradoreafalaeou pensamento dapersonagem.

A narrativa em terceira pessoa,caracteriza-se por um distanciamento do narradorque,não sendo personagem,adquireumaisenção em relação ao quenarra. Como romanceregionalistapreocupado em denunciarasagrurasdarealidadesocial, Vidassecas,exigia o distanciamento realista dasdescriçõesquese pretendiam livres do subjetivismo nasapreciaçõesda natureza44.No entanto,Graciliano Ramoso

usou em Vidassecas,a terceira pessoa pura.Nesse romance,há a contemporização entre os pontos de vista da terceira e da primeira pessoa,porque a onisciência própria da terceira pessoa sofre limitações pelo que há de primeira pessoa no

41RAMOS,1938:p.25.(Todasascitaçõesdo romanceVidassecasforam extraídasdereprodução fac- similardaprimeiraedição.)

42RAMOS,1938:p.58. 43RAMOS,1938:p.39. 44CRISTÓVÃO,1985:p.33.

processo do discurso indireto livre.Essa técnica de relatar enunciados,segundo Celso Cunha,“tem sido amplamente utilizada na moderna literatura narrativa,é umaformadeexpressão que,em vezdeapresentarapersonagem em suaprópriavoz (discurso direto),ou de informarobjetivamente o leitorsobre o que ele teria dito (discurso indireto),aproximanarradorepersonagem,dando-nosaimpressão deque passam afalarem uníssono.”45Esseprocesso narrativo ébastantefrequenteem Vidas

secas,vejamosalgunsexemplos:

Erabruto,sim senhor,nuncahaviaaprendido,não sabiaexplicar-se.Estavapreso porisso?Como era?Então mette-seum homem na cadeia porqueelle não sabe falardireito?46

Seu Thomazda bolandeira falava bem,estragava osolhosem cima de jornaese livros,mas não sabia mandar:pedia.Exquisitice um homem remediado ser cortez.Até o povo censurava aquellasmaneiras.Mastodosobedeciam a elle. Ahn!Quem dissequenão obedeciam?47

Atravésdo discurso indireto livre,o narradorpenetra nos“subterrâneos”das personagens,devassando adesorganização mentaldecadauma.Nesseromance,não há a obsessiva sondagem interior,tão comum nasoutrasobrasde Graciliano:nem poderia haver,já que aspersonagensnão apresentam uma subjetividade.Não são sujeitos,não adquirem umaidentidadesocialprópria.O universo mentaldeFabiano edesua família éconfuso,o queserefleteverbalmente:ele,a mulher,osfilhos,não possuem fala,nem discurso.

Portanto,Vidassecasé um romance-episódico,cujos capítulos podem ser

45CUNHA,1985:p.454. 46RAMOS,1938:p.48. 47RAMOS,1938:p.29.

lidos independentemente,sem comprometer o enredo.A seguir,faremos uma abordagem por capítulos,para que,dotados de uma compreensão estruturaldos segmentos do romance,possamos cotejá-los com os segmentos fílmicos e assim compreendermelhoro processo adaptativo.

O primeiro capítulo,“Mudança",émarcado pela presença deuma família de retirantes,constituída pelo vaqueiro Fabiano,sinha Vitória,o menino maisnovo,o menino maisvelho,a cachorra Baleia e o papagaio que percorrem a caatinga em buscadeum lugarmaispropício àvida.

O narradorusa a expressão “seisviventes”,colocando-osnum mesmo plano. Os humanos são zoomorfizados, nivelados ao animal, e os animais são antropomorfizados,niveladosàcondição deserhumano.Essepodeserrepresentado pela cachorra Baleia,queépersonificada,recebendo atéum nome,ao contrário dos meninos:maisnovo e maisvelho.Baleia,como osoutrosmembrosda família,tem um capítulo independente e,no momento de sua morte,sonha humanamente com um lugarcheio decaçafarta,parasaciar-lheafome.O maisintriganteéqueo sonho daBaleiaésemelhanteao dafamíliaderetirantes.

A família dormeem condiçõesprecárias,sendo constantementeatormentada pela fome,sede e cansaço.Sem forçaspara continuara caminhada,o menino mais velho pôs-sea chorar,sentou-seno chão.Fabiano aindalhedeu algumaspancadase esperou que ele se levantasse.O pirralho não se mexeu e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso,queria responsabilizar alguém pela sua desgraça.Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado.Pensou nos urubus,nas ossadas.“Sinha Victoria estirou o beiço indicando vagamente uma direcção e affirmou com alguns sons gutturaes que estavam perto”48.

No segundo capítulo,“Fabiano”,Graciliano Ramos faz uma exposição do sujeito grosso sem instrução,sem jeito demanipularaspalavraseserelacionarcom osoutrosseres humanos.Fabiano tornou-se um vaqueiro a serviço do dono das terras.Orgulhava-sedisso,era um cabra.Só trabalhavaparaosoutros,massentia-se satisfeito naquelasituação.

No dia em que rastreava uma novilha raposa ferida,a fim de curá-la,ficou preocupado porque um dosfilhoslhe fizera perguntas.Osmeninosestavam mal acostumados,iriam acabarcomo o Tomásda Bolandeira que lia muito e porisso sofria maisqueosoutros,emborafossemaisrespeitado queosoutrosbrancos.Seus filhosnão poderiam tomarum caminho assim.Fabiano iria falarcom sinha Vitória sobreaeducação dosmeninos.

Nesse capítulo,começa a pensarse ele é um serhumano ou um bicho.Não conseguefazerdistinção entresuascaracterísticaseasdosanimais.

E,pensando bem,elle não era homem:era apenas um cabra occupado em guardarcoisasdosoutros.Vermelho,queimado,tinha osolhosazues,a barba e oscabellosruivos;mascomo vivia em terra alheia,cuidava de animaesalheios, descobria-se,encolhia-senapresençadosbrancosejulgava-secabra.49

No terceiro capítulo,“Cadeia”,Fabiano diantedeumaestabilidadeefêmerafoi à feira da cidadefazercompras.Sentindo-seinferiorizado,reclama da má qualidade dosprodutosda bodega de seu Inácio,com uma comunicabilidade que aprendeu com seu Tomásda bolandeira.O soldado amarelo convidou-o para jogarcartas,e Fabiano aceitou,empregando expressões desarticuladas:“– Isto é.Vamos e não vamos.Querdizer.Emfim,comtanto,etc.É conforme.”50Fabiano perde no jogo e

49RAMOS,1938:p.23. 50RAMOS,1938:p.39.

fica preocupado como se justificaria perante a esposa.Saisem se despedir do parceiro eéviolentamentecensurado pelo soldado amarelo,símbolo do despotismo capitalista,porterabandonado o jogo.O soldado pisa o pédeFabiano quelhexinga a mãe.O soldado apita,surge ”o destacamento da cidade” e Fabiano é preso arbitrariamente.Nacadeia,foiagredido injustamenteepermaneceu revoltado com a situação,pensava em se vingar,mas lhe vinha à lembrança dos filhos,de sinha VitóriaedacachorraBaleia.

O soldado amarello era um infelizquenem mereciaum tabefecom ascostasda mão.Mataria osdonosdelle.Entraria num bando decangaceirosefaria estrago noshomensquedirigiam o soldado amarello.Não ficariaum parasemente.Era a idéa que lhe fervia a cabeça.Mashavia a mulher,havia osmeninos,havia a cachorrinha.51

No quarto capítulo,“Sinha Vitória”,são mostradosossonhosque ela tem. Sonhacom umacamadelastro decouro igualàdeseu TomásdaBolandeira,jáquea cama simboliza a estabilidade.Ela era impaciente com osfilhose indignada com a condição socialinferior,tendo que dormirem uma cama de varas.Em relação a Fabiano,era mais realista.No período das chuvas,enquanto Fabiano sentia-se satisfeito com o fim da seca,sinha Vitória amedrontava-secom asenchentes,já que aságuaspoderiam inundaracasa,eelesteriam desubiro morro,viverunsdiaspor lá,como preás.Isso causava algunsatritosentre ela e o marido,taiscomo o dia em que Fabiano foilembrado porsinha Vitória da bebedeira,dosjogosde carta,que eram formasde gastaro pouco dinheiro que ganhavam e porisso não poderiam realizaro sonho deterem uma cama delastro decouro.Nesse momento,Fabiano a acusadetersapatosinúteisporserem usadossomenteem festa,equeafaziam andar

como papagaio.

Olhou de novo ospésespalmados.Effectivamente não se acostumava a calçar sapatos,maso remoque de Fabiano molestara-a.Pésde papagaio.Isso mesmo, sem duvida,matuto anda assim.Para que fazervergonha á gente?Arreliava-se com acomparação.52

No quinto capítulo,“O menino maisnovo”,a criança não tem nome,isso revela a insignificância sociale a miséria de que elesfazem parte.O menino mais novo,assim como ospais,não têm domínio da linguagem eporisso estabeleceuma comunicação diretacom osanimais:éaaproximação homem eanimal,um processo dezoormorfização.

O menino maisnovo seespelhano pai,gostariadesercomo Fabiano quando crescesse;orgulhava-sedevê-lo,montado em égua alazã.Tinha defazeruma proeza para demonstrarcoragem e impressionaro irmão maisvelho e a cachorra Baleia. Então decidira montarum bode,masacabara despencando-se na ribanceira,sob os risosdo irmão eo olhardedesaprovação deBaleia.

A idéa surgiu-lhe na tarde em que Fabiano botou os arreios na egua alazã e entrou a amansal-a.Não era propriamente idéa:era o desejo vago de realizar qualqueracção notavelqueespantasseo irmão eacachorraBaleia.53

Poz-se a berrar,imitando as cabras,chamando o irmão e a cachorra.Não obtendo resultado,indignou-se.Ia mostraraosdoisuma proeza,voltariam para casaespantados.

Ahio bodeseavizinhou emetteu o focinho naagua.O menino despenhou-seda

52RAMOS,1938:p.61. 53RAMOS,1938:p.69.

ribanceira,escanchou-seno espinhaço delle.54

Olhou com raiva o irmão e a cachorra.Deviam tel-o prevenido.Não descobriu nellesnenhum signaldesolidariedade:o irmão riacomo um doido,Baleia,seria, desapprovava tudo aquillo.Achou-se abandonado e mesquinho,exposto a quedas,coicesemarradas.55

O sexto capítulo,“menino maisvelho”,mostra uma criança que não sabia falardireito,balbuciava expressõescomplicadas,repetia assílabas,imitava osberros dos animais,o barulho do vento,o som dos galhos que rangiam na caatinga, roçando-se.

Agoratinhatido aidéadeaprenderumapalavra,com certezaimportanteporque figurava na conversa de sinha Terta.Ia decoral-a e transmittil-a ao irmão e á cachorra.Baleiapermaneceriaindifferente,maso irmão seadmiraria,invejoso. – Inferno,inferno.

Não acreditava que um nome tão bonito servisse para designarcoisa ruim.E resolvera discutir com sinha Victoria.Se ella houvesse dito que tinha ido ao inferno,bem.Sinha Victoria impunha-se,auctoridade visivele maispoderosa. Se houvesse feito menção de qualquer auctoridade invisivele mais poderosa, muito bem.Mastentara convencel-o dando-lhe um cocorote,e isto lhe'parecia absurdo.56

Animara-seainterrogarsinhaVictoriaporqueellaestavabem disposta.Explicou isto ácachorrinhacom abundanciadegritosegestos.

Baleiadetestavaexpansõesviolentas:estirou aspernas,fechou osolhosebocejou. Para ella ospontapéseram factosdesagradaveisenecessarios.Só tinha um meio

54RAMOS,1938:p.75. 55RAMOS,1938:p.72. 56RAMOS,1938:pp.86-87.

deevital-os,afuga.57

No sétimo capítulo,“Inverno”,Fabiano ficabem humorado porquediasantes a enchente havia coberto a caatinga,e ele pensava que a seca poderia acabar.Só enxergava o momento,não conseguia perceber que com a enchente bichos morreriam,grotas e várzeas seriam ocupadas.Mas tudo isto passava a ser uma avaliação porque a preocupação maiorera com o terrorque a seca causava à sua família.Somente sua mulher,que era menossonhadora e maisrealista,tinha uma

Benzer Belgeler