Alves (1991, p. 60) explica que:
Pesquisas qualitativas tipicamente geram um enorme volume de dados que precisam ser organizados e compreendidos. Isto se faz através de um processo continuado em que se procura identificar dimensões, categorias, tendências, padrões, relações, desvendando-lhes o significado. Este é um processo complexo, não-linear, que implica um trabalho de redução, organização e interpretação dos dados, e que se inicia já na fase exploratória, acompanhando toda a investigação em uma relação interativa com os dados empíricos: à medida que os dados vão sendo coletados, o pesquisador vai procurando tentativamente identificar temas e relações, construindo interpretações e gerando novas questões e/ou aperfeiçoando as anteriores, o que, por sua vez, o leva a buscar novos dados, complementares ou mais específicos, que testem suas interpretações, num processo de “sintonia fina” que vai até a análise final.
Laville e Dionne (1999, p. 197) lembram que:
[...] a análise e interpretação não são imediatamente possíveis. Os dados que o pesquisador tem em mão são, de momentos, apenas materiais brutos: respostas assinaladas em um formulário, frases registradas no gravador, notas trazidas por uma observação participativa, série de mapas antigos, fotocópias de artigos publicados por tal jornal ou coleções de jornais tratando de um tema particular [...] Esses dados precisam ser preparados para se tornarem utilizáveis na construção dos saberes. O pesquisador deve organizá-los, podendo descrevê-los, transcrevê-los, ordená-los, codificá-los, agrupá-los em categorias [...] Somente então ele poderá proceder às análises e interpretações que o levarão às suas conclusões.
Assim sendo, para o exame das temáticas extraídas do material coletado, através do questionário e das entrevistas, optei por utilizar a Técnica de Análise de Conteúdo apresentada por Bardin (1994). Tal análise integra um conjunto de técnicas que possibilitam, através de procedimentos sistemáticos de descrição do conteúdo, a realização de inferências acerca da produção e/ou da recepção de determinada mensagem. Essa técnica pressupõe a observação de três fases: a pré- análise; a exploração do material; e o tratamento dos resultados, inferência e interpretação.
Na fase de pré-análise, fiz o que Bardin (1994) denomina como sendo “leitura flutuante”, ou seja, uma leitura geral, estabelecendo o primeiro contato com o conteúdo dos questionários e das entrevistas realizadas, buscando identificar e
organizar as categorias de análise.
Bogdan e Biklen (1994, p. 221), sobre a categorização dos dados, destacam que:
À medida que vai lendo os dados, repetem-se ou destacam-se certas palavras, frases, padrões de comportamento, formas dos sujeitos pensarem e acontecimentos. O desenvolvimento de um sistema de codificação envolve vários passos: percorre os dados na procura de regularidades e padrões, bem como tópicos presente nos dados e, em seguida, escreve palavras e frases que representam estes mesmos tópicos e padrões. Estas palavras ou frases são categorias de codificação. As categorias constituem um meio de classificar os dados descritivos que recolheu (os símbolos segundo os quais organizaria os brinquedos), de forma a que o material contido num determinado tópico possa ser fisicamente apartado dos outros dados. Algumas das categorias de codificação surgir-lhe-ão à medida que for recolhendo os dados. Deve anotar estas categorias para as utilizar mais tarde.
Ao selecionar e escolher as categorias, tive presente as regras apontadas por Bardin (1994):
a) exclusão: mútua: um único princípio de classificação orientará a organização das categorias;
b) pertinência: categorizar somente os elementos consoantes com o estudo proposto;
c) objetividade: e fidedignidade: as categorias serão submetidas à igual processo de codificação, independente das análises a serem realizadas; d) produtividade: classificar somente os elementos potencialmente
significativos.
Na fase de exploração do material, procedi ao estabelecimento das unidades de registro e à definição das categorias. A categorização, conforme explica Franco (2005, p. 57), “[...] é uma operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação seguida de um reagrupamento baseado em analogias, a partir de critérios definidos”.
Optei por utilizar como unidade de registro categorias temáticas, sendo elas consideradas por Bardin (1988) como as mais adequadas para o tipo de estudo proposto.
Franco (2005, p. 39) reafirma essa ideia, destacando que essa unidade de registro é a mais indicada para ser utilizada em estudos que envolvam “[...] representações sociais, opiniões, expectativas, valores, conceitos, atitudes e crenças”.
Dessa forma, as categorias elencadas foram:Trajetórias de formação; Inserção na docência/opção pela docência; Características que deve ter um professor para lecionar no Bacharelado; Dificuldades encontradas no exercício da docência; Influência da formação inicial e continuada para o exercício da docência e significado da docência.
No tratamento dos resultados, inferência e interpretação, submeti as categorias temáticas a operações de decomposição de cada conteúdo identificado nos questionários e nas entrevistas. Franco (2005, p. 26) enfatiza a importância dessa última fase dentro da Técnica de Análise de Conteúdo, explicando que
Se a descrição (a enumeração das características de um texto) é a primeira etapa necessária e, se a interpretação (a significação concedida a essas características) é a última fase, a inferência é o procedimento intermediário que vai permitir a passagem, explícita e controlada, da descrição à interpretação.
A partir das temáticas captadas na análise do material, procedi à interpretação dos dados, procurando não perder a visão de conjunto, considerando elementos contextuais relevantes e identificando possíveis lacunas, contradições ou avanços. Utilizei como balizadores de análise os referenciais teóricos norteadores do estudo. Por fim, apresento na figura 1 a síntese dos procedimentos metodológicos que nortearam o estudo e que foram explicitados no decorrer deste capítulo.
Figura 1 - Síntese da abordagem metodológica
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ESTUDO DE CASO
PARTE I PARTE II
Análise documental (Dispositivos legais) Questionário (professores) Entrevista semiestruturada (oito professores) ANÁLISE DE CONTEÚDO Pré-análise Exploração do Material
Tratamento dos resultados e interpretações - Sistematização dos resultados
- Interpretação/Inferência
- Considerações finais e proposições Fonte: Elaborado pela autora, 2010.
Dando continuidade ao trabalho, o próximo capítulo, que compõe este relatório, é o denominado Análise dos Dados.
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS
Neste capítulo, apresento os dados coletados em cada uma das etapas do estudo. Conforme já referido no capítulo anterior, recorro à Técnica de Análise de Conteúdo proposta por Bardin (1988) para a categorização dos dados coletados. Dessa forma, a seção 4.1 tem como foco a análise e a discussão dos dados coletados na primeira etapa e a seção 4.2 os dados coletados na segunda etapa.