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BÖLÜM 1: KÜLTÜR VE MEDENİYET

1.2. Medeniyet

1.2.3. Türklerde Medeniyet Algısı

Um dos trabalhos que mais se destacaram no projeto UNESCO foi com certeza, o de Florestan Fernandes. No entanto, seu trabalho sobre a questão racial teve desdobramentos nas pesquisas realizadas por Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni como bem nos mostra PEIXOTO (2000, p.186) ao afirmar que a prova de vitalidade dos trabalhos realizados por Bastide e Florestan “poderia ser aferida pelos desdobramentos do projeto original na obras das novas gerações da escola paulista de sociologia – Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni etc”.

Buscaremos também de forma breve entender qual é o norte da interpretação desses dois autores sobre a questão racial no Brasil. REIS (2001) destaca que a obra de Fernando Henrique Cardoso é vasta e interdisciplinar: sociologia, história, economia e ciência política. Em “Capitalismo e escravidão no Brasil Meridional” (1962) sua tese de doutorado, Cardoso estudou a escravidão no sul do Brasil, onde havia menos escravos, por não ser uma região ligada ao mercado mundial. Para Cardoso, o número de escravos não seria o mais importante, mas a relação de produção em si. O tema da escravidão seria muito importante para o conhecimento do Brasil, pois revelaria muitos aspectos ainda dominantes: os valores brasileiros, as aspirações, as desigualdades e as injustiças brasileiras.

Segundo o autor (2001), ao discutir o modo de produção brasileira antes da abolição, Cardoso recusou a tese feudal e preferiu abordar a economia colonial, avaliou as razões do fim da escravidão considerando a importância da insuficiência numérica de escravos, o fim do tráfico, a alta mortalidade e a incompatibilidade com o avanço capitalista.

Entre os vários elementos presentes em “Capitalismo e escravidão no Brasil Meridional” (1962), nos interessa mais de perto sua interpretação das relações entre negros e brancos. Pudemos perceber que é recorrente no decorrer da discussão, principalmente o despreparo do negro frente à nova ordem emergente; a permanência dos padrões da antiga ordem nas relações entre negros e brancos e o preconceito como técnica de ajustamento e permanência do negro à margem da sociedade.

Sendo assim, Cardoso afirma que o abolicionismo nos moldes em que se desenvolveu no Rio Grande do Sul, não implicou a revisão, pelos senhores e pelos brancos livres em geral, da representação social que possuíam a respeito do negro brasileiro.

“Não espanta, pois, que o negro livre, de 84 ou de 88, permanecesse, na consciência e no comportamento dos homens, representado e tratado como uma coisa.(...). Porém, nada alterou substancialmente a orientação do comportamento dos brancos livres. Apenas tornou mais aguda a contradição entre os ideais professados e as formas de comportamento manifestados pelos senhores, na medida em que continuavam a agir com relação ao escravo como se ele fosse uma mercadoria – força bruta apta para o trabalho – quando se impunham, socialmente, a obrigação moral de perceber no escravo as qualidades que aprovam também para si”. CARDOSO (1977, p.238).

Um outro ponto relevante que pode acenar para a interpretação de Cardoso sobre as relações raciais no Brasil é quando ele trabalha sua concepção de preconceito que para ele é redefinido socialmente num duplo sentido: não só formalmente, cor e condição social não correspondiam mais à mesma e irremissível situação de casta dos escravos, assim como o negro livre passou a frustrar mais generalizadamente as expectativas dos brancos e, mais tarde, a ameaçar a exclusividade das posições sociais por eles mantidas. A partir desse momento, começa realmente o “problema negro”: o preconceito muda de conteúdo significativo e de funções sociais. Segundo o autor, neste contexto de conflito o preconceito deve ser visto como uma

naturais. A maior parte dos negros ratificou essa situação pela aceitação do “ideal de branqueamento” e pelo estímulo a uma “ideologia de compromissos”, que legitimava o preconceito e a anuía às diferenciações sociais que os brancos quiseram impor aos negros, por serem negros.

Essa leitura das relações raciais atuais como resquício da escravidão está bem presente no livro de CARDOSO & IANNI “Cor e mobilidade Social em Florianópolis: aspectos das relações entre negros e brancos numa sociedade do Brasil Meridional” (1960) principalmente quando eles afirmam compreender que mesmo depois da Abolição não houve impulsos suficientes vigorosos para alterar o sistema de acomodação inter-racial vigente. Os libertos e seus descendentes continuaram sendo negros, isto é, naturalmente inferiores (1960, p.151).

“A polarização das justificativas das avaliações desfavoráveis dos brancos sobre os escravos em torno de características físicas permitiu que, mesmo alterando-se com a Abolição, as condições sociais responsáveis pela emergência de discriminação racial, essa, e as principais racionalizações que a justifica, que se mantivessem inalteráveis na sociedade de classes em formação. Por outro lado, como a intensidade da rejeição social do negro era grande e as transformações na estrutura ocupacional, e conseqüentemente no sistema global de posições sociais, foram relativamente pequenas até hoje mais ou menos vinte anos, os padrões de contato inter-racial elaborados no passado pudera preservar-se”. CARDOSO. (1960, p.151-152).

Sobre a persistência dos padrões raciais do período escravocrata o autor afirma na primeira parte do livro “Cor e Mobilidade Social em Florianópolis” (1960) que no novo sistema de ocupação o negro continua a ocupar uma posição sensivelmente análoga a de que desfrutava no passado. Dessa forma, ainda é, como no passado, o principal agente de serviços braçais e domésticos. Os efeitos da Abolição não alteraram substancialmente, portanto, a posição relativa das duas raças no sistema ocupacional da cidade, permanecendo o trabalhador negro nos setores mal remunerados e de baixo prestígio social. Para o autor.

“Isso significa que ainda hoje as oportunidades ocupacionais de mão-de-obra negra se concentram em torno de atividades nas quais os escravos se especializaram (serviços domésticos e atividades braçais em geral), o que confirma nossa interpretação de que a posição do grupo negro na estrutura profissional do presente é bastante similar

à do passado”. CARDOSO (1960, p.113).

E conclui:

“Compreende-se, pois, que mesmo depois da Abolição não houvesse impulsos suficientemente vigorosos ara alterar o sistema de acomodação inter-racial vigente. Os libertos e seus descendentes continuavam sendo negros, isto naturalmente inferiores. Tanto mais que a sociedade local não proporcionou muitas oportunidades de ascensão social aos negros, que continuaram a desempenhar, como antes, os serviços para os quais eles eram naturalmente aptos: os trabalhos braçais econômica e socialmente desqualificados. Numa situação social como essa existem, obviamente, muitos estímulos para a preservação da antiga ideologia racial dos brancos”. CARDOSO(1960, p.151).

Sobre essa sua posição, CARDOSO (2002, p.640-641) afirma que fizeram pesquisas que mostraram que havia preconceito, que havia discriminação e que, para que o ideal de democratização do Brasil pudesse se concretizar implicaria que os que lutam pela democracia e pela liberdade assumissem, também, a luta em favor de igualdade racial e que o problema é da pesada herança escravocrata de uma cultura que dissimula discriminação em certas formas aparentes de cordialidade e que não fazem mais do que repetir, reproduzir formas de discriminação.