O tema do corporativismo percorreu a história do Brasil, em especial do Brasil republicano, como uma das marcas distintivas da ação política da burguesia nativa. Basta que se lembre do corporativismo varguista que, tendo se tornado a espinha dorsal do regime encabeçado por Getúlio entre os anos de 1930 e de 1940, se fez perene na estrutura sindical brasileira que, malgrado transformações importantes operadas desde os anos de 1980, ainda traz patente a marca da ordem corporativa, por exemplo, na sobrevivência do imposto sindical. Incapaz, como nos lembra Oliveira (1997, p. 55-66) de conviver com o conflito, nossas classes dominantes jamais deixaram de ter como horizonte o regime totalitário.
Fernandes em sua monumental A Revolução Burguesa no Brasil (2006), retoma a formação da burguesia brasileira em relação com a própria emergência do Estado nacional brasileiro. Aí, se de um lado o autor reconhece nesse processo um lugar efetivo ao liberalismo, lembra sempre que esta “adesão” das classes senhoriais à ideologia liberal se plasmará numa burguesia, primeiro, presa aos laços latifundiários de suas raízes e, segundo, atavicamente fraca no concerto mundial das classes burguesas, o que a leva diretamente do atraso político-econômico da economia agrícola exportadora a
150 protagonista da integração do país no mercado mundial, num contexto de subordinação ao capital internacional. A “aceleração histórica” (FERNANDES, op. cit., p. 360 e seg.), quer dizer, a modernização capitalista que esta burguesia de alma rural terá que operar, colocando o país no quadro da economia global, a partir das primeiras décadas do século XX, está em contradição com a construção política desta classe como camada dominante. Há um descompasso entre as tarefas em escala histórico-universal que a burguesia nativa deve realizar, no patamar que lhe reserva a economia mundial, e a constituição da dominação burguesa no país.
É assim que as transformações introduzidas pelo capitalismo no país, a passagem do escravismo ao assalariamento, a emersão de uma economia industrial, mesmo que repousando sobre a base da propriedade latifundiária e sobrevivendo do capital estrangeiro e, principalmente, a entrada em cena de um proletariado moderno, aspirante a uma organização independente, encontra uma burguesia cujos métodos de dominação não podem ser a de uma autêntica democracia parlamentar.
A emersão do proletariado urbano e a progressiva liberação político- organizativa do campesinato, que se expressa mais tarde, na virada da década de 1950 para a de 1960, não encontrará nas classes dominantes senão a violência como política, “com o que a burguesia reage sempre sob a forma de ditadura” (OLIVEIRA, op. cit., p. 60). Ousamos acrescentar que, com ditadura ou não, a reação burguesa visa sempre a confiscar o direito à organização independente das classes despossuídas, o que se opera por mecanismos corporativistas, avessos aos métodos parlamentares com que as burguesias europeias se deram ao luxo de exercer sua dominação.
O corporativismo, que ora reaparece com face “participacionista”, é um fenômeno, portanto, que ocupa lugar importante na história do país. A tese que aqui defendemos, a do “participacionismo” como um corporativismo, exige, dessa forma, que retomemos aspectos históricos desta categoria em nosso país.
Como lembramos acima, Vieira acha que se o século XX é o “século do corporativismo”, ele é, também, por outro lado, o século do sindicalismo. Nós exprimimos essa ideia anteriormente dizendo que o pensamento organicista que reaparece pela boca da sociologia burguesa está radicalmente confrontado com a existência da classe operária organizada, não apenas, mas principalmente em sindicatos. Assim, o corporativismo moderno se define, sob certo aspecto, pelo paradigma da absorção dos sindicatos pelo Estado.
151 Será esse justamente o caso brasileiro, onde o regime corporativista idealizado por Vargas estará assentado basicamente na estrutura sindical, codificada na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e conduzida por um estrutura estatal cujos pilares eram o Ministério do Trabalho e a Justiça do trabalho.
Ao contrário do que se pensa usualmente, a estrutura sindical varguista é concebida tendo em vista não só as organizações operárias em si, mas se ergue como uma dualidade integrada pelos sindicatos de empregados e pelos sindicatos de empregadores, até ai, num modelo mais ou menos clássico de corporativismo.
O Ministério vai funcionar como âmbito da concertação corporativa entre os dois ramos da estrutura. Na ausência de fóruns corporativos gestados na sociedade civil, como idealizava a Doutrina Social católica, ou o organicismo societário, “de baixo para cima” de um Manoilesco79, por exemplo, ver-se-á uma dinâmica integralista em que, ao contrário da idealizada edificação do aparato estatal desde as bases, se verá um movimento centrífugo que arrasta as componentes sociais para estrutura do Estado.
Nessa concepção, temos um Estado sindical-corporativo, isto é, no qual os sindicatos ocupam, eles mesmos, o lugar das corporações. Esse Estado é sindical, por estar assentado nos sindicatos corporativos, e corporativo porque passa a incluir uma função nova, além do exercício da administração, da legislação e da justiça, a função corporativa que, nos explica Vieira (Op. cit., p. 58), consiste em ser um nexo que une suas diversas componentes corporativas. Nesse caso, a vida sindical só pode ser estatal80.
Oliveira Vianna, conforme Vieira (Op. cit., p. 71-79), acreditará que, no caso brasileiro, um déficit civilizatório, a ausência de uma experiência associativista, um estado de barbarismo prolongado determinará que a constituição de um regime organicista e nacional só poderia se dar pela via do Estado e, por conseguinte, pela estatização do sindicatos. Por isso, o corporativismo varguista se realizará por meio da
79 Ainda que este autor tenha, de fato, renunciado à idealização de um Estado gerado e enquadrado por
uma rede social de corporações ao reconhecer que, ao contrário, a experiência italiana mostrava que a realização do bem comum, na base da colaboração entre as diferentes funcionalidades não poderia se dar senão a partir de uma emanação do Estado, invertendo, portanto, os termos de sua própria teoria política (Cf. VIEIRA, op. cit., p.56).
80 Leon Trotsky, em A Integração dos Sindicatos ao Poder de Estado, explica que a estatização dos
sindicatos, sem ser natural, é uma característica intrínseca da fase monopolista do capital, que torna a vida social cada vez mais estatal. Para Trotsky, esse traço da época imperialista impede a existência de sindicatos plenamente independentes e, em razão disso, de sindicatos efetivamente democráticos. Para ele, porém, esse contexto exige, não o abandono das organizações em benefício de outras “melhores”,
152 coerção. Tal linha de pensamento justifica o desmantelamento da estrutura sindical autônoma por meio da chantagem estatal e/ou da repressão pura e simples.
Vargas irá verbalizar o sentido do corporativismo no Brasil logo em 1931, no momento da criação das chamadas leis trabalhistas: “O Estado não reconhece a luta de classes. As leis trabalhistas são as leis da harmonia social” (apud FREIRE, 1994, p. 4). Na mesma direção vai a fala de Lindolfo Collor, primeiro ministro do trabalho, mais ou menos no mesmo período: “É tempo já de substituirmos ao velho e negativo conceito de luta de classes o conceito novo, construtor e orgânico de colaboração de classes” (apud OSI, S/D, p. 11, grifos nossos).
Freire (Op. cit., p. 4) observará que o corporativismo identificará a ordem liberal, que, aliás, Oliveira Vianna considera alheia à realidade da genealogia do povo brasileiro, com o “lugar da luta de classes”, como argumento para se alçar ele próprio como sistema capaz de assegurar a exploração capitalista. Em abril de 1931, discursando aos operários da Light, cujo sindicato aderira à tutela de seu ministério, Collor baterá no mesmo tema clássico do corporativismo:
O sistema representativo puro e simples é uma ficção malograda. Ao lado do sufrágio universal, que considera o individuo pelo número e não pela sua função social, deve eregir-se outro processo
de participação no governo através do qual os grupos e os
sindicatos intervenham diretamente nas responsabilidades de direção do Estado (OSI, op. cit., p. 11-12, grifos nossos).
Passemos, por enquanto, por alto pelo apelo à participação social nas responsabilidades do Estado, tema favorito de nossos “participacionistas” atuais, do que trataremos no capítulo seguinte. Fixemo-nos em dois elementos centrais da formulação de Collor. O primeiro, a denúncia do sistema representativo (aliás, outro tema favorito dos nossos adeptos atuais da democracia participativa), em função de que ele se baseia no peso numérico dos indivíduos. Ora, a força do proletariado, destituído de toda propriedade e, como tal, usurpado dos meios materiais e ideológico de disputa social, reside fundamentalmente em seu número e em sua organização.
Tomada deste ponto de vista, ganha todo sentido a ideia de se tomar os indivíduos pela sua “função social”, ou seja, como membro de uma profissão, o que o fixa em seu lugar próprio na funcionalidade da sociedade, lugar ao qual ele está de uma
mas a ação dos comunistas no interior dos sindicatos, sob a bandeira da independência sindical e da democracia operária (TROTSKY, 2009, p.97-105).
153 vez por todas condenado, visto o interesse do bem comum de que cada um faça a parte que lhe é própria, quanto o iguala a todos os que exercem essa mesma função, seja na qualidade de empregado, seja como empregador. Percebe-se facilmente que a força numérica da classe se dissolve no “parlamento” das corporações, no nosso caso, da concertação entre empregados e empregadores no âmbito do Ministério do Trabalho.
Essa orientação não pôde ser implementada senão pelo desmantelamento cabal e violento dos sindicatos constituídos ao longo dos 30 anos anteriores ao período Vargas. Se foram comuns os casos de sindicatos que se converteram ao estatismo, muitos foram interditados e substituídos por outros novinhos em folha, saídos diretamente da engrenagem do Estado, já de corte corporativista e oficialista.
O golpe de 1937, que proclamou o Estado Novo, por obra das mesmas forças que se alçaram ao poder em 1930 se reclamando da democracia liberal, demonstrou, de um lado, que a natureza títere da burguesia brasileira a incapacitava para instituir uma democracia clássica duradoura no país. Em face das vicissitudes da luta de classes, tal gênero de “burguesia democrática” preparava na verdade a interdição das mais comezinhas liberdades democráticas. De outro lado, o golpe evidenciava que o regime corporativo, intrinsecamente totalitário, tende a se realizar sob a forma do Estado autoritário.
A Constituição outorgada em 1937, a “Polaca”, seria o corolário desse processo que se arrastou pela década:
Desta forma, a “Polaca” evidencia que não há por que se falar mais em patrões e trabalhadores, mas em empregados e empregadores; o contrato, que na ideologia liberal admitia duas partes com interesses diferentes e que chegavam a determinado acordo que poderia ser rompido caso alguma delas desrespeitasse alguma cláusula, foi substituído pelo termo convenção, já que se passou a pressupor que ambas, agora, possuíam objetivos comuns (FREIRE, op. cit., p. 5).
Se não tivemos no Brasil, de fato, um Estado sindical-corporativo, na expressão de Panunzio (VIEIRA, op. cit., p.57), posto que não chegamos à sua forma por excelência, o Estado Fascista, a estrutura sindical estava plenamente fundada nos parâmetros da Carta de Lavoro do regime de Mussolini.
O fato de que a estrutura sindical corporativa foi, após 1945, seguidamente abalada pela luta de classes, na qual, de uma maneira ou de outra, os trabalhadores buscaram se servir dos sindicatos atrelados, expressa somente o fato de que o Estado
154 brasileiro não se consubstanciou como Estado corporativista em sua plenitude, como aliás, de forma duradoura, nenhum Estado no mundo. Isso, entretanto, não quer dizer que a natureza corporativa da estrutura sindical não tenha sido essencial como dique a refrear e impedir as lutas operárias.
Essa rápida digressão em torno da experiência brasileira de Estado corporativista nos ajuda a identificar elementos definidores dessa forma de dominação.
O corporativismo moderno, ou seja, a teoria política do Estado corporativista, parte da realidade da luta de classes. Sua interpretação está ligada ao enfrentamento da polarização entre capital e trabalho no curso do desenvolvimento do modo capitalista de produção. A codificação teórica do corporativismo moderno, em primeiro lugar por Durkheim responde à emergência do movimento operário e de seu protagonismo na cena política.
Por isso mesmo, a base política do moderno corporativismo, seja ele de cariz clerical, seja de perfil laico é, primeiro, a negação da natureza mercantil da força-de- trabalho e da própria noção de força-de-trabalho, vistas, e com razão, como geradoras da luta entre patrões e trabalhadores, substituída por uma concepção pessoalista do trabalho. Na visão corporativista, “a força de trabalho deixa de ser compreendida no universo mercantil” (FREIRE, op. cit., p. 5).
Para Vieira (Op. cit., p. 45), “a tendência corporativista concretiza-se quando se intenta reparar as consequências da separação capital/trabalho, originária da empresa (Grifo nosso).
Em segundo, a aversão tanto ao regime político brotado da oposição de classe, a democracia liberal, terreno, lembremos, não da emancipação mesma da classe operária, mas do combate pela verdadeira emancipação, seja à solução socialista. Com efeito, nos lembra Freire (Op. cit., p. 3):
A substituição da noção de classe – fruto do liberalismo – pela de corporação, não significa apenas a mudança de nomenclatura. Representa uma proposta de reordenação da sociedade, de modo que “não haja” luta de classes.
Assim, o corporativismo moderno se apresenta como uma solução de terceira via, nem capitalista nem socialista. Na versão clerical, se coloca como um regime que realiza no plano da vida secular, a ordem divina e a ordem natural; na versão laica, como um regime que, transcendendo os egoísmos de classe, realiza o pensamento
155 positivo-racional, no quadro de um organicismo naturalista. Em ambas as versões, sendo todos os homens parte do corpo místico do Cristo, ou sendo os homens membros de um corpo natural funcional, as diferenças de classe se convertem em complementaridades.
Por fim, o corporativismo moderno está baseado nas noções de descentralização, autonomia e participação, tão valorizadas hoje quando estão associadas ao alargamento da vida democrática. O integralismo corporativo se alimenta exatamente da ação autônoma das corporações, do entendimento entre suas componentes para realiza o que lhes é específico no plano do bem comum. Por essa via, como membro da corporação que o situa na esfera do bem comum e atribui sentido a sua atividade, o indivíduo integra pela sua participação a direção do Estado.
Como se vê, e como já se disse antes, a participação não só não se identifica automaticamente com a democracia, como fazem crer os “participacionistas” de hoje, como foi sempre parte essencial da lógica corporativa integralista e totalitária.
A participação, todavia, não pode ser um elemento fundante do corporativismo, ou seja, não pode ser fator de integração do individuo na comunidade de interesses, sem estar associado a um fator complementar que permita aos participantes reconhecer no corpo superior, transcendente, comunidade de comunidades, corporação de corporações, o âmbito do bem comum e, como tal, o plano detentor da autoridade moral capaz de determinar os limites próprios de sua atividade, e depositário universal das distintas obras dos corpos intermediários.
Esse fator é a subsidiariedade, valor moral que assegura ao mesmo tempo a autonomia dos corpos intermediários e sua subordinação orgânica ao plano universal. Noção recuperada do tomismo pelo “participacionismo” contemporâneo, a subsidiariedade encarna o corporativismo atual e, como tal, foi trazida para o centro das “reformas” institucionais recentes. É de seu exame que nos ocuparemos a seguir.
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