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A fórmula para o ciclo do capital-mercadoria é M’– D’– M ... P ... M’. Note-se que, nesse caso, o capitalista é típico proprietário de mercadorias, portanto, agente que se prepara para ir ao mercado. O empresário aparecerá como trivial sujeito de direito, como qualquer outro proprietário de mercadorias que, de posse de sua coisa, dispõe-se a levá-la à alienação.

O dinheiro funciona, inicialmente, como medida dos valores. O empresário mede o valor de suas mercadorias e fixa o preço a ser cobrado. Recebida a oferta do comprador, ambas as partes devem ajustar suas vontades de maneira que a alienação da mercadoria dê- se em troca de dinheiro. O ajuste de vontades é o contrato, desenvolvido legalmente ou não. Pactuadas as vontades e fixado os termos do acordo, a titularidade da mercadoria é transferida e o dinheiro recebido. O cristal monetário funciona, nesse caso, como meio de compra.

Se o empresário vende a mercadoria para o trabalhador, então ela tem como destino o consumo pessoal. Trata-se do contrato de consumo e consequentemente do direito do consumidor. O dinheiro que proveio do trabalhador é o encerramento do ciclo M–D–M que se iniciou no momento em que este vendeu sua força de trabalho ao

167 capitalista. Se o empresário vende sua mercadoria a outro capitalista, então ela deve ingressar como matéria-prima no processo produtivo de outra empresa. Tem-se contrato empresarial e consequente direito empresarial269.

Considerado de forma isolada ou autônoma, o ciclo do capital-mercadoria, na medida em que tem em seus extremos valores de uso, aparece como simples metamorfose de mercadorias. A descrição de seu movimento, se tomada de forma desconexa com relação ao todo e abstraído o momento da produção, pode ser reconduzido à descrição que Marx efetuou no início do Livro Primeiro.

O problema é que, ali, o autor descrevia a produção simples de mercadorias como forma de aparecimento do sistema capitalista; aqui, no Livro Segundo, descreve a produção capitalista de mercadorias, depois de já apresentada sua essência. Tomada a última pela primeira, afasta-se o caráter específico e, portanto, histórico do modo de produção capitalista:

“Na figura III – explica Marx –, as mercadorias que se encontram no mercado constituem o pressuposto permanente do processo de produção e de reprodução. Portanto, caso se fixe essa figura, todos os elementos do processo de produção parecem provir da circulação de mercadorias e só consistirem em mercadorias. Essa concepção unilateral ignora os elementos do processo de produção

independentes dos elementos mercantis (...) M’...M’ está na base do Tableau Économique de Quesnay, o qual mostra seu grande e certeiro tato ao ter escolhido, em antítese a D’...D’ (a forma isoladamente fixada do sistema mercantilista), esta forma e não P ... P”270.

Justamente por isso, deve-se tomar sempre a teoria de Pachukanis cum grano salis. Na medida em que o autor relaciona acertadamente a forma do direito à forma da mercadoria e fixa a relação jurídica como a relação dos produtores de mercadorias entre si, corre-se o risco de “ignorar os elementos do processo de produção independentes dos elementos mercantis”. A produção, como vimos, é o elemento principal para Marx e constitui a base do organismo social. É o fundamento epistemológico porque, antes, é o fundamento ontológico. Nesse sentido, Pachukanis afirma:

“O sujeito jurídico é, por conseguinte, um proprietário de mercadorias abstrato e transposto para as nuvens. A sua vontade, juridicamente falando, tem o seu fundamento real no desejo de alienar, na aquisição, e de adquirir, na alienação. Para que tal desejo se realize, é indispensável que haja

269 É possível, finalmente, que o capitalista venda a mercadoria a outro que a utilizará para consumo pessoal. Nesse caso, o dinheiro do último não funciona como dinheiro-capital, mas como simples renda pessoal. 270 MARX, Karl. O capital II, p.73; Das Kapital II, p.103. Grifo meu.

168 mútuo acordo entre os desejos dos proprietários de mercadorias. Juridicamente esta relação aparece como contrato, ou como acordo, entre vontades independentes. Eis por que o contrato é um conceito central do direito, pois ele representa um elemento constitutivo de ideia de direito (...) Independentemente do contrato, os conceitos de sujeito e de vontade em sentido jurídico existem somente como abstrações mortas. É unicamente no contrato que tais conceitos se movem autenticamente. Simultaneamente, a forma jurídica, na sua forma mais simples e mais pura, recebe também no ato de troca um fundamento material. Por conseguinte, é para o ato de troca que

convergem os momentos essenciais tanto da economia política como do direito”271.

É claro que não se quer aqui afirmar que Pachukanis ignora os elementos da produção independentes dos elementos mercantis. Sem dúvida nenhuma, contudo, sua apresentação põe em relevo os aspectos mercantis do modo de produção capitalista. De maneira idêntica, os momentos essenciais da economia política clássica dirigiram-se para o ato da troca. Marx, por sua vez, fez a crítica da economia política na medida em que dirige os momentos essenciais de seu pensamento para o ato da produção. Ora, a crítica marxista do direito deve percorrer o mesmo caminho.

Como explicar a relação entre capitalista e trabalhador sem analisar o processo de produção do capital?272 A partir desta análise, como afirmar que tal relação é essencialmente jurídica se empresário e assalariado não trocam equivalentes? É claro que Pachukanis está correto ao associar a forma do direito à forma da mercadoria e desenvolver sua teoria a partir daí. É a crítica marxista posterior que não deve permanecer apenas na análise da circulação. O pleno sentido da forma jurídica, sua determinação mais concreta e precisa, apenas pode ser obtida se a circulação de mercadorias é dissolvida como momento da circulação do capital, e esta, por sua vez, como momento da produção do capital. Afinal, como afirma Marx:

“O primeiro tratamento teórico do modo de produção moderno – o sistema mercantilista – partiu necessariamente dos fenômenos superficiais do processo de circulação, como eles estão autonomizados no movimento do capital comercial, e por isso captou apenas a aparência (...) A

271 PACHUKANIS, E. B. Teoria geral do direito e marxismo. Op. cit., p.79; Allgemeine Rechtslehre und

Marxismus. Op. cit., p.121. Grifo meu.

272“Na relação entre capitalista e trabalhador assalariado, a relação monetária, a relação entre comprador e vendedor, torna-se uma relação imanente à própria produção. Essa relação repousa, porém, por sua base, no

caráter social da produção, não no modo de intercâmbio; pelo contrário, este é que se origina daquele. Isso

corresponde, além do mais, ao horizonte burguês, no qual o fazer negócios ocupa a cabeça inteira, sem ver no caráter do modo de produção o fundamento do modo de intercâmbio que lhe corresponde, mas o inverso”. MARX, Karl. O capital II, p.86; Das Kapital II, p.120. Grifo meu.

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verdadeira ciência da economia moderna só começa onde o exame teórico passa do processo de circulação para o processo de produção”273.