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A personagem do médico foi utilizada recorrentemente por Molière em suas peças, antes mesmo de retornar a Paris, Molière já havia apresentado na sua trupe itinerante três peças nas quais a medicina ou o médico eram partes marcantes: Le Docteur amoureux, La
Jalousie du Barbouillé e Le médecin volant. A data da primeira representação dessas peças não é conhecida, mas através dos registros de La Grange pode-se saber que elas não eram inéditas no momento em que a trupe chegou a Paris e tornou-se a Troupe de Monsieur Le
Frère Unique du Roi.
Os contos de Boccacio, dos quais se servia a Commedia dell’Arte em suas peças, foram fontes de inspiração para que Molière escrevesse a peça La jalousie du Barbouillé178
. Ela foi representada em Paris pela primeira vez em dezembro de 1660 e pela última vez em setembro de 1664, com um total de sete representações.
As personagens da peça são: M.179 Barbouillé, o marido ciumento; Angélique, a esposa; o pai de Angélique, M. Gorgibus; Cathau, a acompanhante de Angélique; Valère, o amante de Angélique; Villebrequin, o ajudante de M. Gorgibus; e o médico.
M. Barbouillé é um marido ciumento. Ele sempre deixa sua esposa só em casa e ela, por sua vez, sentindo-se desvalorizada pelo marido, está sempre envolvida em passeios, com o amante Valère. Logo na segunda cena do primeiro ato, M. Barbouillé, querendo dar uma lição à esposa, solicita a presença do médico para pedir um conselho sobre como proceder.
177 Cf. LARROUMET, 1887, p.296. 178
O ciúme de Barbouillé.
Ocorre que o médico começa a gabar-se de sua sabedoria e competência, impedindo que Barbouillé lhe faça a consulta.
M. Barbouillé resolve deixar Angélique presa fora de casa, quando a surpreende em uma de suas saídas furtivas, e ela ameaça se matar na porta da frente da residência, se ele não permitir que ela entre. Começa outra confusão, com a chegada do pai de Angélique e seu serviçal. O médico vem por causa do barulho, os ânimos se acalmam e ele quer celebrar a paz com uma leitura de Aristóteles, mas é ignorado por todos que retornam às suas casas.
A outra peça que Molière apresenta no momento em que chega a Paris é Le médecin
volant. Apesar de ter sido representada durante o período em que a trupe era itinerante, teve seu primeiro registro de apresentação em 18 de abril de 1659, perante o rei Luís XIV, e mais quatorze apresentações, entre 1660 e 1664180.
A peça apresenta o dilema de uma jovem, Lucile, cujo pai, Gorgibus, deseja entregá-la em matrimônio a um homem que ela não ama. Sabine, prima de Lucile, sugere armar uma farsa, a fim de enganar o pai e livrá-la do casamento indesejado. Sabine também chama Valère, que é enamorado de Lucile, juntamente com Sganarelle181, o serviçal dele, para que também participem dessa farsa.
Lucile se finge de doente e Sganarelle se disfarça de médico para que Lucile possa ser transferida para uma ala da residência mais próxima dos jardins, mais arejada para facilitar sua recuperação, mas com o intuito secreto de se encontrar às escondidas com Valère. Os farsantes conseguem seu intento, ao final Sganarelle é desmascarado, mas convence o Sr. Gorgibus a deixar sua filha desposar o amado Valère.
180
Cf. MOLIÈRE, 1971, tome I, p. 29.
181 Sganarelle é uma personagem recorrente nas peças de Molière, ora é baseado nos Zanni, os serviçais, ora é
Le festin de pierre (Dom Juan) é uma comédia que foi representada pela primeira vez em fevereiro de 1665. A peça apresenta como tema central o ateísmo e, apesar de sua representação não ter sido proibida oficialmente, como foi o caso de Tartuffe (1664), sofreu um boicote da crítica e de alguns representantes e simpatizantes da esfera religiosa182
.
A trama da peça se desenrola em torno da falta de crença de Dom Juan em questões espirituais e morais, mais especificamente na religião e na medicina. Dom Juan segue em peregrinação, de cidade em cidade, em busca de novos amores, acompanhado de seu criado Sganarelle. Eles fogem dos irmãos de uma moça que iria se dedicar à vida religiosa, mas que, depois de seduzida por Dom Juan, aceitou casar-se, contudo, após as núpcias foi abandonada. Dom Juan e Sganarelle se disfarçam de camponês e médico, respectivamente, a fim de despistarem os seus perseguidores. Sganarelle compra uma roupa velha de um médico ancião. Ele fica animado com o prestígio que as vestes lhe trazem e começa a consultar e prescrever depois fala a Dom Juan dos benefícios que a vestimenta lhe rendeu. Dom Juan diz a Sganarelle que ele pode continuar usando as vestimentas e tirar proveito dos benefícios e do prestígio, da mesma maneira que os médicos. Ele critica a medicina e os médicos da mesma forma que critica a religião e desrespeita seus dogmas. No fim da peça, Dom Juan vai ao cemitério e tendo Sganarelle como espectador encontra seu destino caindo em um buraco que o leve diretamente ao inferno.
L’amour médecin foi escrita por Molière e encenada em 1665, um mês após a nomeação de sua trupe como a Troupe Du Roi. Esta nomeação significava, naquela época, o privilégio de estar sob a proteção real, subsídios financeiros para as produções teatrais e uma espécie de salário para os membros integrantes da companhia de Molière. Em notas sobre a peça, na edição de 1892, Georges Monval (1845-1910)183 relata o contato que Molière teve
182
Cf. MOLIÈRE, 1971, tome I, p. XXXI
183 Biógrafo e colaborador da editora Flammarion comentando as peças de Molière quando a editora publicou as
com quatro médicos da corte, que trataram de Mazarino184, que estava doente. Os médicos propuseram quatro diagnósticos diferentes para a doença que acometia o primeiro ministro, sendo que nenhum deles concorreu para a elucidação da morbidade o que, por conseguinte, culminou com a morte do primeiro ministro de Luís IV, em 1661185.
Desde seu retorno a Paris em 1658, já contava seis anos que Molière concorria com a comédia italiana nos palcos de Paris. Para atender a um pedido direto de Luís XIV, e valendo- se de seu conhecimento da figura da personagem do dottore da Commedia dell’Arte, em apenas cinco dias, Molière apresentou ao rei a peça inspirada naquele fato, por este testemunhado.
L’amour médecin é uma peça comédie-ballet em três atos, isto é, uma peça com momentos de música e dança, nos intervalos entre os atos. As personagens são: Sganarelle, pai de Lucinda; Aminte, vizinha; Lucrèce, sobrinha de Sganarelle; M. Guillaume, vendedor de tapetes; M Josse, ourives; Lucinde, filha de Sganarelle; Lisette, criada de Lucinde; M. Tomés, M. Des Fonandrès, M. Macroton, M. Bahys, M. Filerin, médicos; Clitandre, enamorado de Lucinda; um tabelião186.
A cena se passa na casa de Sganarelle, em Paris. O primeiro ato se inicia com música composta por M. Lully e animado pelo corpo de baile187. Na primeira cena, Sganarelle lamenta com seus amigos a morte da esposa e relata uma crescente preocupação com relação à melancolia que assombrava os dias e as noites da única filha que lhe restou, solicitando conselhos para ajudar a combater a tristeza de Lucinde.
Moliéristes, pela Livraria Tresse et Cia entre 1879 e 1889, em Paris disponíveis em: http://gallica.bnf.fr/Search?ArianeWireIndex=index&p=1&lang=PT&q=Georges+Monval
184 Primeiro ministro da França de 1642 a 1661. 185Cf. MONVAL, 1892, p.IV.
186 Cf. MOLIÈRE. L’amour médecin. In: Œuvres complètes. Tome II. Paris: Édition Gallimard, 1956, p.13. 187 Cf. MOLIÈRE, 1956, p. 11.
M. Josse sugere, como terapia, presentear a jovem com jóias. M. Guillaume aconselha que coloque tapetes e cortinas novos no quarto, para alegrar o ânimo de sua filha. A vizinha propõe que Sganarelle lhe arrume um marido. A sobrinha, por sua vez, é contra o casamento, em virtude da delicadeza da constituição de Lucinde e do risco que seria ter bebês, sendo portadora de uma compleição fraca. Sganarelle agradece os conselhos, mas os acha tendenciosos, pois os amigos comerciantes querem fazer suas vendas aproveitando-se da doença de sua filha. No que se refere à opinião das mulheres, uma é solteirona, o que faz Sganarelle pensar que ela não quer concorrência, por isso desaconselha o casamento, e a outra é casada, e como mora perto, prefere não ter uma moça tão bela e solteira nas redondezas.
Sganarelle fica desesperado ao ver a filha definhar de tristeza sem querer lhe contar o porquê de tanto sofrimento. Ao encontrar Lucinde, que está tomando ar fresco, Sganarelle lhe indaga acerca de seu desejo de casar-se e consegue uma confirmação, mas o pai se nega a permitir que a filha contraia matrimônio. Na cena seguinte, Lisette pede para conversar com Lucinde a fim de descobrir a causa de tanta melancolia e, em uma discussão exaltada, Sganarelle chama a filha de ingrata por querer casar e abandoná-lo.
Lisette e Lucinde se aliam para mudar a opinião do pai sobre a proibição do casamento, pois Sganarelle teme ficar só depois da morte da esposa e não está disposto a entregar sua única filha em casamento. Então, as duas resolvem inventar uma mentira sobre uma possível doença que acometera Lucinda, devido à tristeza produzida pelas duras palavras de seu pai e que ela estaria tão adoecida que a acompanhante acredita que Lucinde não passará daquele dia.
Sganarelle, com medo de perder a sua única filha, pede que sejam chamados quatro médicos com o intuito de salvar Lucinde. Surpresa, a serva Lisette o questiona do porquê de tantos médicos.
Os quatro médicos examinam Lucinde e se reúnem para deliberar acerca do mal que a acomete. Ao invés de debaterem acerca do mal de Lucinde, os médicos começam a debater sobre os transportes que utilizam para ir de uma consulta a outra.
Ao final da reunião entre os médicos, Sganarelle chega e M. Tomés lhe indica a sangria imediata para curar o calor sanguíneo. M. Des Fonandrès diz que o mal de Lucinde provém de problemas nos humores que a levam a vomitar muito, ele lhe receita um medicamento para fazer cessar os vômitos. Eles ficam discutindo na frente de Sganarelle sobre o melhor tratamento, um asseverando que o tratamento apontado pelo outro vai levá-la à morte rapidamente, deixando Sganarelle angustiado.
Como os dois primeiros médicos, M. Tomés e M. Des Fonandrès, não chegaram a um acordo quanto ao tratamento, Sganarelle dirige a palavra aos outros dois médicos presentes, que se mostram preocupados em seguir os ensinamentos de Hipócrates. Apesar de parecerem mais ponderados, insistirem em uma análise mais criteriosa do caso, citarem Hipócrates e concordarem ambos com o diagnóstico, os dois médicos M. Macroton e M. Bahys não conseguiram ter êxito, visto que Lucinde, na verdade, estava inventando ter uma doença. Os médicos atribuíram o problema de Lucinde a uma doença que afetava o cérebro, mas que seria causada por problemas estomacais. Além de não desmascararem a filha de Sganarelle, os médicos propuseram-lhe tratamentos que iam desde lavagens estomacais até a sangria propriamente dita e que o tratamento poderia ser repetido se necessário. Esses últimos médicos advertem Sganarelle que a filha pode vir a falecer, contudo as regras da antiga arte de curar baseada em purgações e sangrias e em uma complicada fisiologia humoral estavam sendo respeitadas e que isso serviria de consolo. Manter uma tradição milenar e aceitar a morte era preferível a aceitar novas práticas curativas vigentes. Lisette consegue introduzir Léandre na casa de Sganarelle fingindo-se de médico. Lisette combina com Léandre que este diga a Sganarelle que a doença de Lucinde é uma fixação na ideia de casamento e a encenação
de um poderia solucionar esse mal. Sganarelle aceita, entretanto o casamento não é uma farsa e ao final da cerimônia Lisette, Lucinde e Léandre contam a verdade a Sganarelle que nada mais tem a fazer a não ser se conformar com o fato.
A peça intitulada Le médecin malgré lui foi representada pela primeira vez em 6 de agosto de 1666. A edição original foi impressa em 24 de dezembro de 1666 e a peça foi publicada no começo de 1667 pelo livreiro Ribou.188 De acordo com Monval (1892, p. IV), Le médecin malgré lui foi das peças de Molière uma das mais jocosas. Ela foi inspirada em uma fábula do século XIII chamada Médecin de Bray, oriunda da tradição oral189
, que conta o drama de uma jovem casada com um homem rico. Ela era espancada todos os dias, pois com isso seu marido esperava que pensamentos ruins não lhe tomassem a mente. Um dia alguns mensageiros do rei apareceram na região. Eles andavam àprocura de médicos, pois a princesa estava sofrendo com uma espinha de peixe presa na garganta. A jovem esposa teve a ideia de informar aos homens do rei que seu marido era um excelente médico, mas com um temperamento excêntrico. Ele só curaria a princesa se o espancassem. Diante das informações da jovem, os mensageiros levaram seu esposo para a corte e após a surra que ele levou, decide tentar resolver o problema da princesa. Após fazê-la rir muito, a espinha que estava presa soltou-se e a princesa ficou curada. Ao retornar a sua casa o médico à força nunca mais bateu em sua mulher190
.
Le médecin malgré lui de Molière apresenta um enredo similar ao da fábula acima mencionada, no qual a esposa Martine, queixa-se do marido Sganarelle, que além de não prover a família como deveria, entregando-se a jogos e bebidas, a espanca frequentemente. Ela arquiteta sua vingança, a fim de que o marido aprenda a lição. As personagens são: Sganarelle, marido de Martine; Martine, esposa de Sganarelle; M. Robert, vizinho de
188 Cf. MOLIÈRE, 1892 , p. V-VI. 189 Cf. MOLIÈRE, 1892 , p. I. 190 Cf. MOLIÈRE, 1892, p. II-IV.
Sganarelle; Valère, empregado de Géronte; Lucas, marido de Jacqueline; Géronte, pai de Lucinda; Jacqueline, esposa de Lucas; Lucinde, filha de Géronte; Léandre, namorado de Lucinde; Thibaut, camponês; Perrint, filho de Thibaut.
Martine encontra Lucas e Valère que estão à procura de um médico que consiga curar a filha de seu mestre e Martine vê, nessa situação, a possibilidade de colocar sua vingança em prática. Ela indica a taverna na qual Sganarelle se encontra bebendo e lhes conta que se trata de um médico excêntrico que só se confessa médico, após receber uns tapas. Os homens acham Sganarelle, seguem as instruções de Martine e ele acaba afirmando que é médico para por fim ao espancamento. Sganarelle é levado à residência de Géronte para curar Lucinde, sua filha, que finge estar sem voz para escapar de um casamento contra sua vontade, pois está apaixonada por Léandre.
Sganarelle começa por usar as vestes de médico, diz umas palavras em latim, pois passou alguns meses trabalhando como criado de um médico e habituou-se ao seu linguajar em latim. Ele começa a ser requisitado e pago como médico, percebendo que essa situação, apesar de forçada, pode ser bem vantajosa.
Le médecin malgré lui de Molière recebe sua formação através de uma surra, um contraste com o grande e suntuoso ritual promovido pela Faculdade de Medicina de Paris. Na farsa do dramaturgo, a toga e a menção a Hipócrates já são suficientes, para que um médico seja reconhecido pela sociedade. Sganarelle prescreve vinho e pão para Lucinde, pois afirma que o vinho é ótimo para soltar a língua da moça, que finge estar muda, e promete visitá-la pela parte da tarde. Léandre, que é enamorado de Lucinde, pede a Sganarelle que lhe ensine alguns termos médicos para passar por boticário e tentar se aproximar de sua amada. Sganarelle, comovido pelo ato de amor do rapaz, conta-lhe como se tornou médico e o ajuda a se aproximar de Lucinde.
A peça Monsieur de Pourceaugnac foi apresentada ao rei, em 1669, e publicada pela primeira vez com a autorização de Luís XIV em fevereiro de 1670. A comédia, em três atos, apresenta os estratagemas de Éraste e seu amigo Sbrigani, que é natural de Naples, para arruinar o casamento arranjado de M. de Pourceaugnac com Julie, filha de Oronte. Uma das artimanhas do plano era persuadir Oronte a pensar que seu futuro genro estava louco. Convencido por Éraste e Sbrigani que estava sendo levado a uma hospedaria, M. de Pourceaugnac chega ao local onde atendem um médico e um boticário.
O médico chama um confrade para juntos analisarem os supostos problemas de M. de Pourceaugnac. Depois de um discurso cheio de teorias galênicas acerca do estado de doença de M. de Pourceaugnac, eles chegam ao diagnóstico de melancolia hipocondríaca.
Advertidos por Sbrigani de que o doente estava noivo e o sogro não sabia sobre a doença do genro, o primeiro médico foi convencido a dissuadir Oronte da ideia de casar sua filha. Depois de espalharem boatos de que M. de Pourceaugnac era louco, devedor, violento, fora da lei, etc., Eraste, Sbrigani e Nerine pedem a Julie que finja devotar um amor extremo a M. de Pourceaugnac.
Diante da má fama que se espalhou a respeito do futuro genro, Oronte quebra o acordo de casamento por não querer que uma pessoa de tão má índole se junte a sua família. Julie finge não aceitar e diz que quer se casar de qualquer forma. Eraste se apresenta como pretendente afirmando para Oronte que desposará sua filha a fim de protegê-lo do casamento desvantajoso de Julie. Oronte aceita. Julie e Eraste comemoram as núpcias enquanto M. de Pourceaugnac foge para Limoges, sua terra natal.
Le malade imaginaire foi a última peça escrita por Molière. Foi apresentada ao rei Luís XIV pela primeira vez em 1673 e publicada depois da morte de Molière, em 1674. Argan, o doente imaginário, pai de Angélique não aceita que a filha se case com Cléonte, pois
acredita ser um homem muito doente e deseja que sua filha se case com um médico, a fim de conseguir uma atenção médica mais personalizada e barata. As práticas clínicas da época, o que é digno de ser curado e a missão do médico são questionados através das personagens: M. Purgon (médico de Argan), M. Diafoirus (médico) e seu filho recém-saído dos estudos médicos, Thomas Diafoirus (pretenso genro de Argan), bem como o boticário M. Fleurant, que aplica os clisteres e fornece os purgantes e laxantes para Argan. Molière utiliza as falas de Toinette, a empregada de Argan e do seu irmão Bérald, filósofo, para instigar o pensamento crítico nos espectadores. Dessa forma ele consegue mostrar sua insatisfação com a cultura curativa de sua época.
A primeira cena do Ato I é um monólogo no qual Molière já relaciona o tema da medicina e suas práticas terapêuticas para nome da peça. Nela Argan, Le malade imaginaire, faz uma contabilidade dos seus gastos com medicamentos e consultas médicas, comparando- os com os meses anteriores. No fim da cena Argan chega à conclusão de ter utilizado mais remédios e purgantes que no mês anterior e assume que este é o motivo por achar-se menos disposto.
Argan queria casar sua filha Angélique com o sobrinho do seu médico, M. Purgon, um jovem que tinha recém recebido suas licenças para atuar como médico, Thomas Diaforius,
que também tinha seu pai médico e o acompanhava nas consultas para formar clientela. M. Diaforius elogia as qualidades de seu filho a Argan, o que o deixa mais desejoso do acordo matrimonial entre o jovem médico e sua filha.
Toinette e Béralde revoltados com a insistência de Argan em tomar purgantes e laxantes, boicotam uma aplicação de clister que deveria ser realizada por M. Fleurant a pedido do médico M. Purgon. Este último, indignado pela falta de obediência despede Argan de seus
cuidados médicos e quebra a promessa de apoio familiar e financeiro que havia dado em favor do casamento de seu sobrinho e Angélique.
No decorrer da peça é Argan, que não permitia o casamento de Angélique com seu namorado; ao perceber o amor e a dedicação que a filha lhe conferia, permitiu que Cléante a
desposasse se fosse estudar medicina. Béralde propõe que o próprio Argan se faça médico. Ele instiga a vaidade de Argan elogiando seu conhecimento adquirido pelos tantos anos de tratamento com M. Purgon. E é convencido de que utilizando a toga de magistrado e portando a barba, o restante do conhecimento surgiria. Béralde engana-o dizendo que conhece uma Faculdade que poderá dar-lhe as licenças na própria residência. A peça finaliza com a falsa cerimônia de formatura de Argan como médico.
Das sete peças onde Molière utiliza a personagem do médico, cinco têm a presença de um farsante que consegue se passar por ele (Le Médecin volant, L’amour médecin, Le festin
de pierre, Le médecin malgré lui e Le malade imaginaire). Somente nas comédias La Jalousie