Agora tentaremos organizar os dados sobre migração e exílio até aqui levantados, empregando algumas linhas de pensamento do conhecido geógrafo inglês David Harvey (1935). De forma geral, os estudos desse pesquisador trabalham conteúdos e abordagens da antropologia social e da geografia humana relacionadas ao capitalismo e aos seus impactos sobre a sociedade. Harvey escreveu textos fundamentais que ajudam no esclarecimento da complexidade do mundo moderno, tais como A Justiça Social e a Cidade (1980), Condição Pós-Moderna (1996), O Novo Imperialismo (2005) e Espaços de Esperança (2011), entre
outros. Harvey utiliza o conceito de “utopismo dialético”, que trabalha a ideia de utopia criada pelo pensador renascentista Thomas Morus, associando-o à noção de mudança revolucionária da sociedade defendida por Karl Marx. Se a verificação das transformações dos meios de produção, do papel do trabalho assalariado e do conflito das classes ao longo da história propicia por um lado profundas modificações da estrutura de poder, por outro promove a esperança no homem de alcançar um dia a sociedade ideal, a organização social perfeita. A proposta de Harvey assinala que existe a intrínseca necessidade humana de conceber utopias, em qualquer época, espaço ou geografia, porque ela, a utopia, se nutre da insatisfação acumulada social, política e economicamente. Isso quer dizer que, se por um lado a realidade pode alienar o indivíduo, fazendo-o pensar que as coisas são assim e não podem ser mudadas, em contrapartida, essa mesma realidade pode transformá-lo em um ser pensante, um transformador crítico da situação em que vive. Para concretizar essa capacidade crítica é necessário o esforço de pensar na possibilidade da existência de um ideal utópico, que venha a se constituir na negação da própria realidade. Faz-se necessário que o homem experimente um desassossego para com a sua existência e um incômodo em relação ao seu viver, como também que esse homem tenha uma noção mesmo difusa do que seria uma vida plena, digna e prazerosa. O descompasso, a distância entre o ideal utópico que se pretende alcançar confrontado com a realidade adversa em que se vive, pode chegar a mobilizar as forças e os agentes sociais capazes de realizarem as transformações requeridas para o aprimoramento da existência do indivíduo em sociedade. Essa força é a organização política do homem e os agentes seus projetos de esperança. Todavia, Harvey constata no terceiro capítulo de Espaços de Esperança que o proletariado do início do século XXI vive em condições piores do que o trabalhador da primeira metade do século XIX e que, não obstante o seu maior número, essa classe encontra-se hoje fragmentada e desmobilizada. Em função disso assinala que:
[...] a base do cenário do Manifesto [Comunista] não sofreu alterações radicais. O proletariado global nunca foi tão volumoso, nem nunca tão forte o imperativo da união dos trabalhadores de todo o mundo. Mas as barreiras a essa união são muito mais formidáveis do que o eram no contexto europeu já complicado de 1848. (HARVEY, 2004, p. 68)
Vejamos a situação da classe laboriosa segundo o relatório do Banco Mundial. Em 1995 o número de homens e mulheres assalariados na face da terra era de 2,5 bilhões, o dobro do que era em 1966, sendo que mais de um bilhão de indivíduos sobrevivia com apenas um dólar por dia de trabalho, ao mesmo tempo em que 120 milhões de pessoas encontravam-se
desempregadas. Tudo isso estava acontecendo numa época em que se verificava um rápido crescimento da produtividade do trabalhador, um forte incremento do comércio mundial, uma grande redução dos custos do transporte, uma onda de liberação do comércio e, principalmente, um acelerado aumento dos fluxos internacionais de investimento direto que ajudaram a construir sistemas de produção integrados transnacionalmente. Assim, o mercado de trabalho mundial tornou-se um sistema altamente interligado com estreitos vínculos ao sistema multinacional criado na esfera empresarial.
Harvey, preocupado em estudar a situação dos assalariados e o mercado de trabalho, suas relações e decorrências, cita o relatório da Agência Internacional do Trabalho das Nações Unidas de 1966:
Alguns observadores veem nessas alterações a emergência de um mercado global do trabalho no qual “o mundo se tornou um imenso bazar em que as nações impelem suas respectivas forças de trabalho a competir umas com as outras, oferecendo os mais baixos preços para a realização de negócios” [...] A principal apreensão é que a intensificação da competição global venha a gerar pressões para a redução dos salários e dos padrões de trabalho em todo o mundo. (AIT, 1966, p. 4)
A preocupação do relatório com a redução de salários e dos padrões de trabalho verificou-se tragicamente verdadeira, principalmente na América Latina, onde as nações governadas por ditaduras militares na época encarregaram-se de colocar os trabalhadores sob o regime do arrocho ou contenção salarial, enquanto abriam as portas das suas economias ao investimento estrangeiro e enxugavam o aparelho do Estado. Apresentava-se assim o quadro histórico do mercado de trabalho nos anos 1960, prenunciando o neoliberalismo econômico da década seguinte: um quadro extremamente propício para que os trabalhadores da cidade e do campo começassem a deslocar-se à procura de melhores condições de vida dentro e fora dos seus países. Acreditamos que a argumentação precedente serve para entendermos, mesmo que parcialmente, parte do processo de emigração e imigração, dos deslocamentos populacionais verificados nos últimos trinta anos na América Latina, como reflexo vinculado à desregulamentação da economia mundial e a ingerência externa promovida pelos Estados Unidos e demais países desenvolvidos. O atual processo de globalização, que também pode ser chamado de aberta expansão capitalista mundial, tem demolido barreiras econômicas, culturais e sociais fomentando e intensificando a ampla circulação de capitais e mercadorias, valores, símbolos e imagens (a partir de certa ótica hegemônica). Observa o geógrafo Milton Santos (1926-2001), ardente defensor de uma globalização mais humana, que:
A globalização é o estágio supremo da internacionalização. [...] O mundo inteiro torna-se envolvido em todo tipo de troca: técnica, comercial, financeira, cultural. [...] Num mundo assim transformado, todos os lugares tendem a tornar-se globais, e o que acontece em qualquer parte do ecúmeno (parte habitada da Terra) tem relação com o que acontece em todos os demais. Daí a ilusão de vivermos num mundo sem fronteiras, uma aldeia global. Na realidade, as relações chamadas globais são reservadas a um pequeno número de agentes, os grandes bancos e empresas transnacionais, alguns Estados, as grandes organizações internacionais. (SANTOS, 2002, p. 79-80)
Santos destaca a internacionalização do mercado de trabalho, porém o faz de uma maneira crítica, quando assinala o caráter ilusório de um presumível mundo sem fronteiras apontando a existência de um tratamento diferenciado entre multinacionais e trabalhadores, entre capital e trabalho. Se fizermos o cruzamento entre a visão do geógrafo brasileiro e a do geógrafo inglês, constataremos a complementaridade de seus enfoques no espírito dos seus textos. Harvey parece corroborar a tese de Santos ao citar os índices do Relatório do desenvolvimento humano das Nações Unidas, de 1996, quando afirma que:
[...] entre 1960 e 1991, a parcela dos 20% mais ricos passou de 70 para 85% da renda global – enquanto a dos mais pobres declinou de 2,3 para 1,4%. À altura de 1991, mais de 85% da população mundial recebia apenas 15% da renda, e o valor líquido da renda das 358 pessoas mais ricas, os bilionários do dólar, equivale à renda combinada dos 45% mais pobres da população mundial – 2,3 bilhões de pessoas. (HARVEY, 2011, p. 65)
Realmente, a distância abismal entre os números citados pela pesquisa surpreende pela sua enorme extensão, mas por outro lado serve para constatar a espantosa concentração de capital produzida pela globalização da economia.
Não é difícil concordar com Harvey quando afirma que o cenário do Manifesto Comunista de 1848 está praticamente intacto na sua base. Nunca o proletariado global foi tão numeroso e ao mesmo tempo nunca foi tão necessária a sua união. Parece que os obstáculos que hoje impedem essa união são infinitamente superiores aos do século XIX. “A força de trabalho se acha hoje bem mais dispersa em termos geográficos, mais heterogênea em termos culturais, mais diversificada étnica e religiosamente, racialmente estratificada e linguisticamente fragmentada” (HARVEY, 2011, p. 68). Para Harvey, essa dispersão, longe de ser motivo de esmorecimento, impulsiona o pensamento utópico à procura por formas alternativas de resistência ao capitalismo. Ele assinala um dado importante quando se refere à crescente presença de “um movimento proletário fortemente feminizado” (HARVEY, 2011, p. 69)e exalta a figura da mulher trabalhadora porque acredita que ela pode chegar a tornar-se
um importante agente de transformação política, diferenciado do modelo de sindicalismo patriarcal.
A reflexão sobre as mudanças das populações globais projeta a sensação de ser impossível o controle dos fluxos migratórios. Coloca em evidência o fato de que a porosidade das fronteiras nacionais não só beneficia o capital, como também, e cada vez em maior número, as pessoas e o trabalho. A proporção da população mundial que vive em cidades dobrou em trinta anos, o que acabou criando concentrações espaciais que albergam massas de pessoas numa escala até então considerada inconcebível. Encerremos essas reflexões com o comentário oportuno de Harvey quando afirma que a imigração é hoje uma questão mundialmente relevante, atingindo também o movimento trabalhista: “A organização do trabalho diante das consideráveis diversidades étnica, racial, religiosa e cultural geradas pelos movimentos migratórios traz problemas particulares que o movimento socialista nunca teve facilidade em abordar, para não falar em resolver” (HARVEY, 2011, p. 70). Parece que para Harvey a palavra de ordem do proletariado na era da globalização é “imigrantes do mundo uní-vos”.
QUARTO CAPÍTULO - ANÁLISE DAS PEÇAS
A análise de Nuestra Señora de las Nubes (2003) de Aristides Vargas e de Borandá (2004) de Luís Alberto de Abreu comporta o estudo realizado a partir da descrição detalhada da curva argumental1de ambas as peças, acrescentado de interpretações analíticas referentes à estrutura dramatúrgica, aos conceitos de migração e exílio, à escrita épico-narrativa, abordados pelas mesmas. Sendo peças escritas no início do século XXI, inseridas em uma estética inovadora, que conjuga elementos dramáticos e narrativos de maneira criativa e tendo o reconhecimento de sua excelência literária, confirmada pela obtenção de importantes premiações, acreditamos que podemos designá-las como duas peças representativas do teatro latino-americano contemporâneo. Apesar de existirem diferenças no que concerne à especificidade das histórias abordadas, pois uma trata do exílio e a outra da migração interna, encontramos nelas alguns elementos unificadores, como, por exemplo, o tema do deslocamento humano, a utilização de cenas antirrealistas, o emprego do recurso narrativo e o uso constante da alternância de gêneros.
Nuestra Señora de las Nubes, escrita entre 1999 e 2000 e publicada em 2003, é o segundo exercício teatral sobre o tema do exílio que o grupo Malayerba desenvolveu, sob a direção de Aristides Vargas. O primeiro exercício, também dirigido por Vargas, foi realizado em 1995 e descrevia as formas de exílio relatadas por todos os integrantes do grupo, fundidas na vivência de uma única personagem: Pluma. Diferentemente, portanto, do primeiro exercício, no segundo a obra apresenta a trajetória de Bruna e Oscar, expatriados que tentam reconstruir suas vidas a partir das memórias do tempo em que ambos habitavam um território comum. É conveniente ressaltar que as personagens Bruna e Oscar representam o alter ego dos atores exilados no Equador e fundadores do Malayerba, a espanhola Charo Francés e o argentino Aristides Vargas.
O processo de trabalho que culminou com a criação de Borandá, de Luís Alberto de Abreu, tinha inicialmente o nome de Auto do migrante. O texto, escrito para a Fraternal Companhia de Arte e Malas-Artes se propunha afazer uma reflexão sobre a migração interna acontecida no Estado de São Paulo, durante os anos 1960. O grupo dedicou-se a pesquisar e
1 O pesquisador bielo-russo do período soviético, Lev Vygotsky (1896-1934), define curva argumental como: “A
disposição e o ordenamento dos acontecimentos de uma história, a combinação de frases e orações, de conceitos, de ideias, de imagens e ações [...]” (VYGOTSKY, 2001, p. 78).
discutir textos referentes ao universo dos migrantes radicados na zona sul de São Paulo, sobretudo pelo fato de a companhia ocupar, em processo de residência, o Teatro Paulo Eiró, estabelecendo o registro de quinze sagas familiares como o número suficiente para elaborar o pré-roteiro. A peça consta de três sagas ou focos narrativos que apresentam notória convergência temática, tratando do problema da posse da terra como sendo a base da questão socioeconômica do retirante, da agonia do trabalho na metrópole distante do núcleo familiar, da solidão e da vida opaca dos desarraigados, dos “causos” populares e das míticas profecias, de homens que tiveram o cérebro furtado ao nascer, e de mulheres que ficaram paralisadas no tempo e no espaço, trancadas em quartos da periferia na grande cidade, despojadas da vontade de existir, aparentemente incapazes de retomar a labuta sofrida que levavam.