Assim como no aspecto da ostensividade para as atividades de polícia militar, o campo da valorização profissional tem também grande evidência como um dos seus fundamentos.
O problema é realizar uma mais adequada demarcação em torno do assunto para a proposta de pesquisa, que se entende também a colaborar com a área da reflexão sobre tão presente função no dia-a-dia da sociedade atual, mas nem sempre avaliada da forma mais adequada.
Na história das polícias, a temática da profissionalização dos aparelhos chegou com as tendências em se passar do modelo intitulado “Polícias Primitivas” para o modelo “Polícias Modernas”, marcando essa trajetória decisivamente algumas diferenças das polícias européia, americana e asiática. Essas vertentes do serviço policial, de cunho basicamente ostensivo ou de polícia judiciária, continuam a influenciar os demais sistemas policiais do restante do mundo, inclusive o modelo brasileiro.
As estruturas diferenciadas de dominação política, religiosa e militar, surgidas a partir do processo de divisão do trabalho nas sociedades primitivas, suscitaram os primeiros núcleos policiais, chefiados por aqueles mais influentes da coletividade, prioritariamente composto de voluntários sem nenhuma recompensa imediata para o referido trabalho. Essas estruturas de dominação serão os setores que até hoje vão influenciar o desenvolvimento desses grupos policiais, inclusive no que se entende por seus processos de profissionalização.
Dessa forma, não é novidade a reafirmação de que o marco do processo de profissionalização é o surgimento da polícia moderna com salário e com treinamento específico para a função de mantenedora e defensora dos grupos dominantes constituídos, principalmente nas esferas política, militar e religiosa. O modelo de profissionalização, marcado pela capacitação e pela atribuição de salário, teve e tem a intenção, de certa forma contraditória, de diminuir ainda mais o grau de autonomia das atividades de polícia, questionando-a.
No século XIX e começo do século XX esse processo de profissionalização das forças policiais começava a se realizar, mas mesmo em países mais avançados como França, Inglaterra e Dinamarca, ele passava muito distante da questão da valorização e da autonomia da função de polícia. Nesses países já existiam treinamento e pagamentos de salários para pessoas investidas nas funções de polícia, mas, por outro lado, segundo Monet (2001, p.63), “[...] A maior parte dessas polícias mantêm uma disciplina de ferro em suas fileiras,
notadamente recrutando maciçamente antigos militares”, o que passa muito longe de qualquer investimento em autonomia funcional, e mais ainda profissional.
Aqui no Brasil, essa suposta noção sobre profissionalização, numa ótica mais atual sobre a concepção de profissional, não fundou as bases para que fosse atribuída ao policial a autonomia como pessoa e como trabalhador na medida em ele deveria ser reconhecido como principal componente dos sistemas de segurança pública.
A condição de profissional exige também um nível de saberes, de conhecimentos e competências próprios capazes de diferenciar uma função de outra, mas de, principalmente, desenvolver uma relativa autonomia naquele que exerce uma função de polícia.
Afora a questão sobre quem teria ou não o direito a essa forma de autonomia, que no serviço policial se tem identificado como poder discricionário de atuação, o certo é que esse mesmo processo iniciado há muito tempo atrás não tem proporcionado a legítima valorização do policial, principalmente do policial militar.
Dessa maneira, ao relacionar a profissionalização como processo à valorização pessoal, se inclui investimento na auto-estima, na percepção da importância da função social do trabalho da polícia ostensiva e na capacitação técnica, o que revela o fato de que valorizar profissionalmente é mais do que instituir ou melhorar salário, ou mesmo investir em treinamentos.
Valorizar profissionalmente é desenvolver processo de crescimento da auto-estima para o trabalho com a complexa tarefa do serviço policial ostensivo, auxiliando o ocupante daquele cargo ou função dentro das instituições policiais a discernir mais sobre a melhor maneira de prevenir ou de intervir para o equilíbrio de conflitos e demais situações inquietantes à ordem e à segurança pública.
Fazendo uma análise mais próxima da realidade brasileira, frisa-se o fato de que em quase todos os programas de parcerias entre a União e os Estados, bem como com algumas prefeituras, o item valorização profissional é bem explicitado nos respectivos planos, mas mesmo assim, certamente por questões que abrangeriam a maioria dos diálogos realizados com os outros eixos orientadores tratados neste capítulo, passa a vigorar certo antagonismo de opiniões. Por um lado, técnicos e pessoal especializado preparam as programações dos cursos e insistem em limitar a valorização profissional ao cumprimento das tarefas curriculares; por outro lado, considerável parte dos operadores de polícia insiste em repetir que valorizar não seria providenciar cursos, mas sim, melhorar os salários.
Esse é um fato que talvez somente a médio ou a longo prazos possa ser equacionado, ainda que algumas estratégias comecem a ser montadas como, no caso de RN, a
retomada gradativa das instruções cotidianas e de manutenção nas quais são trabalhados pontos-chave da função policial militar, o que tem melhorado a percepção profissional e a consciência de classe.
Desse modo, o entendimento sobre a “Valorização profissional” como um dos eixos orientadores da função policial militar consiste em todo o processo, ou tomada de decisão, nos níveis administrativo, político, social geral, educativo, provenientes do âmbito das próprias corporações policiais militares ou de fora delas capazes de elevar concretamente o nível de profissionalização do trabalhador da segurança pública. Esse é um processo que deve viabilizar e dinamizar a tomada de consciência de si e de classe profissional por parte do policial como pessoa, motivando-o e aumentando a sua disposição em trabalhar a autonomia específica e essencial que a atividade de policiamento ostensivo lhe exige, discernindo melhor, por exemplo, as circunstâncias de sua atuação.