A incursão sobre a legislação deste Programa nos permite afirmar que ele
foi regulamentado sob o argumento de desempenhar uma ação global capaz de
abranger as esferas educacionais, políticas, sociais e de proporcionar a integração
familar.
De acordo com os implementadores do Bolsa Escola, ele integraria a
política de inclusão que estava sendo desenvolvida pela Prefeitura Municipal de
Belo Horizonte, ao complementar a renda familar e assegurar às crianças em
idade escolar, a permanência e inserção na escola.
O desenvolvimento deste Programa pressupunha que a situação de
desamparo em que se encontrava uma parcela significativa da infância brasileira
demandava uma atuação eficaz da sociedade, ressaltando também que a
Educação, garantida legalmente como direito social, estava se revelando uma
situação contraditória na prática, tornando-se realizável apenas para uma parte de
nossa sociedade.
Diante de tais pressupostos, acreditava-se que as condições precárias e de
carência sócio-econômica agudas, vivenciadas por grande parte das famílias
situadas nos centros urbanos contribuiria para “produzir e reproduzir situações de
exclusão social, de violação dos direitos de cidadania e de cisão da função familar
de educar e proteger os filhos” (PMBH, 1997, p. 05)
18. Essa situação seria a
causadora de sérias conseqüências, tais como o agravamento do quadro social
através da elevação do índice de criminalidade, violência, pobreza; repercutindo
sobre a estrutura familar e prejudicando a todos, inclusive às crianças.
Esses argumentos acima descritos compunham os eixos norteadores que
sustentavam a implantação do Programa Executivo Bolsa Escola, pois segundo
seus implementadores era imprescindível, o desenvolvimento de políticas
emancipatórias e democratizadoras capazes de viabilizar os direitos sociais
garantidos legalmente.
A atuação do Programa se caracterizaria por uma ação preventiva contra a
exclusão que as crianças em idade escolar vinham sofrendo em relação ao
sistema educativo. Assim, uma das prioridades seria atender aos direitos
constitucionais relativos à alfabetização das crianças e adolescentes do município
constituindo-se, assim, o primeiro objetivo deste Programa, que seria “garantir a
admissão e permanência na escola pública às crianças de 7 a 14 anos, cujas
famílias estejam em situação sócio-familar ou as próprias crianças estejam em
situação de risco” (DOM/BH, 1997, p. 01).
Tinha-se então:
a visão da escola como um espaço de socialização, de trocas de experiências e de vivências culturais diversas, permeia os ideais do programa, que se propõe a valorizar a escola em busca da formação de qualidade, capaz de despertar nos indivíduos uma nova cidadania e de torná-los inseridos no processo de integração social (Relatório do PEBE, 1999, p. 13).
Desta forma o Programa apresentava uma proposta de atuação:
tanto na externalidade da escola - apoiando as famílias através da transferência de renda e do acompanhamento sócio-educativo – quanto na sua internalidade - por meio da construção, na escola, de espaços de vivência plural e diversificada, com base no respeito às diferenças – consolidando uma política emancipatória de resgate da cidadania e transformação das relações sociais de subalternidade (Relatório do PEBE, 1999, p. 13).
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Os implementadores do Programa ressaltam a legislação brasileira de
proteção à infância e à adolescência e assim, reconhecem a família como a
instituição primeira e essencial às crianças e jovens. Sob esta perspectiva a
implementação do Programa, propunha uma ação em prol da construção de
melhores condições para as famílias, visando garantir à “infância pobre e
desprotegida” a realização do seu direito à Educação.
Assim, o Programa Executivo Bolsa Escola propunha uma atuação
educativa através da articulação com a Escola Plural
19, que traz uma nova
concepção do processo educativo, onde se considera a escola como um espaço
de vivência cultural múltipla em que atuam sujeitos socioculturais e históricos. A
ampla atuação do PEBE, conforme exposto no Relatório deste Programa em
1998, se realizaria pelo empreendimento na construção de uma política
emancipatória, capaz de resgatar a cidadania e transformar as relações sociais de
desigualdade vigentes em nossa sociedade, iniciando-se pelas cobranças dos
direitos adquiridos e também pela focalização da miséria, considerada a negação
de todo direito.
Embora ressaltem o reconhecimento e a importância em articular-se com a
Escola Plural, o que se evidencia na efetivação do Programa Bolsa Escola é que
essa articulação é fragilizada, mesmo tendo instalado o Programa no âmbito da
Secretaria Municipal de Educação.
Borges (2003) afirma que:
a articulação insuficiente do Programa com as outras estruturas da Secretaria Municipal de Educação, como a Coordenação de Política Pedagógica, o Centro de Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação e algumas Gerências Regionais de Educação – é um problema que existe desde o início da sua implantação. A criação de uma grande estrutura para a sua execução – ainda que pequena para atender às suas demandas – a diversidade de problemas com os quais as equipes se deparam cotidianamente e a necessidade de encontrar respostas rápidas para resolvê-los, talvez tenham sido fatores que contribuíram para essa desarticulação (p. 79).
19 Escola Plural é o nome dado a proposta política pedagógica implantada no Município de Belo Horizonte em