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TABLO 21 VUR KAYIP DAĞILIM

À colega doutoranda Augusta Mendonça56

Juá, março de 2011.

Ei, Augusta!

Esse modo de cumprimentar é mineirinho... (risos)! Aprendi bem!

Conversando com a Ção, pensamos na possibilidade de eu te escrever para nós discutirmos um pouco sobre Etnografia. Já notaste que, quando a gente se ocupa com estudos, não há como parar de pensar neles? E, quando se conhece alguém que adota um percurso comum com o nosso para a produção de tese, a vontade é conversar com mais frequência a respeito de nossos estudos, trocar ideias, checar se estamos pensando numa direção coerente... Já escrevi uma carta para minha amiga Kátia da UFPE, que também trabalha com etnografia, e posso te encaminhar a carta dirigida a ela, pois teremos subsídios para conversar em trio. Vais aderir a essa ideia?

Kátia emprestou-me um texto de que gostei muito. Se quiser, posso te enviar uma cópia. Talvez tu até já o conheça, porque é de um clássico utilizado nos estudos etnográficos: A interpretação das culturas, cujo autor é Geertz. Na verdade, constitui um anexo desse livro, bem sugestivo, tanto no aspecto redacional-etnográfico como indicativo de uma disposição para a pesquisa dessa natureza. Sei que tu tens estudado bastante sobre pesquisa etnográfica, e se conheces a referência à qual me reporto, já é possível conversarmos, ao menos virtualmente, a respeito, uma vez que garimpar esse campo – o da etnografia – nos interessa mutuamente! Se achares conveniente, vamos adiante!

Lembro-me bem de que Ção, nossa orientadora, num final de semana no qual fui com ela experimentar do friozinho de Lavras Novas, me indagou: O que você tem lido sobre Etnografia? Falei do que lia, e ela prontamente sugeriu outras

56 Augusta Mendonça é colega doutoranda na FaE/UFMG, parceira de diálogos! Também

orientanda da Professora Maria da Conceição Fonseca com quem desenvolve sua pesquisa de doutorado em curso, com viés etnográfico, junto à comunidade Xacriabás – situada no Norte de Minas.

referências. Por ocasião do curso da disciplina com ela, tivemos acesso aos textos de Street, e nele pude reconhecer um favorável percurso a adotar, tendo em vista que ele considera práticas discursivas e relações dialógicas como perspectiva investigativa para estudar práticas de letramento. Além disso, esse percurso pareceu-me adequado a ser adotado na investigação das práticas de numeramento.

Mas meu estudo envolve uma discussão que eu gostaria de compartilhar contigo. Trata-se do viés do trabalho impresso na pesquisa em virtude de eu ter acompanhado estudantes na escola, mas também nas suas atividades laborais. Daí ter assumido a ideia de trabalho como constituinte da condição humana. Tu sabes o quanto aprecio a leitura dos textos do meu conterrâneo, Paulo Freire. Em consonância com a inspiração freireana na investigação que realizei, passei a reconhecer o trabalho enquanto constituinte dessa condição. Adotei esse entendimento freireano, consciente de que ele foi fortemente marcado por correntes filosóficas como o existencialismo e o próprio marxismo. Também acessei artigos escritos pelo professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais, e que conheces bem, uma vez que ele foi Secretário Muncipal da Educação, na rede em que trabalhas: Miguel Arroyo. Entendi que Arroyo também se reporta ao trabalho numa perspectiva que, em vários aspectos, se aproxima daquela adotada por Paulo Freire.

Chamou-me a atenção, colega, o argumento de Arroyo57 sobre a vida do estudante jovem da EJA, público do qual faz parte a maioria dos participantes deste estudo. Referindo-se às precariedades vivenciadas pelos jovens pobres, Arroyo preocupa-se com as limitações que se interpõem às suas perspectivas de futuro. Segundo Arroyo, para esses jovens o futuro se distancia e, consequentemente, o presente se amplia porque para eles parece não haver horizontes de futuro, uma vez que estão atrelados ao trabalho informal, sem muita esperança de profissionalização ou avanço funcional. Nesse sentido, a escola seria a única porta aberta para o futuro. Esse educador enfatiza que eles estão condenados ao que poderíamos chamar de um estado de permanente vulnerabilidade nas formas de viver. Viver significa para eles ter o que comer, ter um salário, ter uns trocados. Quando até essas bases do viver são incertas, a incerteza invade todo seu viver.

Confesso que, a princípio, essa denúncia do professor Miguel Arroyo

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invadiu a percepção que tive no início de meu convívio com os jovens e as jovens de meu estudo e que me causava indignação. Mas, por outro lado, apesar de eu, muitas vezes, ouvir desabafos dos estudantes-trabalhadores quanto ao permanente estado de exploração a que se viam submetidos, em alguns momentos, eu via que aqueles jovens se deixavam invadir por um certo encanto pelas tarefas que executavam e pelo produto de seu trabalho. Ouvi também aquelas pessoas, especialmente as mais jovens, elaborarem projetos de futuro, falarem de seus sonhos e arquitetarem táticas para alcançá-los. Eu os vi entusiasmados com os aprendizados que faziam e solidários ensinando aquilo que sabiam aos companheiros. Isso me levou a refletir sobre táticas que eles e elas empreendem, para sobreviver e transformar aquele modo de vida, que, por mais duro que me parecesse, oportunizava um convívio solidário e camarada entre colegas, que parecia dinamizar suas vidas.

Nesse sentido, parece-nos válido entender, também como Saviani,58 que a ontologia humana é histórica e a pessoa não é, mas se torna historicamente humana. Portanto, mais que a compreensão do trabalho no seu sentido ontológico, “inerente à produção do ser”, interessa-me, neste estudo, o trabalho no seu sentido histórico. Isso porque reconhecemos ser importante compreender aquela atividade laboral nas formas específicas que vai adquirindo nos diferentes modos de produzir que aqueles trabalhadores e aquelas trabalhadoras forjam, como parte de suas táticas de sobrevivência numa sociedade, cujo modo de produção é capitalista. Por isso, nos interessa compreender o trabalho na visão histórica, a partir de determinações que não são contingenciais ou aleatórias, mas constituídas pelas próprias pessoas nas relações sociais.

É assim que tenho pensado sobre essas pessoas com as quais venho convivendo, e que, para sobreviver, foram obrigadas a produzir seus próprios modos de vida na busca da satisfação de suas necessidades. Elas aprendem a trabalhar, trabalhando, relacionando-se uns com os outros, desenvolvendo formas e conteúdos, cuja validade é estabelecida pela experiência, o que configura seus processos de aprendizagem.

Eu ficava imaginando, Augusta, que precisaria ler mais sobre o mundo do

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trabalho. Foi quando me deparei com um interessante livro de Ricardo Antunes59 e com sua abordagem das metamorfoses do mundo do trabalho. Antunes afirma que o resultado mais brutal das transformações no capitalismo contemporâneo é a expansão sem precedentes do desemprego estrutural. Esse autor ressalta que há uma processualidade contraditória que, de um lado, reduz o operariado industrial e fabril e, de outro, aumenta o subproletariado do trabalho precário, parcial, temporário, subcontratado, vinculado à “economia informal”. Portanto, Antunes pontua que há um processo de maior heterogeneização, fragmentação e complexificação da classe trabalhadora. Enquanto eu lia o texto de Antunes, colega, visualizava mentalmente as vidas daqueles trabalhadores e daquelas trabalhadoras que eu tive a oportunidade de acompanhar. Ao ler, eu imaginava que Antunes estaria falando daquele povo do Juá e sítios vivinhos, de seu trabalho informal...

Buscando mais e mais leituras, preocupada por esta investigação levar-nos a contemplar um campo de estudos com o qual eu não tinha maior intimidade, deparei- me com um livro de Alain Bihr60, que trata de alguns temas que me pareceram relevantes para o estudo que esta pesquisa tem demandado. Refiro-me à identificação de categorias diversas de trabalhadores que têm em comum a precariedade do emprego e da remuneração; à desregulamentação das condições de trabalho em relação às normas legais vigentes ou acordadas e a consequente regressão dos direitos sociais, bem como à ausência de proteção e expressão sindicais, configurando uma tendência à individualização extrema da relação salarial e – porque não dizer – “conformando” operários com as condições trabalhistas às quais estão submetidos.

Mas, foi lendo Jessé Souza,61 que vi uma expressão que pensei se aplicar bem aos participantes da pesquisa que estou desenvolvendo: ‘Batalhadores Brasileiros’. Jessé a utilizou para falar dos trabalhadores que desenvolvem posições comportamentais que permitem a articulação da tríade disciplina, autocontrole e pensamento prospectivo. Um modo, no dizer dele, de se conformar à ‘economia emocional’, necessária para o trabalho produtivo e útil no mercado competitivo capitalista. Esse autor comenta que o novo regime de trabalho do capitalismo financeiro em nível mundial encontrou nesses ‘Batalhadores Brasileiros’ sua “classe 59 (ANTUNES, 2010) 60 (BIHR, 1991) 61 (SOUZA, 2010)

suporte” típica, submetida a todo tipo de superexploração de mão de obra. Essa classe social logrou ascender a novos patamares de consumo a custo de extraordinário esforço e sacrifício pessoal.

Eu também tive a oportunidade de ler resultados de uma pesquisa realizada por Márcia Hespanhol Bernardo,62 referindo-se à condição de trabalhador explorado. Ela apresentou dados acerca dos problemas de saúde de trabalhadores entrevistados: depressão, estresse, problemas de sono, uma loucura, um desespero etc. A partir desses dados, ela afirmou a existência de um hiato entre a realidade de trabalho, descrita com base na gerência e no capital – o discurso gerencial – e aquela, descrita pelos operários – a vivência dos trabalhadores. Márcia Bernardo argumentou diante do seu estudo que o discurso veiculado aponta a superação do “rígido” taylorismo-fordismo por modelos de organização mais “flexíveis”, nos quais aspectos como participação, autonomia e trabalho em equipe o estariam tornando mais humanizado. No entanto, ao invés de uma maior satisfação com a suposta humanização do trabalho, os operários vêm apresentando, cada vez mais, queixas de sofrimento psíquico e doenças. Assim Bernardo concluiu que a organização do trabalho dita flexível e mais humanizada contrasta com as queixas de dor e sofrimento dos trabalhadores. Percebes, amiga, quão perverso é o modo produtivo no qual estão engajados os participantes de minha investigação? Não desejaria constatar essa realidade, mas ela continua reinando!

Considerei bem pertinente, Augusta, ter buscado essas leituras, inclusive porque assim fui desconstruindo ideias que, para mim, pareciam constituir-se como verdades, e o foram, por muito tempo, até quando encontrei o trabalho de Marise Ramos63, abordando o tema Trabalho e Práxis: categorias que se complementam na dinâmica social. Foi ali que percebi que Marx associa a práxis a toda atividade humana. Em Marx, seu conceito-chave de “atividade humana produtiva” não significa “produção econômica”; ao contrário, o seu sentido é mais complexo, de modo que não se pode reduzir práxis ao trabalho, deve-se entender que ele é a forma que a práxis assume necessariamente na sua origem, sendo condição para a existência humana, independentemente da forma de sociedade.

Ali eu via o ato de trabalhar no sentido da necessidade natural, cuja função

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(BERNARDO, 2009)

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é intermediar a relação homem-natureza. Consequentemente, o que configura esse ato como essencialmente humano é sua natureza teleológica, dado que o trabalhador organiza, em sua mente, a ideia do que vai fazer e, só no fim do resultado de suas tarefas, é que aparece o resultado do que antes já estava em sua mente. O trabalho é, então, ponto de partida para todo o conhecimento.

Percebes que essa perspectiva de trabalho, como decisiva para a constituição de conhecimentos, serve-me na investigação em que busco identificar práticas de numeramento de trabalhadores estudantes da EJA, porque respalda a ideia de que, quando se apropriam de práticas no espaço laboral, também se mobilizam e se constituem conhecimentos e sujeitos de aprendizagem, que, na atividade produtiva, forja táticas de sobrevivência e de resistência a ações de desumanização. Assim estou entendendo...

Aqui finalizo, agradecendo por me “ouvires” e também por teres me hospedado em tua casa quando estive em Belo Horizonte para alguns encontros de orientação. Além de te encontrar como parceira de estudos, tua casa se tornou também um espaço de suporte para a elaboração desse provisório momento de minha vida acadêmica.

Um grande abraço! Val

Benzer Belgeler