KARİYER SORUNLAR
KADINA YÖNELİK CİNSİYET AYRIMCILIĞ
3.1. Türkiye’de Toplumsal Cinsiyet Eşitsizliğ
3.1.2. Türkiye’de Toplumsal Cinsiyete İlişkin Temel Veriler ve Mevcut Durum
Como percebemos, a prática dos bordados passou por algumas fases em sua trajetória, como por exemplo, da expansão do bordado da esfera familiar para, também, a esfera econômica. Os bordados ganharam forte conotação e visibilidade diante do público consumidor. De acordo com alguns consumidores ouvidos, “os bordados de Caicó”, assim como são conhecidos, são sinônimos de “qualidade” e de “bom gosto”. Em sua maioria, afirmam que os bordados mais bonitos do Brasil são feitos pelas bordadeiras de Caicó. Os consumidores desses bordados não sabem o nome da bordadeira em particular que o bordou38, porém, sabem que o bordado é de Caicó e, por sê-lo, é merecedor de elogios e sinônimo de qualidade. Aqui, o bordado leva e expande o nome do município por onde ele passa e por onde está sendo comercializado, divulgando, desse modo, a cultura caicoense.
A abordagem referente à relação entre cultura e consumo proposta por Mary Douglas e Baron Isherwood investigam os complexos significados do consumo dentro de uma lógica cultural (e não utilitarista). Trazendo para o contexto das bordadeiras podemos pensar a questão que é estabelecida com o bordado enquanto objeto que só adquire significado a partir das relações sociais que estão sendo tecidas em sua volta. Como por exemplo, desde a valorização do papel social da bordadeira como outrora era concebida à valorização do bordado como produto que carrega símbolos indentitários de uma cultura, de um local. Evidenciamos, assim, o modo como os bens estabelecem e mantém relações sociais dentro de uma lógica onde o consumo de produtos e serviços é público, atuando na esfera coletiva e, existindo por ser culturalmente compartilhado em uma realidade socialmente construída.
Dentro dessa perspectiva proposta por Douglas, podemos pensar os bordados como materiais mediadores, uma vez que, o consumo deve ser tratado dentro de um processo ritual, estabelecido na relação entre as pessoas. Por ser mediador, ele tanto pode incluir quanto pode excluir dentro dessas relações estabelecidas, uma vez que, seus usos são sociais. Nas palavras dos autores:
O consumo é algo ativo e constante em nosso cotidiano e nele desempenha um papel central como estruturador de valores que constroem identidades, regulam relações sociais, definem mapas culturais. (...) Os bens são investidos de valores socialmente utilizados para expressar categorias e
38 No círculo das bordadeiras caicoenses, existem códigos que são reconhecidos e faz com que haja diferença de
uma bordadeira para outra, são traços específicos, motivos florais, estilos de bordado, que irão caracterizar uma bordadeira de outra, inclusive, definir o que faz um bordado ser considerado “bonito/bom” ou “feio/ruim” por outras bordadeiras.
princípios, cultivar ideias, fixar e sustentar estilos de vida, enfrentar mudanças ou criar permanências (DOUGLAS; ISHERWOOD, 2006, p. 08).
Nesse sentido, as escolhas dos indivíduos exprimem e geram cultura e, ainda, o consumo aparece como elemento de grande importância tanto ideológica quanto prática no contexto estudado. É importante destacar que os significados estão em constante processo de mudanças, pois são processuais e o consumo é um processo ativo em que todas as categorias sociais estão sendo continuamente redefinidas.
Dentro da perspectiva da teoria do consumo, na relação estabelecida entre consumo e cultura, Douglas contempla três premissas básicas, a primeira refere-se ao consumo como um sistema de significação uma vez que supre a necessidade simbólica; segundo, consumo como código, uma vez que, traduz muitas de nossas relações sociais e nos permite classificar coisas e pessoas, produtos e serviços, indivíduos e grupos; e por último, defende que a cultura de massa é uma instância onde se transmite os códigos à sociedade, por exemplo, a mídia (DOUGLAS; ISHERWOOD, 2006).
As bordadeiras de Caicó atendem a um público que consome mais do que os bordados propriamente ditos, eles consomem também a cultura e a identidade que vêm agregadas ao produto. Nesse ponto, os bordados aparecem enquanto “propriedade” e a partir de uma reflexividade de sua cultura, as bordadeiras estão reinventando e comercializando sua prática cultural. Para desenvolver essa questão recorremos aos estudos teóricos de Jean e John Comaroff acerca da etnicidade. Os autores, baseados em uma vasta pesquisa etnográfica, documental e bibliográfica levantaram algumas reflexões acerca da comodificação cultural e da incorporação da identidade. Entende-se por comodificação da cultura a entrada na esfera do mercado de certos elementos, como por exemplo, as práticas tradicionais de um determinado grupo, os símbolos identitários, rituais, religiosidade, etc. Já a incorporação da identidade é entendida como processo pelo qual a identidade passa a ser reivindicada pelos grupos étnicos com base nos regimes de propriedade intelectual (COMAROFF, 2009).
Tendo como eixos teóricos as discussões que giram em torno da identidade, da subjetividade e tendo por base os conceitos acima levantados pelos os Comaroff, daria para pensar o bordado como uma prática que carrega consigo elementos relacionados à memória, ao trabalho feminino, à história e à cultura do lugar. O bordado é tomado como marca distintiva com valor agregado, pois as pessoas lhes atribuem significado e seu comércio excede a mera compra e venda; nesse processo de comodificação os bordados passam a ser “marcas identitárias” das bordadeiras e da cultura caicoense. Há um cenário em que
bordadeiras, intermediários e representantes de instituições podem operar com a afirmação de autenticidade em nome de fins econômicos, políticos e culturais.
3 DE “BORDADO DE CAICÓ” PARA “BORDADO DO SERIDÓ”
As bordadeiras movidas pelo intuito de atribuir o selo de Indicação Geográfica aos bordados de Caicó, vivenciam um momento em que estão inseridas em uma complexidade de relações que envolve, além das próprias bordadeiras, outros atores sociais como os intermediários, os empresários e os representantes das instituições mediadoras, como o CRACAS, a COBARTS e o SEBRAE. A partir da instituição do selo de Indicação Geográfica iremos observar como um bem material, o bordado de Caicó, transforma-se em “Bordado do Seridó”, nome atribuído formalmente ao selo para designar não apenas os bordados produzidos no município de Caicó, mas também nos municípios circunvizinhos39.
Nesse capítulo observa-se o que é o selo de Indicação Geográfica e como esse processo está sendo realizado em Caicó com os bordados. Do mesmo modo serão mostrados seus desdobramentos que envolvem posicionamentos e discursos distintos. Acerca do processo de instituição do selo de IG acompanhei duas reuniões, uma realizada em novembro de 2012, na qual foi proposta a alteração do estatuto do CRACAS, inserindo a regulamentação específica para a IG e adaptando o selo ao novo contexto. A segunda reunião, em junho de 2013, quando representantes do CRACAS e SEBRAE expuseram a proposta do selo para as bordadeiras da cidade.